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quinta-feira, 28 de junho de 2018

Piratas!

Piratas e corsários eram ladrões do mar. A título de distinção oficial, pode-se dizer que corsários eram ladrões do mar patrocinados por seus respectivos governos. A diferença, pois, é que piratas roubavam para si mesmos, enquanto que corsários roubavam com apoio estatal. Todos roubavam, no entanto.
Nos primeiros dois séculos da colonização, os portugueses estabelecidos ao longo do litoral brasileiro, bem como seus descendentes, viviam com medo de ataques de piratas. Afinal, do dia para a noite (muitas vezes literalmente) podiam esses colonizadores perder tudo o que tinham acumulado com muito trabalho. Além disso, era prática corrente entre os ladrões do mar que se incendiassem as povoações atacadas, com a óbvia finalidade de minar qualquer esforço defensivo. Sabe-se, por exemplo, que Lancaster e Venner pilharam a região de Olinda em 1594, em um ataque tanto mais memorável por ter durado trinta e quatro dias. Imaginem, leitores, o dano que causaram.
No Século XVII, em razão dos meios escassos de defesa da terra, o padre Antônio Vieira referiu, em uma de suas cartas:
"Os corsários continuam a correr estas costas, e já fazem colônia nos confins delas. E isto, que é só o que temos (¹), só se conservará enquanto não houver quem o queira, segundo faltam hoje todas as assistências de armas e munições, que por muitas vezes se tem pedido, esquecendo-se de as mandar os mesmos ministros que tão exatos são em arrecadar os tributos do Brasil, e inventar outros de novo, em que tudo não só se vai arruinando, mas está quase arruinado." (²)
A pirataria, contudo, não era fenômeno novo, ou nascido a partir das navegações oceânicas europeias nos Séculos XV e XVI. Existiu muito antes disso. Marinheiros que navegavam pelo Mediterrâneo no tempo do Império Romano morriam de medo que, durante alguma tempestade, o navio em que estavam fosse jogado em um ponto desabitado do norte da África. Motivo? Piratas!
Pompeu Magno (⁷)
Ao que parece, os primeiros bandos de ladrões do mar resultaram da desintegração da esquadra que pertencera a Mitridates, rei do Ponto (³). Em consequência, não foi preciso muito tempo para que as viagens pelo Mediterrâneo se tornassem mais perigosas que o habitual, já que piratas não estavam sujeitos a regras de nenhuma espécie e tudo quanto desejavam era pilhar o que encontrassem, ainda que, para tanto, fossem cometidas enormes atrocidades. De acordo com Plínio, o Velho (⁴), coube a Pompeu Magno (⁵) a responsabilidade de fazer a "faxina" nas águas que cercavam a Península Itálica e adjacências. O mesmo autor refere (⁶) que, nessa ocasião, nada menos que oitocentas e quarenta e seis embarcações de piratas foram capturadas. Para evitar que viessem a cair novamente nas mãos de ladrões, cada navio pirata apreendido era prontamente afundado. Esse procedimento, todavia, não eliminou completamente a pirataria no Mediterrâneo. Ao contrário, variando em intensidade, o "fenômeno" persistiu. Os atores, apenas, é que mudaram.

(1) Referia-se ao fato de que, àquela altura dos acontecimentos, a maior possessão colonial que restava a Portugal era o Brasil.
(2) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 347.
(3) c. 81 a.C.
(4) 23 - 79 d.C.
(5) Aquele mesmo do Primeiro Triunvirato - lembram-se dele? A República romana dava, então, seus últimos suspiros, e o Império estava às portas.
(6) Cf. Naturalis Historia, Livro VII.
(7) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 155.



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sexta-feira, 13 de março de 2015

Todos prontos para fugir dos corsários

Os colonizadores portugueses que se estabeleceram no Brasil durante o Século XVI enfrentavam, no que se referia à defesa de suas povoações, duas grandes ameaças, vindo uma do interior da Colônia e outra do exterior - melhor dizendo, do mar.
No primeiro caso, os confrontos com indígenas eram frequentes, desde que estes perceberam que colonizadores queriam não somente viver nas terras da América, como também servir-se do trabalho da população nativa. Gratuitamente, aliás. Era, pois, uma situação que só podia resultar em lutas sangrentas. Tendo perspectivas muito diferentes quanto aos propósitos da vida, europeus e ameríndios enfrentaram-se, com variada intensidade, até que prevaleceu quem tinha armas mais eficientes.
A outra grande ameaça às povoações coloniais vinha do mar; corsários e piratas (¹) atacavam para roubar o que lhes pudesse ser útil, como alimentos, por exemplo, ou aquilo que se venderia por bom preço na Europa.
As vilas coloniais eram pobremente defendidas. Se tinham algum tipo de muro, ou este era apenas de taipa, ou não passava de uma cerca. Armas de maior calibre eram pouco numerosas. As povoações seriam, portanto, uma presa fácil, conforme escreveu Gabriel Soares em fins do Século XVI: "Se nisto caírem os corsários, com mui pequena armada assenhorear-se-ão desta província por razão de não estarem as povoações dela fortificadas, nem terem ordem com que possam resistir a qualquer afronta que se oferecer." (²)
Então, quando se avistava, ao longe, alguma embarcação desconhecida, a população ficava de prontidão para, sendo necessário, fugir para o mato, levando consigo o pouco que poderiam salvar. Continua Gabriel Soares:
"Vivem os moradores dela tão atemorizados, que estão sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o mato, como fazem com a vista de qualquer nau grande, temendo-se serem corsários; a cuja afronta Sua Majestade deve mandar acudir com muita brevidade, pois há perigo na tardança, o que não convém que haja." (³)
Conselho prudentíssimo, esse, embora pouco considerado, à vista dos inúmeros ataques ocorridos contra as povoações litorâneas, ao longo dos dois primeiros séculos da colonização. O fato de que a população se mostrava pronta a fugir em caso de ameaça é uma evidência de que se reconhecia a defesa como impossível. Ladrões do mar andavam muito bem informados e equipados: a terra, riquíssima por natureza, tinha muito a oferecer, sendo a produção de açúcar dos engenhos um atrativo (ou tentação) a mais. O roubo, muitas vezes, compensava. 

(1) Tecnicamente, corsários estavam a serviço do governo de algum país, enquanto que piratas atacavam para fins particulares. Na prática, eram todos ladrões do mar.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 14.
(3) Ibid.


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domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre o relacionamento de piratas, corsários e contrabandistas com os indígenas da América

Enquanto portugueses e indígenas se enfrentavam, algumas décadas após o "descobrimento", em vários pontos do litoral brasileiro,  contrabandistas, piratas e corsários (¹) de várias nacionalidades estabeleciam bom relacionamento com os nativos, de modo a conseguirem, mediante escambo, adquirir e embarcar mercadorias que, depois, eram vendidas na Europa. Impõe-se, portanto, a questão: por que franceses, ingleses, holandeses, conseguiam, quase sempre pacificamente, o que os portugueses tinham dificuldade em obter mesmo pela força?
Algumas razões destacam-se, e dentre elas: 

a) Muitos portugueses viam-se como conquistadores das terras da América e, portanto, como legítimos proprietários das riquezas que contivessem, de modo que se julgavam no direito de extrair do Brasil o que lhes interessava, mesmo que isso significasse danificar o território, coisa que provocava a ira dos ameríndios. Sobre isso, escreveu Frei Vicente do Salvador: 
"... e deste mesmo modo se hão os povoadores, os quais por mais arraigados que na terra estejam, e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal [...]; porque tudo querem para lá, e isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída." (²)

b) Os europeus não-portugueses vinham ao Brasil, quase sempre, apenas para fazer comércio e "fazer aguada" (refazer o suprimento de água de suas embarcações), não ficando muito tempo na terra e, raramente, tentando estabelecer colônias, o que fazia com que os povos indígenas não os vissem como uma ameaça quanto ao uso e ocupação do território;

c) Por não se estabelecerem como ocupantes do território, os não-portugueses também não tentavam escravizar os indígenas, o que chega a ser, nesse assunto, um ponto decisivo;

d) Como comerciantes habilidosos que eram, os contrabandistas, piratas e corsários tudo faziam para agradar aos chefes indígenas, evitando, simultaneamente, qualquer ato que pudesse descontentá-los;

e) Eram também perspicazes em compreender a lógica tribal, deixando claro que se consideravam inimigos dos portugueses e, por isso mesmo, amigos dos índios (Hans Staden, por exemplo, enfrentou sérias dificuldades decorrentes desse fato);

f) Finalmente, como o relacionamento dos não portugueses com índios era esporádico, não eram vistos, de imediato, como uma ameaça aos valores e à cultura dos povos nativos da América, à medida que não tentavam impor uma nova estrutura social, novos usos e costumes ou proibir as práticas já há muito arraigadas. Fica aqui, pois, uma ressalva importantíssima: na maioria das ocasiões em que esses europeus não portugueses tentaram fixar-se em terras do Brasil, os resultados foram muito semelhantes aos obtidos por colonizadores lusitanos, ou seja,  resistência indígena e confrontos sangrentos.

(1) Há quem não veja diferença alguma entre um pirata e um corsário; entretanto, aceita-se, tradicionalmente que um pirata era um ladrão do mar que agia por conta própria, enquanto que um corsário era também um ladrão do mar, mas a serviço de um determinado Estado, roubando os preciosos carregamentos que portugueses e espanhóis levavam da América, para entregarem aos soberanos que os haviam contratado.
(2) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. c. 1627.


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