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quinta-feira, 21 de julho de 2022

As conquistas militares, o desenvolvimento do comércio e a vaidade das damas romanas

As conquistas militares de Roma abriram as portas para o comércio em larga escala. A produção dos mais variados lugares afluía à capital do Império. Embarcações que cruzavam o Mediterrâneo se encarregavam de trazer enorme variedade de mercadorias, sem desconsiderar o transporte terrestre, também muito praticado. Mesmo regiões que estavam fora do alcance das armas de Roma acabavam, de algum modo, se relacionando com o Império através do comércio. Floro (¹), um contemporâneo do imperador Adriano, escreveu, no livro IV de Epitome rerum Romanarum, que indianos, em uma viagem até Roma, teriam levado quatro anos. Sua chegada provocou certo alvoroço, pelo interesse no que traziam: pérolas e elefantes (²).
Dama romana não identificada (³)
Em Roma, os tecidos finos, especialmente as sedas do Oriente, eram muito apreciados. Mulheres romanas amavam tecidos coloridos, porque era desse modo que seus trajes se diferenciavam daqueles usados pelos homens. É evidente, também, que tecidos de qualidade eram um fator que dispensava as palavras para esclarecer quem eram as grandes damas da elite econômica. O mundo não mudou tanto assim desde então. Além disso
, mulheres romanas de alta posição social usavam muitas joias, se comparadas à média das mulheres ocidentais na atualidade, mesmo se levarmos em conta apenas o padrão para ocasiões especiais.
De onde vinha tanta riqueza? As conquistas militares explicam parte desse fenômeno, porque foram decisivas para abrir, até pela força, em certos casos, rotas comerciais que possibilitavam o afluxo de artigos de luxo para a grande capital da época. Acrescente-se que era a capacidade militar de Roma que assegurava, em última análise, a paz que permitia a prática do comércio, e ter-se-á um quadro, simplificado, é fato, mas suficiente para o entendimento da relação existente entre as grandes conquistas militares, o desenvolvimento e manutenção de rotas de comércio e a vaidade das damas romanas (⁴). São capazes, leitores, de estabelecer alguma analogia com a atualidade? 

(1) Aneu Floro viveu entre os Séculos I e II.
(2) Cf. FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum, Livro IV.
(3) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 237. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Principalmente nos Séculos I e II, sem exclusão de outras épocas. 


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Como o luxo chegou aos romanos

Historiadores da Antiguidade foram enfáticos em afirmar que os habitantes de Roma, nos primórdios da cidade, prezavam, como virtudes impagáveis, a sobriedade, a frugalidade e o hábito de economizar. 
Que dizer? Eles não podiam, mesmo, ser muito diferentes disso. A primitiva aldeia de pastores e agricultores era pobre demais para cultivar gente dada ao luxo.
Porém, com o passar do tempo, vieram as conquistas militares e, com elas, duas coisas aconteceram:
a) Os romanos passaram a copiar alguns costumes estrangeiros que pareciam úteis, ainda que viessem de inimigos que haviam derrotado;
b) O enriquecimento proporcionado pelas conquistas militares abriu caminho para que hábitos de luxo se infiltrassem na sociedade romana.
Tito Lívio, em Ab urbe condita libri, assinala a entrada do luxo na época em que os romanos, sob o comando de Lúcio Cornélio Cipião (¹), também conhecido como "Asiático", derrotaram as forças comandadas por Antíoco III na Batalha de Magnésia (190 a.C.):
"Quando L. Cornélio Cipião voltou a Roma, celebrou-se um notável triunfo e concedeu-se-lhe o apelido de Asiático: seu exército é que começou a introduzir o luxo estrangeiro em Roma." (²)
Ora, meus leitores, o que estava em jogo na Batalha de Magnésia, vencida pelos romanos, era o domínio sobre a Grécia. Podem, portanto, imaginar o botim de guerra em tal ocasião!
Desde o tempo da guerra contra Siracusa (³) os romanos vinham admirando a arte grega. Marco Cláudio Marcelo, o cônsul que comandou a vitória, depois de saquear a cidade derrotada, levou a Roma uma quantidade enorme de obras de arte, que foram consagradas aos deuses, em seus respectivos templos. Segundo Tito Lívio, foi assim que "as obras de arte gregas começaram a ser admiradas em Roma" (⁴).
Mas, acreditem, não foram apenas as grandes obras de arte produzidas por gênios da cultura grega que ganharam a afeição dos romanos. Coisas aparentemente corriqueiras do dia a dia também conquistaram o coração dos outrora sisudos moradores da Península Itálica, cujo principal alimento era uma espécie de mingau de aveia. Conquistaram o coração, sim, mas inclua-se nisso também o estômago: a comida da Grécia, em particular a arte da panificação, enfeitiçou Roma, a tal ponto que se afirma que, nos dias do imperador Augusto, chegou a haver na cidade nada menos que trezentas e vinte e nove padarias públicas. 
O jeito romano de fazer as coisas, porém, veio a manifestar-se nesta questão.  Para exercer controle e evitar que cada um fizesse o pão como bem entendesse, havia um funcionário público cujo trabalho era fiscalizar continuamente se todos os estabelecimentos de panificação cumpriam seus deveres conforme estipulado, em quantidade e qualidade, quer fazendo o alimento que se vendia para distribuição aos escravos, quer fabricando finíssimos pães, com ingredientes sofisticados, que só frequentavam a mesa dos ricos.

(1) Irmão de Públio Cornélio Cipião, apelidado "O Africano".
(2) Tito Lívio, Ab urbe condita libri
(3) 212 a.C.
(4) Tito Lívio, Op. cit.
As citações de Ab urbe condita libri que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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