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quarta-feira, 27 de março de 2024

Utilidade do comércio internacional para os antigos gregos

A porção deste planeta que era perfeitamente conhecida pela maioria dos povos da Antiguidade era muito pequena. Assim, é compreensível que, para os curiosos, que queriam saber mais do mundo em que viviam, o comércio internacional oferecesse uma oportunidade muito interessante. Plutarco, ao contar os fatos que considerava relevantes na vida de Sólon (¹), o legislador ateniense, afirmou que "[...] ao tratar com pessoas de diversos povos e reinos, e ao observar os costumes e governo de outras nações, é possível, para pessoas inteligentes, obter experiência e prudência, que são virtudes mais valiosas que a riqueza proveniente do comércio." (²)
Por suposto, além do desenvolvimento dessas apreciadas virtudes políticas, o comércio internacional trazia, também, enriquecimento a quem podia se envolver nele, e Plutarco não desprezou esse fato, mostrando, também, que o intercâmbio de mercadorias era fator de sobrevivência: "Do trabalho decorrente [do comércio internacional], reinos e cidades se abastecem daquilo que precisam, e mercadorias chegam de outras regiões de onde elas são abundantes, fazendo-se provisão para que a vida se conserve" (³).
A razão que levou Plutarco a tecer essas considerações é que Sólon, durante algum tempo, se ocupou de atividades comerciais, antes de mergulhar de vez na vida pública em Atenas. O comércio marítimo era favorecido na Grécia porque seu território, cujo relevo dificultava, às vezes, as viagens terrestres, era, ao mesmo tempo, dotado de bons portos naturais, condição indispensável para o comércio internacional em larga escala na Antiguidade. 

(1) Século VI a.C.
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.  
(3) Ibid


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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Os romanos e o comércio de especiarias da Arábia

"Toda a Arábia é um paraíso de perfume muito delicado."
Heródoto, Histórias

O território que na Antiguidade recebia, genericamente, o nome de Arábia, era famoso pelos aromas preciosos. Por sua vez, os romanos, que haviam abandonado a velha frugalidade por um estilo de vida cada vez mais luxuoso, tornaram-se fanáticos consumidores de perfumes, incenso, temperos e condimentos que, convenhamos, faziam a vida mais agradável e, nos dois últimos casos, também mais saborosa. Haveria fregueses melhores para os mercadores árabes? 
Contudo, em se tratando de balança comercial, o intercâmbio com a Arábia era, de acordo com Plínio, o Velho (¹), bastante desfavorável aos romanos: "[Povos árabes]  são a gente mais rica do mundo, pois acumulam para si o que recebem de Roma e Pártia, vendendo-lhes o que trazem dos mares e florestas, ao mesmo tempo que nada compram." (²) 
Sedentos por tudo que era extravagante, os romanos estavam dispostos a pagar o que os mercadores de especiarias pediam. Estrabão (³), de origem grega, mas vivendo entre romanos, explicou que só uma parte da região a que os romanos chamavam Arábia era produtora de especiarias aromáticas, de modo que tais mercadorias eram raras e, por essa razão, dispendiosas. À parte disso, também foi enfático em assegurar que árabes levavam vantagem no comércio com o mundo greco-romano. "Na atualidade os árabes são prósperos devido ao volume do comércio que realizam", disse ele, lembrando, ainda, a simplicidade do empreendimento como fator de lucro: "Basta um mercador ou condutor de camelos para fazer comércio de especiarias"(⁴) .
Malgrado as palavras de Estrabão, havia complexidade no trabalho dos mercadores (⁵). Era preciso dominar as rotas de comércio, correr todos os riscos inerentes a esse gênero de negócio e fazer viagens longas e cansativas, atravessando áreas desertas e, em geral, perigosas. O preço final dos artigos finos que vendiam era influenciado por todos esses fatores, bem como pela certeza de que, na conclusão de cada viagem, haveria disputa acirrada por tudo o que levavam para vender. Não haveria necessidade de ir em busca de fregueses.

(1) 23 - 79 d.C.
(1) História Natural, Livro VI.
Os trechos citados da História Natural de Plínio e da Geografia de Estrabão foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) c. 63 a.C. - 24 d.C.
(4) Geografia, Livro I.
(5) Nem todos os mercadores que negociavam com os romanos eram árabes; também é fato que nem todas as mercadorias que levavam eram provenientes da Arábia, já que havia artigos vindos de regiões mais distantes - da Índia, por exemplo -, e de muitos outros lugares.


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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Para que os romanos usavam marfim

Elefantes adultos têm presas muito desenvolvidas. Infelizmente para eles, essa característica tem resultado em perseguição e extermínio. Mesmo havendo muita pressão para que o emprego do marfim, independentemente da finalidade, seja banido por completo, o tráfico ilícito persiste e o cenário internacional favorece a suposição de que será difícil erradicá-lo.
Elefantes foram muito admirados na Antiguidade. Os romanos, por exemplo, que desde a guerra contra Pirro haviam aprendido a temer esses animais, chegaram também a usá-los em combate e, não satisfeitos, passaram a incluí-los nos espetáculos realizados para entretenimento de multidões de desocupados (¹). Todavia, há registro de que em 114 a.C. o Senado tentou impedir que animais africanos fossem trazidos à Itália, sob o temor de que escapassem e saíssem do controle, criando problemas de segurança para a população - na Antiguidade, essa era uma preocupação legítima. Um tribuno da plebe, porém, logo entrou em ação para que os espetáculos de crueldade, nos quais elefantes eram protagonistas e vítimas, não fossem prejudicados. Esse incidente foi assim descrito por Plínio (²), no Livro VIII de Naturalis historia: "Um senatus consultum vetou a entrada de feras africanas na Itália, porém Cneu Aufídio, sendo tribuno da plebe, obteve em assembleia popular que essa decisão fosse revogada, permitindo-se a importação para espetáculos circenses." (³)
Contudo, havia algo mais, quanto aos elefantes, que despertava grande interesse em Roma: era o marfim proveniente das presas. Foi também Plínio quem disse: "Presas de elefantes são vendidas a preço elevado, fornecendo um belíssimo material para imagens de deuses." (⁴)

Nesta gravura do Século XVI (⁵),  vê-se a tentativa de representar um elefante - que tal, leitores?

(1) Apenas uma dentre as muitas consequências da escravização em massa de inimigos derrotados em combate.
(2) 23 d.C. - 79 d.C.
(3) PLÍNIO. Naturalis historia, Livro VIII.
(4) Ibid. Os trechos de Naturalis historia citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Riscos existentes na prática do comércio e da agricultura entre os antigos romanos

Qual seria a ocupação mais honesta e rentável para um romano da Antiguidade? O austero Marco Pórcio Catão (¹), que escreveu De agri cultura, achava que era o cultivo do solo. Demos a palavra a ele, portanto:
"O comércio, não fora os riscos que encerra, seria uma atividade tão recomendável quanto propícia ao enriquecimento; o mesmo poderia ser dito dos banqueiros, desde que honestos. Pensando nisso, nossos antepassados fizeram constar nas Leis que um ladrão estava obrigado a restituir em dobro aquilo que roubasse, enquanto que os usurários seriam condenados à restituição do quádruplo, evidenciando, assim, que, em seu julgamento, os usurários eram cidadãos piores que os ladrões. Por outro lado, sempre que pretendiam elogiar um homem, diziam-no proprietário de terras e bom agricultor [...]."
Depois de afirmar que tinha os bons comerciantes em alta conta, lamentando, porém, os riscos em que incorriam, o mesmo Catão alardeava as vantagens que supunha haver na agricultura:
"É dos labores do solo que emergem os melhores cidadãos, fisicamente vigorosos e ótimos soldados (²), resultando da agricultura um ganho honesto, absolutamente seguro e não sujeito à inveja [de quem quer que seja]." (³)
Convido os leitores a uma reflexão sobre quais seriam os riscos envolvidos no comércio em larga escala na Antiguidade. Primeiro,. comerciantes precisavam viajar muito, por terra e por mar, e as viagens, nesse tempo, podiam ser bastante perigosas. Além disso, mercadorias eventualmente se estragavam ou "desapareciam" por obra de ladrões. Talvez os potenciais compradores não se interessassem pelos artigos à venda e, no caso de Roma, incêndios em armazéns adjacentes ao porto de Ostia não eram um fenômeno desconhecido. Finalmente, havia a ameaça de piratas que, à espreita em áreas litorâneas pouco habitadas, aguardavam uma oportunidade para a captura de embarcações que iam e vinham pelo grande "lago salgado" romano em que o Mediterrâneo se tornara após a destruição de Cartago.
Contudo, também a agricultura envolvia riscos. Falta de chuva ou estiagem prolongada, um inverno demasiado rigoroso ou um verão escaldante, podiam arruinar o trabalho de uma temporada. Mas não era só: se houvesse guerra, talvez acontecesse que, por conveniência estratégica, uma fértil área de cultivo fosse transformada em campo de batalha, sem falar nas pilhagens feitas por inimigos ou na possibilidade do confisco de toda a lavoura, já pronta para a colheita, para sustento das tropas. Nessas condições, como alguém podia supor que a agricultura fosse uma atividade isenta de contratempos? E por que, afinal, Catão via nos proprietários de terra figuras tão dignas de elogios?
O motivo, meus leitores, talvez possa ser encontrado no próprio Catão, cuja vida transcorreu em uma época na qual, como resultado das conquistas militares, o luxo ia já invadindo Roma e caindo no gosto de seus outrora rústicos habitantes. Nesse cenário, Marco Pórcio Catão teimava, como político, em buscar a aprovação de leis que limitassem os gastos e obrigassem a gente abastada a viver "como nos velhos tempos", em que líderes militares romanos deixavam o arado para empunhar armas e, vitoriosos, voltavam rapidamente ao trabalho, para não prejudicar a lavoura. Era assim, idilicamente agropastoril, que Catão supunha a Roma ideal. Mas estava sem sorte: seus concidadãos tinham outras ideias, o comércio experimentava um crescimento absurdo, a agricultura perdia importância e o cultivo do solo era entregue a prisioneiros de guerra escravizados. Roma, senhora de uma parte considerável do planeta, passou, pouco a pouco, a depender das remessas de cereais que vinham de outras terras - principalmente do Egito - para sobreviver. O Século seguinte à morte de Catão se encarregou de consolidar essa nova tendência.

(1) 234 - 149 a.C.
(2) Lembrem-se, leitores: Catão foi um combatente na Segunda Guerra Púnica.