sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Escravos em Babilônia

Podia  ser numa manhã de sol brilhante. O movimento já era grande naquela rua comercial da antiga Babilônia. Cestos com legumes, montes de sacos de couro contendo cereais e uma infinidade de outras mercadorias aguardavam compradores. Havia gente indo e vindo, rindo e falando alto. Talvez, em uma banca de frutas, um artesão, a caminho do trabalho, parasse para comprar algumas romãs, o que podia ser uma boa oportunidade para dar dois dedos de prosa com o vendedor. É fácil imaginar que, enquanto regateava o preço, apenas para não perder o hábito, uma rodinha de tagarelas ia já em formação, e donos de lojas e oficinas mais ou menos próximas anunciavam suas mercadorias e serviços, se preciso, aos berros, sem nenhuma discrição, com o objetivo de incentivar fregueses meio sonolentos.
A animação matutina não era sem causa. Há dias chegara a notícia de que as tropas que haviam deixado a cidade na primavera estavam retornando vitoriosas. Nos últimos anos, as conquistas militares tinham se tornado frequentes, e com elas vinha uma prosperidade que Babilônia nunca antes experimentara. E pensar que a grande cidade, verdadeiramente cosmopolita, onde soava constante a algarávia de tantas línguas diferentes, já fora, nos séculos precedentes, uma povoação rebelde ao domínio assírio, e, por isso mesmo, tantas vezes arruinada - mas sem desaparecer. Em contrapartida, o Império Assírio é que agora era passado, e os verdadeiros babilônios tinham sobejas razões para festejar, fosse em casa, nas ruas, ou mesmo nos templos, tão numerosos quanto era vasto seu panteão de divindades.
Para os comerciantes a guerra era um bom negócio. As riquezas arrancadas a outros povos permitiam novas e belas construções, o dinheiro circulava, e, se as pessoas tinham dinheiro, estavam dispostas a gastar mais, comprar mais, construir casas melhores, com móveis sofisticados e outros artigos de luxo trazidos por mercadores que vinham de longe. Roupas finas, perfumes... Ah, os perfumes do Oriente!
E havia também os escravos. Na mentalidade dos dominadores a guerra era ótima porque muitos inimigos derrotados eram arrastados à Babilônia como escravos. Eram mão de obra garantida para as edificações que o rei planejava, mas também eram comprados, até barato, para o trabalho doméstico e das oficinas. 
Em Babilônia a escravidão tinha grande importância, mas um fato curioso é que, mesmo entre os cativos, existia desigualdade. Primeiro, havia os escravos dos templos, e, depois, os escravos do Estado, que suavam para que as grandes obras públicas virassem realidade. Havia, então, os escravos de particulares, aqueles que qualquer um que tivesse dinheiro podia comprar e ter a seu serviço. Finalmente, o mais espantoso: escravos de escravos, já que havia escravos que acabavam enriquecendo e, apesar de seu status  legal de cativos, pagavam suas obrigações a seus respectivos senhores e iam ao exercício das atividades que bem entendessem, para as quais acabavam, por sua vez, comprando escravos. Imagine-se agora qual era a posição social de um indivíduo que fosse escravo de um escravo!...
É verdade que em Babilônia nem todos os escravos eram estrangeiros. Alguns eram de lá mesmo, gente que havia nascido livre mas que se tornara cativa em razão de dívidas que não conseguira pagar, ou ainda quem havia cometido algum crime punido com a escravização. Entre os escravos do Estado, porém, predominavam os estrangeiros vencidos. Por outro lado, nem todos os inimigos derrotados eram vendidos como escravos - afinal, mesmo na grande Babilônia não caberia tanta gente. Uma prática comum nesses casos, adotada não só por babilônios, mas por outros povos da Mesopotâmia, era obrigar uma população vencida a migrar para um território diferente daquele em que originalmente vivia, em especial quando teimosa e reincidente em tramar rebeliões. Os mandatários da época achavam que isso privaria os derrotados da proteção de seus deuses e faria com que se vissem obrigados a uma vidinha pacífica, obediente e pagadora dos tributos que asseguravam a prosperidade dos vencedores (desculpem, leitores do Século XXI, mas se esta ideia parece estranha a vocês, preciso lembrá-los de que, sob outros pretextos, migrações forçadas ocorreram mesmo no Século XX, sob regimes que se autoproclamavam libertadores da humanidade).
Algumas horas mais e a população de Babilônia seria arrancada das suas ocupações corriqueiras. Arrancada de livre e espontânea vontade. Quem é que iria perder o desfile do exército que retornava? É que, ao som de instrumentos de percussão, já as primeiras unidades militares transpunham a muralha, precedendo os generais que acompanhavam o rei. Uma parte do botim de guerra seria consagrada aos deuses, mas a soldadesca era generosamente recompensada. Ao final do cortejo, vinha uma multidão coberta de pó, com as roupas estraçalhadas, a quem os babilônios dirigiam gracejos e provocações. Eram os infelizes a quem a derrota na guerra reduzia à condição de escravos. Coisa muito pouco provável é que, entre o populacho que os insultava, pudessem notar algum olhar de compaixão, até porque, nesse tempo, compaixão não era parte do arsenal de sentimentos que as pessoas eram  incentivadas a cultivar.
A festança agora se espalhava pela cidade. Lá na rua comercial, os eufóricos vendedores de vinho e cerveja mal conseguiam atender a tantos fregueses. A guerra também era boa para eles.

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