Mostrando postagens com marcador Egito Antigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Egito Antigo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Regras de higiene para sacerdotes no Egito Antigo

A camada sacerdotal do Egito Antigo tinha muitíssimos privilégios. Detinha a propriedade de terras, não estava sujeita a impostos e sua condição era hereditária. Não era incomum que, com tantas vantagens, os sacerdotes procurassem exercer algum controle sobre os faraós, como modo de assegurar que não haveria mudanças em sua posição. 
Ser sacerdote, porém, significava ter de viver sob o cumprimento de uma multidão de regulamentos, que incluíam práticas de higiene bastante rígidas para os padrões da Antiguidade, e dentre as quais podem ser citadas:
  • Os sacerdotes deviam remover todos os pelos do corpo a cada três dias, tarefa que devia ser pouco agradável, se considerarmos os instrumentos disponíveis para isso;
  • Seus banhos somente poderiam ser feitos em água fria, e deviam ocorrer, obrigatoriamente, duas vezes por dia e duas vezes por noite, não importando se fazia frio ou calor;
  • Somente tinham permissão para vestir roupas de linho, coisa que podia ser muito conveniente em dias quentes, mas um mau negócio quando a temperatura despencava;
  • Finalmente, estavam obrigados a manter as roupas na mais estrita limpeza, lavando-as escrupulosamente, para que nenhuma mancha jamais fosse vista em qualquer peça.

Veja também:

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O juízo final na versão dos antigos egípcios

Caricatura egípcia de uma alma condenada no julgamento dos deuses (*)

Que os egípcios criam em um tipo de vida após a morte é coisa que todo mundo sabe. Mas é preciso saber, também, que essa vida não era automática, nem bastava, para alcançá-la, ter o corpo devidamente mumificado, embora essa fosse uma prática muito importante. Havia um julgamento, quando o morto deveria ter seu coração pesado em comparação com a "pena da verdade". Mais ainda: esse julgamento era feito individualmente, diante do deus Osíris
É certo que ao morto era dada a oportunidade de defesa. Mas que dizer, então? Havia uma fórmula que se considerava apropriada, e que todo egípcio devia saber muito bem, para ser capaz de repetir no momento exato. Essa fórmula nos mostra, afinal, quais eram os valores morais e éticos que os egípcios da Antiguidade mais prezavam, e dizia, entre outras coisas:
"Nunca proferi mentiras, não causei tristeza a ninguém, não fiz negócios astutos ou desonestos, nunca provoquei brigas, jamais falei mal de alguém, meus ouvidos somente atentaram para o que era justo e verdadeiro, dei pão ao faminto e água ao sedento, dei roupa ao que nada tinha e uma embarcação ao marinheiro que naufragava, fiz apenas o que era puro e justo e fui um servidor fiel dos deuses."
Conclusão óbvia: ou os deuses não eram muito espertos, ou, para os antigos egípcios, mentir no juízo final não era um obstáculo à eternidade.  

(*) Cf. PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 33. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


Veja também:

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Vestuário dos antigos egípcios, de acordo com Heródoto

Alguns trajes egípcios da Antiguidade (*)

O vestuário básico de um egípcio na
Antiguidade compunha-se, segundo Heródoto, de uma túnica feita de linho, cujo comprimento alcançava os joelhos, e à qual, usualmente, se acrescentavam franjas; quando fazia frio, os egípcios vestiam, sobre a túnica de linho, uma capa feita de lã.
Contudo, ao ir aos templos, jamais egípcios deveriam usar qualquer roupa de lã, apresentando-se apenas com trajes de linho, porque, sempre de conformidade com Heródoto, vestir qualquer coisa de lã em cerimônias religiosas era, para eles, um sacrilégio. Pela mesma razão, os mortos, depois de mumificados, somente eram vestidos com trajes de linho para o sepultamento.
A moda é volúvel. Heródoto descreveu o que viu no Século V a.C., mas o Egito foi um império que durou muito, muito tempo, e, além disso, camadas sociais distintas, pela diferença na capacidade econômica, tinham também suas particularidades no vestuário. O linho, porém, crescia muito bem e tinha qualidade no Egito, daí seu uso generalizado para a confecção de roupas, que eram também preferidas pela adequação às condições climáticas em que eram usadas. 

(*) Cf. CHALMERS, Helena. Clothes on and off the Stage - A History of Dress. New York, London: D. Appleton and Company, 1928, p. 25. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


Veja também:

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Curiosidades sobre os faraós

1. Os faraós representavam o ápice da pirâmide social no Egito Antigo. Há poucos casos conhecidos de mulheres que eventualmente ocuparam esse posto. Filhos dos faraós, quando pessoas capazes, ocupavam cargos importantes nos negócios públicos, tanto civis como militares.

2. O faraó era visto como o deus sol em figura humana. O respeito que lhe era votado vinha, em parte, da crença de que ele se constituía em uma ponte entre os assuntos dos deuses e os da humanidade.

3. No imaginário egípcio, faraós mantinham sua posição não apenas em vida: continuavam a ser reis também após a morte. O mesmo acontecia em relação aos demais mortos, que conservavam, no além-túmulo, as tarefas que tinham em vida, apenas com algumas melhorias, e sem tornar a morrer.
 
4. Tutmés IV, assim que subiu ao trono, mandou remover a areia que cobria quase toda a esfinge, deixando apenas a cabeça emersa. Se existe um monumento no mundo cuja idade exata ninguém sabe, esse monumento é a esfinge de Gizé. No mínimo, parece muito mais antiga do que as pirâmides próximas. 

5. Em um prazo de dez anos, Amenófis III teria matado cento e doze leões. Matar leões, contudo, não era mania apenas dos monarcas do Egito: reis assírios, por exemplo, eram apaixonados pela caça aos leões. Para facilitar o trabalho, os animais eram aprisionados e, assim, estavam à disposição de tão valentes caçadores.

6. Ramsés II costumava ter a companhia de um leão em campo de batalha.

7. De acordo com Heródoto, um grande prodígio ocorreu quando começou a reinar o faraó Psamético, filho de Amósis: choveu em Tebas, coisa que os egípcios vivos na época diziam nunca ter presenciado. Já que as chuvas eram tão raras, o telhado das casas não era, em regra, uma parte muito reforçada das construções, daí os grandes estragos que ocorriam quando uma mudança nos hábitos do clima resultava em chuvarada.

8. Faraós podem ter sido responsáveis pela iniciativa de grandes viagens marítimas na Antiguidade. Heródoto sugeriu que, por ordem do faraó Necao II, que viveu entre os Século VII e VI a.C., navegadores (provavelmente fenícios), teriam contornado todo o Continente Africano.


Veja também:

terça-feira, 17 de setembro de 2019

O culto ao Sol na Antiguidade


Se há um elemento recorrente nas crenças religiosas de muitos povos da Antiguidade, esse é, sem dúvida, a existência de alguma espécie de culto ao Sol. É certo, porém, que cada povo atribuía a seu deus-sol as características que mais valorizava. Exemplificando: em uma inscrição assíria encontrada em um templo em Nimrud, a divindade é descrita como "o deus-sol, devastador e desolador". Para quem conhece a fama dos assírios, não é preciso dar explicações.
Na teocracia egípcia, faraós apreciavam ser descritos como filhos de Ra, ainda que, eventualmente, a megalomania levasse os governantes a se declararem a própria encarnação da divindade... Além disso, recebiam culto como se, de fato, fossem deuses. Entre os povos da Mesopotâmia, Shamash, invocado também sob outras designações, foi reconhecido como deus-sol desde tempos remotos, algo próximo de 4000 a.C. Já veem os leitores que, se quisermos fazer uma lista de deuses identificados com o Sol, não faltará assunto, ainda que acabe a paciência para tantos nomes.
Plínio, o Velho (¹), o notável enciclopedista romano, tentou explicar assim a divinização do Sol: 
"Considerando tudo o que ele afeta, devemos crer que o Sol é a própria alma, ou, com mais exatidão, a mente do universo, a máxima divindade que governa a natureza. Ele provê o universo com luz e desfaz as trevas, ele escurece e ilumina as estrelas em seu repouso, ele comanda a marcha das estações segundo o costume da natureza e seu contínuo renascer a cada ano (²), ele desfaz a tristeza e tranquiliza as nuvens de tempestade que se formam na mente humana, sua luz alcança as demais estrelas [...]." (³)
É fato que no Século I os deuses já não desfrutavam do prestígio que tinham nos centênios precedentes, sendo possível, contudo, que Plínio quisesse contemporizar (⁴), não dando margem a alguma acusação de desrespeito para com a religião do Estado. Pelo que se infere de seus escritos, Plínio via a natureza como a grande e única divindade. Chama a atenção, porém, que ele assinalasse, corretamente, o efeito da luz solar sobre o humor dos seres vivos. Por conveniência ou desconhecimento, razão e superstição foram forçadas ao convívio. Não parece, sob esse aspecto, que a humanidade tenha mudado tanto nos dois últimos milênios.

(1) 23 d.C. - 79 d.C.
(2) Com a chegada da primavera.
(3) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis historia Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Fazendo, ao que parece, uma alusão ao Sol Invictus, divindade cultuada pelos soldados romanos.


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Papiros sagrados

Para os antigos egípcios, o papiro era uma
planta sagrada
Papiros (Cyperus papyrus) forneceram, como se sabe, a matéria-prima para um dos mais importantes suportes de escrita da Antiguidade, que, por essa razão, foi também chamado papiro. Os egípcios desenvolveram a técnica de prensagem das fibras de papiro, obtendo assim um material em que podiam escrever, e fizeram disso, também, um importante comércio. Desse modo, não só os egípcios usavam papiros para escrever, como também povos que viviam em regiões adjacentes e o importavam.
Há, porém, sobre o papiro, um fato tão curioso quanto interessante, que talvez não seja muito conhecido: para os antigos egípcios, todo e qualquer objeto feito de papiro (e não apenas o "papel") era considerado sagrado. Por quê?
A resposta vem da mitologia. Ísis, à procura do corpo de Osíris (que fora morto pelo irmão perverso, cuja intenção era usurpar o governo de Tebas), construiu uma embarcação usando papiros das margens do Nilo, e com tão útil meio de transporte pôde seguir viagem, na qual experimentou muitas aventuras. Por ter servido nobremente à deusa é que desde então - diziam os egípcios - o papiro se tornara uma planta sagrada. Ora, leitores, sagrada ou não, prestou bons serviços à humanidade. Que seria de muitas bibliotecas expressivas do passado se não fossem os papiros?


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Por que o íbis era sagrado para os antigos egípcios

Íbis-sagrado (Threskiornis aethiopicus)

O Egito da Antiguidade tinha fartura de deuses. Havia divindades para quase tudo, e muitos animais eram considerados a personificação de alguma figura desse tão notável panteão divino. Sorte da bicharada, é claro, que, desse modo, era protegida, recebia um tratamento régio, tinha sacerdotes a seu dispor e, para cúmulo das homenagens, ao morrer, recebia as honras do embalsamamento. O íbis-sagrado (Threskiornis aethiopicus) era apenas um dentre os muitos animais a quem os egípcios veneravam, e o antropomórfico deus Toth era representado com corpo humano e cabeça de íbis.
Toth, deus egípcio com cabeça de íbis (³)
O que teria originado a crença na divindade de animais? Pelo menos no caso do íbis, temos o direito de fazer algumas conjecturas, a partir das observações deixadas por Heródoto (¹) em suas Histórias. Nosso viajante do Século V a.C., infectado por curiosidade insaciável, perguntava, perguntava e perguntava, e ia anotando, para contar depois, tudo o que havia de interessante, segundo seu ponto de vista, nos lugares por onde passava. Constatou, assim, que os egípcios atribuíam ao íbis-sagrado um serviço de suma utilidade: a destruição de serpentes que, sem sua intervenção, infestariam o Egito, levando a morte a muita gente. A divinização dessas aves seria, portanto, consequência do benefício que lhes era atribuído, e era reconhecido, ainda de acordo com Heródoto (²), pelos próprios egípcios de seu tempo.
Por óbvio que seja, deve-se ainda assinalar que os deuses-animais do Egito eram sempre aqueles que estavam por perto: chacais, falcões, gatos, abutres, íbis-sagrados - todos podiam ser facilmente vistos nas redondezas. Seria improdutivo, leitor, procurar no panteão egípcio um deus urso-polar, ou foca, ou arara-canindé, ou ainda onça-pintada. Experiências da vida diária, com suas angústias e expectativas, estavam na base não só das explicações para fenômenos naturais, como das crenças religiosas que norteavam a existência de quem dependia do Nilo, cujas águas fertilizavam o solo, e, a cada ano, renovavam as esperanças dos homens e favoreciam a proliferação dos animais. 

(1) 485 - 425 a.C.
(2) Histórias, Livro II.
(3) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. I. London: Methuen & Co., 1904.



Veja também:

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Animais que interferiram na vida política do Egito Antigo

Podem os animais interferir na vida política de uma grande potência? Se acreditarmos no que escreveu Maneton, ao tratar das dinastias que governaram o Egito na Antiguidade, a resposta será, necessariamente, afirmativa. 
Porém, antes que nos ocupemos dos animais, talvez seja útil dizer alguma coisa sobre o próprio Maneton, nossa fonte de informação. Quem foi ele? Embora haja divergências, a opinião de maior fundamento é a de que foi um sacerdote egípcio que viveu por volta do Século III a.C. e que, a pedido de Ptolomeu I Sóter, general de Alexandre Magno que veio a ser governante do Egito, produziu, com base nos registros sagrados, um relatório (¹) dos monarcas que, desde os tempos mais remotos, haviam exercido o mando na região do Nilo. Este é, portanto, o contexto dos escritos de Maneton, dedicados ao rei estrangeiro (macedônio), que precisava da ajuda da elite sacerdotal para conhecer alguma coisa da história e cultura do país que pretendia governar.
Voltemos, agora, ao assunto da intromissão dos animais na política. De acordo com Maneton, "a primeira sequência de reis {primeira dinastia que governou o Egito] enumera oito reis, sendo Menes de Teinite o primeiro, e reinou durante sessenta e dois anos. Morreu ferido por um hipopótamo".
Leitores, Maneton não tinha nenhuma intenção de gracejar. Embora não saibamos se tudo aconteceu assim mesmo, parece que, naqueles dias, não era algo muito constrangedor que a sucessão ao trono fosse aberta porque um hipopótamo havia trucidado o monarca reinante. Pensem em todas as intrigas palacianas que costumavam cercar a ascensão ao poder de um novo faraó, e vejam de que um hipopótamo foi capaz! 
Time flies... Chegamos à nona dinastia, da qual Aktoes foi o primeiro faraó, segundo a cronologia de Maneton:   
"Aktoes foi pior do que todos os que vieram antes dele. Foi muito mau para os egípcios. Enlouqueceu e foi morto por um crocodilo."
Reconheçamos o mérito desse réptil: prestou um serviço à humanidade. Quem dera sua nobre ação houvesse servido de advertência para todos os mandatários perversos que viveram pelos séculos e milênios seguintes!
Vigésima quarta dinastia, e já vamos acabando (ainda que as dinastias não tenham chegado ao fim): "Bonkoris, saíta, reinou por seis anos. Uma ovelha falou." Menos agressiva que um hipopótamo ou um crocodilo, a criaturinha ovina não teve a capacidade de mandar para o Além algum filho de Rá. Um registro como esse fica aqui para mostrar que tipo de informação os antigos egípcios valorizavam e que não coincide, necessariamente, com aquilo que gostaríamos de saber. O conceito de História, deles e nosso, não é e nem poderia ser o mesmo. 

Hipopótamo e crocodilo em gravura do Século XVI (²)

(1) Infelizmente, apenas fragmentos de sua obra são conhecidos na atualidade. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 82.


Veja também:

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O poder dos faraós no Egito Antigo

No Egito Antigo vigorava uma monarquia hereditária, absoluta e teocrática. Isso quer dizer que, salvo os inúmeros golpes, assassinatos, revoltas e mesmo invasões estrangeiras, o sucessor de um faraó seria seu filho mais velho. O poder de um faraó era, teoricamente, absoluto, ou seja, sua vontade era lei, e ele próprio não estava sujeito a responsabilidade alguma. Por quê? Simplesmente porque era visto como uma figura divina, que governava pela vontade dos deuses ou, quando seu poder chegava ao auge, porque era considerado, ele próprio, uma divindade.
De onde vinha tanto poder? Heródoto, que, como grego, tinha uma visão sobre o exercício do governo muito diferente daquela que predominava no Egito, observou, em suas Histórias, que os habitantes da região do Nilo diziam que, num passado remoto, os deuses é que reinavam no Egito, em perfeito intercâmbio com os mortais, que eram por eles governados... Percebe-se então que, com uma crença assim, era relativamente simples fazer constar à mentalidade popular que o faraó era um legítimo descendente dos deuses. Isso explica, ao menos em parte, a importância da camada sacerdotal e as regalias que ela desfrutava: seu papel era decisivo em perpetuar as crenças que sustentavam a "teocracia"; explica, além disso, o motivo para as querelas nada incomuns entre monarcas e sacerdotes, bem como mortes aparentemente misteriosas de faraós que ousavam desafiar o establishment sacerdotal.
Ramsés II (²)
Por seu turno, escribas também tinham um papel relevante em garantir a estabilidade do trono. Como dominavam a arte de escrever (¹), competia a eles registrar os acontecimentos, dando destaque, naturalmente, às façanhas dos reis. Por essa razão é que as crônicas descambavam, não raro, em desbragados encômios. Essa prática tem resultado em muita dor de cabeça para pesquisadores de nosso tempo, já que nem sempre é fácil separar aquilo que é autêntico da bajulação que garantia o emprego dos escribas. Sabe-se, por exemplo, que Ramsés II (Século XIII a.C.) liderou o exército egípcio contra as forças hititas na batalha de Kadesh. Ora, durante longo tempo pareceu que o combate resultara altamente favorável ao monarca do Nilo, tal a quantidade de elogios à sua conduta que foram encontrados. De acordo com um deles, em face do combate teria sido esta a declaração de Ramsés II:
"Como sou amado por Rá e protegido por Amon, e como meu nariz cresce e vive poderosamente cada vez mais, eu irei por este caminho. Se vocês quiserem, podem ir por outro caminho; senão, sigam-me!"
Até parece que sua majestade iria à luta sozinho!... Hoje sabemos que tanta bazófia tinha por finalidade impressionar a população de camponeses e outros trabalhadores que, não tendo ido à guerra, ficava suando ao sol do Egito para sustentar as camadas superiores. A batalha de Kadesh, em termos práticos, não apresentou resultados decisivos, nem para egípcios e nem para hititas.
Vale notar que, por muitos séculos, o Egito permaneceu no topo do poder em relação a seus vizinhos da região mediterrânica. À medida, porém, que outros grandes impérios se desenvolveram e passaram a ter condições de enfrentá-lo, mudanças vieram. Não chega a ser surpreendente que, quando conquistadores pisaram em terras da milenar civilização do Nilo, passaram logo a humilhar faraós derrotados, solapando na base a lógica de poder que sustentava o trono. 

(1) Com a escrita hieroglífica era arte mesmo...
(2) RAWLINSON, George. Ancient Egypt. London: T. Fisher Unwin Ltd., 1887, p. 251. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Arados, foices e o ciclo agrícola anual dos povos da Antiguidade

Agricultores egípcios do Antigo Império usando o arado (¹)

Egípcios, hebreus, assírios, babilônios, gregos, romanos - enfim, povos dedicados à agricultura - precisavam, ao longo do ano, dar atenção à tarefa apropriada a cada estação. Antes que as sementes pudessem ser postas no solo, era preciso preparar o terreno. Arados simples eram conhecidos já na Antiguidade. Eram feitos de madeira e, como regra, eram puxados por bois. Para que funcionassem bem, deviam ter ao menos três partes, ou seja, algum tipo de suporte para as mãos do agricultor que controlava a direção a ser seguida, um lugar ao qual eram presos os bois e uma parte pontiaguda que tocava o solo para que fosse revolvido e nele se abrisse um sulco.
Concluída a aradura do terreno, era hora de semear. As sementes eram postas nos sulcos abertos pelo arado e, de imediato, cobertas com terra (²). Agora era preciso esperar que nascessem e crescessem. Seria boa a safra? Cultivava-se trigo, cevada, centeio. No Egito também se plantava linho, para a confecção de tecidos indispensáveis para a nobreza, para os trajes dos sacerdotes e para enfaixar os corpos mumificados.
Os meses seguintes eram de expectativa, mas não de indolência. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, aconselhou: "Sendo o tempo de lavrar a terra, vai com teus trabalhadores logo cedo, quer o solo esteja úmido, quer seco, e isso fará produtiva tua lavoura. Deves semear quando a terra está leve devido à estiagem, e limpar o terreno na primavera, para não ser difícil cultivá-lo outra vez quando chegar o verão." (³)
 Em algumas regiões as chuvas eram vitais para que a lavoura prosperasse, enquanto que em outras era preciso irrigar o terreno com a água de um rio. Segundo Heródoto, para cultivar trigo os assírios não podiam contar apenas com as chuvas, que eram escassas:
"Sendo pouca a chuva nos campos dos assírios, é suficiente apenas para fazer o trigo nascer e criar raízes; a terra é regada com a água do rio, mas como não há inundações anuais como no Egito, usa-se a força de homens e de noras (⁴)." (⁵)

Agricultores egípcios trabalhando na colheita (⁶)

Se tudo corresse bem, se não houvesse um ataque maciço de gafanhotos, se invasores nômades não pilhassem os campos, se a lavoura não fosse arruinada por uma guerra, a safra era tempo de festa. Para a colheita dos cereais era comum o uso de foices, instrumentos simples, às vezes feitos de madeira, já que nem todos os povos dominavam a metalurgia. No devido tempo, colhiam-se também uvas e azeitonas. Com os celeiros abarrotados, celebravam-se festivais em honra dos deuses relacionados à agricultura, cuja proteção, acreditava-se, iria assegurar, para o ano seguinte, suficiência de pão, azeite e vinho. Uma safra generosa de cevada era também recebida com satisfação, visto que garantia a abastança de certa bebida apreciadíssima desde priscas eras... 

(1) ERMAN, Adolf. Life in Ancient Egypt. London: Macmillan & Co., 1894, p. 427.
(2) Para evitar que se transformassem em uma farta refeição para bandos de aves.
(3) As citações de Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo e de Histórias de Heródoto que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nora era um equipamento primitivo usado para retirar água de um rio.
(5) Heródoto. Histórias, Livro I.
(6) ERMAN, Adolf. Op. cit., p. 52.


Veja também:

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Sêneca e sua teoria sobre a decadência dos impérios

Grandes impérios, na Antiguidade, surgiram, dominaram, mas desapareceram. Em alguns casos o sumiço foi tão exagerado que, por séculos e séculos, estudiosos achavam que sua existência era apenas lendária. Um exemplo disso foi o notável império assírio que, subvertido por conquistadores babilônios e medos, principalmente, permaneceu oculto até que escavações arqueológicas comprovassem sua autenticidade. 
Outros impérios passaram por lento declínio, ainda que subsistindo por muito tempo, sem, no entanto, conservarem o brilho que assinalou seu apogeu. O Egito da Antiguidade ilustra muito bem este caso.
Não poucos historiadores têm dedicado tempo e neurônios à investigação dos fatores responsáveis pela ascensão e queda dos grandes impérios. Desavenças políticas internas, fracassos em batalhas, catástrofes naturais, declínio de valores cívicos e/ou morais - a lista poderia seguir, com elementos que são assíduos entre as explicações oferecidas ao fenômeno do desaparecimento de povos, reinos, civilizações até. E, diga-se de passagem, este é um tema cuja investigação já intrigava pensadores na própria Antiguidade (¹). Sêneca (²), filósofo estoico romano do primeiro século d.C., famoso por ter sido professor de Nero, escreveu em De Ira:
"Lembre-se de que cidades notáveis, das quais hoje apenas se sabe a localização, foram destruídas pela ira. Olhe as vastas regiões hoje desabitadas, e veja que foi a ira que as tornou um deserto." (³)
Você, leitor, concorda com Sêneca? É pouco provável que ele desconsiderasse fatores políticos, econômicos, sociais ou naturais. Só que, em seu pensamento, buscava causas profundas para as querelas entre poderosos, para as revoltas populares, para as desordens na estrutura econômica, e ia encontrá-las na falta de serenidade, tanto de governantes quanto de governados, que davam vazão irrestrita às emoções violentas, embotando o uso pleno da razão. Isso se deduz pelo que escreveu na mesma obra, propondo o ideal de governantes e juízes que, impassíveis, sem qualquer traço de irritação, administrassem os negócios públicos e fizessem aplicar a justiça. Tinha isso como meta, aliás perfeitamente compatível com o pensador estoico que era. O quanto Sêneca foi bem-sucedido em implantar tal ideário, ao menos em seus dias, nós podemos ver pela conduta de seu famoso discípulo-imperador, que supondo o mestre envolvido em uma conspiração para assassiná-lo, ordenou-lhe que cometesse suicídio. Uma prática que, afinal, era comum em Roma
Sêneca, estoicamente, obedeceu.

(1) É lógico que os antigos não se achavam "antigos". Nós é que os rotulamos assim...
(2) 4 a.C. - 65 d.C.
(3) O trecho citado de De Ira é tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Embalsamamento de primeira classe no Egito Antigo

O Egito Antigo é famoso por suas múmias - corpos de mortos devidamente embalsamados. Ora, em que é que consistia, afinal, o embalsamamento?
Heródoto de Halicarnasso deixou-nos, disso, um relato interessante. É preciso explicar, antes de mais nada, que havia embalsamamentos de vários preços, e, como é lógico supor, era à família do morto que cabia a decisão quanto ao que se pretendia (ou podia) gastar com o parente falecido.
Sarcófago egípcio (*)
Assim, desde que a família escolhesse um embalsamamento de primeira classe, seriam necessários setenta dias para que o processo se completasse.
Dentre outros procedimentos mencionados por Heródoto, competia aos médicos embalsamadores, uma vez fechado o contrato com a família, remover o cérebro do morto, por meio de ganchos que eram introduzidos através do nariz. Alguns compostos eram postos no lugar. Acabava assim a primeira parte do longo processo.
Em seguida, fazia-se uma abertura abdominal, para remoção de órgãos e limpeza. Sendo esse um procedimento de alto padrão, a cavidade era preenchida com arômatas da melhor qualidade, destacando-se a mirra e uma variedade de canela tipicamente oriental.
Após os setenta dias, o embalsamamento era concluído com o enfaixar do corpo com tecido de linho embebido em goma. Assim preparada, a múmia era posta no sarcófago escolhido pela família, que, de qualquer modo, sempre tinha forma aproximadamente humana.
Depois disso, o destino da múmia podia variar. Um rei ou nobre importante já teria, de antemão, preparado um túmulo para si. Mas havia famílias que simplesmente levavam o sarcófago para casa, e lá ficava ele em um canto, junto à parede... Se considerarmos a importância que davam os egípcios ao que criam ser a vida após a morte, era este, por certo, um destino inglório. A despeito de toda a preparação que alguém fizesse em vida, em última instância o destino de um morto, no Egito, dependia, como em todos os tempos e lugares, da boa ou má vontade dos vivos.

(*) DeHASS, Frank S. Buried Cities Recovered 5ª ed. Philadelphia: Bradley, Garretson & Co., 1883, p. 55.


Veja também:

domingo, 6 de abril de 2014

Rabanetes, cebolas e alhos

A alimentação dos construtores de pirâmides no Egito Antigo


História contada por Heródoto: ao visitar a pirâmide de Quéops, viu nela uma inscrição que relatava quanto se gastara, em sua  construção, apenas para o fornecimento de rabanetes, cebolas e alhos para os trabalhadores e capatazes. Interrogando um intérprete, este lhe teria dito que a soma alcançava nada menos que 4600 talentos de prata.
Acalmem-se, leitores: rabanetes, cebolas e alhos não eram, por suposto, os únicos alimentos dos quais se serviam os egípcios. Eram, no entanto, parte importante de sua dieta. Sim, podem fazer uma careta, mas continuem a ler...
Talento era uma unidade de massa que se empregou largamente na Antiguidade, em especial para a medida de metais preciosos, tais como o ouro e a prata. O problema é que cada região tinha o talento que queria - não estou fazendo nenhum trocadilho - de modo que a tal medida variava consideravelmente. Para os gregos, um talento corresponderia a cerca de vinte e seis quilos, enquanto que para os babilônios, podia chegar a mais de sessenta.
Ora, Heródoto era grego, e parece-me bem razoável que calculemos quanto se gastou em rabanetes, cebolas e alhos usando simplesmente o talento grego. Vejamos:
Se um talento equivale a vinte e seis quilos, e foram gastos quatro mil e seiscentos talentos de prata, devemos concluir que a despesa subiu a nada menos que cento e dezenove mil e seiscentos quilos. Incrível? Talvez não, se considerarmos que incríveis, na verdade, eram as dimensões da pirâmide, construída, em essência, à força de músculos de seres humanos que, como acertadamente assinalou Heródoto, precisavam de ferramentas, vestuário e comida, na qual se incluía, como vimos, uma enorme quantidade de rabanetes, cebolas e alhos. Não era, por certo, uma sorte a ser invejada, a desses edificadores de pirâmides.
É importante notar que Heródoto, que afirmou ter visitado o Egito, viveu muito tempo depois da construção das pirâmides. Por essa razão, não se pode considerar que seus relatos sejam uma expressão fiel da realidade em todos os seus detalhes. Hoje sabemos que muito do que dizia não passava de conversa fiada, intencionalmente ou não. Às vezes, muita tolice podia derivar de uma interpretação equivocada dos fatos, que se compreende até com facilidade vindo ele de uma cultura e idioma diferentes. Ainda, assim, seus relatos são importantes, já que, a despeito das óbvias imperfeições, contribuem para que tenhamos uma ideia do modo de vida adotado pelos antigos egípcios, com informações que a egiptologia contemporânea tem, efetivamente, validado. Ou seja, não podemos ter certeza absoluta quanto ao total gasto (eram comuns, na época, os exageros), mas quanto a rabanetes, cebolas e alhos serem parte importante da dieta não temos dúvidas, já que há várias outras fontes que mencionam o fato. E, em História, a diversidade de fontes é sempre muito desejável.


