Mostrando postagens com marcador Especiarias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Especiarias. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Por que especiarias do Oriente deveriam ser cultivadas no Brasil

Houve tempo em que o governo português proibiu a exportação para o Reino de especiarias do Oriente que fossem cultivadas no Brasil. O próprio cultivo chegou a ser (inutilmente) proibido. Para não prejudicar os interesses dos que investiam na navegação para as "Índias", era mais fácil proibir, ou fazer constar que era proibido. 
Passaram-se os anos e as conquistas lusitanas no Oriente foram minguando. Havia mais gente na Europa interessada nesse negócio. É verdade, também, que no
Século XVII tanta especiaria chegava ao Reino, que os preços já não eram tão compensadores, até porque a viagem para trazê-las era muito longa. Que fazer?
O padre Antônio Vieira (¹) teve uma ideia, que contrariava as antigas ordens reais:
"[...] aconselhou a El-Rei mandasse passar ao Brasil as plantas do Oriente, porque se davam e produziam mui bem nas terras da América, onde já se viam árvores de canela e algumas de pimenta, e raiz de gengibre, trazidas da Ásia; e a continuar esta cultura, teríamos em mais vizinhas conquistas e próprio nosso, o que comprávamos por nossa voluntária inércia e pecados aos holandeses. [...]" (²)
Dissecando o argumento:
  • O Brasil era menos distante que as regiões produtoras do Oriente;
  • O Brasil ainda era terra de Portugal, e não seria preciso comprar especiarias de estrangeiros;
  • A maioria das ervas aromáticas e especiarias orientais produzia admiravelmente no Brasil.
Portanto, por que proibir?  Melhor seria deixar livre seu cultivo, para os da terra e para a exportação. Funcionou. O cultivo deu tão certo que algumas plantas se tornaram, até hoje, uma verdadeira praga - gengibre, por exemplo, que quem planta precisa viver arrancando, não seja o caso de andar pisando sobre tudo o que cresce sob a terra. 

(1) 1608 - 1697.
(2) BARROS, André de S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, p. 644.


Veja também:

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O que eram as "drogas do sertão"

É bom começar explicando o que eram as chamadas "drogas do sertão": plantas às quais se atribuíam propriedades medicinais, ou utilidade como corantes, ou em perfumaria, ou ainda como condimento, e que podiam ser encontradas nas matas do Brasil. Em tempos em que a indústria química e farmacêutica, como a conhecemos, ainda estava longe de existir, esses artigos eram considerados muito valiosos, e constituíam-se em um ramo de negócios interessante para uso na própria colônia, bem como para exportação. 
A lista de drogas do sertão é quase infinita. Veremos uns poucos exemplos, para aclarar o assunto. O jesuíta André de Barros, escrevendo no Século XVII, afirmou: 
"nasce por aqueles matos salsaparrilha, a decantada quinaquina, baunilha, que em compridas e sucosas vagens é fruto de todas as aves e bichos apetecido, escapando pouco para os homens. Também se acha abutua, e a casca chamada preciosa. [...] São algumas árvores aromáticas ou balsâmicas, brotando de si preciosos óleos, como o de copaíba em abundância. [...]" (¹).
Também os Diálogos das Grandezas do Brasil (²), escritos no começo do Século XVII, fazem referência às drogas do sertão, especificamente no Diálogo Quarto, em que Brandônio diz:
"[...] também se acham [...] maravilhosas drogas, como são pimentas de muitas sortes e castas, grandes e pequenas, e ainda de outras que são doces no sabor; gengibre (³), o qual produz a terra em abundância [...]; outro fruto que se apanha de uma árvore chamada envira, de que usam muitas pessoas [...], por ser excelente droga, a qual usurpa para si o efeito que faz a pimenta, cravo e canela, com tingir como açafrão [...]" (⁴).
Vem, então, a resposta de Alviano:
"Drogas são essas que fariam grande proveito, quando se pusessem em uso, e se navegassem para as partes estrangeiras [...]" (⁵). 
Quando os Diálogos foram escritos, o comércio com o Oriente já vinha, há tempos, dando mostras de exaustão. A mentalidade colonial, portanto, procurava encontrar no Brasil, substitutos à altura, que despertassem interesse no mercado internacional e que, afinal, resultassem em lucro. As "drogas do sertão" formaram parte desse cenário.

(1) BARROS, André de S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, pp. 82 e 83.
(2) Autoria atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(3) Originário do Oriente, foi trazido ao Brasil por colonizadores, onde se adaptou muito bem (talvez até bem demais). 
(4) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, pp. 226.
(5) Ibid., p. 227. 


Veja também:

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Os romanos e o comércio de especiarias da Arábia

"Toda a Arábia é um paraíso de perfume muito delicado."
Heródoto, Histórias

O território que na Antiguidade recebia, genericamente, o nome de Arábia, era famoso pelos aromas preciosos. Por sua vez, os romanos, que haviam abandonado a velha frugalidade por um estilo de vida cada vez mais luxuoso, tornaram-se fanáticos consumidores de perfumes, incenso, temperos e condimentos que, convenhamos, faziam a vida mais agradável e, nos dois últimos casos, também mais saborosa. Haveria fregueses melhores para os mercadores árabes? 
Contudo, em se tratando de balança comercial, o intercâmbio com a Arábia era, de acordo com Plínio, o Velho (¹), bastante desfavorável aos romanos: "[Povos árabes]  são a gente mais rica do mundo, pois acumulam para si o que recebem de Roma e Pártia, vendendo-lhes o que trazem dos mares e florestas, ao mesmo tempo que nada compram." (²) 
Sedentos por tudo que era extravagante, os romanos estavam dispostos a pagar o que os mercadores de especiarias pediam. Estrabão (³), de origem grega, mas vivendo entre romanos, explicou que só uma parte da região a que os romanos chamavam Arábia era produtora de especiarias aromáticas, de modo que tais mercadorias eram raras e, por essa razão, dispendiosas. À parte disso, também foi enfático em assegurar que árabes levavam vantagem no comércio com o mundo greco-romano. "Na atualidade os árabes são prósperos devido ao volume do comércio que realizam", disse ele, lembrando, ainda, a simplicidade do empreendimento como fator de lucro: "Basta um mercador ou condutor de camelos para fazer comércio de especiarias"(⁴) .
Malgrado as palavras de Estrabão, havia complexidade no trabalho dos mercadores (⁵). Era preciso dominar as rotas de comércio, correr todos os riscos inerentes a esse gênero de negócio e fazer viagens longas e cansativas, atravessando áreas desertas e, em geral, perigosas. O preço final dos artigos finos que vendiam era influenciado por todos esses fatores, bem como pela certeza de que, na conclusão de cada viagem, haveria disputa acirrada por tudo o que levavam para vender. Não haveria necessidade de ir em busca de fregueses.

(1) 23 - 79 d.C.
(1) História Natural, Livro VI.
Os trechos citados da História Natural de Plínio e da Geografia de Estrabão foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) c. 63 a.C. - 24 d.C.
(4) Geografia, Livro I.
(5) Nem todos os mercadores que negociavam com os romanos eram árabes; também é fato que nem todas as mercadorias que levavam eram provenientes da Arábia, já que havia artigos vindos de regiões mais distantes - da Índia, por exemplo -, e de muitos outros lugares.


Veja também:

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Os temperos de Apício

Política e gastronomia na Roma dos Césares


É provável que muitos cozinheiros excelentes tenham vivido neste planeta antes do Século I; porém, se deixaram obras escritas, falando de seus procedimentos, elas, infelizmente, não chegaram até nós, ou pelo menos, não são conhecidas (¹). Tudo o que temos são fragmentos muito reduzidos, relativos a algumas práticas de cozinha que vigoravam na Antiguidade.
Com Apício é diferente, ainda que haja controvérsias quanto à autoria da obra que lhe é atribuída, De re coquinaria, da qual o mais correto a dizer talvez seja que ela é produto, em parte, de anotações do próprio Apício, compiladas e ampliadas posteriormente por um ou mais editores. No entanto, esse chef famoso, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, é referido por autores da época, e sua existência, inclusive como frequentador dos círculos do poder, constitui-se em um fato bem documentado. 
Para quem quiser cozinhar como Apício...
Apício foi, por algum tempo, o queridinho da corte quando o assunto era o preparo de comida sofisticada; porém, os romanos defensores das antigas e severas tradições estavam entre seus maiores críticos. Para eles, a comida excessivamente elaborada de Apício era apenas mais uma dentre as muitas frivolidades que se haviam infiltrado em Roma, destruindo o estilo de vida frugal, tão idealizado, que se supunha ter existido nos primeiros tempos da cidade. (²)
Acontece que, deixando de lado considerações políticas, parece que havia outra razão para as críticas a Apício. Não faltava quem alegasse que sua comida era notável por um exagero nos temperos. Ficava até difícil saber o que é que se estava comendo... 
Ora, para fazer justiça a esse polêmico chef da Antiguidade, nada melhor do que verificar o que consta em De re coquinaria, na suposição de que seja, como já disse, ao menos parcialmente uma obra sua. Recomendava, por exemplo, que ervas silvestres, usadas como salada e servidas cruas, podiam ser temperadas com azeite e vinagre, valendo o mesmo para as cenouras. Que há de estranho nisso?
Mas não se enganem os leitores. Para os padrões da Antiguidade, a obra é extensa, contendo receituário para uma enorme variedade de pratos. Veremos, então, uma lista com algumas das ervas aromáticas, especiarias e outros condimentos mencionados nela. Quem gostar de cozinha talvez queira ir à despensa para verificar se todos os itens estão à mão, e para poupar trabalho, a lista está em ordem alfabética:
Açafrão, aipo e sementes de aipo, alcarávia, alho, alho-poró, arruda, azeite, cardamomo, cártamo (ou açafrão-bravo), cebola, coentro, cominho, endro, funcho, gengibre, hissopo, junípero, lavanda, levístico, louro, malva, manjerona, mel, menta, mostarda, nepeta (ou erva-dos-gatos), orégano, poejo, pimenta, sal, salsa, sálvia, segurelha, tomilho, vinagre, vinho. Estão cansados, leitores? Não é para menos.
Será bom assinalar que muitos molhos e temperos levavam ainda outros itens, tais como ameixas, amêndoas, damascos, figos, pinhões, tâmaras e uvas-passas.
Notem os leitores que a lista de ervas aromáticas, especiarias e condimentos diversos contém alguns elementos que são típicos da Península Itálica ou de regiões adjacentes; outros, porém, tinham de vir de pontos mais remotos ao longo do Mediterrâneo, do norte da África, da Arábia e mesmo de lugares longínquos do Oriente. Vejam, então, que a culinária de Apício e/ou de seus contemporâneos só foi possível porque, àquela altura, o Império contava já com boas estradas, e a presença de guarnições de seu poderoso exército assegurava, ainda que à força das armas, a existência da Pax Romana. Aos mercadores era possível que as viagens ocorressem em relativa segurança, garantindo a concretização de transações comerciais bastante lucrativas. A riqueza circulava, e, com ela, iam as notícias, a cultura e os hábitos de luxo. A cozinha do chef Apício, com seus temperos e exageros, não seria possível em outras circunstâncias.

(1) Nunca se pode descartar alguma descoberta notável que ainda venha a ocorrer.
(2) Nem poderia ser diferente, se levarmos em conta que, segundo Tito Lívio, Roma não passava, em suas origens, de uma modestíssima aldeia de camponeses briguentos que, em tempos de paz, viviam ocupados em cultivar a terra e cuidar de rebanhos.


Veja também: