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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Danos causados pelas guerras na Antiguidade

Façam um esforço de imaginação, leitores, e tratem de pensar que estão assistindo a um desfile triunfal na Antiguidade. O lugar não importa: pode ser no Egito, na Nínive dos assírios, na Babilônia, talvez em Roma, porque, nesse sentido, foi mais famosa. O que vocês veriam ao redor?
Os triunfos, ou desfiles militares de comandantes vitoriosos e seus soldados, estavam longe de ser procissões solenes, ainda que sempre incluíssem um aspecto religioso, e não de pouca importância. Quem assistia tinha licença não só para aplaudir os vencedores e aclamar líderes políticos e militares, como para zombar à vontade dos inimigos derrotados. Uma euforia perversa tomava conta das multidões.
No entanto... Que dizer dos sentimentos de parentes e amigos daqueles que, mesmo lutando do lado vitorioso, haviam morrido em combate? Será que alguém se lembraria deles, em meio às comemorações?
Tenho mais perguntas. Quantas terras não eram devastadas devido às guerras, tanto pelos que se defendiam, para não facilitar o trabalho dos invasores, como pelos que invadiam, para nada deixar aos inimigos que eventualmente sobrevivessem? Recordem-se, leitores, de que grandes desmatamentos, e por motivos nem sempre muito nobres, não são coisa apenas de nosso tempo. Vejam, abaixo, o que mostra um relevo assírio, velhinho de milênios:

Fragmento de um relevo assírio em que soldados aparecem derrubando árvores (*)
Só mais um tópico interrogativo, para não cansar quem lê: quanto da produção cultural da humanidade não terá se perdido, em bibliotecas e templos destruídos por exércitos invasores, para quem o fogo era a melhor ferramenta de conquista? Quanto saber penosamente acumulado não terá virado, literalmente, pó e cinza, para prejuízo das gerações subsequentes? Vocês, leitores deste blog, são pessoas instruídas, e não terão dificuldade em considerar ocasiões em que um povo cultural e/ou cientificamente avançado foi vencido, na guerra, por outro mais forte apenas nas armas. Não são poucos os casos em que um triunfo militar foi seguido por anos e, até, séculos de declínio nas artes e na ciência. Não, a marcha da humanidade não tem sido uma ascensão contínua. Ao contrário, ao contrário...
Para ficar claro: isto não é um protesto pacifista.

(*) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

O culto ao Sol na Antiguidade


Se há um elemento recorrente nas crenças religiosas de muitos povos da Antiguidade, esse é, sem dúvida, a existência de alguma espécie de culto ao Sol. É certo, porém, que cada povo atribuía a seu deus-sol as características que mais valorizava. Exemplificando: em uma inscrição assíria encontrada em um templo em Nimrud, a divindade é descrita como "o deus-sol, devastador e desolador". Para quem conhece a fama dos assírios, não é preciso dar explicações.
Na teocracia egípcia, faraós apreciavam ser descritos como filhos de Ra, ainda que, eventualmente, a megalomania levasse os governantes a se declararem a própria encarnação da divindade... Além disso, recebiam culto como se, de fato, fossem deuses. Entre os povos da Mesopotâmia, Shamash, invocado também sob outras designações, foi reconhecido como deus-sol desde tempos remotos, algo próximo de 4000 a.C. Já veem os leitores que, se quisermos fazer uma lista de deuses identificados com o Sol, não faltará assunto, ainda que acabe a paciência para tantos nomes.
Plínio, o Velho (¹), o notável enciclopedista romano, tentou explicar assim a divinização do Sol: 
"Considerando tudo o que ele afeta, devemos crer que o Sol é a própria alma, ou, com mais exatidão, a mente do universo, a máxima divindade que governa a natureza. Ele provê o universo com luz e desfaz as trevas, ele escurece e ilumina as estrelas em seu repouso, ele comanda a marcha das estações segundo o costume da natureza e seu contínuo renascer a cada ano (²), ele desfaz a tristeza e tranquiliza as nuvens de tempestade que se formam na mente humana, sua luz alcança as demais estrelas [...]." (³)
É fato que no Século I os deuses já não desfrutavam do prestígio que tinham nos centênios precedentes, sendo possível, contudo, que Plínio quisesse contemporizar (⁴), não dando margem a alguma acusação de desrespeito para com a religião do Estado. Pelo que se infere de seus escritos, Plínio via a natureza como a grande e única divindade. Chama a atenção, porém, que ele assinalasse, corretamente, o efeito da luz solar sobre o humor dos seres vivos. Por conveniência ou desconhecimento, razão e superstição foram forçadas ao convívio. Não parece, sob esse aspecto, que a humanidade tenha mudado tanto nos dois últimos milênios.

(1) 23 d.C. - 79 d.C.
(2) Com a chegada da primavera.
(3) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis historia Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Fazendo, ao que parece, uma alusão ao Sol Invictus, divindade cultuada pelos soldados romanos.


terça-feira, 21 de maio de 2019

Cães que viajavam

Cães são companheiros dos humanos desde tempos remotos, tanto no nomadismo como na sedentarização. Foram, e às vezes ainda são, ocupados em tarefas árduas, como cuidar de rebanhos, proteger pessoas, colaborar em caçadas, puxar trenós e auxiliar forças policiais. Não é pouco, e, no desempenho de tantas ocupações, cães precisavam frequentemente viajar com seus humanos, o que significava, quase sempre, ir a pé, ou seja, com as próprias patas.
Na Antiguidade, os assírios, que amavam caçadas e eram notáveis artistas, deixaram registrada em relevos a participação de cães na vida diária, convivendo com um povo que levava a paixão pela guerra às últimas consequências. Não é surpresa, portanto, que cães fossem incluídos entre as forças de combate, como se infere por este relevo (¹), em que um soldado, portando lança, tem ao lado um cão em atitude ameaçadora:


Já nas duas imagens seguintes (²), vêm-se cães em perseguição a um jumento selvagem. São cenas de uma caçada:



Mas deixemos de lado os assírios e suas feras caninas. Vamos ao Rio de Janeiro do Século XIX, ainda nos dias do Império, e ali encontraremos cães que viajavam, não a pé, mas em navios. A informação vem do Almanaque Laemmert de 1852, em que se explicava que cães que viajavam em embarcações da Real Companhia de Paquetes de Vapor Entre Southampton, Brasil e Rio da Prata pagavam a oitava parte da passagem cobrada dos respectivos donos. Como é óbvio, os respectivos donos é que pagavam pelos cães. Nada mais justo, já que os humanos queriam ter a companhia, em viagem, de tão destacados amigos.

(1) LAYARD, Austen Henry. Nineveh and Babylon. London: John Murray, 1882, p. XXIII.
(2) Ibid., p. XXVII. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Deuses da Mesopotâmia

Povos de diferentes etnias, falando línguas distintas, viveram na Mesopotâmia na Antiguidade. Apesar disso, compartilhavam o culto a quase todos os deuses. É verdade que, às vezes, um mesmo deus ou deusa era venerado com nomes diferentes, mas, a despeito da variação na nomenclatura, sabemos que se tratava da mesma divindade porque a mitologia associada era muito semelhante. Além disso, não eram poucos os deuses vinculados à guerra, chamados "deus-sol", "deus-lua" (ou "deusa-lua") ou relacionados aos planetas, à fertilidade do solo, ao amor, à procriação, aos fenômenos da natureza. Em se tratando do culto aos deuses, povos da Antiguidade não tinham por hábito economizar nos encômios. Eram títulos e mais títulos, de modo que, às vezes, fica até difícil identificar a que deus, exatamente, se referiam.
Por que isso acontecia?
A antiga Mesopotâmia, em tempos nos quais o nomadismo era bastante comum, foi área de trânsito para muitos povos. Conviviam um pouco, pacificamente ou não, assimilavam algo da cultura alheia e seguiam em frente. O passar do tempo amalgamou elementos às vezes muito diversos, de modo que, com a sedentarização, as diferentes cidades, em se tratando de religião, tiveram muito em comum, ainda que, como regra, cada uma venerasse um deus principal, sem descartar o culto secundário a outras divindades. Portanto, a lista de deuses e deusas que veremos a seguir inclui, sem ser exaustiva, apenas as principais divindades cultuadas por assírios e babilônios (¹). Lembrem-se, leitores, de que havia uma infinidade de outros deuses e deusas. Era politeísmo às últimas consequências.


Relevo assírio retratando uma procissão em homenagem aos deuses (²)

Divindades cultuadas por assírios, babilônios e outros povos da Mesopotâmia


Marduk - Era o deus principal da Babilônia, retratado, muitas vezes, em companhia de quatro cães, embora também representado ao lado de um dragão dotado de dois chifres.  Era relacionado ao nascer do Sol. Sua companheira era Sarpanitu, vinculada ao nascer da Lua e, às vezes, a Vênus.
Ashur - Era cultuado exclusivamente pelos assírios, sendo, portanto, seu deus nacional e protetor da cidade de Ashur, que foi, durante muito tempo, a capital assíria. Representado frequentemente por um círculo dotado de asas, estava relacionado ao sol durante um eclipse.
Nusku - Guerreiro notável, esse deus era particularmente venerado pelos reis assírios. Era também considerado mensageiro de Marduk.
Nebu (ou Nebo, ou ainda Nabu) - Filho de Marduk, era cultuado em Borsipa. Tido como o deus-profeta, patrocinador das ciências, mensageiro dos deuses. Os escribas tinham em Nabu o seu patrono. Sua companheira chamava-se Tasmetu.  
Shamash - Seguramente uma das mais antigas divindades da Mesopotâmia, era o deus-sol (³). Por sua capacidade de iluminar todas as coisas, estava identificado como juiz tanto do céu como da terra. Ele e Aa, sua companheira, eram particularmente venerados em Larsa e Sippar. 
Ishtar - Deusa da criação, também venerada como Nina e, por isso, particularmente relacionada à cidade de Nínive, uma das capitais assírias. Um aspecto curioso de seu culto era a prática das oferendas de peixes. 
Amurru - Foi muito popular nos dias de Hamurabi. Era considerado o deus das montanhas.  
Sin Nannar ou Narnar - deus-lua; cujo principal centro de culto estava em Uru (⁴). Sua companheira era Nin-Uruwa, ou seja, a senhora de Uru. 
Rammanu (ou Rimmon, ou ainda Hadad) - Conhecido como o trovejador, era o deus das tempestades (⁵), vendavais e outros fenômenos correlatos. Sua companheira era Shala. 
Tamuz - Um dos deuses mais antigos e de culto mais amplo, a ponto de exceder os limites da Mesopotâmia. Era retratado como um pastor cuidando de seu rebanho. Sua companheira era Ishtar, deusa do amor e da guerra, cultuada principalmente em Erech e Nínive. Tamuz morria e ressurgia anualmente, sendo, por isso, identificado com a sucessão das estações do ano. 
Nin-Girsu (ou Ninurta) - Era cultuado em Lagash.  Às vezes Identificado com Tamuz, por ser, como ele, deus da agricultura. Bau, a deusa-mãe de Lagash, era sua companheira. 
Nergal - Era o deus do mundo dos mortos, do fogo, da guerra e causador das epidemias. Promovia destruição e, por isso, era invocado quando se esperava que agisse contra os inimigos na guerra. Seu principal centro de culto estava em Kutha, perto de Babilônia. Tinha Eresh-Kigal por companheira.

Relevo assírio em que o rei vitorioso é mostrado sob um círculo alado,
símbolo do deus Ashur (⁶)


A consagração de uma estátua de Nebu na Assíria


Agora, meus leitores, veremos um desses documentos que, escritos em argila, sobreviveram para que soubéssemos como era a consagração da estátua de um deus na antiga Mesopotâmia. 
Foi em 798 a.C.: sob as ordens de um governador provincial assírio, uma estátua de Nebu foi edificada. Não devia ser um monumento qualquer, tendo em vista a grandiloquência de sua consagração, à qual não faltou nem mesmo um recadinho para os que viveriam muito tempo depois:
"Para Nebu, o protetor exaltado [...] que tudo vê, sem limites, o grande, o poderoso [...], cuja autoridade é suprema, mestre das artes, que vê tudo o que acontece no céu e na terra, que tudo sabe e tudo ouve, portador do estilo (⁷) de escriba [...], gracioso e majestoso, capaz de todo conhecimento e adivinhação, amado de Bel, senhor de senhores, cujo poder não tem rival, sem cujo conselho nada se faz no céu [...], ao grande senhor [...], para o bem de Ramman-nirari o rei da Assíria, seu senhor, e para o bem de Sammuramat, senhora do palácio e sua companheira, Bel-tarsi-iluma, governador das províncias de Kalach, Chamedi, Sirgana, Temeni e Yaluna, para que sua vida seja preservada e seus dias prolongados [...], para que haja paz em sua casa e em sua descendência e para que seja livre de toda enfermidade [esta estátua] foi feita e dedicada. Homem do futuro! Confie em Nebu, não confie em nenhum outro deus!"
Quem vivia na Antiguidade quase não tinha controle sobre as doenças, já que as verdadeiras causas das diferentes moléstias eram desconhecidas. A expectativa de vida, por consequência, era baixa e, na busca por cura e sobrevivência, era usual a invocação de divindades. É nesse contexto que se insere a dedicação da estátua de Nebu, homenageado, dessa vez, por assírios, embora fosse, também, estimadíssimo entre os babilônios. É bastante provável que proclamações semelhantes fossem realizadas onde quer que a consagração de um novo templo ou estátua ocorresse entre os demais mesopotâmios.  

(1) A ideia é apenas colocar um pouco de ordem no vastíssimo panteão da Mesopotâmia, venerado por sumérios, acádios, babilônios, assírios, etc.
(2) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ou um deles...
(4) Também conhecida como Ur.
(5) Quase toda mitologia tem um.
(6) LAYARD, Austen Henry. Op. cit. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Pequeno bastão destinado à gravação da escrita cuneiforme em placas de argila.


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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Execuções "em boca de peça"

Apedrejamento, enforcamento, afogamento, decapitação, fuzilamento, cadeira elétrica, garrote, empalamento, injeção letal... A lista de métodos de execução já inventados pela crueldade humana é enorme. Alguns tinham o propósito de tornar a morte lenta e dolorosa; outros, com intenções supostamente humanitárias, queriam-na rápida e, tanto quanto possível, indolor. Em qualquer caso, a ideia é que a execução servisse (ou sirva) de exemplo.
Dentre os povos antigos, os assírios foram notáveis pela crueldade, e gostavam de empalar inimigos derrotados, mas também usavam outros métodos para execução que, quase sempre, só vinha depois de muita tortura.

Relevo assírio em que o rei é visto executando um prisioneiro de guerra (¹)

Sêneca, o filósofo estoico e professor de Nero, defendeu, nestes termos, a aplicação da pena de morte em Roma: "Aqueles que, com sua vida, não quiseram cooperar com a República, devem ser úteis com a morte" (²). E então, leitores, acham que ele estava certo?
Há tempos, tratei, neste blog, de uma ocasião em que Tomé de Sousa (³) fez executar um índio, amarrando-o à boca de um canhão que, ato contínuo, foi disparado. Ora, esse horripilante espetáculo, cujo objetivo era desencorajar potenciais delinquentes, não foi caso isolado no Brasil. Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Maranhão empregaram a mesma "técnica" - a informação vem de Yves d'Évreux, um capuchinho que esteve no Brasil como missionário nos anos de 1613 e 1614. Dentre outros episódios que registrou, examinemos um, bastante significativo, no qual o sentenciado à morte foi um indígena que, supostamente, se opusera à colonização e à catequese. Capturado, foi condenado à morte "em boca de peça" (⁴), como se dizia. Antes, porém, recebeu o batismo, embora o próprio d'Évreux tenha delegado a outro o ato de ministrar o sacramento, julgando que seria melhor para a imagem dos missionários se fossem associados à misericórdia e não à severidade. Pois bem, a execução assim foi descrita pelo religioso francês:
"Este infeliz condenado recebeu as consolações de muito boa vontade [sic], e antes de caminhar para o suplício disse aos que o acompanhavam: "vou morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de Jeropary (⁵) pois sou filho de Deus, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de água, e nem de ferramenta alguma para viajar além das montanhas, onde cuidais que estão dançando vossos pais (⁶). Dai-me porém um pouco de petum (⁷) para que eu morra alegremente, com voz e sem medo". 
[...].
Feito isso, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte de São Luís, junto ao mar, amarraram-no pela cintura à boca da peça, e o Cardo Vermelho (⁸) lançou fogo à escorva, em presença de todos os principais, dos selvagens e dos franceses, e imediatamente a bala dividiu o corpo em duas porções, caindo uma ao pé da muralha, e a outra no mar, onde nunca mais foi encontrada." (⁹) 
Vejam, leitores, que d'Évreux descreve a execução como se fosse a coisa mais natural deste mundo - não seria capaz de maior doçura se referisse a busca por flores silvestres ou por pequenas conchas marinhas em alguma praia. Será que os homens de seu tempo eram mesmo brutais, ou somos nós que nos tornamos demasiadamente sensíveis?

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
(2) Sêneca, De Ira. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Primeiro governador-geral do Brasil.
(4) Referência a um canhão ou outra peça de artilharia.
(5) Figura da mitologia indígena que os missionários identificavam com um demônio.
(6) Lugar onde indígenas supunham ser a residência dos mortos.
(7) Fumo.
(8) Cardo Vermelho era um chefe indígena já catequizado.
(9) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 232 e 233.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Campos de batalha

"Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, o estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens; por que é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas 

Frequentemente associados a heroísmo, patriotismo, coragem, os campos de batalha já foram exaltados em obras de arte - principalmente em pinturas - mas também em música, dos mais diversos gêneros, e na literatura. Essas expressões são, quase sempre, resultado da visão dos vencedores. Afinal, uma obra de arte para valorizar a derrota seria pouco provável. 
Os assírios demonstraram uma enorme competência em retratar cenas de guerra em relevos que, graças a escavações arqueológicas, são hoje perfeitamente conhecidos. É o caso do exemplo que se vê abaixo (¹):

Exército assírio perseguindo inimigos

Vencedores, vencidos, prisioneiros, gente decapitada, empalada... A realidade nua e crua, recheada do sadismo dos conquistadores. Mas, um dia, os assírios também foram derrotados. Uma coligação de caldeus, medos e, provavelmente, outros povos mais, arrasou Nínive, a orgulhosa capital assíria, em 612 a.C. - pode-se bem imaginar como foi a vingança.
Outro cenário de guerra notável da Antiguidade foi o de Zama, no norte da África, onde, no ano 202 a.C., romanos e cartagineses se enfrentaram. Os romanos venceram. Políbio de Megalópolis (²) deixou-nos uma descrição do campo de batalha:
"O campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião um grande problema, uma vez que os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamento e de cadáveres dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Panorama digno de um filme de terror? Na Antiguidade ou nos tempos medievais, um campo de batalha não era, como regra, muito diferente disso. Mas vamos mudar de cenário, no tempo e no espaço. Passemos ao Brasil Colonial.
De acordo com Pero de Magalhães Gândavo (⁴), em seu Tratado da Terra do Brasil, um campo de batalha entre indígenas tinha este aspecto:
"As armas com que pelejam são arcos e flechas [...], e assim parece coisa estranha ver dois, três mil homens (⁵) nus duma parte e doutra com grandes assobios e grita flechando uns aos outros; e enquanto dura esta peleja nunca estão com os corpos quedos, meneando-se de uma parte para outra com muita ligeireza, para que não possam apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas costumam apanhar-lhes as flechas pelo chão e servi-los enquanto pelejam."

Combate entre indígenas (⁶)

Durante o Império, a guerra mais importante foi, como se sabe, aquela que no Brasil é chamada a "Guerra do Paraguai". Do confronto conhecido como Batalha do Riachuelo há uma descrição feita pelo combatente Antônio Luís von Hoonholtz, Barão de Tefé:
"Que espetáculo desolador!
Por toda a parte o rio estava coalhado de destroços e de gente que aparecia e desaparecia acarreada pela violência da correnteza." (⁷)
Termino, já nos dias da República, com esta descrição, obra de Euclides da Cunha (⁸) em Os Sertões, do local do último confronto em Canudos, uma guerra civil que monopolizou as atenções em 1897:
"Sabia-se de uma coisa única: os jagunços não poderiam resistir por muitas horas. Alguns soldados se haviam abeirado do último reduto e colhido de um lance a situação dos adversários. Era incrível: numa cava quadrangular, de pouco mais de metro de fundo, ao lado da igreja nova, uns vinte lutadores, esfomeados e rotos, medonhos de ver-se, predispunham-se a um suicídio formidável. Chamou-se aquilo o "hospital de sangue" dos jagunços. Era um túmulo. De feito, lá estavam, em maior número, os mortos, alguns de muitos dias já, enfileirados ao longo das quatro bordas da escavação e formando o quadrado assombroso dentro do qual uma dúzia de moribundos, vidas concentradas na última contração dos dedos nos gatilhos das espingardas, combatiam contra um exército."
Não esperem, leitores, que eu defenda aqui um pacifismo ingênuo e unilateral. Guerras, às vezes, são mesmo inevitáveis. Mas não há dúvida de que o mundo passaria melhor sem elas. Enquanto isso não acontece, novas e mais eficientes armas de destruição em massa são desenvolvidas, a indústria bélica triunfa e move parte considerável da economia mundial, e vidas humanas - ora, quem se importa com elas? - vidas humanas fenecem, sob o pressuposto do serviço à pátria, e até em nome da religião. A cada nova guerra, este planeta fica um pouco pior, ambiental e moralmente. Um completo exercício de racionalidade e inteligência às avessas. 

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(3) O trecho citado da História de Políbio foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) c. 1540 - 1580.
(5) É possível que Gândavo tenha exagerado no número, ainda que batalhas com exércitos indígenas tão numerosos não possam ser descartadas, supondo várias aldeias coligadas.
(6)THEVET, André. Les Singularitez de la France Antarctique. Paris: Maurice de La Porte, 1558. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) HOONHOLTZ, Antônio Luís von (Barão de Tefé). A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 45.
(8) 1866 - 1909.


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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Romanos copiavam o que havia de interessante em outros povos

A simples observação do que ocorria entre muitos povos da Antiguidade é suficiente para que se conclua que, em se tratando de inimigos vencidos, a regra era, tanto quanto possível, apagar até mesmo a lembrança de sua existência. 
Querem um exemplo, leitores? Aconteceu um pouco com a ajuda das intempéries, é fato, mas, após a derrota para uma coligação de medos e caldeus, o espetacular império assírio (¹) foi varrido do mapa. A destruição foi tão completa que, antes das escavações arqueológicas do Século XIX, havia muita gente que julgava sua existência apenas imaginária, qualificando-a uma "fábula bíblica" (²). Vale o mesmo em relação aos hititas. Civilizações inteiras desapareceram ante a fúria dos vencedores, deixando, no melhor dos casos, pouquíssimos vestígios. Triunfadores tinham um orgulho insano de sua pretensa superioridade, e, portanto, julgavam ter o direito de esmagar os traços culturais dos derrotados, ainda que, em si mesmos, esses traços fossem até muito bons. 
Pragmáticos, os romanos não pensavam assim. Sem nenhum constrangimento, assumiam que, se havia algo de bom e/ou útil em outras culturas, a melhor coisa a fazer era copiar. Em um discurso no Senado, Júlio César, conforme relato de Salústio, assim se expressou:
"Nossos antepassados [...], aos quais não faltava nem discernimento e nem coragem, nem por isso, soberbamente, deixaram de adotar instituições alheias, quando pareciam dignas de imitação. Armas e armaduras vieram dos samnitas, insígnias ostentadas pelos magistrados foram copiadas dos etruscos (³); portanto, o que viam de útil, fosse entre aliados ou inimigos, adotavam [...]." (⁴)
Um modelo da paixão dos romanos por tudo o que era notável na cultura alheia pode ser visto a partir da conquista da Grécia. É verdade que os romanos derrotaram os gregos em campo de batalha. Enfeitiçados, porém, pela arquitetura, pela escultura, até pela comida dos sofisticados helenos, a gente rústica de Roma jamais seria a mesma. Nas escolas, os meninos romanos, que até então não iam muito além de aprender a ler, escrever e fazer algumas contas simples, passaram a estudar não somente seu latim materno, mas também o grego. E mais: com o idioma dos vencidos, vieram as aulas de filosofia, de retórica e de outras disciplinas nas quais os gregos tinham construído um saber modelar. À vista disso, talvez seja o caso, meus leitores, de levantar a questão: Em tal cenário, quem foi, finalmente, o autêntico vencedor?

(1) Não faltará quem diga que os assírios mereceram.

(2) Isso ocorria porque quase todas as referências aos assírios, até então conhecidas, estavam na Bíblia.
(3) Samnitas e etruscos eram povos que, assim como os romanos, habitavam a Península Itálica.
(4) SALÚSTIO, Caio. Catilinae coniuratio. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Os reis assírios eram grandes caçadores

Neste relevo, assírios são vistos caçando um leão (¹)

Todo mundo sabe que os assírios eram apaixonados pela guerra. Com o passar do tempo, adquiriram uma fama nada simpática, em razão de incontáveis atrocidades cometidas contra inimigos derrotados. Porém, em tempos de paz, eram dados à prática de um esporte muito comum na Antiguidade: a caça. Os baixos-relevos que recobriam seus palácios vieram a ser registros preciosos, com excepcional realismo, dessas atividades de lazer a que os monarcas consagravam parte de seu tempo. Esses mandatários eram, também, adeptos da pesca no mar, de acordo com registros da época. Vejam, leitores, que nem era preciso que os escribas e artistas se desdobrassem em bajulações profissionais para garantir uma imagem favorável aos soberanos, já que os próprios monarcas se encarregavam de tentar proezas que destacassem seu papel de líderes corajosos (²).
Não se deve pensar que a caça fosse, para os reis assírios e outros membros da corte, apenas um passatempo adequado para espantar o tédio entre uma guerra e outra. Como exercício físico, era útil para quem queria manter a forma - os campos de batalha da Antiguidade requeriam muito da força e resistência dos soldados, e mesmo os reis precisavam, frequentemente, entrar em ação, se queriam conservar o respeito de seu próprio povo. Além disso, esse esporte sanguinário ajudava a eliminar qualquer vestígio de sensibilidade diante da dor e sofrimento alheios. Logo, era muito importante para um povo famoso por mutilar e empalar os inimigos derrotados.

Relevo retratando um leão ao sair da jaula (³)

Havia dias, por certo, em que mesmo o rei não estava disposto a peregrinar atrás de feras. Ainda assim, não existia motivo para deixar de fazer correr o sangue de leões e outros animais. Tanto entre os assírios como entre os babilônios era usual manter um estoque de animais selvagens à disposição dos sanguinários monarcas. Sempre que desejado, alguns desses infelizes seres vivos eram soltos e, sem muito trabalho, o rei ensanguentava sua lança e/ou algumas flechas. Os seres vivos viravam seres mortos, enquanto o apetite bélico era aguçado em planos para novas guerras, conquistas e crueldades.

Rei assírio matando um leão (⁴).

(1) LAYARD, Austen Henry. A Popular Account of Discoveries at Nineveh. London: John Murray, 1851, p. 288.
(2) Têm imitadores até hoje...
(3) LAYARD, Austen Henry. Nineveh and Babylon. London: John Murray, 1882, XXIV.
(4) Ibid., XXVI. Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Arados, foices e o ciclo agrícola anual dos povos da Antiguidade

Agricultores egípcios do Antigo Império usando o arado (¹)

Egípcios, hebreus, assírios, babilônios, gregos, romanos - enfim, povos dedicados à agricultura - precisavam, ao longo do ano, dar atenção à tarefa apropriada a cada estação. Antes que as sementes pudessem ser postas no solo, era preciso preparar o terreno. Arados simples eram conhecidos já na Antiguidade. Eram feitos de madeira e, como regra, eram puxados por bois. Para que funcionassem bem, deviam ter ao menos três partes, ou seja, algum tipo de suporte para as mãos do agricultor que controlava a direção a ser seguida, um lugar ao qual eram presos os bois e uma parte pontiaguda que tocava o solo para que fosse revolvido e nele se abrisse um sulco.
Concluída a aradura do terreno, era hora de semear. As sementes eram postas nos sulcos abertos pelo arado e, de imediato, cobertas com terra (²). Agora era preciso esperar que nascessem e crescessem. Seria boa a safra? Cultivava-se trigo, cevada, centeio. No Egito também se plantava linho, para a confecção de tecidos indispensáveis para a nobreza, para os trajes dos sacerdotes e para enfaixar os corpos mumificados.
Os meses seguintes eram de expectativa, mas não de indolência. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, aconselhou: "Sendo o tempo de lavrar a terra, vai com teus trabalhadores logo cedo, quer o solo esteja úmido, quer seco, e isso fará produtiva tua lavoura. Deves semear quando a terra está leve devido à estiagem, e limpar o terreno na primavera, para não ser difícil cultivá-lo outra vez quando chegar o verão." (³)
 Em algumas regiões as chuvas eram vitais para que a lavoura prosperasse, enquanto que em outras era preciso irrigar o terreno com a água de um rio. Segundo Heródoto, para cultivar trigo os assírios não podiam contar apenas com as chuvas, que eram escassas:
"Sendo pouca a chuva nos campos dos assírios, é suficiente apenas para fazer o trigo nascer e criar raízes; a terra é regada com a água do rio, mas como não há inundações anuais como no Egito, usa-se a força de homens e de noras (⁴)." (⁵)

Agricultores egípcios trabalhando na colheita (⁶)

Se tudo corresse bem, se não houvesse um ataque maciço de gafanhotos, se invasores nômades não pilhassem os campos, se a lavoura não fosse arruinada por uma guerra, a safra era tempo de festa. Para a colheita dos cereais era comum o uso de foices, instrumentos simples, às vezes feitos de madeira, já que nem todos os povos dominavam a metalurgia. No devido tempo, colhiam-se também uvas e azeitonas. Com os celeiros abarrotados, celebravam-se festivais em honra dos deuses relacionados à agricultura, cuja proteção, acreditava-se, iria assegurar, para o ano seguinte, suficiência de pão, azeite e vinho. Uma safra generosa de cevada era também recebida com satisfação, visto que garantia a abastança de certa bebida apreciadíssima desde priscas eras... 

(1) ERMAN, Adolf. Life in Ancient Egypt. London: Macmillan & Co., 1894, p. 427.
(2) Para evitar que se transformassem em uma farta refeição para bandos de aves.
(3) As citações de Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo e de Histórias de Heródoto que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nora era um equipamento primitivo usado para retirar água de um rio.
(5) Heródoto. Histórias, Livro I.
(6) ERMAN, Adolf. Op. cit., p. 52.


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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Terra arrasada, pilhagem e intimidação dos inimigos

Chama-se "tática de terra arrasada" a um procedimento às vezes adotado em guerra, quando, diante do avanço de um exército inimigo, resolve-se destruir, antecipadamente, tudo o que poderia facilitar sua sobrevivência. A manobra é arriscada, porque talvez signifique miséria e morte para os habitantes do próprio país, impossibilitando uma defesa eficiente. Embora essa prática tenha encontrado adeptos em tempos recentes, era conhecida, e até muito comum, desde a Antiguidade, quando os monarcas costumavam ordenar que até mesmo as fontes e poços fossem obstruídos, para que o mais básico dos suprimentos, a água, não estivesse ao alcance dos exércitos invasores. 
Por outro lado, nas guerras antigas também não era raro que um exército invasor, para aterrorizar os oponentes, destruísse tudo o que achava pelo caminho, a não ser, é claro, aquilo que poderia ser pilhado. Os assírios, por exemplo, não tinham dúvidas em devastar áreas de cultivo (colhendo, antes, para si mesmos, o que estivesse disponível), entulhar nascentes e espalhar pedras por áreas agricultáveis. Não surpreende, pois, afinal, eram os assírios!...
Mas os romanos também não pestanejavam em arruinar o território de seus inimigos. Sabemos, por relato de Políbio de Megalópolis, que durante o cerco a Siracusa (que durou cerca de dois anos), os cônsules Ápio e Marcelo, diante da dificuldade em derrotar essa aliada de Cartago, resolveram que o único modo de vencer seria impedindo que recebesse suprimentos. Como conseguir isso? Fazendo um bloqueio marítimo, para que os siracusanos não tivessem ajuda externa, e destroçando os campos adjacentes à cidade. Os romanos venceram. 
Outro partidário da pilhagem em guerra era ninguém menos que Júlio César. Registrou, ele mesmo, em De Bello Gallico:
"Indo em marcha para atacar os inimigos, César enviou por todo lugar a gente das cidades vizinhas, para queimar todas as casas e mais construções, e para saquear o que se achasse. As colheitas eram destruídas [...] de tal modo que, mesmo os que escapavam e iam juntar-se ao exército, acabariam morrendo em consequência de absoluta miséria." (¹)
Muitas vezes o plano de arrasar o território inimigo e saquear seus recursos funcionava. Mas o risco era óbvio: se o exército invasor fosse forçado a uma retirada, de que sobreviveriam os soldados?
Para concluir, menciono aqui um episódio de destruição e pilhagem em território brasileiro. Sim, no Brasil, meus leitores. Aconteceu em 1586, quando Martim Leitão comandava uma guerra contra indígenas da Paraíba. De acordo com Capistrano de Abreu, "sua ação sempre fecunda e prestigiosa pode resumir-se em poucas palavras: queimou navios, queimou pau-brasil já cortado, queimou aldeia, arrancou plantações, inutilizou mantimentos na baía da Traição, na serra da Capaoba, no Tijucopapo." (²) Não sei se Martim Leitão sabia alguma coisa das guerras da Antiguidade, mas não podemos negar que, em termos práticos, agiu no melhor estilo de Júlio César.

(1) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias. 
(2) ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de História Colonial: 1500 - 1800. Brasília, Ed. Senado Federal, 1998, p. 69.


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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Músicos assírios - a arte a serviço da guerra

Grupo de músicos retratado em um relevo assírio (¹)
Os assírios levam a fama de terem constituído o povo mais cruel da Antiguidade. Seus exércitos saíam das margens do Tigre para espalhar o terror entre as populações vizinhas. A crueldade no trato com os inimigos derrotados tornou-se proverbial.
Que justificativa haveria para o espetáculo de selvageria que proporcionavam a cada batalha?
A explicação, ao menos em sua versão "oficial", era: "Nossas conquistas provam a força de nossos deuses, muito melhores e mais capazes que os deuses de nossos vizinhos".
Entretanto, a verdade oculta por trás dessa pretensa religiosidade era bem outra: "Conquistamos porque temos um desejo incontrolável de domínio, de supremacia sobre outros povos, de provar que somos os melhores; empreendemos conquistas, afinal, porque temos uma fome insaciável de apropriação do produto do trabalho alheio".
Ufa! Que diferença para os nossos dias...
Os assírios, porém, a despeito da crueza nas guerras, deviam ser grandes apreciadores de música. Alguns de seus relevos (já por si, notáveis obras de arte) contêm imagens de músicos com seus instrumentos, alguns deles facilmente identificáveis. Não conhecemos todas as situações nas quais, na cultura assíria, a música desempenhava um papel significativo, mas podemos ao menos inferir que as celebrações de vitórias deviam ser devidamente acompanhadas por grupos musicais, parentes remotos das bandas militares que todo mundo conhece.

Músicos assírios com seus instrumentos (²)

(1) LAYARD, Austen Henry. Discoveries on the Ruins of Nineveh and Babylon. London: John Murray, 1853, p. 455. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) PINCHERLE, Marc. An Illustrated History of Music. New York: Reynal & Company, 1959, p. 11. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog..


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