Mostrando postagens com marcador Antigos gregos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antigos gregos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Como os antigos gregos estocavam o produto das colheitas

Considerem, meus leitores, a vida dos agricultores na Antiguidade. Quer a colheita fosse excepcionalmente boa, quer magra ou mesmo insuficiente, uma parte dela não poderia ser destinada ao consumo. Devia ser cuidadosamente guardada, até que chegasse a nova estação de plantio. Era semente para futura colheita, e não alimento. Quem não fizesse assim corria o risco de morrer de forme, porque, naquele tempo, não havia lojas de produtos para a lavoura em que sementes pudessem ser adquiridas.
Não bastava, porém, reservar uma parte da colheita de cereais para plantio na próxima temporada. Era preciso parcimônia no consumo, para que a safra durasse tanto quanto necessário. Por isso, a maneira de estocar os suprimentos era decisiva. Os gregos tinham um método que tanto contribuía para a conservação dos grãos, evitando, até certo ponto, que fossem assaltados por roedores e outras pragas, como evitava, também até certo ponto, o roubo e a pilhagem: as colheitas eram guardadas em vasilhas de cerâmica enormes, colocadas dentro da terra, e, em caso de quantidades muito grandes, utilizavam-se celeiros subterrâneos.
Ora, entre os gregos, quase todas as atividades humanas tinham um deus tutelar, e sabe-se que Hades (*) era a divindade das colheitas armazenadas. Mas não era ele o deus do mundo dos mortos? Sim, era, como igualmente se encarregava de tudo o que estivesse no subsolo, fossem coisas reais ou imaginárias. Por isso, era o deus do frio, escuro e úmido submundo dos mortos, como era o protetor dos grãos tão cuidadosamente estocados em seus domínios. Não por acaso, Hades era, ainda, o deus das riquezas. Entende-se: no tempo em que um homem era tanto mais rico quanto mais alimentos tivesse para si, para a família e para fornecer a outros, ter uma boa reserva de grãos era o tesouro mais valioso. Hades que cuidasse bem dele.  

(*) Plutão, entre os romanos. 


Veja também:

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Arados, foices e o ciclo agrícola anual dos povos da Antiguidade

Agricultores egípcios do Antigo Império usando o arado (¹)

Egípcios, hebreus, assírios, babilônios, gregos, romanos - enfim, povos dedicados à agricultura - precisavam, ao longo do ano, dar atenção à tarefa apropriada a cada estação. Antes que as sementes pudessem ser postas no solo, era preciso preparar o terreno. Arados simples eram conhecidos já na Antiguidade. Eram feitos de madeira e, como regra, eram puxados por bois. Para que funcionassem bem, deviam ter ao menos três partes, ou seja, algum tipo de suporte para as mãos do agricultor que controlava a direção a ser seguida, um lugar ao qual eram presos os bois e uma parte pontiaguda que tocava o solo para que fosse revolvido e nele se abrisse um sulco.
Concluída a aradura do terreno, era hora de semear. As sementes eram postas nos sulcos abertos pelo arado e, de imediato, cobertas com terra (²). Agora era preciso esperar que nascessem e crescessem. Seria boa a safra? Cultivava-se trigo, cevada, centeio. No Egito também se plantava linho, para a confecção de tecidos indispensáveis para a nobreza, para os trajes dos sacerdotes e para enfaixar os corpos mumificados.
Os meses seguintes eram de expectativa, mas não de indolência. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, aconselhou: "Sendo o tempo de lavrar a terra, vai com teus trabalhadores logo cedo, quer o solo esteja úmido, quer seco, e isso fará produtiva tua lavoura. Deves semear quando a terra está leve devido à estiagem, e limpar o terreno na primavera, para não ser difícil cultivá-lo outra vez quando chegar o verão." (³)
 Em algumas regiões as chuvas eram vitais para que a lavoura prosperasse, enquanto que em outras era preciso irrigar o terreno com a água de um rio. Segundo Heródoto, para cultivar trigo os assírios não podiam contar apenas com as chuvas, que eram escassas:
"Sendo pouca a chuva nos campos dos assírios, é suficiente apenas para fazer o trigo nascer e criar raízes; a terra é regada com a água do rio, mas como não há inundações anuais como no Egito, usa-se a força de homens e de noras (⁴)." (⁵)

Agricultores egípcios trabalhando na colheita (⁶)

Se tudo corresse bem, se não houvesse um ataque maciço de gafanhotos, se invasores nômades não pilhassem os campos, se a lavoura não fosse arruinada por uma guerra, a safra era tempo de festa. Para a colheita dos cereais era comum o uso de foices, instrumentos simples, às vezes feitos de madeira, já que nem todos os povos dominavam a metalurgia. No devido tempo, colhiam-se também uvas e azeitonas. Com os celeiros abarrotados, celebravam-se festivais em honra dos deuses relacionados à agricultura, cuja proteção, acreditava-se, iria assegurar, para o ano seguinte, suficiência de pão, azeite e vinho. Uma safra generosa de cevada era também recebida com satisfação, visto que garantia a abastança de certa bebida apreciadíssima desde priscas eras... 

(1) ERMAN, Adolf. Life in Ancient Egypt. London: Macmillan & Co., 1894, p. 427.
(2) Para evitar que se transformassem em uma farta refeição para bandos de aves.
(3) As citações de Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo e de Histórias de Heródoto que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nora era um equipamento primitivo usado para retirar água de um rio.
(5) Heródoto. Histórias, Livro I.
(6) ERMAN, Adolf. Op. cit., p. 52.


Veja também:

sexta-feira, 18 de março de 2016

Ascensão e decadência de impérios, de acordo com Heródoto

Tratando da ascensão e declínio de impérios, Heródoto de Halicarnasso observou, em Histórias, que "aqueles que foram grandes no passado vieram a ser, posteriormente, muito pequenos; por outro lado, muitos que eram pequenos chegaram, em nosso tempo (¹), a ser grandiosos. Isso me convenceu de quão inconstante é o poder e de que tudo o que se relaciona à humanidade nunca se mantém imutável..." (²)
Esse pensamento era perfeitamente apropriado a quem pretendia, entre outras histórias, contar como é que os gregos, segundo todas as aparências, fragilizados pelas divisões e lutas internas, haviam temporariamente superado suas rivalidades, chegando a derrotar o Império Persa, que se supunha imbatível;  ao mesmo tempo, o falante narrador de Halicarnasso apontava as encrencas dentro da própria Grécia como uma grande ameaça, visto que, num futuro não muito distante, vizinhos poderiam lançar sobre ela olhares cobiçosos,  a tal ponto que a independência, que os gregos tanto prezavam, iria por água abaixo. Os leitores que conhecem um pouco de História sabem, com certeza, que nesta questão Heródoto estava certíssimo.
Impérios grandes declinam... Povos insignificantes alcançam as alturas. Não é difícil pensar em exemplos para ambas as situações. O Antigo Egito esteve no topo do cenário político em sua região por muitos séculos; menos duradouro, mas tão poderoso quanto, ou até mais, o Império Assírio aterrorizou os vizinhos; babilônios, persas, macedônios, romanos - se tentarmos enumerar as grandes forças do passado iremos muito longe, apenas citando aqueles povos de maior relevância para as origens civilização ocidental. Qual seria a dimensão da lista de déssemos um passeio histórico pelo Extremo Oriente? Reinos, impérios, civilizações, que começaram quase imperceptíveis, chegaram a ter amplo domínio, depois declinaram, alguns de um mal súbito, outros lentamente. Para alguns, restou apenas a sobrevivência. Outros, só para história e arqueologia.
Por outro lado, o que pensariam os romanos, se alguém lhes dissesse, talvez nos dias de César, que, num futuro não tão distante, os bárbaros, a quem desprezavam, seriam os novos senhores de parte considerável da Europa e mesmo do norte da África? Que diriam os grandes almirantes, cujas esquadras exploraram os oceanos nos Séculos XV e XVI, se soubessem que uns centênios minguados seriam suficientes para que, de terras pouco povoadas e recém-descobertas (³), nascessem países independentes, alguns com status de potências?
É óbvio que as causas para a ascensão e queda de impérios são altamente complexas, e não podem ser reduzidas a um único fator ou à vontade de uma só pessoa. Tampouco acontecem do dia para a noite, sendo, ao contrário, sutilmente desenvolvidas, sem que os controladores - a que chamamos governantes - tenham disso uma percepção muito clara. Uma questão interessante, não contemplada pelo pensamento de Heródoto, talvez proporcione um debate nada desprezível: Pode um Estado, que já teve seu auge de poder e declinou, voltar à posição de domínio perdida? Os exemplos históricos não parecem muito animadores...

(1) No tempo de Heródoto, claro: Século V a.C.
(2) O trecho citado da História de Heródoto é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Assumindo, neste caso, a visão dos descobridores/exploradores europeus.



Veja também: