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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Os romanos e o comércio de especiarias da Arábia

"Toda a Arábia é um paraíso de perfume muito delicado."
Heródoto, Histórias

O território que na Antiguidade recebia, genericamente, o nome de Arábia, era famoso pelos aromas preciosos. Por sua vez, os romanos, que haviam abandonado a velha frugalidade por um estilo de vida cada vez mais luxuoso, tornaram-se fanáticos consumidores de perfumes, incenso, temperos e condimentos que, convenhamos, faziam a vida mais agradável e, nos dois últimos casos, também mais saborosa. Haveria fregueses melhores para os mercadores árabes? 
Contudo, em se tratando de balança comercial, o intercâmbio com a Arábia era, de acordo com Plínio, o Velho (¹), bastante desfavorável aos romanos: "[Povos árabes]  são a gente mais rica do mundo, pois acumulam para si o que recebem de Roma e Pártia, vendendo-lhes o que trazem dos mares e florestas, ao mesmo tempo que nada compram." (²) 
Sedentos por tudo que era extravagante, os romanos estavam dispostos a pagar o que os mercadores de especiarias pediam. Estrabão (³), de origem grega, mas vivendo entre romanos, explicou que só uma parte da região a que os romanos chamavam Arábia era produtora de especiarias aromáticas, de modo que tais mercadorias eram raras e, por essa razão, dispendiosas. À parte disso, também foi enfático em assegurar que árabes levavam vantagem no comércio com o mundo greco-romano. "Na atualidade os árabes são prósperos devido ao volume do comércio que realizam", disse ele, lembrando, ainda, a simplicidade do empreendimento como fator de lucro: "Basta um mercador ou condutor de camelos para fazer comércio de especiarias"(⁴) .
Malgrado as palavras de Estrabão, havia complexidade no trabalho dos mercadores (⁵). Era preciso dominar as rotas de comércio, correr todos os riscos inerentes a esse gênero de negócio e fazer viagens longas e cansativas, atravessando áreas desertas e, em geral, perigosas. O preço final dos artigos finos que vendiam era influenciado por todos esses fatores, bem como pela certeza de que, na conclusão de cada viagem, haveria disputa acirrada por tudo o que levavam para vender. Não haveria necessidade de ir em busca de fregueses.

(1) 23 - 79 d.C.
(1) História Natural, Livro VI.
Os trechos citados da História Natural de Plínio e da Geografia de Estrabão foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) c. 63 a.C. - 24 d.C.
(4) Geografia, Livro I.
(5) Nem todos os mercadores que negociavam com os romanos eram árabes; também é fato que nem todas as mercadorias que levavam eram provenientes da Arábia, já que havia artigos vindos de regiões mais distantes - da Índia, por exemplo -, e de muitos outros lugares.


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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Perfumes famosos e apreciados de antigamente

Embora não se possa ter certeza de quando, exatamente, começaram a ser usadas, sabe-se que os povos antigos amavam as substâncias aromáticas. Dá conta disso a legendária imagem das caravanas de camelos que circulavam pelo Oriente carregadas de especiarias para o comércio, o que não significa que apenas os orientais se interessassem por elas. É certo que não.
No Egito fazia-se largo emprego de substâncias aromáticas nos rituais associados à preparação dos mortos para o sepultamento; a região do Nilo constituía-se, por isso, em um mercado expressivo para mercadores que traziam uma vasta gama de substâncias, dentre as quais se destacava a mirra, em virtude de estar associada à ideia da ressurreição. Entretanto, o uso de aromas não estava vinculado apenas aos ritos religiosos ou funerários: quer de origem vegetal, quer animal, diferentes substâncias já eram combinadas para a produção de perfumes, cuja finalidade, além do aspecto cosmético, era simplesmente proporcionar prazer a quem os usava, pelo emanar de um odor considerado agradável. Esse último uso seria, pelos séculos afora, largamente difundido, e é, em grande parte, o que move até hoje a indústria de perfumes, em âmbito mundial.
Nos rituais dos hebreus os aromas tinham também lugar importante. Havia incenso e também óleo perfumado cujo destino era de caráter estritamente religioso. Designando as substâncias neles incluídas pelos nomes usuais na atualidade, devemos citar o azeite de oliva, a mirra, a canela do Ceilão e da China e o cálamo.
Para os gregos da Antiguidade, o aroma do
tomilho 
era capaz de infundir coragem
em quem devia ir 
à guerra
Já para quem acha que tomilho é apenas parte do trio de especiarias que constitui o mais perfeito tempero para pizzas, vale destacar que os gregos tinham, sobre o seu uso, outras ideias. O tomilho era por eles empregado para friccionar o corpo dos soldados antes das batalhas. A razão? Considerava-se que tinha a capacidade de energizar quem o usava, conferindo, por seu aroma, mais coragem e combatividade.
Ora, isso aponta para o fato de que já se compreendia, empiricamente, que diferentes aromas podiam ter propriedades terapêuticas, produzindo, alguns, uma sensação de calma e relaxamento, enquanto outros eram estimulantes. Entre os gregos, bem como entre outros povos, as substâncias aromáticas tinham também uso medicinal, como o revelam obras deixadas pelos mestres da medicina do passado, embora, nesse caso, seja necessário admitir que alguns usos podiam ser verdadeiramente desastrosos.
Na Europa a perfumaria viria a ganhar um enorme impulso a partir das Cruzadas, isso porque o contato com o vasto conhecimento dos árabes em assuntos relacionados à preparação de diversas substâncias foi decisivo para que, gradualmente, a química, como ciência, rompesse com a superstição. Uma composição aromática muito apreciada, pelas alturas do Renascimento, que poderia ser chamada de "perfume", como nós o entendemos, levava, entre outros itens, óleos essenciais de alfazema, rosas, bergamota e cravo.
O aperfeiçoamento da destilação, processo investigado desde fins dos tempos antigos e (re)aprendido através dos árabes, abriu as portas para uma verdadeira revolução na arte dos perfumes. Inicialmente produzidos em pequena escala, iriam, a partir do século XVIII, constituir-se em marcas famosas, algumas das quais subsistem até nossos dias.


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