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terça-feira, 9 de abril de 2019

O que um fazendeiro romano deveria vender

A propriedade agrícola ideal, imaginada por Marco Pórcio Catão (¹) em sua obra De agri cultura, destinava-se, antes de tudo, a dar lucro. Secundariamente, devia dar lucro. Finalmente - vocês já sabem - devia dar lucro. Era para isso que um romano deveria almejar ser dono de uma fazenda. Assim, ao expor seu projeto de enriquecimento, opinou que seria bom que latifundiários vendessem tudo o que fosse, de algum modo, supérfluo, com o fim de obter dinheiro: "Observe o gado e veja o que pode ser vendido; havendo preço compensador, venda também o azeite, o vinho e o trigo excedentes, os bois velhos, as ovelhas de corte, a lã e as peles, a carroça velha, as ferramentas velhas e os escravos velhos e doentes - venda tudo, de qualquer maneira. Um fazendeiro deve ser sempre vendedor, e não comprador." (²)
Não se trata, aqui, de julgar a moralidade dessa prática, mas de constatar que, provavelmente, era usual entre os romanos, a ponto de Catão recomendá-la sem nenhum constrangimento. Não obstante, chama a atenção o tratamento dispensado aos escravos: existiam para trabalhar e, se não estivessem em condições de satisfazer a essa premissa, deveriam, sem demora, ser vendidos. Mas que expedientes adotaria o probo fazendeiro romano que queria se desfazer de bois velhos, de uma carroça imprestável ou de um escravo velho e/ou doente, para levar alguém a adquirir suas "mercadorias"?!
É notável que um tal pensamento viesse de um romano considerado verdadeiro paradigma em sua geração, e mesmo muito depois dela. Sabe-se que nem todos os integrantes da elite romana pensavam de igual modo, e houve até quem se notabilizasse por entreter amizade com escravos cultos, que apenas eram cativos formalmente. Contudo, o indivíduo apontado como modelo era Marco Pórcio Catão, cuja lógica - a de que era preciso obter dinheiro com tudo que se referisse a uma propriedade agrícola - desconhecia qualquer sentimento de compaixão.

(1) Também conhecido como "o Censor" (234 - 149 a. C.).
(2) CATÃO, Marco Pórcio. De agri cultura. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Que fazer em um dia chuvoso

Dia chuvoso na Serra da Mantiqueira
Enviei uma mensagem a várias pessoas, pedindo que mandassem sugestões quanto ao que se pode fazer em um dia de chuva, desses tão rabugentos que inviabilizam uma escapada ao ar livre. É claro que estou falando de um dia em final de semana, não em dias de trabalho, porque nesses a coisa já está definida, gostemos ou não...
Compartilho com vocês, leitores, algumas respostas que recebi. Lá vão elas:

  • Olhar a chuva cair;
  • Tomar banho de chuva;
  • Fazer bolinhos de chuva (¹);
  • Jogar bola na chuva (que coragem!);
  • Ficar em casa bordando;
  • Fazer pesquisas na Internet;
  • Ouvir música;
  • Ler um bom livro, tomando um chocolate quente (várias menções);
  • Assistir a um filme (também várias menções);
  • Aproveitar o tempo para organizar armários;
  • Convidar amigos para jogos de tabuleiro;
  • Fazer trabalhos manuais com as crianças;
  • Experimentar uma nova receita culinária.

Entendam bem: essas são sugestões das pessoas a quem consultei; não seriam, necessariamente, as minhas. Curioso é que não houve ninguém que falasse em dormir, mas eu sei que muita gente faz isso.
Suponho que Catão, o Censor, aquele exemplo acabado de austeridade romana pré-Império (²), não acharia graça nenhuma na maioria das ideias de meus amigos. Ao escrever De agri cultura, com instruções para futuros proprietários de terras, lembrou que o objetivo máximo de um fazendeiro devia ser o lucro e, por isso, era preciso aproveitar bem os dias chuvosos. Assim, nada de dar folga aos escravos: "Encontre alguma coisa para ser feita em lugar coberto em dias de chuva. Pode-se fazer limpeza, em lugar de haver ociosidade. Lembre-se de que enquanto o trabalho cessa, as despesas continuam." (³)

(1) A sugestão não veio acompanhada da receita, mas é facílimo encontrá-la na Internet.
(2) 234 - 149 a. C.
(3) CATÃO, Marco Pórcio. De agri cultura. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.



Veja também:

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Uma propriedade agrícola ideal nos velhos tempos de Roma

Como deveria ser uma propriedade agrícola ideal, por volta do Século II a.C.? A resposta pode ser encontrada nas palavras de Marco Pórcio Catão (¹), também conhecido como "o censor", em sua obra De agri cultura (²):
"Esforça-te por encontrar um lugar de clima favorável, no qual as tempestades devastadoras não sejam frequentes, e em que o solo seja bom por natureza. Tanto quanto possível, tua fazenda deverá estar no sopé de uma montanha (³), voltada para o Sul, em terreno salubre, com fartura de trabalhadores e animais, com água de boa qualidade e perto de uma cidade populosa, ou do mar, ou ainda de um rio navegável, ou nas proximidades de uma estrada movimentada." (⁴)
Pressupondo a compra de uma fazenda já estabelecida, e não de terras virgens em que tudo estivesse por fazer, este pequeno texto faz revelações interessantes sobre a vida nos velhos tempos de Roma. Vejamos:
1. Se nós, no Século XXI, estamos longe de controlar o humor das condições climáticas, muito maiores eram as preocupações daqueles que, como Catão, viviam entre os Séculos III e II a.C.; portanto, seria bom procurar um lugar em que as tempestades não fossem usuais, já que meteorologia, como hoje a entendemos, era coisa inexistente, ainda que, desde dias remotos, houvesse quem, mediante observação e estudo, tentasse encontrar alguma lógica no caos aparente que dominava as estações, a temperatura ambiente, a pluviosidade e outros fenômenos correlatos - embora o usual fosse atribuir tudo isso à boa ou má vontade dos deuses.
2. Ainda que os antigos já conhecessem métodos para melhorar o solo, o lucro viria mais rápido se a terra fosse de boa qualidade, longe de áreas pantanosas que, naqueles tempos como hoje, eram habitação de insetos transmissores de doenças. Não se sabia ainda muita coisa sobre isso, mas havia, já, a consciência de que alguns lugares favoreciam a propagação de enfermidades.
3. Povos da Antiguidade conheciam alguns equipamentos agrícolas, porém a maior parte do trabalho dependia da força muscular de homens, muitas vezes escravizados (⁵), e de animais de carga, daí a importância de adquirir uma fazenda que, de antemão, tivesse uma provisão respeitável de trabalhadores, humanos e não humanos.
4. Um suprimento confiável de água era (e continua a ser) condição necessária à agricultura. Não é surpresa, pois, que muitas comunidades da Antiguidade tenham nascido justamente nas imediações de rios.
5. Finalmente, Marco Pórcio Catão deixa claro que tinha conhecimento da necessidade de um mercado consumidor para tudo o que uma propriedade agrícola produzisse. Sua fazenda ideal era destinada a dar lucro, e não à recreação do proprietário e de sua família. Portanto, ou a produção seria vendida em alguma cidade populosa nas imediações, ou seria o caso de comprar terras que permitissem escoar o que se produzia através dos meios de transporte da época, fossem eles terrestres, marítimos ou fluviais, daí a menção à necessidade de estar perto do mar ou de um rio, ou talvez de uma estrada importante. Levando em conta as condições do litoral da Península Itálica, é provável que Catão considerasse a possibilidade de fazer a produção chegar, mediante navegação de cabotagem, até centros populosos não muito distantes. Não havia, na época, métodos eficientes de conservação de alimentos frescos que permitissem seu transporte para áreas remotas, daí a relevância da produção local para o abastecimento de uma comunidade.
Vejam, leitores: a análise desse breve trecho da obra de Catão deixa claro que, já em seus dias, havia uma variedade de fatores envolvidos na aquisição de terras para a lavoura. A sociedade romana, com as correspondentes exigências econômicas, estava a tornar-se mais e mais complexa, e isso requeria de qualquer candidato a fazendeiro alguns conhecimentos que poderiam fazer a diferença entre o fracasso e o sucesso de um empreendimento. Foi nesse sentido que Catão julgou ser útil a Roma, registrando seus conselhos de forma escrita.

(1) 234 - 149 a.C.
(2) Também conhecida como De re Rustica. Preferi, aqui, De agri cultura, para evitar confusão com a obra posterior de Columela (Século I).
(3) Se Catão houvesse vivido uns dois séculos mais tarde, talvez acrescentasse uma observação no sentido de evitar a proximidade de vulcões, a despeito das aparentes vantagens que tal localização pudesse oferecer.
(4) O trecho citado de De agri cultura foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) O afluxo de prisioneiros de guerra, em consequência do sucesso de Roma nas campanhas militares, tornou habitual o emprego de mão de obra escrava; Marco Pórcio Catão foi um contemporâneo desse fenômeno. 


Veja também:

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Riscos existentes na prática do comércio e da agricultura entre os antigos romanos

Qual seria a ocupação mais honesta e rentável para um romano da Antiguidade? O austero Marco Pórcio Catão (¹), que escreveu De agri cultura, achava que era o cultivo do solo. Demos a palavra a ele, portanto:
"O comércio, não fora os riscos que encerra, seria uma atividade tão recomendável quanto propícia ao enriquecimento; o mesmo poderia ser dito dos banqueiros, desde que honestos. Pensando nisso, nossos antepassados fizeram constar nas Leis que um ladrão estava obrigado a restituir em dobro aquilo que roubasse, enquanto que os usurários seriam condenados à restituição do quádruplo, evidenciando, assim, que, em seu julgamento, os usurários eram cidadãos piores que os ladrões. Por outro lado, sempre que pretendiam elogiar um homem, diziam-no proprietário de terras e bom agricultor [...]."
Depois de afirmar que tinha os bons comerciantes em alta conta, lamentando, porém, os riscos em que incorriam, o mesmo Catão alardeava as vantagens que supunha haver na agricultura:
"É dos labores do solo que emergem os melhores cidadãos, fisicamente vigorosos e ótimos soldados (²), resultando da agricultura um ganho honesto, absolutamente seguro e não sujeito à inveja [de quem quer que seja]." (³)
Convido os leitores a uma reflexão sobre quais seriam os riscos envolvidos no comércio em larga escala na Antiguidade. Primeiro,. comerciantes precisavam viajar muito, por terra e por mar, e as viagens, nesse tempo, podiam ser bastante perigosas. Além disso, mercadorias eventualmente se estragavam ou "desapareciam" por obra de ladrões. Talvez os potenciais compradores não se interessassem pelos artigos à venda e, no caso de Roma, incêndios em armazéns adjacentes ao porto de Ostia não eram um fenômeno desconhecido. Finalmente, havia a ameaça de piratas que, à espreita em áreas litorâneas pouco habitadas, aguardavam uma oportunidade para a captura de embarcações que iam e vinham pelo grande "lago salgado" romano em que o Mediterrâneo se tornara após a destruição de Cartago.
Contudo, também a agricultura envolvia riscos. Falta de chuva ou estiagem prolongada, um inverno demasiado rigoroso ou um verão escaldante, podiam arruinar o trabalho de uma temporada. Mas não era só: se houvesse guerra, talvez acontecesse que, por conveniência estratégica, uma fértil área de cultivo fosse transformada em campo de batalha, sem falar nas pilhagens feitas por inimigos ou na possibilidade do confisco de toda a lavoura, já pronta para a colheita, para sustento das tropas. Nessas condições, como alguém podia supor que a agricultura fosse uma atividade isenta de contratempos? E por que, afinal, Catão via nos proprietários de terra figuras tão dignas de elogios?
O motivo, meus leitores, talvez possa ser encontrado no próprio Catão, cuja vida transcorreu em uma época na qual, como resultado das conquistas militares, o luxo ia já invadindo Roma e caindo no gosto de seus outrora rústicos habitantes. Nesse cenário, Marco Pórcio Catão teimava, como político, em buscar a aprovação de leis que limitassem os gastos e obrigassem a gente abastada a viver "como nos velhos tempos", em que líderes militares romanos deixavam o arado para empunhar armas e, vitoriosos, voltavam rapidamente ao trabalho, para não prejudicar a lavoura. Era assim, idilicamente agropastoril, que Catão supunha a Roma ideal. Mas estava sem sorte: seus concidadãos tinham outras ideias, o comércio experimentava um crescimento absurdo, a agricultura perdia importância e o cultivo do solo era entregue a prisioneiros de guerra escravizados. Roma, senhora de uma parte considerável do planeta, passou, pouco a pouco, a depender das remessas de cereais que vinham de outras terras - principalmente do Egito - para sobreviver. O Século seguinte à morte de Catão se encarregou de consolidar essa nova tendência.

(1) 234 - 149 a.C.
(2) Lembrem-se, leitores: Catão foi um combatente na Segunda Guerra Púnica.