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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Por que especiarias do Oriente deveriam ser cultivadas no Brasil

Houve tempo em que o governo português proibiu a exportação para o Reino de especiarias do Oriente que fossem cultivadas no Brasil. O próprio cultivo chegou a ser (inutilmente) proibido. Para não prejudicar os interesses dos que investiam na navegação para as "Índias", era mais fácil proibir, ou fazer constar que era proibido. 
Passaram-se os anos e as conquistas lusitanas no Oriente foram minguando. Havia mais gente na Europa interessada nesse negócio. É verdade, também, que no
Século XVII tanta especiaria chegava ao Reino, que os preços já não eram tão compensadores, até porque a viagem para trazê-las era muito longa. Que fazer?
O padre Antônio Vieira (¹) teve uma ideia, que contrariava as antigas ordens reais:
"[...] aconselhou a El-Rei mandasse passar ao Brasil as plantas do Oriente, porque se davam e produziam mui bem nas terras da América, onde já se viam árvores de canela e algumas de pimenta, e raiz de gengibre, trazidas da Ásia; e a continuar esta cultura, teríamos em mais vizinhas conquistas e próprio nosso, o que comprávamos por nossa voluntária inércia e pecados aos holandeses. [...]" (²)
Dissecando o argumento:
  • O Brasil era menos distante que as regiões produtoras do Oriente;
  • O Brasil ainda era terra de Portugal, e não seria preciso comprar especiarias de estrangeiros;
  • A maioria das ervas aromáticas e especiarias orientais produzia admiravelmente no Brasil.
Portanto, por que proibir?  Melhor seria deixar livre seu cultivo, para os da terra e para a exportação. Funcionou. O cultivo deu tão certo que algumas plantas se tornaram, até hoje, uma verdadeira praga - gengibre, por exemplo, que quem planta precisa viver arrancando, não seja o caso de andar pisando sobre tudo o que cresce sob a terra. 

(1) 1608 - 1697.
(2) BARROS, André de S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, p. 644.


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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Crianças notáveis

"O menino é pai do homem", escreveu Machado de Assis. (¹). Será, mesmo? 
A maioria dos cronistas do passado não ousaria discordar, tal era, entre eles, a obsessão em encontrar, na infância de grandes personagens, acontecimentos que prenunciavam, para bem e/ou para mal, a suposta grandeza que viriam a manifestar quando adultos. Rômulo e Remo, todo mundo sabe, teriam sido amamentados por uma loba; tolice que seja, houve quem afirmasse que Ciro, rei da Pérsia, tivera uma cachorra como ama; da rainha Semíramis, da Mesopotâmia, dizia-se que fora alimentada por pombas, até que, sendo encontrada por um pastor, fora criada em sua família, e quanto a Gilgamés, o herói do famoso épico também da Mesopotâmia, teria sido jogado do alto de uma torre logo que nasceu, para que não cumprisse a profecia de que tomaria o trono de seu avô. Contudo, segundo a lenda, foi salvo por uma águia que o segurou firmemente antes que chegasse ao chão e, levado a um belo jardim, foi criado por um camponês (²). Oh!!!
Não só do sobrenatural se alimentavam os biógrafos. Buscava-se na infância dos grandes aqueles episódios não de todo impossíveis, que prenunciassem eventos futuros. Falando de Catilina, o da famosa conjuração, Salústio afirmou: "Lúcio Catilina, de nobre nascimento, era forte de alma e corpo, porém de índole má e depravada. Desde a adolescência gostava de brigas, assassinatos, pilhagens e discórdias civis" (³). Neste caso, a má índole juvenil seria explicação para a tentativa de tomada violenta do poder em Roma, subvertendo a autoridade senatorial. Numa Pompílio, o segundo dentre os reis lendários de Roma, teria nascido no mesmo dia da fundação da cidade (⁴), um claro indício da glória a que era destinado. Parece que ninguém se lembrou de que outros podem ter nascido no mesmo dia, mas nunca chegaram à realeza em Roma.
Bem mais perto de nós, no Século XVIII, o padre André de Barros, biógrafo de Antônio Vieira, jesuíta como ele, contou, procurando ilustrar as espertezas do menino que, quando homem feito, seria hábil no manejo das palavras, quer faladas, quer escritas:
"Nos tenros anos da puerícia [...] reluziam nele algumas vivezas, que como faíscas rebentavam de alguma interna mina de fogo e de luz. Vendo-o um cônego no adro daquela antiga sé lhe disse: De quem sois, meu menino? Respondeu-lhe: Sou de V. m. (⁵) pois me chama seu. Refere-se mais, que perguntando-lhe outra pessoa, donde era, lhe respondera: V. m não me conhece. Eu (tornou o curioso) conheço a metade do mundo. Pois eu, senhor (respondeu o menino), sou da outra metade. Esta a fama, que depois de tantos anos não pôde ser averiguada; mas ficou na memória dos homens, como aquele rastro de luz, que deixa a estrela, que vai correndo." (⁶)
Fatos, em alguns casos, lendas piedosas (ou nem tanto) em outros, narrativas encomendadas, exageradas e, eventualmente, muito bem-pagas, ocupavam o tempo e justificavam a existência nos palácios e templos de criaturas capazes de escrever - escribas e cronistas - e, por isso mesmo, responsáveis pelos registros que garantiram que a grandeza atribuída aos notáveis de seu tempo atravessasse os séculos e chegasse aos nossos dias. Para nossa diversão, é claro, conforme vocês acabaram de ver.

(1) ASSIS, Joaquim M. Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas.
(2) Chegam a ser desconcertantes as semelhanças, não na superfície, mas na essência, que podem ser encontradas nessas histórias. Não se pode descartar por completo um elemento de totemismo nos mitos, devido à presença de animais "protetores" que salvavam bebês humanos predestinados a grandes feitos.
(3) Catilinae coniuratio.  O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Cf. PLUTARCO, Vitae parallelae
(5) V. m.: vossa mercê.
(6) BARROS, André de S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, p. 5.


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segunda-feira, 1 de julho de 2024

Tempo para os deveres religiosos dos missionários que iam ao sertão

Relógios de pulso são coisa relativamente recente na história da humanidade. Mesmo relógios com ponteiros para minutos não contam mais que alguns séculos. Por muito tempo, já era moderno o bastante, na torre de uma igreja ou na sede da administração municipal, ter um relógio capaz de marcar as horas. Afinal, a urgência na contagem do tempo é coisa que caminha ao lado do desenvolvimento tecnológico e, por consequência, da aceleração no ritmo das atividades humanas.
No Brasil, missionários jesuítas adaptavam sua rotina às necessidades da catequese de indígenas, embora os que viviam nos colégios conservassem a rotina prevista na regra da Ordem. Precisavam, contudo, ter algum tipo de relógio quando, indo ao sertão em suas missões, ainda assim cumpriam seus deveres religiosos. Por informação do padre André de Barros, sabemos qual o procedimento adotado pelo também jesuíta padre Antônio Vieira (¹), nas ocasiões em que ele e outros missionários estavam longe dos respectivos colégios:
"Ainda nas missões, ou caminhando, ou navegando só com os índios, aos tempos determinados para a oração e exames, tocava ele [Antônio Vieira] a campainha, que sempre levava, e relógio de areia para medir o tempo; e como se estivesse nos colégios, observava a obediência e regularidade deles." (²)
Um relógio de areia não seria muito útil para nós, hoje, a não ser como decoração. Mas bastava para os padrões do Século XVII, e dificilmente deixaria de funcionar, daí porque ainda era o preferido de muita gente.  

(1) 1608 - 1697. 
(2) BARROS, André de, S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira. Lisboa: Officina Sylviana, 1746, p. 592.


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Sem roupas novas para o Natal

Argumentos usados no Século XVII para justificar a escravização de indígenas


Padre Antônio Vieira (²)
Quando se tratava de encontrar argumentos que justificassem a escravização de indígenas, parece que a criatividade da elite colonial quase não conhecia limites. Veremos aqui, especificamente, o que acontecia no chamado Estado do Maranhão e Grão-Pará que, durante algum tempo, teve governo separado do Estado do Brasil.
Suponho, contudo, que entre os leitores possa logo surgir a seguinte questão: a quem a elite colonial dirigia argumentos para obter autorização para o "descimento de gentio", eufemismo que, ao fim e ao cabo, significava simplesmente escravização? No Século XVII, monarcas portugueses, talvez até com boas intenções, vinham proibindo a escravização dos nativos da América, admitindo, porém, algumas exceções, e era nisso que consistia o problema. Seria permitida a "guerra justa" contra indígenas que atacassem fazendas e povoações de colonizadores, bem como daqueles que recusassem a catequese. Portanto, no caso específico do Maranhão e do Pará, seria necessário que o governador, que em nome do rei exercia o mando, autorizasse uma expedição de apresamento (¹). Admite-se que, às vezes, os próprios governadores tinham interesse nessas expedições de escravização, não hesitando em alocar recursos públicos para tanto, além de providenciar uma justificativa considerada plausível para que indígenas fossem atacados, tivessem suas aldeias incendiadas e, quanto aos sobreviventes, fossem, acorrentados, trazidos às povoações, para distribuição entre os interessados. 
Mas havia outro obstáculo. Os missionários jesuítas insistiam em ter o controle sobre a catequese de indígenas e, por isso, eram opositores severos à sua escravização. Daí resultava o ódio que parte da população colonial votava aos "padres da Companhia", e que, em não poucos casos, resultou até em violência explícita. Dentre os religiosos que se destacaram na oposição ao cativeiro de ameríndios estava o padre Antônio Vieira (³), a quem os moradores de Belém do Pará, no ano de 1661, dirigiram uma carta, na qual, entre outros, apresentavam os seguintes argumentos para justificar a alegada necessidade de escravizar indígenas:

1. Colonizadores e suas famílias não podiam viver sem escravos
 "Representa a Câmara desta Cidade de Belém, Capitania do Grão-Pará, que serve este presente ano de 1661, ao M. Reverendo Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, Visitador Geral das missões deste Estado, as grandes necessidades que padecem estes povos, causadas da limitação em que vivem, de alguns anos a esta parte, por muita falta que têm de escravos com que se sirvam, sendo impossível o viverem sem eles [sic]." (⁴)
2. Moradores precisavam de escravos para o trabalho de remeiros
"[...] Está este povo  e os moradores dele em estado o mais miserável que se pode considerar, razão por que alguns homens nobres, conquistadores e povoadores, que derramaram o seu sangue e têm gastado a sua vida em serviço de Sua Majestade, e ajudaram a conquistar esta Conquista, não trazem seus filhos e família a esta cidade, por não terem remeiros que lhes comboiem canoas para virem, sendo coisa infalível e certa ser a navegação por mar, a qual se não pode conseguir sem escravos [...]." (⁵)
3. Moradores de Belém não tinham quem realizasse tarefas domésticas
"[...] muitos vivem nesta cidade, que não têm quem lhes vá buscar um feixe de lenha, nem um pote de água; e assim que estão perecendo muitos, por não terem com quem lavrarem suas fazendas, para comprar o que lhes é necessário, tudo procedido da falta de escravos, havendo tantos em muitos sertões [sic!!!] em quantidade [...]." (⁶)
4. A pobreza em que os colonizadores viviam era tanta, que nem mesmo tinham roupas novas para a missa do Natal
"[...] esta festa passada do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, não vieram a esta cidade as famílias de alguns homens nobres, por causa de suas filhas donzelas não terem o que vestir para irem ouvir missa, nem seus pais possuem cabedal para o comprarem, e tudo procedido de não resgatarem escravos [...]." (⁷)
Pobre (e hipócrita) religiosidade dos que se pretendiam tão nobres! Toda gente, ou quase toda ela, se achava, de algum modo, com direitos de fidalguia. Por que iria, então, suar em qualquer trabalho que pusesse em risco a pretendida nobreza? Ao que parece, moradores não reconheciam (ou não queriam reconhecer) que seu modo de vida é que os tornava, em tudo, dependentes do trabalho dos escravizados, coisa que, também, em certo sentido, não deixava de ser um tipo de escravidão, na qual, deliberadamente, haviam se metido. Note-se, porém, que, se a ideia era provocar lágrimas no padre Vieira, em virtude da alegada penúria em que viviam os escravizadores, convencendo-o a apoiar as expedições de captura de indígenas, a carta foi um fracasso absoluto.
 
(1) A situação era diferente em São Paulo, de onde, por muito tempo, partiram expedições de apresamento de indígenas. O governo português estava longe e, na prática, era apenas formalmente reconhecido. Até mesmo camaristas de São Paulo, que alegavam em documentos oficiais sua oposição às levas de bandeirantes escravizadores de ameríndios, acabavam, em não poucos casos, se juntando a eles e indo passar meses no sertão. Os jesuítas faziam ameaças, sugerindo até que fariam vir a Inquisição, pobre argumento quando se considera a dificuldade de acesso a São Paulo que havia pelo escabroso Caminho do Mar. Quando teimaram na defesa dos indígenas, jesuítas foram expulsos de São Paulo e só muito tempo depois readmitidos, sob a condição de que não dariam palpites em assuntos seculares.
(2) Cf. BARROS, André de, S. J. Vida do Apostólico Padre Antônio Vieira. Lisboa: Officina Sylviana, 1746.
(3) Sim, aquele mesmo dos famosos "Sermões" que vocês, leitores, devem ter estudado em suas aulas de Literatura.
(4) Cf. BERREDO, Bernardo Pereira de. Anais Históricos do Estado do Maranhão, Livro XIV. Lisboa: Officina de Francisco Luiz Ameno, 1749, p. 448.
(5) Ibid., p. 449.
(6) Ibid. 
(7) Ibid.


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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Por que jabutis eram considerados peixes no Brasil Colonial

Nos tempos coloniais, prescrições religiosas obrigavam à abstinência de carne em um número elevado de dias. Como as regras de jejum eram severamente observadas (ao menos nas aparências), era usual, havendo peixe, que esse servisse como alimento. Vegetais eram permitidos, mas, em muitos lugares, o principal alimento nos "dias de peixe" era a farinha de mandioca.
Contudo, em algumas áreas, uma saída engenhosa foi encontrada para contornar a regra da abstinência de carne. O jesuíta José de Moraes, que escreveu a História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará, publicada originalmente em 1759, explicou, citando um relato do padre Antônio Vieira (¹), também jesuíta:
"Nascem estes jabutis e vivem sempre na terra, sem nunca entrarem no mar, nem nos rios, e contudo estão julgados por peixe, e como tais se comem nos dias em que se proíbe a carne, por se ter averiguado que têm o sangue frio. [...]." (²)
De fato, jabutis são pecilotérmicos. Daí a se tornarem peixes, vai uma grande distância. Fundamentos de zoologia, porém, não estavam em questão, quando o assunto era burlar a abstinência de carne. Lamentável para os jabutis, é claro.

(1) Famoso por seus sermões, Vieira é conhecido dos estudantes brasileiros que têm contato com sua obra nas aulas de Literatura (espero que ainda seja assim!).
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 460.


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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Gente que não trabalhava para não perder a nobreza

Acontecia no Brasil Colonial, acontecia na América Espanhola: todo mundo que se dizia nobre, por ser, de fato, ou por se achar assim, fugia desesperadamente do trabalho, para não perder a (suposta) nobreza. A coisa era tão absurda, que havia quem preferisse passar fome, às escondidas, a assumir uma ocupação manual. As aparências valiam mais. 
Talvez os leitores considerem isso uma insanidade. Alguns testemunhos da época serão suficientes, espero, para convencê-los de quão autêntica era essa horrorosa situação. 
Primeiro, no Brasil, e, mais especificamente, em São Luís - MA. São palavras do padre Antônio Vieira, em carta dirigida ao provincial jesuíta, com data de 22 de maio de 1653: "Na portaria [do Colégio Jesuíta] não damos a esmola ordinária, porque não há nesta cidade pobres que peçam de porta em porta." (¹) Excelente, não? Vejam o que vem a seguir:
"[...] Para socorrermos no que pudéssemos às pobrezas ocultas, e lhes buscarmos algumas esmolas, pedimos ao pároco nos desse uma lista das pessoas necessitadas, mas não teve efeito esta diligência, porque mais fácil é padecerem a pobreza que confessá-la.
Contudo nos confessionários, à volta de outras fraquezas, se manifestam também estas, e por esta via socorremos algumas necessidades, em que tanto se acudiu aos corpos como às almas." (²)
Não se imagine que enxergar o trabalho como um aviltamento da dignidade dos homens livres foi fenômeno restrito aos tempos coloniais. Vejam o que disse um autor abolicionista, Frederico L. César Burlamaqui, em obra publicada durante o Período Regencial, em que ressaltou o papel do escravismo em levar a sociedade a olhar para o trabalho como uma humilhação:
"Entre nós um homem cessa de trabalhar logo que consegue comprar um ou dois escravos. Não somente os trabalhos são desprezados pelas classes abastadas, como mesmo o mais simples artista só exerce o seu ofício pelas mãos de seus escravos, se os possui. Não se pense que isto só tem lugar a respeito da raça livre [sic], nascida no país; tal é o contágio e a força do exemplo, que um europeu [...], fosse ele um malfeitor ou exercesse no seu país a mais ignóbil profissão, logo que possui escravos, crê imediatamente que trabalhando por suas mãos, vilipendia a sua nobreza, e teme o desprezo." (³)
Não há tempo para estarrecimento. Passemos à América espanhola.
O padre Antonio Ruiz de Montoya, fervoroso defensor dos povos indígenas, observou, em relação aos colonizadores qualificados em ofícios mecânicos que viviam no Paraguai no Século XVII:
"[...] Há oficiais de todos os ofícios mecânicos e deles usam, mas ninguém se diz oficial, por terem aprendido a profissão para usarem-na em casa, e, mesmo que um sapateiro faça sapatos publicamente, não quer ser considerado sapateiro, alegando que por inteligência própria alcançou essa habilidade, querendo com tal metafísica [sic], de um lado socorrer à necessidade, e, por outro, conservar a nobreza que herdou de seus antepassados, que toda foi gente nobre." (⁴)
Vejam, meus leitores, que Montoya tinha senso de humor. Vamos em frente, com o que disse Félix de Azara, espanhol que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, liderando uma comissão enviada para demarcar limites entre terras pertencentes a Portugal e à Espanha: 
"[...] o espírito cavalheiresco, que desdenha e mesmo despreza toda espécie de trabalho, a falta de instrução, a nulidade dos governadores e a inacreditável imperfeição dos instrumentos contribuem para tornar quase impossível toda espécie de melhora." (⁵)
Depois, o mesmo Azara ainda observaria, a respeito dos filhos de espanhóis que nasciam na América:
"Apenas são nascidos ditos espanhóis, são entregues a amas de leite [...], que cuidam deles ordinariamente até a idade de seis ou mais anos. Durante todo este tempo, o menino nada pode ver que mereça ser imitado. Agregue-se a isto um mau princípio recebido [...] com maior força que na Espanha, isto é, que a nobreza e a generosidade consistem em destruir e não em produzir alguma coisa; a repugnância ao trabalho, que é mais forte na América que em qualquer outro lugar, é maior nos meninos na situação mencionada. Convencidos de tais princípios [...], mesmo os filhos de um simples marinheiro desdenham toda espécie de trabalho e creem que se rebaixam em seguir a profissão de seus pais [...], e muitos não gostam do comércio, que consideram demasiado penoso. [...]" (⁶)
O escravismo colonial, e mesmo o posterior (no caso do Brasil), favoreceu o desprezo pelo trabalho. Isso é um fato. Suas consequências - um pouco de observação bastará - persistem, em parte, até hoje.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 329.
(2)  Ibid.
(3) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César. Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica. Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 24.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 91.
(6) Ibid., p. 275. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Como indígenas se referiam ao rei de Portugal

Uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira em 1653 e transcrita pelo padre José de Moraes na História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (¹) traz uma revelação surpreendente quanto ao modo como indígenas se referiam ao rei de Portugal. O destinatário era o provincial jesuíta do Brasil, e o assunto principal, uma expedição da qual Vieira e outros inacianos haviam participado, percorrendo o rio Tocantins, com a finalidade, assim pensavam eles, de fazer contato com nativos para a catequese. Colonizadores que os acompanhavam tinham, porém, outros planos, porque viam nessa viagem uma oportunidade excelente para a captura e escravização de indígenas.
Por esse tempo, já eram corridos mais de cento e cinquenta anos que portugueses frequentavam o Brasil, não sendo, por essa razão, nada espantoso que indígenas que se relacionavam, de um ou outro modo, com colonizadores, tivessem conhecimento da existência de um rei em Portugal. No entanto, é possível que não entendessem muito bem a questão do poder hereditário e imaginassem que, década após década, o rei era sempre o mesmo, algo que se pode inferir das palavras de Vieira, ao relatar o encontro com parentes de líderes tribais, que, segundo o jesuíta, estavam dispostos a receber a catequese, mas nada queriam com os colonizadores (tinham razões de sobra para isso):
"[...] Em companhia deste índio vieram seis da nação a que íamos buscar, filhos e sobrinhos dos principais, com os quais e com os dois que vieram desde o Pará não temos perdido tempo, declarando-lhes a tenção de Sua Majestade, e a nossa, [...] e nos têm prometido que não hão de admitir senão o estar juntos, e ser filhos dos padres, e vassalos de El-Rei." (²)
Prossegue o padre Vieira:
"[...] Pasmei de ver, quão familiar é entre eles, este nome de rei, e quão continuamente o trazem na boca; e querendo eu saber, que conceito faziam da palavra, e o que cuidavam que era rei, responderam: Jára omanó eyma, que querem dizer: Senhor que não morre. [...]" (³)
E Vieira, ousado praticante de esgrima verbal, assim concluiu o episódio: 
"[...] Explicamos-lhes que imortal era só Deus; mas por este alto conceito que fazem estes gentios do nosso rei (⁴) mereciam ao menos, que em prêmio da imortalidade que lhe atribuem, os defendessem eficazmente de tantas violências." (⁵)

(1) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 470.
(3) Ibid.
(4) D. João IV, nessa ocasião.
(5) MORAES, José de S.J. Op. cit., p. 470.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Jacarés rondavam as canoas de uma expedição pelo Tocantins no Século XVII


Tentem imaginar, leitores, que vocês vivem em meados do Século XVII e fazem parte de uma expedição pelo rio Tocantins, em uma área quase desconhecida para os colonizadores. Sol forte, mosquitos, comida não muito farta - essas seriam algumas das dificuldades. Pois saibam que uma expedição assim de fato aconteceu, e um de seus líderes, o jesuíta Antônio Vieira, que pretendia catequizar indígenas e que, para além disso, era hábil com as palavras, fossem elas faladas ou escritas, assim narrou um episódio curioso, em uma carta destinada ao provincial de sua Ordem, que residia em Salvador:
"A tarde deste mesmo dia de São Tomé (¹) tivemos festejada com touros de água, que vimos de palanque, porque estando nós alojados em um assento sobre o rio à sombra de árvores com as canoas abicadas em terra, vieram dois crocodilos (que aqui chamam jacarés) a rondá-las por fora." (²)
Não esperem conhecimentos profundos de zoologia por parte do missionário dedicado que era Vieira. Seus notáveis talentos iam em outra direção. Continua seu relato, explicando como reagiram indígenas e colonizadores à chegada dessas visitas inesperadas:
"Não provaram neles [jacarés] os índios as suas flechas, porque já sabem que as conchas [sic] de que estão armados são impenetráveis a elas, sendo que as flechas de cana, a que chamam taquaras, não há saia de malha tão forte nem tão dobrada que lhes resista, e se são tiradas de boa mão passam uma porta de madeira rija de parte a parte. Os nossos soldados porém empregaram neles as suas espingardas, mas com mais acertado efeito que se pudera imaginar, porque a um meteram três balas na cabeça, e posto que a cada tiro mostravam sentir o golpe, saltando e mergulhando abaixo, tornavam logo a sair acima e a nadar como antes, tão alheios de fugir nem temer, que antes buscavam o lugar donde sentiam que viera a ferida. Com a quarta bala finalmente mergulhou e não apareceu mais, com que entendemos que morto se fora ao fundo." (³)
Que recepção tiveram as visitas, digo, os répteis! Nada ecológica, é certo, mas, naqueles tempos, essa não era uma grande preocupação. Vieira devia ter senso de humor: sabia que sua narrativa encheria os leitores de espanto; a carta era destinada ao provincial, mas, provavelmente, seria lida a todos os inacianos do Colégio da Bahia.

(1) 3 de julho; o ano era 1653.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 461. 
(3) Ibid., pp. 461 e 462.


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quinta-feira, 28 de março de 2019

Como era feita a conservação das embarcações que iam ao sertão

Quase todas as embarcações usadas em expedições fluviais no Brasil Colonial eram feitas de um único tronco, uma vez que árvores gigantescas ainda eram regra nas florestas. Os ameríndios eram peritos em fazer canoas mediante uma técnica que, a despeito de um tanto morosa, era compatível com as ferramentas rudimentares de que dispunham: a área da madeira que devia ser escavada era primeiro queimada e, depois, removida mediante escarificação. 
Os colonizadores portugueses trouxeram consigo conhecimentos de construção naval que não tardaram em adaptar à navegação fluvial, de modo que as longas canoas de um só tronco também foram usadas por eles (¹). Como, porém, executar a conservação de tais embarcações durante as viagens, sertão adentro? De onde viria o material necessário? Uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira no Século XVII, relatando uma expedição pelo rio Tocantins, oferece informações preciosas em resposta a estas questões:
"Os armazéns de que se tiram todos estes aprestos são os que a natureza tem prontos em qualquer parte deste rio [...], que é coisa verdadeiramente digna de dar graças à providência do Divino Criador, porque indo nesta jornada [...] em qualquer parte que chegamos achamos prevenido de tudo a pouco trabalho. A estopa se faz de cascas de árvores, sem mais indústria que despi-las. Destas mesmas ou outras semelhantes fazem os índios cordas muito fortes [...]. Os toldos se fazem de vimes, que cá chamam timbós-titica, e certas folhas largas a que chamam ubi, tão tecidos e tapados que não há nenhuns que melhor reparem do sol nem defendam da chuva, por mais grossa e continuada, e são tão leves que pouco peso fazem à embarcação." (²)
Dizia ainda Vieira:
"O breu sai da resina das árvores [...], e se breiam com ele não só as canoas, senão os navios de alto bordo [...]. As velas, se as não há ou rompem as de algodão, não se tecem mas lavram-se com grande facilidade, porque são feitas de um pau leve e delgado, que com o benefício de um cordel se serra de alto a baixo [...], e com o mesmo de que fazem as cordas, que chamam embira, amarram e vão tecendo as tiras como quem tece uma esteira [...]." (³)
Maravilhava-se o jesuíta de que, com o emprego de materiais extraídos da floresta, fosse dispensável, nas embarcações, o uso de pregos:
"Tudo isto se arma e sustenta sem um só prego [...], pois todo o pregar se supre com o atar, e o que havia de fazer o ferro fazem os vimes, a que também chamam cipós, muito fortes, com que as mesmas partes da canoa se atracam, e tudo quanto dela depende vai tão seguro e firme como se fora pregado." (⁴)
Vieira tinha razão: havia um verdadeiro armazém natural à disposição de indígenas e colonizadores que, amalgamando saberes em suas expedições sertão adentro, iam dando forma, voluntariamente ou não, à configuração territorial que o Brasil tem hoje. 

Indígenas construindo uma embarcação (⁵)

(1) Ainda que outros tipos de embarcações também estivessem em uso.
(2) Cf. MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 463.
(3) Ibid., pp. 463 e 464.
(4) Ibid.
(5) ____  Bilder-Atlas Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Por que o padre Vieira não consentia que indígenas carregassem missionários em redes

Redes, se é que assim se pode dizer, eram um meio de transporte muito comum no Brasil Colonial: dois indivíduos fortes carregavam um terceiro que ia deitado ou sentado na rede, sendo esta apoiada nos ombros dos carregadores mediante uma longa vara, à qual eram presas as extremidades da rede. Já tratei deste assunto aqui no blog.
Figuras de destaque na administração colonial raramente punham os pés no chão. Dispunham de pessoas - escravos, quase sempre - que se encarregavam de sair carregando as ilustres personalidades para onde desejassem ir. Por sua vez, qualquer indivíduo que tivesse dois ou mais escravos fazia questão de ser carregado. Era indício de respeitabilidade e posição social. As cadeirinhas de arruar somente mais tarde chegaram ao Brasil. 
Sendo tão generalizado o costume, não surpreende que até religiosos se deixassem carregar em redes. Na Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica, escrita pelo padre Fernão Cardim (¹), somos informados de que Cristóvão de Gouvêa, visitador jesuíta que percorreu colégios e missões no Brasil entre 1583 e 1590, deixou-se carregar em rede por indígenas, provavelmente entendendo que, quando ameríndios faziam isto, demonstravam respeito e consideração:
"Quis o padre [Cristóvão de Gouvêa] ver as aldeias dos índios brevemente para ter alguma notícia delas: partimos para a aldeia do Espírito Santo, sete léguas da Bahia, com alguns trinta índios, que com seus arcos e flechas vieram para acompanhar o padre, e revezados de dois em dois o levaram numa rede, os mais companheiros íamos a cavalo [...]." (²)
Nem todos os religiosos tinham a mesma atitude. A crermos no que escreveu o padre Simão de Vasconcelos em Vida do Venerável Padre José de Anchieta, o missionário canarino (³), tão afeito às viagens com vistas à catequese, nunca aceitava ser conduzido em rede:
"Jamais nestas tão frequentes missões andou a cavalo, nem ainda em rede, costume do Brasil, sempre a pé, com seu bordão na mão, e, posto que começava os caminhos calçado, em passando lugares públicos de gente, se descalçava logo, e ia a pé descalço." (⁴)
Indígenas é que andavam descalços - teria Anchieta decidido viver como eles, para mais facilmente catequizá-los? Ou teria compreendido que, para viver no Brasil, era preciso adotar o estilo de vida dos "brasis" (⁵)? Talvez quisesse economizar os sapatos, tão dispendiosos nos primeiros tempos da colonização? É provável que tudo isso tivesse lá sua parte no costume de Anchieta.
Já no Século XVII, outro missionário jesuíta iria ainda mais longe ao lidar com o tal costume vigente entre colonizadores que se faziam transportar em redes. Falo do padre Antônio Vieira, que, além de notável pregador, foi um missionário dedicado e, nesse ofício, proibiu a todos os subordinados que aceitassem ser carregados pelos índios, a não ser no caso de que algum religioso estivesse muito doente. A exceção é facilmente explicável, uma vez que naquele tempo não havia ambulâncias, nem terrestres e muito menos aéreas. De acordo com o também jesuíta José de Moraes, em História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (⁶), "estas missões [no Maranhão] pela maior parte as faziam os padres a pé, e com inexplicável trabalho, e posto que os índios, para os aliviarem do caminho, lhes ofereciam com as redes os ombros, como é costume naquelas terras, nunca quiseram aceitar a comodidade das jornadas à custa do suor dos índios [...]; porque era máxima do padre Vieira que o pastor é o que havia de carregar aos ombros as ovelhas, e não estas ao pastor, por cuja razão ordenou, e o mesmo praticava sempre consigo, que nenhum usasse de rede pelos caminhos, salvo se a necessidade ou enfermidade o pedisse". (⁷)
Entre a população em geral, o costume de se fazer carregar em uma rede desapareceu aos poucos, len-ta-men-te. Não obstante, no Século XIX ainda era possível encontrar redes para alugar no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. 

Homem de condição livre sendo transportado em rede por dois escravos,
de acordo com Debret (⁸)

(1) Fernão Cardim foi testemunha ocular dos acontecimentos que descreveu, por ter acompanhado o padre visitador em suas andanças pelo Brasil.
(2) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 13 e 14.
(3) Nascido nas Canárias em 1534, Anchieta veio ao Brasil em 1553, onde permaneceu até sua morte em 1597.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 183.
(5) Autores dos tempos coloniais referiam-se aos indígenas como "brasis".
(6) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus. É fácil, portanto, compreender o tom de defesa das missões jesuíticas que perpassa toda a obra.
(7) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 393.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A celebração do Natal durante a expedição missionária do padre Antônio Vieira em 1653

Véspera de Natal, 1653: uma expedição percorre o rio Tocantins. Para os jesuítas que dela participam, o objetivo é estabelecer contato com indígenas que pretendem catequizar. Mas vão também colonizadores, e estes têm outras ideias (¹). A data, porém, pede celebração. Mas, que fazer, em meio à floresta?
A simplicidade deu o tom, pelo que se depreende de um relato feito pelo padre Antônio Vieira, que liderava os missionários jesuítas:
"Tínhamos determinado fazer alto neste dia mais cedo que nos outros, para gastar toda a tarde em adereçar uma capela de palma, em que celebrar com mais decência os mistérios desta sagrada noite, mas não tivemos lugar para mais que de engenhar uma pequena choupana mal coberta com as toldas das canoas, aonde armamos o nosso altar. [...]." (²)
Aos missionários não ficou sequer a alegria de celebrar missa com todos reunidos. É que uma das canoas não acompanhou o ritmo das demais, conforme explicação do próprio Vieira:
"Não nos achamos juntos mais que os padres Francisco Veloso, Manoel de Sousa e eu, porque o padre Antônio Ribeiro com a sua canoa não pôde avançar tanto, e ficou em outro lugar, aonde também aportaram algumas canoas que não estavam conosco, e por esta tardança e apartamento vieram uns e outros a ter a consolação da santa missa aquela noite." (³)
Desse modo, a ocasião foi marcada pela celebração de missas e por uma refeição muito simples - quem esperaria encontrar uma autêntica ceia de Natal em meio às águas e matas ainda desconhecidas para europeus? Sigamos com as informações do padre Vieira:
"O padre Antônio Ribeiro contentou-se só com a água sem farinha, os demais [...] não tiveram mais sobre a farinha que um pouco de peixe seco, mas Deus tempera de maneira estes regalos que os não trocarão os que gostam deles pelos maiores do mundo. O trabalho tão extraordinário de todo o dia parece pedia o descanso da noite, mas toda ela se passou em vela sobre a terra nua da choupana, oferecendo cada um ao Menino nascido não só os desamparos de seu Belém, mas as saudades da devoção e concerto que esta santa noite celebra nos colégios da Companhia. À meia-noite dissemos três missas, que todos ouviram, as demais se disseram às suas horas, e no dia comungaram alguns portugueses e alguns índios." (⁴)
Entre preces e reflexões que talvez não ousassem compartilhar, missionários passaram as horas do Natal. Fatigados pela viagem, a mente inquieta pelo temor quanto às péssimas intenções de alguns integrantes da expedição, deram as boas-vindas a algum repouso. Concluindo o informe desse Natal atípico, Vieira escreveu: "Por celebridade do dia não fizemos jornada nele [...]." (5)

(1) A ideia, óbvia para quem conhece alguma coisa sobre a conduta dos colonizadores da época, era escravizar indígenas.
(2) Cf. MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 467.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Providências do padre Antônio Vieira para agilizar a catequese de indígenas no Maranhão

Vieira é conhecido dos jovens estudantes pelas aulas de Literatura, nas quais se estudam seus famosos Sermões. Mas foi também um missionário dedicado e, a seu modo, um protetor dos indígenas, de acordo com aquilo que, em seu tempo, se pensava ser o melhor para eles.
Reconhecendo que havia poucos missionários para a aventura da catequese em um território gigantesco, o padre Antônio Vieira adotou algumas medidas de ordem prática, cujo propósito era agilizar a doutrinação nas aldeias formadas por índios já catequizados e/ou catecúmenos. A ideia era simples: contar com a ajuda dos próprios ameríndios para a instrução religiosa, sempre que não fosse possível ter a presença de um jesuíta. Então, de acordo com a História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (¹), escrita pelo padre José de Moraes:
  • Todas as aldeias indígenas controladas pela Companhia de Jesus deviam ter livros para registro de batismos, casamentos e óbitos;
  • Em cada aldeia deveriam ser selecionados dois rapazes, que receberiam instrução que os capacitasse a, diariamente, dirigir orações e doutrina na igreja;
  • Alguns índios deveriam receber preparo para que, na ausência dos padres, pudessem batizar catecúmenos e prestar assistência aos que estivessem para morrer.
Observando, de passagem, o quanto Vieira se mostrava pragmático na adoção dessas medidas, cumpre explicar que, na primeira delas, atendendo a uma determinação do Concílio de Trento, o missionário pretendia assegurar que ninguém, em cada aldeia, deixasse, a seu tempo, de receber o batismo, além de, com o registro dos casamentos, impedir a poligamia e as uniões consanguíneas vetadas pela Igreja - em tal contexto, tarefas bastante difíceis. 
Digam-me, leitores, estão curiosos para saber qual foi o resultado dessa estratégia? Nas palavras do padre José de Moraes, "exercitaram eles [os missionários] a ordem com tão grande zelo e atividade, que dentro em breve tempo não faltaram mestres para os homens e já sobejavam mestras para as mulheres, que de ordinário são as mais hábeis em aprender, e de melhor retentiva para ensinar" (²). Ao que parece, o plano de Vieira funcionou.

(1) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus. O tom bastante encomiástico em alguns trechos da obra pode, assim, ser facilmente explicado.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, pp. 391 e 392.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Catecismos manuscritos usados por jesuítas no Brasil Colonial

O padre José de Anchieta passava noites copiando, à mão, as lições que seus alunos precisariam estudar - já falei sobre isso aqui no blog, ao tratar do ensino e catequese na Capitania de São Vicente. Mas ele não foi o único que recorreu às cópias manuscritas quando havia necessidade de multiplicar algum texto para uso no Brasil. Não havendo nem impressoras e nem trabalhadores gráficos (¹), o material necessário à catequese era pacientemente copiado pelos missionários. Em explicação dada pelo padre Antônio Vieira ao Provincial jesuíta do Brasil, através de uma carta datada de 22 de maio de 1653, somos informados de que um catecismo simplificado estava em uso para doutrinação dos indígenas - em contato com culturas ameríndias muito diferentes da sua, os missionários tinham dificuldade em explicar alguns conceitos a seus catecúmenos - e, para multiplicar o dito catecismo, era necessário, literalmente, pôr mãos à obra:
"Não sendo [os indígenas] capazes de catecismo tão dilatado e miúdo como é o geral que anda impresso, tomamos dele as coisas mais substanciais e fizemos outro catecismo recopilado, em que, por muito breve e claro estilo, estão dispostos os mistérios necessários à salvação, e este é o que se ensina." (²)
Como se conclui que o catecismo resumido era manuscrito? Deixemos que Vieira prossiga:
"Além deste catecismo breve, fizemos outro brevíssimo para nos casos de maior necessidade se poder batizar um gentio (³), e ajudar a bem morrer um batizado, dos quais se têm pedido cópias para os lugares onde não estamos, e se começam a fazer algumas; mas porque é quase impossível escreverem-se os muitos que são necessários, na primeira monção (⁴) determinamos de os mandar imprimir em grande quantidade, para que se possam repartir por todos os moradores, e cada um ensinar aos seus índios, e instruí-los em falta de sacerdotes para o batismo e para a morte." (⁵)
Percebe-se que Vieira assumia que muitos colonizadores eram "donos" de índios, e, pragmático, tencionava, com a distribuição dos catecismos, obter alguma ajuda na doutrinação dos cativos, ciente de que os padres de sua Ordem, sendo pouco numerosos, não podiam dar conta de todo o trabalho; ainda que jesuítas, por princípio, combatessem a escravização de ameríndios, não eram contrários ao cativeiro dos aprisionados em "guerras justas", feitas, inclusive, contra aqueles que se opunham ou se recusavam a receber a catequese.

(1) Quem quer que se dê ao trabalho de folhear livros impressos em Portugal entre os Séculos XVI e XVIII, logo perceberá que as obras eram precedidas por várias páginas com permissões para impressão, expedidas por autoridades civis e eclesiásticas. Sem as ditas autorizações nenhum livro podia ser impresso ou vendido. Além do custo inerente à impressão das cópias, toda essa burocracia desencorajava a multiplicação de edições e a livre circulação das ideias.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 328.
(3) Era assim que os missionários se referiam aos indígenas ainda não batizados.
(4) Monção, aqui, é referência à época do ano favorável à navegação, quando era possível cruzar o Atlântico. Esperava-se, portanto, a ocasião propícia para que alguém, indo a Portugal, encomendasse cópias impressas dos catecismos simplificados em uso no Brasil.

terça-feira, 10 de julho de 2018

O padre Antônio Vieira e as confissões dos escravizadores de indígenas

Como alguém que, nascido no Reino, se criara na Bahia, o padre Antônio Vieira, ao ir por escolha própria ao Maranhão para a catequese de indígenas, pressentiu que logo teria de enfrentar a oposição dos colonizadores. A razão para atrito seria, como é fácil deduzir, o costume já arraigado de "descer índios" para obrigá-los à mais amarga escravidão.
Vieira era reputado grande pregador; ir às igrejas ouvir sermões era, em seus dias, parte da vida social nas cidades coloniais. Sem travas na língua, o jesuíta fazia uso do púlpito para atacar os desmandos correntes, enquanto o povo, zeloso em manter as aparências, ouvia em silêncio, ainda que, interiormente, moído de ódio. Vale uma pequena amostra, palavras introdutórias do Sermão de Santo Antônio, proferido em São Luís do Maranhão em 1654, em que vocês, leitores, poderão medir a audácia desse notável orador sacro:
"Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra, e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar." (¹)
Com um pouco de imaginação, quase podemos ouvir uma interjeição a custo abafada pelos devotos ouvintes!... Os sermões eram longos e a multidão reunida na igreja ouvia e ouvia. No confessionário, porém, a situação era outra.
Chega a ser surpreendente que o mesmo Vieira, que não temia desafiar os poderosos enquanto pregador, fosse partidário de muita prudência quando os figurões da São Luís colonial compareciam para confissão. Uma decisão nesse sentido fora tomada em conjunto com os mais jesuítas que o haviam acompanhado, após um debate sobre "casos de consciência", no melhor estilo da época. Disso sabemos porque, escrevendo ao Provincial do Brasil em 22 de maio de 1653, o próprio padre Antônio Vieira explicara:
"Resolveu-se que a quem se não confessasse deste pecado [de escravizar indígenas] não tínhamos obrigação de lhe falar nele, assim por não poder constar de certo de tal penitente em particular estar em má consciência, como por se presumir geralmente de todos, que o mover-lhe escrúpulo em semelhante matéria seria sem nenhum fruto (...)." (²)
Na mesma carta, Vieira passa, em seguida, a expor mais detalhadamente o procedimento que eles, inacianos, haviam combinado, ainda em relação ao espinhoso assunto da escravização de indígenas:
"Sobre esta resolução assentamos três coisas muito necessárias ao serviço de Deus, e à nossa conservação nestas partes (³). Primeira, que nas conversações com os seculares, nem por uma nem outra parte falássemos em matéria de índios. Segunda, que nem ainda na confissão se falasse em tal matéria, salvo quando a disposição do penitente fosse tal, que se julgasse seria com fruto, principalmente na morte [sic!]. Terceira, que se na confissão por escrúpulo, ou fora dela por conselho, algum nos perguntasse a obrigação que tinha, lha declarássemos com toda a sinceridade e liberdade." (⁴)
À primeira vista, alguém poderia julgar covarde a atitude dos padres, mas as últimas palavras citadas demonstram que não era nem de longe por fraqueza que se adotavam precauções. Os missionários sabiam os riscos que corriam, e que uma postura imprudente podia pôr a perder seus projetos de catequese. Talvez seja admissível, sim, levantar a questão quanto ao que teria ocorrido se a conduta assumida fosse diametralmente oposta, ou seja, se houvessem calado, enquanto pregadores, sobre a escravização de ameríndios, reservando ao confessionário mais veementes admoestações - haveria alguma diferença?
Nem toda a cautela deste mundo impediu que os moradores de São Luís e adjacências levantassem uma feroz oposição aos "padres da Companhia". Interesses econômicos pesavam mais que convicções religiosas na hora de explorar a força de trabalho dos indígenas. Vieira chegou a ir ao Reino para dar queixa ao monarca quanto à má conduta de administradores do Maranhão e do Pará, assim como do povo em geral. Tudo em vão: o apoio formal obtido na Corte não era obstáculo de robustez suficiente para deter a maré de destemperos coloniais.  

(1) VIEIRA, Antônio S. J. Sermões vol. 2. Lisboa: Oficina de Miguel Deslandes, 1682, p. 309.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 324.
(3) Percebe-se que o padre Antônio Vieira tinha consciência de quão arriscada era a proposta dos missionários em defesa dos indígenas, diante da oposição dos colonizadores.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Piratas!

Piratas e corsários eram ladrões do mar. A título de distinção oficial, pode-se dizer que corsários eram ladrões do mar patrocinados por seus respectivos governos. A diferença, pois, é que piratas roubavam para si mesmos, enquanto que corsários roubavam com apoio estatal. Todos roubavam, no entanto.
Nos primeiros dois séculos da colonização, os portugueses estabelecidos ao longo do litoral brasileiro, bem como seus descendentes, viviam com medo de ataques de piratas. Afinal, do dia para a noite (muitas vezes literalmente) podiam esses colonizadores perder tudo o que tinham acumulado com muito trabalho. Além disso, era prática corrente entre os ladrões do mar que se incendiassem as povoações atacadas, com a óbvia finalidade de minar qualquer esforço defensivo. Sabe-se, por exemplo, que Lancaster e Venner pilharam a região de Olinda em 1594, em um ataque tanto mais memorável por ter durado trinta e quatro dias. Imaginem, leitores, o dano que causaram.
No Século XVII, em razão dos meios escassos de defesa da terra, o padre Antônio Vieira referiu, em uma de suas cartas:
"Os corsários continuam a correr estas costas, e já fazem colônia nos confins delas. E isto, que é só o que temos (¹), só se conservará enquanto não houver quem o queira, segundo faltam hoje todas as assistências de armas e munições, que por muitas vezes se tem pedido, esquecendo-se de as mandar os mesmos ministros que tão exatos são em arrecadar os tributos do Brasil, e inventar outros de novo, em que tudo não só se vai arruinando, mas está quase arruinado." (²)
A pirataria, contudo, não era fenômeno novo, ou nascido a partir das navegações oceânicas europeias nos Séculos XV e XVI. Existiu muito antes disso. Marinheiros que navegavam pelo Mediterrâneo no tempo do Império Romano morriam de medo que, durante alguma tempestade, o navio em que estavam fosse jogado em um ponto desabitado do norte da África. Motivo? Piratas!
Pompeu Magno (⁷)
Ao que parece, os primeiros bandos de ladrões do mar resultaram da desintegração da esquadra que pertencera a Mitridates, rei do Ponto (³). Em consequência, não foi preciso muito tempo para que as viagens pelo Mediterrâneo se tornassem mais perigosas que o habitual, já que piratas não estavam sujeitos a regras de nenhuma espécie e tudo quanto desejavam era pilhar o que encontrassem, ainda que, para tanto, fossem cometidas enormes atrocidades. De acordo com Plínio, o Velho (⁴), coube a Pompeu Magno (⁵) a responsabilidade de fazer a "faxina" nas águas que cercavam a Península Itálica e adjacências. O mesmo autor refere (⁶) que, nessa ocasião, nada menos que oitocentas e quarenta e seis embarcações de piratas foram capturadas. Para evitar que viessem a cair novamente nas mãos de ladrões, cada navio pirata apreendido era prontamente afundado. Esse procedimento, todavia, não eliminou completamente a pirataria no Mediterrâneo. Ao contrário, variando em intensidade, o "fenômeno" persistiu. Os atores, apenas, é que mudaram.

(1) Referia-se ao fato de que, àquela altura dos acontecimentos, a maior possessão colonial que restava a Portugal era o Brasil.
(2) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 347.
(3) c. 81 a.C.
(4) 23 - 79 d.C.
(5) Aquele mesmo do Primeiro Triunvirato - lembram-se dele? A República romana dava, então, seus últimos suspiros, e o Império estava às portas.
(6) Cf. Naturalis Historia, Livro VII.
(7) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 155.



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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Uma cerimônia feudal na selva da América do Sul

A homenagem era uma cerimônia típica do feudalismo. Por meio dela é que formalmente eram reconhecidos os laços de suserania e vassalagem. Envolvia, de um lado, a obrigação de proteção (por parte do suserano) e, de outro, vários deveres, dentre os quais, o do serviço militar (por parte daquele que se reconhecia como vassalo). Não é difícil perceber que a homenagem fazia sentido dentro da sociedade medieval, em que as guerras eram frequentes e os exércitos, constituídos por gente da nobreza, não eram e nem podiam ser muito numerosos.
Agora, leitores, respirem fundo: é que iremos encontrar uma autêntica cerimônia de homenagem no ano de 1659, não na Europa, mas no Brasil. O autor da ideia foi ninguém menos que o padre Antônio Vieira - sim, o jesuíta famoso por seus sermões. Está na hora de uma explicação.
Antônio Vieira, que exercia funções diplomáticas para o monarca português, um dia entalou na cabeça que queria vir ao Brasil para trabalhar na catequese de indígenas. Veio, e logo percebeu que seu maior obstáculo eram os colonizadores, que tinham, sim, grande interesse nos índios, mas para escravizá-los. O jesuíta não perdeu tempo, e obteve do rei uma ordem pela qual, ao menos oficialmente, o trabalho compulsório de indígenas ficaria restrito àqueles capturados em "guerra justa". Os demais deviam ser catequizados pelos missionários, sob as ordens do próprio Vieira.
Sucede que, há tempos, portugueses e vários grupos indígenas conhecidos como nheengaíbas viviam às turras, fazendo estragos de parte a parte, sempre que era possível. Pôs-se o padre Vieira a negociar a paz, e, surpreendentemente, os indígenas confiaram nele e concordaram em depor as armas. 
Mas era preciso dar um aspecto oficial ao acordo. Vieira achava que os índios, atribuindo grande importância às cerimônias pomposas, seriam mais fiéis à palavra empenhada se um juramento fosse feito de forma solene. Que fazer? Organizou-se uma homenagem, com tanto luxo quanto as circunstâncias permitiam, na presença de chefes indígenas já catequizados, de portugueses e dos chefes dos nheengaíbas. O melhor é deixar que o próprio Antônio Vieira conte o que aconteceu, tendo por cenário uma pequena igreja construída pelos índios:
"Ao lado direito da igreja estavam os principais (¹) das nações cristãs com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas que as suas espadas. Da outra parte estavam os principais gentios (²) despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mãos; e entre uns e outros os portugueses. Logo disse missa o padre Antônio Vieira, em um altar ricamente ornado [...], à qual [...] assistiam os gentios de joelhos [...]." (³)
Depois da missa, o mesmo Vieira perguntou aos nheengaíbas se era de sua vontade que viessem a ser vassalos do rei de Portugal. A pergunta foi respondida afirmativamente, e, ato contínuo, cada chefe, ajoelhado e pondo as mãos entre as do padre, proferiu o seguinte juramento:
"Eu Fulano, principal de tal nação, em meu nome e de todos os meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a El-Rei de Portugal a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de ser (como já sou de hoje em diante) vassalo de Sua Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos os seus amigos e inimigo de todos os seus inimigos, e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre." (⁴)
Feito o juramento, cada chefe beijava a mão ao padre e era por ele abençoado. Desnecessário é dizer que tudo se fazia com a assistência de intérpretes. Abraços e festas completaram o evento.
Convenhamos, leitores, que a cena descrita por Vieira é digna de um exercício de imaginação. Tentem, portanto, visualizar toda essa pantomima medieval em meio à selva amazônica. O rei, a quem se acrescentavam tantos vassalos, de tudo foi informado por carta datada de 11 de fevereiro de 1660.

(1) Caciques ou chefes indígenas.
(2) Chefes dos nheengaíbas.
(3) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 34 e 35.
(4) Ibid., p. 37.


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