Veja também:

domingo, 9 de março de 2014

A perspectiva quanto à vida após a morte no Egito Antigo

A preocupação com a vida após a morte era, como se sabe, um aspecto muito importante na cultura do Egito Antigo. As evidências disso podiam ser notáveis - pirâmides e outros túmulos espetaculares de gente muito importante - mas tinham também uma outra face, menos espalhafatosa, claro, nas aspirações de camponeses e artesãos que também desejavam uma mumificação, por mais simples e barata que fosse, para que também eles, segundo o ideário vigente, tivessem alguma possibilidade de retomar a vida no além, depois do julgamento diante dos deuses, coisa que, de acordo com suas crenças, todo mundo, até mesmo o faraó, precisaria enfrentar.
Curiosamente, no entanto, a perspectiva nutrida pelas camadas sociais inferiores do Egito não apresentava nenhuma ideia de redenção social e/ou econômica post mortem: faraós, no Além, continuariam a ser faraós, com direito a todos os privilégios que haviam desfrutado em sua vida terrestre, e era por isso mesmo que deviam ser sepultados com trono, carruagem, embarcação e outros tesouros que tivessem; por seu turno, camponeses continuariam a ser apenas camponeses, com a vidinha modesta de camponeses, apenas plantando e colhendo com mais facilidade, com cereal mais abundante, que crescia muito mais que na Terra... Nada, portanto, que pudesse, nem mesmo remotamente, remeter ao idílico paraíso das religiões monoteístas. (*)
A propósito do julgamento a que todo morto obrigatoriamente comparecia, vale recordar que o processo era este: o falecido, levado à presença de Osíris, era testado quanto a ser uma pessoa que nós chamaríamos "de bem", de modo que seu coração, pesado em balança, apresentasse um perfeito equilíbrio com a "pena da verdade". Ocorre que a "gente de bem", aqui da terra, logo encontrou um modo de supostamente ludibriar os deuses no julgamento, mediante uma coleção de fórmulas mágicas e encantamentos que, em conjunto, são hoje conhecidas como o "Livro dos Mortos". Poderíamos, talvez, falar em tentativas de corrupção além-túmulo?

(*) O fato de que nem mesmo após a morte pudesse haver algum tipo de "revolução" social talvez funcionasse como tentativa de dissuasão para rebeliões na vida terrestre. Afinal, se os deuses não alteravam a ordem vigente ainda após a morte, por que supor que deveria haver alguma mudança por aqui mesmo? Vale lembrar, no entanto, que o argumento podia funcionar em sentido contrário: se o status terrestre era preservado após a morte, não seria melhor batalhar por algum tipo de ascensão que, depois, perduraria? Talvez isso ajude a explicar, ideologicamente, a quantidade notável de rebeliões de todo tipo ocorridas no Egito ao longo dos séculos.


Veja também:

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Perfumes famosos e apreciados de antigamente

Embora não se possa ter certeza de quando, exatamente, começaram a ser usadas, sabe-se que os povos antigos amavam as substâncias aromáticas. Dá conta disso a legendária imagem das caravanas de camelos que circulavam pelo Oriente carregadas de especiarias para o comércio, o que não significa que apenas os orientais se interessassem por elas. É certo que não.
No Egito fazia-se largo emprego de substâncias aromáticas nos rituais associados à preparação dos mortos para o sepultamento; a região do Nilo constituía-se, por isso, em um mercado expressivo para mercadores que traziam uma vasta gama de substâncias, dentre as quais se destacava a mirra, em virtude de estar associada à ideia da ressurreição. Entretanto, o uso de aromas não estava vinculado apenas aos ritos religiosos ou funerários: quer de origem vegetal, quer animal, diferentes substâncias já eram combinadas para a produção de perfumes, cuja finalidade, além do aspecto cosmético, era simplesmente proporcionar prazer a quem os usava, pelo emanar de um odor considerado agradável. Esse último uso seria, pelos séculos afora, largamente difundido, e é, em grande parte, o que move até hoje a indústria de perfumes, em âmbito mundial.
Nos rituais dos hebreus os aromas tinham também lugar importante. Havia incenso e também óleo perfumado cujo destino era de caráter estritamente religioso. Designando as substâncias neles incluídas pelos nomes usuais na atualidade, devemos citar o azeite de oliva, a mirra, a canela do Ceilão e da China e o cálamo.
Para os gregos da Antiguidade, o aroma do
tomilho 
era capaz de infundir coragem
em quem devia ir 
à guerra
Já para quem acha que tomilho é apenas parte do trio de especiarias que constitui o mais perfeito tempero para pizzas, vale destacar que os gregos tinham, sobre o seu uso, outras ideias. O tomilho era por eles empregado para friccionar o corpo dos soldados antes das batalhas. A razão? Considerava-se que tinha a capacidade de energizar quem o usava, conferindo, por seu aroma, mais coragem e combatividade.
Ora, isso aponta para o fato de que já se compreendia, empiricamente, que diferentes aromas podiam ter propriedades terapêuticas, produzindo, alguns, uma sensação de calma e relaxamento, enquanto outros eram estimulantes. Entre os gregos, bem como entre outros povos, as substâncias aromáticas tinham também uso medicinal, como o revelam obras deixadas pelos mestres da medicina do passado, embora, nesse caso, seja necessário admitir que alguns usos podiam ser verdadeiramente desastrosos.
Na Europa a perfumaria viria a ganhar um enorme impulso a partir das Cruzadas, isso porque o contato com o vasto conhecimento dos árabes em assuntos relacionados à preparação de diversas substâncias foi decisivo para que, gradualmente, a química, como ciência, rompesse com a superstição. Uma composição aromática muito apreciada, pelas alturas do Renascimento, que poderia ser chamada de "perfume", como nós o entendemos, levava, entre outros itens, óleos essenciais de alfazema, rosas, bergamota e cravo.
O aperfeiçoamento da destilação, processo investigado desde fins dos tempos antigos e (re)aprendido através dos árabes, abriu as portas para uma verdadeira revolução na arte dos perfumes. Inicialmente produzidos em pequena escala, iriam, a partir do século XVIII, constituir-se em marcas famosas, algumas das quais subsistem até nossos dias.


Veja também:

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ler e escrever, eis a questão - Parte 1

A relação entre a prática da escrita e o exercício do poder na Antiguidade


Hoje em dia há muito poucos trabalhos para uma pessoa não alfabetizada, pelo menos para quem vive em áreas urbanas. E, mesmo quando é possível a um analfabeto encontrar trabalho, há que se reconhecer que a incapacidade de ler e escrever resulta em sério dano ao exercício pleno da cidadania, particularmente em uma sociedade democrática.
No passado, no entanto, a maioria das pessoas não sabia ler e, menos ainda, escrever, de modo que a capacidade de dominar a escrita era, por si só, uma profissão: a de escriba.
No Egito Antigo os escribas tinham excelente posição social - também como uma escrita daquelas! Na prática, eram indispensáveis à burocracia de Estado e aos templos (o que, às vezes, era a mesma coisa). Sua habilidade em registrar os grandes feitos dos faraós, tanto os autênticos como os exagerados e  até mesmo imaginários, era a garantia da perpetuação do nome dos poderosos monarcas. Isso entre os vivos. Da morte, cuidava-se, no Egito, como todo mundo sabe, com mumificação e sepultamentos mais que suntuosos (não necessariamente em pirâmides), mas sempre em túmulos nos quais as inscrições eram muito importantes. Afinal, o que seria de um faraó na outra vida sem o conjunto de inscrições de caráter mágico a que hoje se dá o nome de "Livro dos Mortos"?... Eis a causa de ser a profissão de escriba tão importante naqueles tempos.
Um pouco menos complicada que os hieróglifos, a escrita cuneiforme também ensejou o aparecimento de escribas profissionais. Na Mesopotâmia, porém, ir à escola e aprender a escrever e a fazer contas tinha também uma outra justificativa, ou seja, comerciantes começavam a perceber a utilidade de registros precisos de suas atividades. É claro que isso estava a milhões de quilômetros de uma política de alfabetização em massa, mas já era, inegavelmente, uma mudança. Gregos e romanos, por sua vez, com formas de escrita alfabéticas e, por isso mesmo, muito mais simples, chegaram ao ponto de entender que a capacidade de escrever era essencial ao exercício da cidadania, mesmo se considerarmos que o conceito de cidadão, nesses tempos, era bastante diferente e mais restritivo do que aquele que se emprega hoje nas democracias ocidentais. Assim, a escrita não estava mais limitada ao âmbito dos templos, túmulos e registros de façanhas reais. Jovens aristocratas precisavam ser muito bons em ler e escrever, porque precisavam estudar muito, a fim de se tornarem capazes de, no pleno exercício da política, defender seus interesses e os de seu estrato social. Mesmo artesãos, gente simples do povo, eram capazes de escrever, e não poucos documentos comprovam esse fato.
Não foi por acaso, então, que pelas alturas da expansão do Cristianismo pelo Império Romano, textos escritos de gênero epistolar tenham sido amplamente empregados para a divulgação da nova religião, e é bom lembrar que isso não se restringe aos documentos da chamada era apostólica - na patrística encontram-se bons exemplos de cartas que bispos e outros líderes religiosos encaminhavam aos fiéis, na intenção de orientar os conversos em meio a uma sociedade que passava por severas mudanças que redundavam em convulsões sociais, políticas e militares. Se é verdade que nem todo mundo sabia ler, também é fato que sempre havia alguém por perto que podia fazê-lo, de modo que enviar cartas através dos correios que seguiam pelas ótimas estradas romanas era um meio bastante eficiente de fazer com que as informações circulassem. Os cristãos souberam valer-se disso muito bem.


Veja também: