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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Os indígenas do Brasil e o hábito dos banhos frequentes

Crianças indígenas não faziam birra na hora do banho. Habituadas, desde muito pequenas, ao prazer do mergulho na água de um rio, dispensavam qualquer ordem peremptória do pai ou da mãe para que se banhassem. Explicou o jesuíta Fernão Cardim, que percorreu parte considerável do Brasil na penúltima década do Século XVI:
"[Os indígenas], andando caminho, suados, se botam aos rios, os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios." (¹)
Outro que notou o gosto ameríndio pelos banhos foi Yves d'Évreux, capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614. É dele este relato:
"Têm [os índios] muito cuidado na limpeza de seus corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita água sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras imundícies." (²)
Por que os banhos frequentes dos indígenas surpreendiam colonizadores? Seria, talvez, porque, vindo de climas frios, não tinham o mesmo costume? Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro insistiram com as índias, inutilmente, para que usassem roupas. É que o vestir-se e despir-se, levando em conta os trajes europeus que lhes queriam impor, tomava tempo demais e era um desagradável empecilho à espontaneidade dos banhos. Jean de Léry, que viveu na França Antártica e, mais tarde, escreveu um livro (³), referiu que, para refrescar-se, ele e outros franceses que estavam no Brasil em 1557 haviam tomado banho no dia de Natal. A ideia era explicar a seus compatriotas que, no Hemisfério Sul, as estações eram inversas às do Hemisfério Norte. Portanto, em lugar de neve, havia o mais esplêndido sol em dezembro. Com o passar do tempo, europeus que vieram viver no Brasil e seus descendentes foram tomando gosto pelo que era, a princípio, um costume indígena, de modo que os banhos frequentes se tornaram um hábito também para a maioria dos brasileiros.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 41 e 42.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 96.
(3) Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil


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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Por que o padre Vieira não consentia que indígenas carregassem missionários em redes

Redes, se é que assim se pode dizer, eram um meio de transporte muito comum no Brasil Colonial: dois indivíduos fortes carregavam um terceiro que ia deitado ou sentado na rede, sendo esta apoiada nos ombros dos carregadores mediante uma longa vara, à qual eram presas as extremidades da rede. Já tratei deste assunto aqui no blog.
Figuras de destaque na administração colonial raramente punham os pés no chão. Dispunham de pessoas - escravos, quase sempre - que se encarregavam de sair carregando as ilustres personalidades para onde desejassem ir. Por sua vez, qualquer indivíduo que tivesse dois ou mais escravos fazia questão de ser carregado. Era indício de respeitabilidade e posição social. As cadeirinhas de arruar somente mais tarde chegaram ao Brasil. 
Sendo tão generalizado o costume, não surpreende que até religiosos se deixassem carregar em redes. Na Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica, escrita pelo padre Fernão Cardim (¹), somos informados de que Cristóvão de Gouvêa, visitador jesuíta que percorreu colégios e missões no Brasil entre 1583 e 1590, deixou-se carregar em rede por indígenas, provavelmente entendendo que, quando ameríndios faziam isto, demonstravam respeito e consideração:
"Quis o padre [Cristóvão de Gouvêa] ver as aldeias dos índios brevemente para ter alguma notícia delas: partimos para a aldeia do Espírito Santo, sete léguas da Bahia, com alguns trinta índios, que com seus arcos e flechas vieram para acompanhar o padre, e revezados de dois em dois o levaram numa rede, os mais companheiros íamos a cavalo [...]." (²)
Nem todos os religiosos tinham a mesma atitude. A crermos no que escreveu o padre Simão de Vasconcelos em Vida do Venerável Padre José de Anchieta, o missionário canarino (³), tão afeito às viagens com vistas à catequese, nunca aceitava ser conduzido em rede:
"Jamais nestas tão frequentes missões andou a cavalo, nem ainda em rede, costume do Brasil, sempre a pé, com seu bordão na mão, e, posto que começava os caminhos calçado, em passando lugares públicos de gente, se descalçava logo, e ia a pé descalço." (⁴)
Indígenas é que andavam descalços - teria Anchieta decidido viver como eles, para mais facilmente catequizá-los? Ou teria compreendido que, para viver no Brasil, era preciso adotar o estilo de vida dos "brasis" (⁵)? Talvez quisesse economizar os sapatos, tão dispendiosos nos primeiros tempos da colonização? É provável que tudo isso tivesse lá sua parte no costume de Anchieta.
Já no Século XVII, outro missionário jesuíta iria ainda mais longe ao lidar com o tal costume vigente entre colonizadores que se faziam transportar em redes. Falo do padre Antônio Vieira, que, além de notável pregador, foi um missionário dedicado e, nesse ofício, proibiu a todos os subordinados que aceitassem ser carregados pelos índios, a não ser no caso de que algum religioso estivesse muito doente. A exceção é facilmente explicável, uma vez que naquele tempo não havia ambulâncias, nem terrestres e muito menos aéreas. De acordo com o também jesuíta José de Moraes, em História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (⁶), "estas missões [no Maranhão] pela maior parte as faziam os padres a pé, e com inexplicável trabalho, e posto que os índios, para os aliviarem do caminho, lhes ofereciam com as redes os ombros, como é costume naquelas terras, nunca quiseram aceitar a comodidade das jornadas à custa do suor dos índios [...]; porque era máxima do padre Vieira que o pastor é o que havia de carregar aos ombros as ovelhas, e não estas ao pastor, por cuja razão ordenou, e o mesmo praticava sempre consigo, que nenhum usasse de rede pelos caminhos, salvo se a necessidade ou enfermidade o pedisse". (⁷)
Entre a população em geral, o costume de se fazer carregar em uma rede desapareceu aos poucos, len-ta-men-te. Não obstante, no Século XIX ainda era possível encontrar redes para alugar no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. 

Homem de condição livre sendo transportado em rede por dois escravos,
de acordo com Debret (⁸)

(1) Fernão Cardim foi testemunha ocular dos acontecimentos que descreveu, por ter acompanhado o padre visitador em suas andanças pelo Brasil.
(2) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 13 e 14.
(3) Nascido nas Canárias em 1534, Anchieta veio ao Brasil em 1553, onde permaneceu até sua morte em 1597.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 183.
(5) Autores dos tempos coloniais referiam-se aos indígenas como "brasis".
(6) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus. É fácil, portanto, compreender o tom de defesa das missões jesuíticas que perpassa toda a obra.
(7) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 393.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 26 de junho de 2018

O que havia de elogiável em São Paulo no Século XVI

"Esta terra parece um novo Portugal" (¹), escreveu o jesuíta Fernão Cardim. A que terra se referia? A São Paulo de Piratininga e seus arredores, na Capitania de São Vicente. Era o Século XVI.
Cardim acompanhava o visitador Cristóvão de Gouvêa em viagem (²) de supervisão pelos colégios e missões que a Companhia de Jesus havia estabelecido no Brasil. Causara espanto o luxo que ostentavam os moradores da Bahia e Pernambuco, que, através do vestuário dispendioso, comprovavam a prosperidade dos empreendimentos açucareiros coloniais. Porém, chegando a São Paulo, Cardim se põe a gabar, não os veludos, plumas e sedas, mas a fertilidade da terra, que devolvia em farta produção todo o trabalho realizado por colonizadores e indígenas. Foi tão pródigo em elogios, que vale a pena dividir seu relatório em itens:

A Vila tinha boa localização
"A vila está situada em bom sítio, ao longo de um rio caudal [...]." (³)
Os moradores da Vila tinham muito respeito pelos padres
"Não têm cura nem outros sacerdotes senão os da Companhia, aos quais têm grande amor e respeito [...]." (⁴) Quanto a isto, ou Cardim era de uma inocência admirável, ou os moradores de São Paulo tinham, nesse tempo, incrível talento cênico - talvez acontecesse um pouco das duas coisas. Quem é que não sabe que os colonizadores viviam às turras com os "padres da Companhia", sempre que estes tentavam obstar a escravização de indígenas? Os primeiros missionários enfrentaram João Ramalho e sua numerosíssima prole; no Século XVII, o "amor e respeito" foi tanto, que chegaram a expulsar os jesuítas da Vila, somente readmitidos quando prometeram solenemente que não haveria intromissão nos assuntos "seculares".
Os moradores da Vila eram generosos no sustento dos padres
"Os moradores sustentam seis ou sete dos nossos, com suas esmolas com grande abundância [...]." (⁵)
Havia boas pastagens onde se criava gado bovino
"É terra de grandes campos e muito semelhante ao sítio d'Évora, na boa graça, e campinas, que trazem cheias de vacas, que é formosura ver." (⁶)
Vinhas eram amplamente cultivadas
"Têm muitas vinhas e fazem vinho [...]: nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, como vi nestas vinhas [...]." (⁷)
A produção de figos e marmelos era notável
"[A terra] tem grandes figueiras de toda sorte de figos [...], muitos marmeleiros que dão quatro camadas, uma após outra, e há homem que colhe doze mil marmelos, de que fazem muitas marmeladas [...]." (⁸) Sob esse aspecto não há discussões, a produção de marmelada de São Paulo em fins do Século XVI era suficiente não só para a demanda local, como também para comércio em outras capitanias.
Havia cultivo de rosas-de-alexandria
"[A terra] tem muitas rosas-de-alexandria, e porque não tem das outras rosas, das de-alexandria fazem açúcar rosado para mezinha (⁹), e das mesmas cozidas [...] fazem açúcar rosado para comer, e fica sofrível. [...]." (¹º)
Os pinhões eram de boa qualidade
"Há muitos pinheiros, as pinhas são maiores, nem tão bicudas como as de Portugal, e os pinhões são também maiores, mas muito mais leves e sadios [...]." (¹¹)
Era boa a produção de trigo e cevada
"Dá-se trigo e cevada nos campos: um homem semeou uma quarta de cevada e colheu sessenta alqueires; é terra fertilíssima, muito abastada [...]." (¹²)
Vejam, leitores, que Cardim fazia elogios, elogios e mais elogios. Uma coisa, porém, não foi capaz de gabar: o vestuário dos paulistas. Logo no início da descrição da Vila, comentara, reparando que todo o trajar era rústico e antiquado: "Vestem-se de burel e pelotes pardos e azuis, de pertinas compridas, como antigamente se vestiam." (¹³). Pode-se com justiça supor que o jesuíta, estranhando a moda, tenha perguntado aos moradores a que se devia tanto amor ao passado. Da explicação recebida, obteve a conclusão que aparece depois de toda a loquacidade quanto às virtudes do lugar: "Tem [esta terra] grande falta de vestido, porque não vão os navios a S. Vicente, senão tarde e poucos". (¹⁴)
Em São Paulo quase não circulava dinheiro amoedado. Mas, ainda que houvesse dinheiro, não havia roupas finas à venda, por ser reduzido o comércio de artigos vindos do Reino. Tecidos, portanto, só os da terra, de algodão; talvez alguma lã. E foi isso que Cardim viu.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 106.
(2) A viagem durou de 1583 a 1590. A Narrativa Epistolar foi dirigida ao provincial jesuíta em Portugal.
(3) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Op. cit., p. 104.
(4) Ibid., p. 104.
(5) Ibid.
(6) Ibid.
(7) Ibid., pp. 104 e 105.
(8) Ibid., p. 105.
(9) Ou seja, para uso supostamente medicinal.
(10) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Op. cit., p. 105.
(11) Ibid., p. 105.
(12) Ibid.
(13) Ibid., p. 104.
(14) Ibid., p. 105.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Crianças indígenas (na visão dos colonizadores)

Colonização e catequese trouxeram mudanças significativas ao modo como viviam os povos indígenas da América. Estrutura familiar, práticas de sociabilidade e valores foram afetados, de modo que, em não poucos casos, fica difícil saber quais eram os costumes originais, até porque quase tudo o que conhecemos sobre os ameríndios, com os quais europeus travaram contato desde fins do Século XV e ao longo do Século XVI, vem de relatos dos próprios colonizadores, que expunham em seus escritos o modo como interpretavam o que viam, e não necessariamente aquilo que, de fato, acontecia.
A mais antiga referência conhecida a uma criança nativa do Brasil está na Carta do "Achamento", escrita por Pero Vaz de Caminha, que, como se sabe, integrava a expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, expedição essa que, ao menos oficialmente, era destinada às Índias, onde se esperava que estabelecesse vínculos comerciais mais fortes que os alcançados pela esquadra de Vasco da Gama. Após pisar em terra e travar contato com indígenas, Caminha observou: "Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum."
Embora a imagem seja de quase cento e cinquenta anos após o Descobrimento, o que Caminha deve ter visto seria mais ou menos o que encontramos na Figura 1, que aparece em Historia naturalis Brasiliae, publicada na Holanda em 1648 (¹); uma imagem alternativa, na qual o bebê indígena é mostrado dentro de um cesto, pode ser encontrada em Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien, de Nieuhof, publicação também holandesa, datada de 1682 (²), conforme a Figura 2:


Como já disse, não podemos ter certeza absoluta de que tudo o que diziam os colonizadores e missionários estava correto, mas, se dermos crédito ao que escreveram ao longo do Século XVI, os meninos e meninas indígenas deviam ser muito mais felizes que as crianças europeias da mesma idade, submetidas, tradicionalmente, a uma educação severa, tanto por parte dos pais quanto dos professores. Segundo Gabriel Soares, os tupinambás eram bastante gentis no trato com seus filhos:
"Não dão os tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os doutrinam, nem os repreendem por coisa que façam; aos machos ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo, e depois aos pássaros, e trazem-nos sempre às costas até a idade de sete e oito anos, e o mesmo às fêmeas; e uns e outros mamam na mãe até que torna a parir outra vez, pelo que mamam muitas vezes seis e sete anos; às fêmeas ensinam as mães a enfeitar-se, como fazem as portuguesas, e a fiar algodão, e a fazer o mais serviço de suas casas conforme é seu costume." (³)
Sem ilusões, leitores: a educação, salvo raríssimas exceções, tende a reproduzir na geração mais jovem aquilo que a geração adulta considera certo ou errado. Qualquer coisa fora disso escaparia, com absoluta certeza, à regra que encontramos, sob inúmeras versões, por todo este planeta. Mas vamos adiante, com as impressões do missionário jesuíta Fernão Cardim, contemporâneo de Gabriel Soares:
"Os pais [indígenas] não têm coisa que mais amem que os filhos [...]; nenhum gênero de castigo têm para os filhos, nem há pai nem mãe que em toda a vida castigue nem toque em filho [...]; em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mães, e todos muito amáveis e aprazíveis: têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muito mais festa e alegria que os meninos portugueses; nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras e outros animais, etc.; os jogos são mui graciosos e desenfadiços, nem há entre eles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas ou nomes ruins e desonestos [...]." (⁴) Sim, leitores, caberiam aqui uns quantos pontos de exclamação!!!
Não há como saber se tudo era assim, ou se Soares e Cardim exageravam. Cabe muito bem a observação, todavia, de que, como jesuíta que era, Fernão Cardim estava habituado a viver entre os índios, e devia saber do que falava. Assumindo, portanto, em linhas gerais, a veracidade de seu relato, teríamos um bom motivo para concordar com os que diziam que na América estava o verdadeiro paraíso terrestre - não em todos os aspectos, claro, mas quanto ao comportamento das crianças.

(1) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270.
(2) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 224.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 314.
(4) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 40 e 41.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Danças dos povos indígenas do Brasil

Uma característica comum aos povos indígenas do Brasil, conforme relatos dos mais variados autores que tiveram contato com eles no Período Colonial, era o grande apreço pela música e pela dança. Os missionários jesuítas, longe de trabalharem por banir essas preferências, trataram de usá-las como aliadas na catequese. No Rio de Janeiro, por exemplo, para celebrar a chegada do visitador dos jesuítas, padre Cristóvão de Gouvêa (¹), os meninos indígenas apresentaram, de acordo com relato do padre Fernão Cardim, "a mais aprazível dança":
"Era para ver uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis (²) nos pés, e braços, pernas, cinta e cabeças com várias invenções de diademas de penas, colares e braceletes; parece-me que se os viram nesse Reino, que andaram todo o dia atrás deles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi [...]." (³)
No Século XIX, em razão do crescimento tanto do interesse como da curiosidade pelo Brasil, viajantes estrangeiros percorreram vários pontos do País, e alguns deles deixaram depoimentos escritos quanto às danças indígenas que tiveram a oportunidade de presenciar. É difícil dizer o quanto as danças observadas eram, ainda, autenticamente indígenas, já que em alguns casos há indícios de que pareciam encomendadas para "agradar aos turistas". Mas vamos a dois registros, apenas para dar uma ideia do que podia ser visto.
Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (1825 - 1829), presenciou uma série de movimentos lúdicos dos bororos, executados a partir da formação de um círculo:
"A princípio não fazem mais do que levantar um pé e depois outro, seguindo uma toada lenta que marcam batendo com as mãos, e acompanhada de um canto rouquenho, baixo e demorado como o compasso. De repente param, dão um grande berro e saltam [...]. Em seguida recomeçam com a monótona dança.
Enquanto os bororos a executavam, dois deles, dentro do círculo, representavam o jogo do tamanduá. Um põe-se de quatro pés com uma criança agarrada às costas: é a fêmea do tamanduá-bandeira e seu filhote. Outro o incita, pondo-lhe a ponta de um pau no nariz, imitando com muita fidelidade os movimentos letárgicos do animal; o que faz de tamanduá levanta devagar a cara e uma das mãos, com os dedos curvos como que querendo agarrar o pau: quando se adianta, o outro recua. [...].
Esses índios imitam também suas lutas com a onça, a caçada da anta, lobo, veado, etc." (⁴)
O Príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Rio de Janeiro em 1842, observou uma dança dos puris, cujo propósito era, também, imitar os movimentos de vários animais nativos da América:
"A dança consistia num bambolear dum lado para o outro acompanhado dum canto monótono, muito fanhoso. Devia representar simbolicamente, a luta de um anum (eu porém compreendi que era duma mosca) contra um boi; uma outra mais tarde descrevia o caititu, o porco-do-mato, correndo dum lado para o outro na floresta; assim foi, pelo menos, que me explicou o próprio puri esta espécie de improvisações." (⁵)
Ora, meus leitores, os bovinos não são originários do Continente Americano. Se, de fato, a dança presenciada representava um desentendimento entre um anum (ave) e um boi, já havia nela uma construção posterior ao início da colonização. 

Dança dos índios puris (⁶)
Muitos autores trataram desse tema das danças indígenas em seus diários de viagem e quem quiser um aprofundamento no assunto não terá dificuldade em encontrar material para estudo. Deve-se levar sempre em conta, porém, que viajantes estrangeiros observavam as danças através do filtro de sua cultura de origem e, sendo numerosos os povos indígenas do Brasil, é preciso cuidado para não incorrer em generalizações que empobreçam a investigação de suas expressões rituais e/ou artísticas.

(1) Essa Visitação ao Brasil ocorreu entre 1583 e 1590.
(2) Guizos.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 92.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 169.
(5) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 147.
(6) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sociabilidade e religião no Brasil Colonial

O costume colonial de benzer um engenho na primeira vez que moía cana


As oportunidades para convivência social eram, no Brasil dos tempos coloniais, bastante restritas, ao menos para a população que residia em áreas rurais e que era, então, a maioria. Quem vivia perto de uma cidade ou vila podia, pelo menos aos domingos, dar-se ao luxo de ir com a família assistir missa, vindo daí o costume de muitos fazendeiros, que dispunham de uma moradia urbana só habitada nos finais de semana, permanecendo vazia e fechada nos outros dias. Não é, portanto, sem razão, que viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil notaram que, em algumas povoações, o único morador permanente era o padre.
Nas propriedades agrícolas havia também ocasiões para festas, que incluíam as comemorações pelo batismo de um bebê (as populares "festas de batizado"), os aniversários e os casamentos, assim como os festejos juninos ou de algum santo da devoção do proprietário. Mesmo o falecimento de alguém costumava ser seguido de um banquete, já que era preciso receber com decência os parentes e conhecidos que vinham de longe para os funerais.
É fácil perceber que o elemento comum subjacente a quase todas essas celebrações era de caráter religioso. Não cabe agora discutir o quanto a sociedade era hipócrita ou o quanto um verniz de religião era útil para mascarar as enormes injustiças e desigualdades, desde o âmbito das famílias até, de forma mais ampla, a própria estrutura colonial. O fato é que assim era, e as maiores perversidades eram varridas, com pouca, muita ou nenhuma sutileza para baixo do tapete das ostensivas demonstrações de suposta fé.

Engenho de cana-de-açúcar (¹)
Todo mundo sabe o quanto podia ser opressiva a vida em um engenho colonial de cana-de-açúcar. Não obstante, os senhores de engenho tinham por hábito, conforme relatou o padre Fernão Cardim (²), providenciar uma cerimônia religiosa sempre que era inaugurado um empreendimento açucareiro:
"Costumam eles [os senhores de engenho] a primeira vez que deitam a moer os engenhos benzê-los, e neste dia fazem grande festa convidando uns aos outros." (³)
Neste caso, como em muitos outros, sociabilidade (a "grande festa") e religião ("benzê-los") andavam de mãos dadas no Brasil Colonial.

(1) Engenho de cana-de-açúcar, imagem do Século XIX. Os engenhos do Período Colonial não eram muito diferentes desse. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. A imagem foi restaurada digitalmente e editada para facilitar a visualização.
(2) Este jesuíta acompanhou o visitador de sua Ordem em viagem pelo Brasil entre 1583 e 1590.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 67.


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domingo, 5 de abril de 2015

Procissões de Sexta-feira Santa e de Domingo de Páscoa em uma aldeia indígena no Século XVI

A música e as festas - os jesuítas perceberam em seu contato com os indígenas do Brasil - eram recursos poderosos na catequese. Serviam para atrair a atenção e pareciam estar em maior conformidade com as tradições nativas do que os sisudos cerimoniais adotados nos ofícios religiosos que eram praticados entre os colonos. Portanto, a Semana Santa era sempre uma ocasião especial nas missões (¹). O padre visitador Cristóvão de Gouvêa teve a oportunidade de verificar, na prática, como procediam os missionários e os indígenas nesses festejos, ao viajar pela Colônia entre 1583 e 1590. Os acontecimentos dessa viagem foram registrados pelo também jesuíta, padre Fernão Cardim, que, em sua Narrativa Epistolar de uma Viagem e Missão Jesuítica, observou, a propósito de uma procissão de Sexta-feira Santa na Aldeia do Espírito Santo, na Bahia:
"A procissão foi devotíssima, com muitos fachos e fogos, disciplinado-se a maior parte dos índios, que dão em si cruelmente, e têm isso não somente por virtude, mas também por valentia, tirarem sangue de si e serem Abaetê, ou seja, valentes. Levaram na procissão muitas bandeiras que um irmão, bom pintor, lhe fez para aquele dia, em pano, de boas tintas, e devotas. Um principal velho (²) levava um devoto crucifixo debaixo do pálio; o padre visitador lhe fez todos os ofícios que se oficiaram a vozes com seus bradados." (³)
Tentem imaginar a cena, leitores.
Pode parecer chocante, para nós, do Século XXI, que os índios catequizados praticassem a autoflagelação tão de-vo-ta-men-te. Mas o caso é que, em sua cultura, isso não era uma pura e simples prova de devoção. Era antes evidência de coragem, valentia, força, tudo muito pouco compatível, afinal, com a contrição esperada pelos religiosos da época, mas perfeitamente de acordo com os valores mais celebrados entre os guerreiros indígenas.
Não sabemos o que terá passado pela cabeça do padre visitador, se terá ele compreendido ou não qual era a interpretação que faziam os indígenas dos rituais que praticavam. Mas é fato que Cardim o entendia muito bem, porque não hesitou em dizê-lo em sua Narrativa Epistolar.
Veio o domingo da Ressurreição, e novas celebrações ocorreram na aldeia, dessa vez mais alegres:
"Ao dia da ressurreição se fez uma procissão por ruas de arvoredo muito frescas, com muitos fogos, danças e outras festas; comungaram quase todos os da comunhão, que são perto de duzentas pessoas." (⁴)
Fato curioso é que o padre Cardim, antes de mudar de assunto na Narrativa Epistolar, cuidasse em dizer qual era o procedimento adotado pelos valentes indígenas para tratamento das feridas resultantes da autoflagelação:
"Esquecia-me dizer que os lavatórios cheirosos e pós de murtinhos com que se curam estes índios quando se disciplinam são irem-se logo meter e lavar no mar ou rios, e com isso saram, e não morrem." (⁵)
Pode-se bem imaginar que ferimentos eram esses, capazes de levar alguém à morte se não fossem tratados...

(1) As missões eram aldeamentos de indígenas sob supervisão de jesuítas. Em muitos casos, eram povoações forçadas pelas autoridades coloniais, que impunham o fim do nomadismo como condição para a paz.
(2) Chefe indígena.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 58 e 59.
(4) Ibid., p. 59.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Queijadinhas para o padre José

É sabido que, em alguns lugares, durante o Período Colonial, os padres jesuítas não eram muito estimados pelos colonos, ocorrendo não poucos entreveros com os religiosos por questões ligadas à escravização dos índios. De um lado, os colonos forçavam os indígenas ao trabalho, alegando que precisavam da mão de obra; de outro, os padres insistiam que o cativeiro era injusto e impedia a catequese. Rebatendo, diziam os colonos que, nas reduções, os jesuítas também se serviam do trabalho dos índios, a pretexto da catequese... E nesse rumo seguia um confronto interminável, com não poucos episódios dramáticos (como, por exemplo, a expulsão dos jesuítas de São Paulo em 1640).
Pequena imagem do Padre
José de Anchieta
em porcelana, c. 1940 (³)
Ora, se devemos crer no que escreveu o Padre Fernão Cardim sobre as viagens do visitador jesuíta, Padre Cristóvão de Gouvêa, nos anos oitenta do Século XVI, foram os jesuítas, por onde quer que passavam, muito bem recebidos (e Cardim registra esse fato com uma certa admiração, o que demonstra que talvez os religiosos estivessem aguardando outra coisa). Conta-nos, até, um episódio bastante saboroso (em mais de um sentido, como se verá), ocorrido em uma ocasião na qual, tendo ido às "visitas", retornavam bastante fatigados:
"Dali tornamos à vila, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto monte uma índia vestida como elas costumam, com uma porcelana da Índia cheia de queijadinhas de açúcar, com um grande púcaro d'água fria, dizendo que aquilo mandava seu senhor ao padre provincial José (...)." (¹)
Neste caso, pode-se dizer que os padres estavam recebendo mostras de grande apreço, não é mesmo?
O "Padre José", provincial, citado por Cardim é, provavelmente, o Padre José de Anchieta, que exerceu o provincialato jesuíta no Brasil até 1587; dele, o mesmo Cardim diria, em seguida:
"É este padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda a perfeição, desprezador de si e do mundo; uma coluna grande desta Província, e tem feito grande cristandade e conservado grande exemplo; de ordinário anda a pé, nem há retirá-lo de andar sendo muito enfermo. Enfim, sua vida é vere apostolica." (²)

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 23 e 24.
(2) Ibid, p. 24.
(3) Do acervo do Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira - SP.


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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Quanta cana um engenho real podia moer

Cana-de-açúcar (²)
De acordo com Antonil, um engenho real (com roda d'água) moía, semanalmente, as seguintes quantidades de cana-de-açúcar, no Século XVIII:
- Diariamente: 25 a 30 carros de cana;
- Semanalmente: até sete vezes a quantidade diária (o que significa que um engenho, nesse caso, funcionava os sete dias da semana, sem interrupções).
Explica o Padre Antonil (ou Andreoni...):
"No espaço de vinte e quatro horas é moída uma tarefa redonda de vinte e cinco até trinta carros de cana, e em uma semana das que chamam solteiras (que vêm a ser, sem dia santo), chegam a moer sete tarefas." (¹)
Era, para a capacidade do maquinário da época, uma quantidade enorme de cana, que resultava em lucros (grandes) para os senhores de engenho, para os que transportavam o açúcar até a Europa (lucros maiores) e para os que, depois de refinado o açúcar, vendiam-no nos mercados europeus (lucros muito maiores).
Essa quantidade de cana moída valia, como já disse, para os engenhos d'água, também chamados engenhos reais, que eram muito superiores em capacidade de moagem aos engenhos-trapiches, mais conhecidos como "engenhocas", e que eram, geralmente, movidos por animais (os muito pequenos usavam escravos para mover o maquinário). Mas havia, ao menos no Nordeste açucareiro, um grave problema em relação aos engenhos d'água: a falta exatamente dela, a água, quando, durante as longas estiagens, tão frequentes na região, os cursos d'água que moviam o maquinário chegavam a secar. Por isso, mesmo havendo cana para moer durante o ano todo, nem sempre isso acontecia - não por faltar a cana, e sim a água. Foi o que explicou o Padre Fernão Cardim, jesuíta, em carta ao Provincial de sua Ordem, datada dos anos oitenta do Século XVI:
"Tornando aos engenhos, cada um deles é uma máquina e fábrica incrível, uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quais moem mais e com menos gasto, outros não são d'água, mas moem com bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fábrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do ano, o que não têm os d'água, porque às vezes lhes falta." (³)

(1) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 53.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 83. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 54.


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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Quanto se pagava a um capelão de engenho no Brasil Colonial

Os engenhos de açúcar do Período Colonial eram localizados em áreas que deviam estar perto o suficiente dos portos para que o embarque do açúcar, com destino à Europa, fosse viável. Mas deviam estar, também, em áreas nas quais tanto o solo quanto o clima fossem favoráveis ao cultivo da cana em larga escala. Além disso, precisavam ter matas nas proximidades, já que o consumo de lenha seria alto. E, não menos importante, no caso dos engenhos d'água (ou "engenhos reais"), precisavam dispor de água corrente com força capaz de girar as chamadas rodas d'água.
Vê-se, portanto, que, da escolha acertada da localização dependia, em medida considerável, o sucesso de um novo empreendimento açucareiro. Por isso, a maioria dos engenhos acabava por constituir-se em unidades econômicas tão autônomas quanto possível, já que nem sempre a localização favorável estava perto de uma vila ou cidade importante.
Ora, nos tempos coloniais, as pessoas eram, em geral, muito religiosas, mesmo aquelas que não poderiam ser reputadas como modelos de virtudes. Assim, entre as instalações de um engenho estava sempre uma capela e, para manter a regularidade dos ofícios religiosos, entre os trabalhadores livres os senhores de engenho faziam constar um padre, que era assalariado, conforme conta o Padre Fernão Cardim, em carta datada dos anos oitenta do Século XVI:
"O Padre Quirício Caxa e eu pregamos algumas vezes nas ermidas que quase todos os senhores de engenhos têm em suas fazendas, e alguns sustentam capelão à sua custa, dando-lhe quarenta ou cinquenta mil réis cada ano, e de comer à sua mesa." (*)
Qual era o poder aquisitivo do salário anual que recebia um capelão de engenho? Apenas para efeito de comparação, vale lembrar que, no Século XVI, em São Paulo, onde a quantidade de escravos indígenas era muito grande, o preço de um nativo escravizado, de acordo com a idade e capacidade para o trabalho, além da tribo de origem, variava, mais ou menos, entre 5 e 15 mil réis. Ou seja, se não era regiamente pago, um capelão, por outro lado, não sendo alguém de grandes ambições, podia levar uma vida razoável, para os padrões da época e condições proporcionadas pela Colônia.
O hábito de ter um padre capelão foi mantido, com o passar do tempo, mesmo porque era símbolo de status, para um senhor de engenho, ter quem celebrasse missas, batizasse as crianças e fizesse casamentos em sua capela. Mais de cem anos depois do Padre Cardim, Antonil, em sua famosa obra Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, mencionaria os capelães entre os funcionários livres assalariados que os engenhos precisavam ter.

(*) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. 
Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 52.


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quarta-feira, 11 de junho de 2014

As ocas, habitações coletivas dos indígenas do Brasil

Tendo percorrido as missões jesuíticas na Bahia durante a década de oitenta do Século XVI, o Padre Fernão Cardim escreveu um interessante relato, a ser entregue ao Provincial da Ordem em Portugal, no qual inclui informações preciosas sobre um mundo que ia desaparecendo à medida que a colonização avançava: o dos povos indígenas sem nenhuma influência do contato com europeus.
Assim, descreve, por exemplo, como era uma habitação coletiva dos indígenas, antes que os nativos fossem aldeados em missões, sob a liderança dos padres da Companhia:
"Moravam os índios antes da sua conversão, em aldeias, em umas ocas ou casas mui compridas, de duzentos, trezentos ou quatrocentos palmos, e cinquenta de largo, pouco mais ou menos, fundadas sobre grandes esteios de madeiras, com as paredes de palha ou de taipa de mão, cobertas de pindoba, que é certo gênero de palma que veda bem água, e dura três ou quatro anos; cada casa destas tem dois ou três buracos sem portas nem fecho [...]." (¹)
Não tendo os índios sua própria escrita, não deixaram relatos próprios. Temos, portanto, que contar apenas com relatos de europeus. Os jesuítas, porém, estavam, nesse sentido, em situação privilegiada, já que tinham maior contato com a população nativa que outros colonizadores e, embora não deixassem de fazer suas descrições sob a ótica de europeus e religiosos, podem ser considerados confiáveis em muito do que escreveram. Não podemos, todavia, supor que todos os povos indígenas tivessem o mesmo tipo de moradia - a descrição de Cardim refere-se, naturalmente, apenas àquilo que ele conhecia.
Um fato que se destaca nessa descrição de uma oca, feita pelo Padre Cardim, é que, como habitação, não podia durar muito. Ora, sendo os índios nômades, isso não era um grande problema, pois fariam outra(s) quando se mudassem; ou já se mudavam porque as habitações se estragavam?
Segue o depoimento de Cardim, com uma descrição do interior das habitações indígenas que conheceu:
"Dentro nelas vivem logo cem ou duzentas pessoas, cada casal em seu rancho, sem repartimento nenhum, e moram duma parte e outra, ficando grande largura pelo meio, e todos ficam como em comunidade, e entrando na casa se vê quanto nela está, porque estão todos à vista uns dos outros, sem repartimento nem divisão; e como a gente é muita, costumam ter fogo de dia e de noite, verão e inverno, porque o fogo é sua roupa, e eles são mui coitados sem fogo." (²)
Pode sorrir, leitor; essas expressões antigas são, às vezes, muito divertidas. Mas prossigamos.

Ritual de sepultamento em aldeia indígena, vendo-se nela as longas ocas (⁵)

Para os europeus foi surpreendente constatar que os indígenas tinham poucas coisas que consideravam suas próprias - as armas estavam entre os poucos pertences individuais. Quase tudo era de uso coletivo e, por isso, de difícil compreensão para os colonizadores. A própria vida em comunidade, tão diversa daquela experimentada na Europa sob o conceito da propriedade privada, causava espanto, como podemos facilmente depreender do que escreveu Cardim:
"Parece a casa um inferno ou labirinto, uns cantam, outros choram, outros comem, outros fazem farinhas e vinhos, etc. e toda a casa arde em fogos; porém é tanta a conformidade entre eles, que em todo ano não há uma peleja, e com não terem nada fechado não há furtos; se fora outra qualquer nação, não puderam viver da maneira que vivem sem muitos queixumes, desgostos e ainda mortes, o que se não acha entre eles." (³)
Nos aldeamentos dos jesuítas na Bahia essas moradias foram preservadas, conforme assevera Cardim: "Este costume das casas guardam também agora depois de cristãos" (⁴). Não foi o que ocorreu nas reduções no sul do Brasil, nas quais os índios aldeados eram levados a viver segundo uma estrutura quase monástica, habitando cada casal uma pequena casa que era parte de uma aldeia onde toda a rotina se regulava pela estrita disciplina dos padres.

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 36.
(2) Ibid..
(3) Ibid., pp. 36 e 37.
(4) Ibid.,, p. 37.
(5) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um copinho de vinho de Portugal

O Padre Fernão Cardim, em carta ao Provincial dos jesuítas, escreveu, a respeito do Colégio da Bahia:
"O Colégio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nele de ordinário sessenta; sustentam-se bem dos mantimentos, carnes e pescados da terra." (¹)
Quem quer que leia essa carta, relatando a situação dos jesuítas no Brasil na década de oitenta do Século XVI, terá a ideia de que, pelo menos na Bahia, nada faltava para conforto dos religiosos, mesmo porque em outros trechos da mesma correspondência, dava o padre mais detalhes sobre os numerosos alimentos então disponíveis.
Curiosamente, no entanto, acrescentaria, depois:
"Nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza, por a terra ser desleixada e os mantimentos, fracos [sic!!!]." (²)
Velhos hábitos, velhos hábitos...

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 13.
(2) Ibid.


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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Os pecados dos senhores de engenho

Todo jovem estudante brasileiro, quando apresentado às questões relacionadas ao Período Colonial, logo aprende que os figurões da época eram mesmo os senhores de engenho. Tinham o controle da produção de açúcar (a grande riqueza da terra e fonte de lucros para o Reino), eram donos do dinheiro e não economizavam na ostentação (embora dentro de casa fossem descuidados no vestuário); faziam e desfaziam no controle político das povoações próximas aos engenhos e, em suas residências, eram os mandões absolutos, com uma autoridade de vida e morte sobre todos os subordinados, o que incluía mulher e filhos, trabalhadores assalariados, vizinhos cultivadores de cana-de-açúcar e toda a escravaria de sua propriedade.
A lei dificilmente os alcançava. Há relatos verídicos de um senhor que executou a nora por suposto adultério e de outro que mandou matar um filho por suspeitá-lo interessado em uma sua amante. A exploração sexual das escravas era coisa corriqueira e - absurdo dos absurdos - muitas vezes os filhos que disso procediam eram conservados na escravidão.
Torturar escravos era, por gente assim, entendido como um direito de propriedade. Não tinham pago pelos cativos? Então, segundo essa lógica, podiam fazer deles o que bem entendessem.
Com tudo isso, eram os senhores de engenho, ao menos formalmente, muito religiosos. Iam às missas, aparentavam respeitar os padres, muitos tinham capela e capelão próprio em suas terras, reputavam por grandíssima honra ter um religioso na família (¹). Não deixavam de ser, contudo, o maior entrave à catequese, tanto de índios como de africanos, no dizer dos próprios missionários, e isso em virtude do mau exemplo que ofereciam. O açúcar era produzido à custa de muito pecado, é o que se deduz deste trecho escrito pelo padre jesuíta Fernão Cardim:
"Os encargos de consciência são muitos, os pecados que se cometem neles (²), não têm conta; quase todos andam amancebados por causa das muitas ocasiões; bem cheio de pecados vai esse doce, porque tanto fazem; grande é a paciência de Deus, que tanto sofre." (³)
Estava o Século XVI marchando para o final quando Cardim escreveu as palavras que acabo de citar. Nem havia chegado ainda o apogeu da produção açucareira. Até lá, quanto mais não aconteceria!

(1) Embora não fosse regra geral, quase sempre o "escolhido" para ser padre era o filho mais novo; em contrapartida, esse rapazinho teria acesso a uma coisa que estava ao alcance de poucos na Colônia: estudo!
(2) Nos engenhos.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 184.


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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Quantos bois eram necessários para mover um engenho trapiche

Engenhos trapiches eram aqueles que, em lugar de terem o maquinário movido pela força da água, usavam animais, geralmente bois. Eram, portanto, menores que os engenhos d'água (também chamados "engenhos reais") e moíam uma quantidade também menor de cana. Levavam, porém, uma vantagem, a de, havendo cana, poderem moer o ano todo, o que nem sempre acontecia nos engenhos reais, se, porventura, secasse o rio de onde provinha a água, um fato que não era de todo incomum no Nordeste brasileiro.
Os trapiches funcionavam, pois, mediante o trabalho de bois, como se vê nesta referência de Gabriel Soares a um engenho feito por Salvador Corrêa no Rio de Janeiro (onde os trapiches eram comuns):
"Defronte desta enseada está a ilha de Salvador Corrêa, que se chama Parnapicu, que tem três léguas de comprido e uma de largo, em a qual está um engenho de açúcar, que lavra com bois, que ele fez." (¹)
Um engenho antigo muito simples
Pergunta-se: Quantos bois eram necessários para que um engenho-trapiche pudesse funcionar a contento?
A resposta vem do Padre Fernão Cardim que, com um grupo de jesuítas que acompanhava o Visitador da Ordem, percorreu a costa do Brasil na década de oitenta do Século XVI, o primeiro da colonização:
"Os trapiches requerem sessenta bois, os quais moem de doze em doze revezados; começa-se de ordinário a tarefa à meia-noite, e acaba-se ao dia seguinte às três ou quatro horas depois de meio dia." (²)
Um engenho era uma estrutura complexa destinada a dar lucros ao seu proprietário. Portanto, trabalhava-se até o limite da capacidade física, quer de homens, quer de animais. Esgotava-se também a terra, se fosse o caso. Afinal, esses eram tempos em que questões ambientais não faziam parte da ordem do dia. No futuro, todavia, até mesmo os governantes portugueses iriam preocupar-se: engenhos consumiam muita madeira e, com isso, as matas estavam desaparecendo.
Solução? Deu-se uma ordem para que não se construíssem engenhos muito próximos uns dos outros...

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 85.
(2) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 55.


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terça-feira, 8 de abril de 2014

Guarás


Guará, em ilustração
 do Século XVII (²)
Guarás, aqui, é bom esclarecer, não são os "lobos", e sim aves litorâneas, de penas vermelhas (Eudocimus ruber), que causaram forte impressão nos colonizadores europeus. Há, por exemplo, o relato é do Padre Fernão Cardim, que acompanhou o visitador jesuíta, Padre Cristóvão Gouvêa, em suas viagens pelo Brasil, e refere-se a acontecimento do ano de 1585:
"Ao dia seguinte, depois de jantar, partimos para São Vicente, e caminhando três léguas por um grande e formoso rio cheio de uns pássaros vermelhos que chamam guará, dos formosos desta terra, os quais são como pegas; os bicos são de um bom palmo e na ponta revoltos, e têm mui compridas pernas; [...]. Vivem junto d'água salgada e nela se criam e sustentam." (¹)
Já no Século XIX, outro clérigo, o Padre Ayres de Casal, iria escrever em sua Corografia Brasílica:
"Os formosos guarás, que são numerosíssimos na proximidade do mar, onde só habitam, quando pousam em bando sobre alguma árvore seca ou despida de folhas, esta fica vistosíssima." (³)
Mas acrescentaria esta nota, obviamente triste:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (⁴)

Um glorioso descendente das aves que sobreviveram às taquaras e às espingardas

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 98 e 99.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 203.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 262 e 263.
(4) Ibid., p. 263.


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