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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sobre a ditadura na Roma Antiga

Se podemos crer no que escreveu Dion Cássio (¹), a ditadura foi inventada em Roma (que pensar dessa ideia?...) em uma ocasião em que, na iminência de uma guerra contra os latinos, a multidão de plebeus, que era maioria no exército, demonstrava a máxima preguiça em pegar em armas, a menos que suas dívidas fossem devidamente perdoadas (²). A questão das dívidas foi, em tempos da República em Roma, um motor de conflitos entre patrícios e plebeus, ainda que não tenha sido o único. 
Como obrigar essa gente insatisfeita a lutar?
Ainda que odiassem a monarquia, os romanos decidiram criar um novo cargo, o de ditador, com poderes, até certo ponto, semelhantes aos dos monarcas na Antiguidade. A pessoa para isso escolhida tinha autoridade quase ilimitada e podia, inclusive, condenar à morte qualquer desobediente, fosse na cidade ou em campos de batalha. Suas decisões eram inapeláveis e nem mesmo os membros do Senado estavam isentos de prestar-lhe obediência. Restrições? Sim, havia: estava proibido de montar cavalo, a não ser que fosse para ir à guerra (cavalos eram armas poderosas naquele tempo) e somente lhe era permitido fazer gastos públicos que fossem votados e aprovados.
Com tanto poder, um homem talvez chegasse a se considerar rei. Para impedir tamanho pecado, o mandato de um ditador não deveria ir além de seis meses. Era, supunha-se, a garantia contra aventuras monárquicas. Houve, contudo, um sujeito que, em meio a tantas estripulias políticas e militares, ousou aceitar o título de "ditador vitalício". Sim, foi Júlio César, e vocês, leitores, apaixonados por História, sabem muito bem o que, afinal, aconteceu a ele. Nessa ocasião, porém, a República já desfalecia.

(1) Viveu entre o segundo e terceiro século d.C.
(2) História Romana, Livro IV.

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quinta-feira, 21 de julho de 2022

As conquistas militares, o desenvolvimento do comércio e a vaidade das damas romanas

As conquistas militares de Roma abriram as portas para o comércio em larga escala. A produção dos mais variados lugares afluía à capital do Império. Embarcações que cruzavam o Mediterrâneo se encarregavam de trazer enorme variedade de mercadorias, sem desconsiderar o transporte terrestre, também muito praticado. Mesmo regiões que estavam fora do alcance das armas de Roma acabavam, de algum modo, se relacionando com o Império através do comércio. Floro (¹), um contemporâneo do imperador Adriano, escreveu, no livro IV de Epitome rerum Romanarum, que indianos, em uma viagem até Roma, teriam levado quatro anos. Sua chegada provocou certo alvoroço, pelo interesse no que traziam: pérolas e elefantes (²).
Dama romana não identificada (³)
Em Roma, os tecidos finos, especialmente as sedas do Oriente, eram muito apreciados. Mulheres romanas amavam tecidos coloridos, porque era desse modo que seus trajes se diferenciavam daqueles usados pelos homens. É evidente, também, que tecidos de qualidade eram um fator que dispensava as palavras para esclarecer quem eram as grandes damas da elite econômica. O mundo não mudou tanto assim desde então. Além disso
, mulheres romanas de alta posição social usavam muitas joias, se comparadas à média das mulheres ocidentais na atualidade, mesmo se levarmos em conta apenas o padrão para ocasiões especiais.
De onde vinha tanta riqueza? As conquistas militares explicam parte desse fenômeno, porque foram decisivas para abrir, até pela força, em certos casos, rotas comerciais que possibilitavam o afluxo de artigos de luxo para a grande capital da época. Acrescente-se que era a capacidade militar de Roma que assegurava, em última análise, a paz que permitia a prática do comércio, e ter-se-á um quadro, simplificado, é fato, mas suficiente para o entendimento da relação existente entre as grandes conquistas militares, o desenvolvimento e manutenção de rotas de comércio e a vaidade das damas romanas (⁴). São capazes, leitores, de estabelecer alguma analogia com a atualidade? 

(1) Aneu Floro viveu entre os Séculos I e II.
(2) Cf. FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum, Livro IV.
(3) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 237. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Principalmente nos Séculos I e II, sem exclusão de outras épocas. 


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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Era ou não era o navio de Teseu?

É questão espinhosa e, de acordo com Plutarco (¹), muito debatida na Antiguidade: era ou não era o navio de Teseu? 
Devo explicar. A tradição grega afirmava que, em tempos remotos, os atenienses, depois de uma derrota na guerra, haviam se obrigado a enviar a Creta, como tributo, a cada nove anos, sete rapazes e sete moças, que, lançados no infame Labirinto, seriam devorados pelo Minotauro. Cumpriu-se o acordo algumas vezes, até que o jovem Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, fazendo-se incluir entre os infelizes sorteados para a morte, foi a Cnossos, matou o Minotauro e, com o auxílio de uma estratégia criada por Ariadne, filha de Minos, rei de Creta, conseguiu escapar, retornando vitorioso a Atenas. É coisa lendária, já se vê, ainda que alguns tenham tentado explicar que haveria nisso um fundo de verdade: os jovens atenienses seriam escravizados em Creta, ficando o Minotauro por conta da imaginação. 
Em Vitae parallelae, Plutarco, que se apoiava na tradição oral e em autores cujos escritos, em sua maioria, não chegaram até nós, afirmou que os atenienses, agradecidos aos deuses, trataram de preservar para a posteridade a embarcação de trinta remos que fora usada por Teseu para ir a Creta e de lá retornar. O navio ficou, portanto, ancorado no porto, sem mais ser usado. Ocorre que, pela ação do tempo, uma parte ou outra ia, às vezes, se deteriorando, e era substituída por peça idêntica. Entra aí a questão referida por Plutarco: "O navio foi consertado tantas vezes, que filósofos de várias escolas de pensamento, em seus debates, citavam o caso como exemplo, defendendo alguns que o navio [apesar de tantos consertos] continuava a ser o mesmo que fora a Creta, enquanto outros alegavam que, já não restando nele partes originais, era agora uma nova embarcação." (²)
Ora, leitores, vamos transpor essa história para alguma coisa mais próxima de nós. Suponham que uma das embarcações da frota de Cabral, aquela do descobrimento oficial do Brasil em 1500, houvesse sobrevivido e estivesse ancorada, como relíquia, em um porto, no Brasil ou em Portugal, tanto faz. Com o tempo, para mantê-la viva, as peças danificadas pela maldade dos anos seriam substituídas por outras, mais novas, conservando-se, portanto, a forma, mas não a matéria-prima original. Quinhentos anos depois, pouca coisa restaria sem ser renovada. Seria, ainda assim, o navio da frota cabralina?
Para mais debate, pergunto: nós, quando adultos, somos ainda os mesmos de nossa infância e adolescência? Se sim, ou se não, em que sentido? Não acham, então, que, ainda hoje, o debate dos filósofos da Antiguidade tem lá sua razão de ser?

(1) c. 45 - c. 125.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelaeO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Raios, Augusto!

A invenção do para-raios, poupando, em consequência, muitas vidas, somente aconteceu no Século XVIII, quando os deuses romanos, com seus raios fulminantes, eram, há muito, coisa do passado. Os que viveram antes disso tinham, portanto, ainda mais motivos para temer as tempestades, que aqueles que vivem hoje.
César Augusto pode ter sido valente na luta contra Marco Antônio, e foi, sem dúvida, um político habilidoso ao tratar com as sensibilidades do Senado romano. Se não foi perfeito - ninguém é - soube, ao menos, conduzir Roma para tempos de alguma ordem, depois das turbulências dos triunviratos. Mas, quanto a Augusto, há mais uma certeza: tinha medo de raios, e levava a sério os cuidados para que os deuses mantivessem bem longe essas poderosas descargas elétricas que enchem a atmosfera terrestre de luz. Bem, é claro que Augusto não sabia que os raios eram isso. Apenas tinha medo deles e cria que vinham dos deuses durante crises de mau humor.
No Livro II de De vita Caesarum, Suetônio contou que, sob instrução dos arúspices, Augusto fez construir um templo no monte Palatino em honra de Febo/Apolo. A alegação dos adivinhos profissionais de Roma é que o deus mandara um raio àquele lugar para indicar que era ali que desejava ser invocado. Brilhante conclusão!
Há mais: o próprio Augusto, em certa ocasião, escapou por muito pouco de ser atingido por um raio. O imperador fazia uma viagem noturna, carregado em uma liteira, quando, durante uma tempestade, um raio caiu muito perto dele. Agradecido por sobreviver incólume, fez consagrar um templo em honra de Júpiter Tonante. Um detalhe, também lembrado por Suetônio, não deve passar despercebido: o escravo que ia à frente da liteira de Augusto, carregando uma lanterna para iluminar o caminho, não teve a sorte do imperador. Foi ele a vítima do raio, e morreu na mesma hora.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Félix: liberto, governador da Judeia, cruel, corrupto

Em Roma, ex-escravos eram chamados "libertos", ainda que o mesmo nome fosse dado, eventualmente, a filhos de ex-escravos. Libertos podiam se tornar muito ricos, e alguns até atingiram postos importantes no governo. Foi o caso de Félix, um liberto do imperador Cláudio.
Assim, somos conduzidos a um aspecto significativo da escravidão em Roma, onde cativos não eram, necessariamente, pessoas destituídas de instrução, entregues sempre a trabalhos brutais. Sim, isso também acontecia, mas havia exceções e elas não eram raras. Ao contrário: gregos derrotados em combate se tornaram, mesmo escravizados, mestres dos meninos romanos, fazendo com que a língua e cultura gregas viessem a ser atributos muito valorizados entre a elite senatorial. Calcule-se, portanto, a influência que exerceram. Muitos deles foram, depois de algum tempo, libertados, mas, em Roma, um liberto tinha ainda certas obrigações para com seu antigo proprietário.
Isto posto, voltemos a falar de Félix, o liberto de Cláudio. No dizer de Suetônio (¹), o imperador tinha tanta afeição a ele, que lhe concedeu autoridade sobre unidades militares e, como se fora pouco, fez dele o governador da Judeia. Tácito, por sua vez, chegou a dizer que Félix, nesse posto, "entendia poder fazer, impunemente, qualquer malefício" (²). Mas por que alguém iria querer deixar Roma para assumir o mando em uma província distante?
Pode-se falar em pilhagem, extorsão, malversação de fundos - para as províncias exploradas não havia muita diferença prática - o fato é que a possibilidade de enriquecimento tornava atraente o cargo de governador, a despeito do desconforto causado pelo deslocamento e pela necessidade de sufocar revoltas entre a população pouco ou nada satisfeita com o domínio de Roma. Félix, o liberto de Cláudio, foi apenas mais um dentre os muitos corruptos que exerceram algum cargo no governo de províncias do Império.

(1) De vita Caesarum, Livro V.
(2) Annales, Livro XII.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Por que Júlio César foi assassinado

Júlio César (⁴)
Dia 15 de março de 44 a.C., os "idos de março", para os antigos romanos. Nesse dia, por volta das onze da manhã (¹), Júlio César foi assassinado. Fora avisado pelos áugures de que havia grave ameaça sobre ele, mas, supersticioso como era, ainda assim desprezou a advertência e, ao se apresentar para um compromisso público, foi morto com múltiplas punhaladas. Eram mais de sessenta os conspiradores (²). Por quê?
De acordo com De vita Caesarum, de Suetônio, o pretexto formal é que havia quem pretendesse dar a César o título de rei, sob o argumento de que nos livros sibilinos haveria uma profecia segundo a qual Roma somente conquistaria a Pártia se fosse governada por um rei. Ora, o povo romano tinha a mais ferrenha aversão à monarquia, desde que o último dos sete reis, Tarquínio, chamado "o soberbo" fora deposto. Mas, com profecias sibilinas ou sem elas, é fato que César flertava com a monarquia, ainda que afirmasse jamais aceitar uma coroa. Seu comportamento, àquela altura, mais parecia o de um rei que de um governante republicano. Não era, já, ditador vitalício?
O apoio popular, que Júlio César tão zelosamente cultivara, era instável. A plebe estava sempre ao seu lado, "sempre" significando, aqui, quando fazia distribuições de víveres e de dinheiro (³). Quanto ao patriciado, irritara-se com a decisão de César de introduzir gauleses no Senado. O ditador tinha, pois, inimigos à direita e à esquerda.
Seriam essas explicações suficientes para um assassinato público? Sêneca, que viveu no século seguinte - era filósofo estoico e foi professor de Nero - interpretou a morte de César sob outro olhar: "O divino Júlio", disse ele, "foi morto com a participação antes de amigos que de inimigos, por não ter concretizado suas pretensões ilimitadas" (⁵). Suas palavras sugerem uma reflexão útil aos poderosos de todos os tempos.

(1) À hora quinta. A correspondência com o sistema atual de vinte e quatro horas varia um pouco, de acordo com a época do ano.
(2) Suetônio, em De vita Caesarum, apontou Caio Cássio, Marco e Décimo Bruto como os líderes do complô.
(3) Sim, leitores, isso acontecia.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 156. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) SÊNECA. De iraO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Saturnália

O mês de dezembro era época de grandes festas em Roma, dentre as quais se destacava a Saturnália, porque nela, em honra do deus Saturno, os romanos se viam livres de muitas regras e convenções sociais. Embora tenha existido alguma variação quanto à data de início e à duração, essa festa começava geralmente no dia 17, prolongando-se por três dias, ao menos - muitos celebravam-na por toda uma semana. Diversões proibidas no restante do ano eram toleradas, a moralidade pública se afrouxava e grandes banquetes, com troca de presentes, eram realizados.
Não se deve esquecer que, apesar de tudo, a Saturnália era festa religiosa, com sacrifícios em honra de Saturno, pontualmente oferecidos. Afirmando-se, também, que o derramamento de sangue era agradável ao deus, faziam-se grandes espetáculos de gladiadores. O trabalho era posto de lado, a plebe delirava. Tentativas de encurtar os festejos nunca foram recebidas com satisfação.
César Augusto, que governou Roma entre 27 a.C. e 14 d.C., via em cada Saturnália a oportunidade perfeita para deslumbrar os romanos com os presentes que oferecia: moedas raras e antigas, vestuário de luxo, objetos de ouro e prata, conforme afirma Suetônio em De vita Caesarum. Mas, como a festa continha um lado burlesco, o imperador se divertia, presenteando, também, objetos de pouco valor, e até ridículos.
Afinal, a Saturnália acabava, e tudo voltava ao normal. A hierarquia social era restabelecida sem traumas, os escravos continuavam escravos, a elite desfrutava, como sempre, de muitos privilégios. Assim era Roma.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Animais na arena dos anfiteatros romanos

O cinema conseguiu imprimir no imaginário popular uma noção de suntuosidade em relação aos espetáculos realizados nos anfiteatros romanos. A verdade, porém, é que, ao lado do luxo e da ostentação, os espetáculos eram exibições do que poderia haver de pior na humanidade. 
O lugar em que ocorriam os combates era chamado arena, e não por acaso. É que arena, no latim, significa simplesmente areia, e era isso que se espalhava sobre o piso, entre um espetáculo e outro, para cobrir o sangue que fora derramado durante as lutas precedentes, sangue de homens e de animais, muitos animais.
Testemunhos dessas carnificinas não faltam, na palavra dos próprios romanos. Um deles, Plínio, o Velho, afirmou no Livro VIII de Naturalis historia"O primeiro elefante foi visto a lutar no circo [...] no ano 655 (¹) da fundação de Roma, e a primeira luta de um elefante contra touros aconteceu vinte anos mais tarde [...]. (²)" O mesmo Plínio mencionou, também no Livro VIII, exibições de luta simultânea entre leões, cem deles quando Sila, mais tarde ditador, exercia o cargo de pretor, seiscentos, sob as ordens de Pompeu, e quatrocentos, quando César era ditador. Vê-se que a ênfase parece estar na quantidade, mas é simplesmente impossível saber se esses números correspondem ao que, de fato, acontecia, ou se há algum exagero, ainda que não intencional. 
Posteriormente, quando o Coliseu foi inaugurado (³), as festividades  duraram nada menos que cem dias, e afirma-se que cerca de cinco mil animais selvagens foram mortos na arena, quer em lutas entre si, quer em combates contra gladiadores. Que diversão era essa, que fazia correr o sangue dos inocentes animais, além, é claro, de tantos homens compelidos a lutar entre si e contra as feras?
Estranho como possa parecer, era ideia corrente que esses espetáculos que incluíam a morte de tantos animais resultavam em benefício às terras de onde provinham, que ficavam despovoadas de feras ameaçadoras. Talvez, hoje, pouco ou nada saibamos, por experiência, da ameaça dos animais selvagens, mas também é evidente que a noção de equilíbrio ecológico, envolvendo todas as espécies de um dado ambiente, era pouco considerada na Antiguidade. Contudo, se a banalização da morte de homens e animais na arena dos anfiteatros tinha como fim entreter a população e canalizar a violência dos insatisfeitos para longe dos governantes, a quantidade de imperadores assassinados talvez seja uma evidência de que, neste caso, o efeito talvez fosse exatamente o contrário do desejado. 

(1) 99 a.C.
(2) O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 80 d.C.


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Extravagâncias nos triunfos de César

Caio Júlio César - sim, o do Primeiro Triunvirato - teve não um, nem dois, nem três e nem quatro, mas cinco triunfos, com pequenos intervalos. Quatro deles foram celebrados em 46 a.C., e o quinto, no ano seguinte, 45 a.C.
Ora, meus leitores, se o número de triunfos é exagerado, mostra, certamente, que, a despeito de todos os inimigos que angariou ao longo da vida, César foi um grande líder militar, ao menos sob o ponto de vista dos romanos. Os inimigos derrotados em combate talvez não tivessem dele uma ideia muito favorável. No entanto, o que mais impressiona são alguns detalhes desses triunfos, que conhecemos através da obra de Suetônio (¹), De vita Caesarum. Vejam só:
  • No triunfo em comemoração à vitória sobre os gauleses, César subiu ao Capitólio em companhia de nada menos que quarenta elefantes, tudo isso à luz de tochas (²); 
  • No triunfo em comemoração à vitória no Ponto (³), uma placa trazia as palavras "Veni, vidi, vici", que, de acordo com Suetônio, tinham por objetivo retratar a velocidade com que a guerra, um grande sucesso, fora feita;
  • Os triunfos foram também ocasião para prodigalidades, e quem é que poderia fugir à suspeita de que, com elas, César pretendia, literalmente, comprar o favor popular? Seus soldados das legiões veteranas receberam, cada um, vinte e cinco mil sestércios, além de terras para cultivo; quanto ao povo em geral, recebeu donativos em dinheiro, trigo e azeite, além da participação em um banquete público;
  • Houve ainda grande variedade de espetáculos, tais como lutas de gladiadores, peças teatrais, espetáculos de circo, uma batalha naval simulada e competições esportivas, e isso em vários pontos da cidade de Roma, para que todos os que quisessem assistir, tivessem oportunidade;
  • Com tanta fartura de comida e diversão, a cidade ficou abarrotada de gente, chegando a haver acampamentos nas ruas, feitos por aqueles que vinham de longe para participar dos festejos. Sucede, porém, que a Roma desse tempo tinha ruas diminutas para tanto movimento. A consequência, trágica para alguns, é que, com as multidões que se aglomeravam, houve gente que foi pisoteada e asfixiada. Entre os mortos, contaram-se até dois senadores.
Suetônio viveu muito tempo depois desses acontecimentos, e é possível que seu relato contenha algum exagero, devido à idealização dos "tempos de César", que romanos do Século II talvez fizessem. Contudo, de seu registro, depreende-se um fato inquestionável: a grandeza dos triunfos era um retrato da importância que os romanos atribuíam às conquistas militares, enquanto a prática de pão e circo, como política e como estilo de vida, ganhava força, para glória e desgraça do Império que, em poucos anos, iria se firmar.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) Não havia lâmpadas de LED naquele tempo...
(3) Ponto era o nome dado na Antiguidade à região na costa sul do mar Negro.


terça-feira, 22 de outubro de 2019

Por que os gregos da Antiguidade viviam bem, mesmo morando em um território pobre

Estrabão era grego. Viu a independência grega ruir, sob a imposição do domínio romano. De família rica, viajou, estudou e escreveu. Habituou-se ao modo de vida dos romanos e, talvez, até tenha apreciado estar entre eles. Mas nunca se esqueceu de que era um grego e, como tal, via muitas virtudes em sua gente. Talvez interiormente lamentasse o fim da hegemonia grega no Mediterrâneo. Há alguma evidência disso? É o que veremos.
Escrevendo em sua Geografia sobre os diferentes tipos de relevo e clima - era comum, na Antiguidade, atribuir às condições geográficas as características e mesmo o sucesso ou fracasso de um povo, naquilo a que chamamos "determinismo geográfico" - Estrabão notou, com respeito aos gregos:
"Observe os gregos, que habitam uma região de montanhas e pedras: eles viviam muito bem, porque se proviam de bom governo, artes e do necessário para a vida." (¹)
É possível que, aos gregos da Antiguidade, haja faltado, a despeito de todas as suas realizações políticas, uma conquista decisiva: não foram capazes de estabelecer uma unidade nacional, forte e permanente. A aliança momentânea entre cidades-Estado, forçada muitas vezes pela necessidade de resistir a invasores estrangeiros, não perdurava em tempos de paz, acometida que era por interesses locais ou regionais. Curiosamente, essa tendência grega à fragmentação política tem sido explicada, por tradição, em termos de determinismo geográfico, porque o território grego, tão acidentado, dificultava as comunicações internas e favorecia o isolamento das cidades. Por outro lado, o litoral, com seus portos, era um convite quase onipresente às navegações e à riqueza que o comércio marítimo podia trazer.
Não obstante, leitores, a hegemonia grega foi breve (²), e a romana, muito mais longa, também passou. Haverá alguma que dure para sempre?

(1) ESTRABÃO. Geografia, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Seu estilo de vida, contudo, tem atraído muita gente ao longo dos séculos.


terça-feira, 15 de outubro de 2019

Os muros da Babilônia

"A Terra compõe-se de reinos, os reinos compõem-se de cidades, as cidades compõem-se de casas e campos, e principalmente de homens, e tudo isto, que tudo é terra (e toda a Terra) perpetuamente está passando. Daniel revelando a Nabucodonosor a inteligência da sua estátua, disse que Deus muda os tempos, e as idades, e conforme elas passa os reinos de uma parte para outra: Ipse mutat tempora, et aetates: transfert regna, atque constituit. Assim passou o reino do mesmo Nabuco para a Pérsia, o dos persas para a Grécia, o dos gregos para Roma, e dos romanos para tantos outros, quantos hoje coroam outras cabeças, as quais se devem lembrar daquela infalível sentença: Regnum a gente in gentem transfertur propter injustitias."
Padre Antônio Vieira, Sermão da Primeira Dominga do Advento, 1655

Os antigos habitantes da Babilônia eram apaixonados por tudo quanto fosse monumental. Seus templos, palácios, mesmo a muralha que cercava a capital de seu império, tudo parecia construído para a habitação de gigantes. Embora a megalomania não fosse escassa entre povos da Antiguidade (¹), é preciso reconhecer que monarcas babilônios tinham predileção por ela.
Muitas cidades antigas tinham muralhas (²), e o material mais geralmente empregado em sua edificação eram as pedras, sempre que elas estivessem disponíveis. Em Babilônia, porém, as muralhas foram construídas com uma espécie de tijolos. Se pudermos dar crédito ao que disse Heródoto no Livro Primeiro de suas Histórias (³), os tijolos (⁴), uma vez modelados, eram postos em fornos, para que, devidamente queimados, tivessem maior resistência. Para ligar os tijolos entre si, à medida que eram empilhados para formar a muralha, os mesopotâmios empregaram o que o mesmo Heródoto descreveu como betume quente. 
Ninguém deve imaginar que, por não ser feita de pedra, a muralha da Babilônia fosse pouco resistente. Não era de modo algum uma edificação frágil, que viesse abaixo ao soprar do primeiro vento. Ainda de acordo com Heródoto, a muralha era larga o suficiente para que, sobre ela, um carro de guerra ou uma carroça com seus animais de tração pudessem transitar sem qualquer dificuldade. Além disso, à semelhança de outras cidades importantes da Antiguidade, Babilônia era dotada de uma muralha composta (⁵), ou seja, havia mais de um muro para protegê-la, dificultando o ataque de inimigos que intentassem o cerco. Era, portanto, improvável que fosse derrotada pelos métodos convencionais de sítio. Por essa razão, Ciro, o persa, e seus comandados, precisaram desenvolver uma estratégia, tão brilhante quanto trabalhosa, para conquistar a cidade, que foi tomada em 539 a.C.

(1) Considerem-se, como exemplo, as construções do Egito Antigo.
(2) Para proteção em caso de guerra.
(3) Algumas afirmações de Heródoto podem ser reputadas como lendárias. Neste caso, porém, temos as descobertas arqueológicas para confirmação de que seu relato, ainda que muito simples, foi, em essência, verdadeiro.
(4) De acordo com Austen Henry Layard (Nineveh and Babylon / London: John Murray, 1882, p. 288), os babilônios chegaram ao requinte de empregar tijolos coloridos, predominando o azul, o vermelho, o amarelo, o branco e o preto. Pode-se imaginar a impressão que isso fazia, em meio à paisagem da Mesopotâmia.
(5) Plínio, o Velho, que viveu no Século I d.C., referiu-se à magnífica muralha de Babilônia em Naturalis historia, Livro VI, dizendo que, em seus dias, quase nada mais restava da antiga cidade.



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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um prodígio vegetal que abalou Roma

De acordo com Tito Lívio (¹), historiador romano da Antiguidade, os pontífices tinham, em Roma, as atribuições de zelar pela conservação dos templos e pela realização de sacrifícios aos deuses, aplacar a alma dos defuntos (para que não andassem perturbando os vivos) e fazer expiação quando ocorressem prodígios (²). Deve-se presumir, por conseguinte, que estiveram muito ocupados em 59 d.C., diante de um suposto prodígio que parecia sinalizar, literalmente, um abalo das raízes de Roma. Tácito registrou no Livro XIII dos Annales:
"Neste ano a árvore Ruminal, que existia no lugar dos comícios e que há oitocentos e quarenta anos protegera a infância de Rômulo e Remo, depois que seus ramos secaram, começou também a secar no tronco, fato que se considerou prodígio desfavorável, até que reviveu com novos brotos." (³)
Vamos falar sério, leitores: é improvável que a árvore em questão fosse a mesma dos dias de Rômulo e Remo, isto é, admitindo-se que esses ilustres senhores tenham, de fato, existido, e não sejam apenas figuras lendárias. Uma árvore após outra talvez tenha ocupado o lugar da mitológica árvore sagrada, mas, quando se quer acreditar ou, quando em benefício da estabilidade do poder, é conveniente acreditar, afirma-se, e pronto: assim é que ficou sendo a árvore da infância de Rômulo e Remo. Supersticiosíssimos, os romanos devem ter imaginado que Roma estava por um fio (ou por uma folha, um galho, um tronco, uma raiz). Brotando a árvore, Roma estava salva.

(1) 59 a.C. - 17 d.C.
(2) Cf. Ab urbe condita libri.
(3) c. 47 d.C. 120 d.C.


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terça-feira, 17 de setembro de 2019

O culto ao Sol na Antiguidade


Se há um elemento recorrente nas crenças religiosas de muitos povos da Antiguidade, esse é, sem dúvida, a existência de alguma espécie de culto ao Sol. É certo, porém, que cada povo atribuía a seu deus-sol as características que mais valorizava. Exemplificando: em uma inscrição assíria encontrada em um templo em Nimrud, a divindade é descrita como "o deus-sol, devastador e desolador". Para quem conhece a fama dos assírios, não é preciso dar explicações.
Na teocracia egípcia, faraós apreciavam ser descritos como filhos de Ra, ainda que, eventualmente, a megalomania levasse os governantes a se declararem a própria encarnação da divindade... Além disso, recebiam culto como se, de fato, fossem deuses. Entre os povos da Mesopotâmia, Shamash, invocado também sob outras designações, foi reconhecido como deus-sol desde tempos remotos, algo próximo de 4000 a.C. Já veem os leitores que, se quisermos fazer uma lista de deuses identificados com o Sol, não faltará assunto, ainda que acabe a paciência para tantos nomes.
Plínio, o Velho (¹), o notável enciclopedista romano, tentou explicar assim a divinização do Sol: 
"Considerando tudo o que ele afeta, devemos crer que o Sol é a própria alma, ou, com mais exatidão, a mente do universo, a máxima divindade que governa a natureza. Ele provê o universo com luz e desfaz as trevas, ele escurece e ilumina as estrelas em seu repouso, ele comanda a marcha das estações segundo o costume da natureza e seu contínuo renascer a cada ano (²), ele desfaz a tristeza e tranquiliza as nuvens de tempestade que se formam na mente humana, sua luz alcança as demais estrelas [...]." (³)
É fato que no Século I os deuses já não desfrutavam do prestígio que tinham nos centênios precedentes, sendo possível, contudo, que Plínio quisesse contemporizar (⁴), não dando margem a alguma acusação de desrespeito para com a religião do Estado. Pelo que se infere de seus escritos, Plínio via a natureza como a grande e única divindade. Chama a atenção, porém, que ele assinalasse, corretamente, o efeito da luz solar sobre o humor dos seres vivos. Por conveniência ou desconhecimento, razão e superstição foram forçadas ao convívio. Não parece, sob esse aspecto, que a humanidade tenha mudado tanto nos dois últimos milênios.

(1) 23 d.C. - 79 d.C.
(2) Com a chegada da primavera.
(3) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis historia Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Fazendo, ao que parece, uma alusão ao Sol Invictus, divindade cultuada pelos soldados romanos.


terça-feira, 10 de setembro de 2019

Desfiles triunfais não foram exclusividade dos romanos

É certo que em Roma os triunfos, festejos comemorativos das grandes conquistas militares, atingiram o máximo nível de organização na Antiguidade, regidos por leis que determinavam quando um general vitorioso e suas tropas podiam ser homenageados com esse tipo de desfile; mas a prática de voltar da guerra carregando o espólio ou parte dele, em procissão da qual participavam o rei, os comandantes militares, sacerdotes e soldados foi usual entre muitos outros povos. 
Uma vez que se compreenda que, na mentalidade antiga, as guerras, travadas aparentemente entre os homens, eram interpretadas como um combate entre deuses, não será difícil deduzir o significado dos desfiles nos quais as estátuas de divindades derrotadas eram parte essencial. Inimigos capturados vivos eram também componentes rotineiros dessas procissões, ao final das quais eram, às vezes, executados. Consta que Otávio teria ficado grandemente decepcionado com o suicídio de Cleópatra, porque queria tê-la como um troféu especial para exibir em seu triunfo.
As duas imagens seguintes retratam relevos assírios, mostrando um monarca aclamado em triunfo após uma grande vitória. Para os assírios, a guerra era uma atividade econômica essencial: a pilhagem da riqueza dos povos conquistados significava prosperidade para os vitoriosos.

Rei assírio ao voltar de uma batalha (1)

Relevo assírio (2) retratando uma procissão triunfal de Senaquerib (3)

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editda para facilitar a visualização neste blog.
(3) Reinou na Assíria entre 705 a.C.  e c. 680 a.C.


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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Governantes e líderes militares da Antiguidade deveriam saber geografia

Quem vivia na Antiguidade podia gostar de geografia - ou não. Se você fosse um indivíduo comum, quem sabe um agricultor ou artesão, talvez tivesse curiosidade por ouvir falar de outros lugares, com seus rios e montanhas, vales ou desertos, além da gente que lá vivia, com seus costumes diferentes ou mesmo um pouco semelhantes aos seus. Pessoas com mais instrução possivelmente teriam certo interesse científico pela geografia.
Havia, no entanto, quem deveria, obrigatoriamente, pensar na geografia pela utilidade prática que oferecia. Esses, de acordo com Estrabão (¹), eram os que ocupavam posições de liderança, quer como governantes, quer como comandantes militares. "A geografia interessa", disse Estrabão, "àqueles que lideram, pela descrição que faz de terras e mares, não só dentro como fora do mundo habitado" (²).
O ponto de vista de Estrabão fazia sentido: quem exercia o governo deveria conhecer bem o território sobre o qual dominava, para tomar decisões acertadas em favor da prosperidade de seus súditos, bem como em relação à defesa, em caso de uma invasão estrangeira. Mais que isso, conhecer algo do território dos vizinhos oferecia uma vantagem significativa em caso de guerra, possibilitando o uso de tropas adequadas ao terreno, além de permitir expectativas realistas quanto à subsistência dos soldados ao longo de uma campanha militar. Estrabão lembraria, ainda, que o conhecimento de geografia podia ser importante para a caça, que, para alguns povos, estava muitas vezes associada à preparação para a guerra. De certo modo, uma coisa conduzia à outra.

(1) Viveu entre c. 64 a.C. e 24 d.C. Grego de nascimento, passou muito tempo no mundo romano. Infelizmente, muitas de suas obras se perderam.
(2) ESTRABÃO. Geografia, Livro I. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

A punição dos ladrões, de acordo com o Código de Hamurabi

Leis da Antiguidade não eram, como regra, muito complacentes com ladrões. O Código de Hamurabi, compilado no Século XVIII a.C., não se distinguiu pela moderação nas penalidades atribuídas aos culpados pelos diversos crimes, e também neste caso estipulava punições que, supunha-se, deviam refrear o ímpeto dos famosos "amigos do alheio".
Se capturados, os ladrões contemporâneos de Hamurabi não tinham vida fácil. Melhor dizendo, com muita probabilidade passavam a não ter vida alguma:
  • Ladrão que roubasse alguma coisa pertencente a um templo ou palácio (que atrevimento!), seria executado, sendo a pena extensiva ao receptador daquilo que fora roubado;
  • Era admissível, em alguns casos, que o ladrão fizesse a devolução do que roubara, sendo acrescentada uma multa equivalente a até trinta vezes o produto do roubo (na hipótese, por exemplo, de haver roubado ovelhas, porcos, asnos, cabras, etc., etc., etc.), mas se o gatuno não tivesse como pagar, seria executado;
  • O roubo de crianças (possivelmente para a venda no mercado de escravos), era sempre punido com a morte do culpado.
Infelizmente, não temos como saber se a severidade das penas era eficaz para inibir a ação dos ladrões. O simples fato de que o Código especificasse alguns tipos de roubo, citando os de animais, principalmente, talvez seja indício de que a súbita "desaparição" desses bens não era fenômeno sobremodo ocasional.


terça-feira, 23 de julho de 2019

Apolo e Jacinto

Jacinto (Hyacinthus orientalis)
É mais uma lenda da antiga Grécia, que explica, não sem um toque de triste lirismo, a origem do jacinto (*). Apolo, filho de Zeus e deus-sol dos gregos, tinha um amigo humano, um pastor de ovelhas, cujo nome era Jacinto. Os dois jovens gostavam de compartilhar entretenimentos, um dos quais consistia no arremesso de discos de chumbo. 
Certo dia, enquanto praticavam esse esporte reconhecidamente perigoso, um disco lançado por Apolo atingiu Jacinto na cabeça, fazendo-o ir ao chão. Em desespero, o deus notou que havia sangue a escorrer da fronte do amigo, que, em pouco tempo, morreu. Do sangue de Jacinto, dizia a tradição helênica, nasceu uma flor, à qual Apolo, choroso, atribuiu o nome do amigo que acabara de perder.
Essa lenda, em sua simplicidade, é bastante reveladora quanto àquilo que os antigos gregos criam, em relação às felizes divindades do Olimpo. Primeiro, nem mesmo os deuses, a quem supunham imortais, escapavam ao fatalismo, ao destino imutável, que os gregos entendiam pautar a existência dos homens. Além disso, ainda que poderosos, os deuses estavam longe da onipotência: o desastrado Apolo que, sem qualquer intenção perversa, matara o amigo Jacinto, não foi capaz de trazê-lo de volta à vida. Finalmente, ao explicar a origem de árvores, flores, e uma infinidade de outras coisas por meio de episódios relacionados aos deuses, os gregos não estavam só fazendo poesia. Essas eram suas crenças religiosas. A nós, que buscamos e encontramos na ciência a explicação para os fenômenos naturais, é que suas lendas, umas alegres e até cômicas, outras dolorosamente trágicas, soam poéticas. Exceto pela imortalidade que caracterizava os habitantes do Olimpo, deuses e homens eram muito parecidos. 

(*) Há alguns questionamentos quanto à verdadeira flor que a lenda evoca, mas o Hyacinthus orientalis não é, ao menos no aspecto, incompatível, ainda que, em sua forma atual, talvez não seja exatamente a espécie que os antigos gregos conheciam.    


terça-feira, 9 de julho de 2019

Por que os bons cidadãos romanos deveriam querer governar

Marco Túlio Cícero (²)
Poderia parecer confortável, tentador mesmo, para um romano abastado e instruído, gastar os dias em sua propriedade agrícola, longe das agitações de Roma. Nobremente ocupado em alguma atividade intelectual amena, somente ergueria os olhos dos papiros e pergaminhos para certificar-se de que a famulagem estava bastante ocupada. Assim entretido, não correria o risco de perder a cabeça, literalmente, por ser envolvido, com justiça ou não, em alguma agitação política.
Perfeito? Não para Marco Túlio Cícero. Em De re publica (¹), apresentou razões que deveriam conduzir os bons cidadãos romanos ao envolvimento pessoal no governo da República. São elas:

a) O dever cívico de servir no governo da pátria
"A pátria nos gerou e educou, não para que atendêssemos a nossos interesses, [...], mas para que em seu proveito empregássemos o que há de melhor em nossa alma, gênio e razão, ficando para nosso uso particular o que sobrar do que a ela se destina." (³)

b) Assumindo o governo, os bons não teriam de se submeter ao governo dos maus
"[...] como se aos bons, fortes e de grande capacidade houvesse causa mais justa para desejar o comando da República que o desejo de fugir à obrigação de se submeter ao governo dos maus [...]."

c) Governar tornaria os homens semelhantes aos deuses
"Nada torna o homem mais semelhante aos deuses que fundar cidades (⁴) e conservar as existentes."

Quanta modéstia! Cícero, porém, acabaria experimentando o lado venenoso de atuar no governo de Roma, mas não viveu para contar: perseguido por se opor a Marco Antônio, foi executado em 43 a.C.

(1) O ano 51 a.C. é apontado como a data provável em que Cícero escreveu De re publica.
(2) HEKLER, Anton, Die Bildniskunst der Griechen und Römer, Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 159.
(3) Os trechos citados de De re publica, todos do Livro I, foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Cícero provavelmente se referia à fundação de cidades-Estado.


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terça-feira, 2 de julho de 2019

O que se entendia por "mundo habitado" na Antiguidade

A expressão "mundo habitado" foi usada por vários autores da Antiguidade, mas, se não for devidamente compreendida por leitores de hoje, pode levar a ideias distorcidas. 
O melhor, portanto, é deixar que fale Estrabão (¹), que escreveu amplamente sobre os conhecimentos geográficos dos gregos e romanos de seus dias. "Chamamos mundo habitado", afirmou ele, "àquele que habitamos e conhecemos" (²). Fica evidente, portanto, que, com o uso dessa expressão, não havia nenhum propósito de abarcar a Terra em sua totalidade, cuja forma, aliás, ainda era alvo de discussões, embora as pesquisas de Eratóstenes já fossem amplamente conhecidas, inclusive pelo próprio Estrabão, que, em sua Geografia, fez referência a elas. 
Estrabão achava que o "mundo habitado" era "cercado pelo mar, tal qual uma ilha" (³), e que fora dele podia haver outras áreas habitadas, mas não por homens como os greco-romanos e outros povos de áreas próximas. Esse ponto de vista tinha como pressuposto a ideia de que a humanidade somente poderia viver em regiões temperadas, e, admitindo que houvesse na Terra outras áreas (⁴), apenas seres que, na aparência, fossem diferentes dos humanos conhecidos é que poderiam nelas viver. Ficava, assim, aberta a porta para a imaginação.

(1) c. 63 a.C. - 24 d.C. 
(2) ESTRABÃO, Geografia, Livro I.
(3) Ibid., Livro II. Os trechos da Geografia de Estrabão citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Estrabão considerava a existência de uma "zona tórrida" e tinha conhecimento de uma "região ártica", além da "região temperada", na qual vivia. 


terça-feira, 28 de maio de 2019

Um templo na ilha de Tera em honra de Poseidon

A erupção vulcânica que arrasou a ilha de Tera (¹), no mar Egeu, foi acontecimento notável na Antiguidade, provocando debates até hoje. A fúria do vulcão, conforme disse Estrabão (²) em sua Geografia, teria durado quatro dias, fazendo com que o mar ao redor fervesse e as consequências fossem percebidas muito além do exíguo território insular em o fenômeno ocorrera. Há questionamentos quanto à data desse fato, mas, considerando as várias teorias correntes, não há risco exagerado de erro em se considerar algo entre 1600 e 1500 a.C. 
Voltando ao que disse Estrabão (³), assim que cessou a fúria vulcânica, os moradores da ilha de Rodes, que na época dominavam a região, teriam sido os primeiros que ousaram pisar em Tera. Corajosos? Pode ser, mas a explicação talvez estivesse além da coragem. Trataram logo de erguer em Tera um santuário em honra de Poseidon (⁴), o deus do mar e dos terremotos. Como sabem, leitores, na Antiguidade os fenômenos extremos da natureza, não sendo devidamente compreendidos, eram atribuídos à ira dos deuses. Portanto, o templo que Estrabão afirmou ter-se construído na ilha arrasada devia ter o propósito de acalmar o irritadiço Poseidon, evitando novos acessos de raiva Egeu afora - em Rodes, por exemplo...
Nossa fonte, Estrabão, viveu muito tempo depois da erupção em Tera, e não sabemos se a gente de Rodes, foi, de fato, construir um templo na ilha ainda fumegante. Contudo, a homenagem a Poseidon é perfeitamente admissível, tendo em vista as crenças daqueles dias. Na maioria das culturas, as várias divindades eram associadas a fenômenos da natureza, fossem eles desejáveis, como chuva e sol em proporções adequadas à agricultura, ou temidos, como inundações, secas, terremotos, ou como o vulcanismo, que fez desaparecer a população de Tera e, quem sabe, tenha dado origem à lenda de Atlântida.   

(1) Hoje chamada Santorini.
(2) Estrabão nasceu por volta de 63 a.C., muito tempo depois da famosa erupção em Tera. Portanto, só podia falar daquilo que ouvira contar pelos que haviam vivido antes dele. Apesar disso, suas considerações, neste caso, não são destituídas de sentido.
(3) Geografia, Livro I.
(4) Chamado Netuno pelos romanos.