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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Senhores de engenho no inferno

A casa das fornalhas, instalação existente nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial, foi frequentemente comparada ao inferno, conforme se pode ver pelos escritos de vários autores da época - Antonil, entre eles. Antes, porém, que Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas fosse publicado em 1711, outro autor colonial teve a ideia de comparar as fornalhas ao que, na imaginação popular, deveria ser o inferno:
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)
Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época. 
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²) 
Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴) 
Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.  

(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.  
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Pecados nos engenhos

Apoiados na distância das autoridades e na posição econômica, senhores de engenho viam-se livres para fazer, muitas vezes, o que bem entendessem


Engenhos de açúcar estabelecidos no Brasil Colonial eram lugares que desfrutavam de uma grande autonomia, pelo menos sob a perspectiva dos senhores. Eram eles, o ápice da pirâmide socioeconômica, que decidiam como queriam viver. Ainda que não tivessem formalmente esse direito, exerciam um mando de vida e morte sobre todos os demais que moravam no engenho, fossem eles membros da própria família, trabalhadores assalariados ou escravos. 
Assim, mesmo a religião, fator de controle tão importante na época, não conseguia impedir deslizes éticos e morais, até porque, mesmo nos engenhos que dispunham de capela e padre para a celebração de missas e outras cerimônias, o salário do religioso era pago pelo senhor - quem poderia imaginar mordaça mais eficiente do que essa?
Entre 1583 e 1590, Cristóvão de Gouvêa, jesuíta, efetuou, em companhia de outros religiosos, uma "visitação" por várias localidades do Brasil, especialmente as que tinham colégios e missões da Companhia de Jesus. O relatório dessa viagem foi feito pelo padre Fernão Cardim, que notou, ao que parece com algum alívio, que os religiosos, quando era necessário buscar hospedagem em engenhos, eram acolhidos com muita deferência, o que não impedia a constatação de que, neles, a elite colonial se sentia livre para todos os pecados:
"Os encargos de consciência são muitos, os pecados que se cometem neles não têm conta; quase todos andam amancebados por causa das muitas ocasiões. Bem cheio de pecados vai esse doce (¹), porque tanto fazem: grande é a paciência de Deus, que tanto sofre." (²) 
O modo de lidar com esse fenômeno atendia, na época, pelo nome de Inquisição. Mas, como se sabe, as visitações do Santo Ofício dificilmente lançariam seus tentáculos tão longe. 

(1) Referência ao açúcar.
(2) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 56.


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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Pescadores e caçadores a serviço dos senhores de engenho

Durante longo tempo, colonizadores vindos de Portugal não conseguiam esquecer a comida do Reino, de que tanto gostavam. É compreensível, mas o bacalhau salgado que era trazido ao Brasil, depois de meses no mar e nas condições de higiene vigentes nos navios da época, não era exatamente uma comida de boa qualidade, nem estava sempre disponível. Com tanto peixe fresco nas águas oceânicas e fluviais à disposição de quem se desse ao trabalho de pescar, até surpreende que houvesse quem preferisse peixe seco. Mas havia, principalmente nas casas senhoriais.
Contudo, para senhores de engenho, a ideia de pescar impunha uma dificuldade: quem é que faria o trabalho? A resposta, é fácil adivinhar, seguia o mesmo roteiro das demais tarefas. Era gente escravizada ou liberta, mas assalariada por baixo valor, quem se encarregava do pescado de cada dia.
Meus leitores, porém, talvez tenham ainda outra pergunta: Como é que sabemos disso? 
Vamos ao Diálogo Sexto da obra escrita no começo do Século XVII, ao que se supõe por Ambrósio Fernandes Brandão (¹), e que tem como título Diálogos das Grandezas do Brasil, em que duas figuras fictícias (ou nem tanto), Brandônio e Alviano, discutem o que havia de interessante na colônia portuguesa na América. Diz Brandônio, referindo-se aos senhores de engenho e aos lavradores de cana-de-açúcar:
"[...] a maior parte da riqueza dos lavradores desta terra consiste em terem poucos ou muitos escravos; sustentam-se de suas criações, tendo de ordinário um pescador que lhes vai pescar ao mar alto e também aos rios, donde lhes traz pescado bastante para sua sustentação." (²) 
Ao ouvir isso, Alviano logo pergunta se o dito pescador seria homem livre ou escravo, ao que Brandônio responde:
"Não é senão escravo cativo [sic] do gentio da terra (³) ou de Guiné (⁴), e também dos forros, que para o efeito assoldadam a troco de pequeno prêmio, e muitos usam também de caçadores, que lhes trazem cópia grande de caça, e com isso e o mais de suas criações, leite de seus currais, muito açúcar, vivem abastadamente." (⁵) 
Entende-se, pois, o que é que, na prática, quis dizer Antonil ao afirmar que "o ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos" (⁶). 

(1) Autoria atribuída, com razoável probabilidade. 
(2) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 296.
(3) Referência aos indígenas do Brasil.
(4) Escravizados de origem africana.
(5) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Op. cit., p. 296.
(6) ANTONIL, André João S. J. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 1.


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quinta-feira, 13 de julho de 2023

Meio de transporte usado pelas mulheres dos senhores de engenho quando iam à missa

Documento importante para a compreensão quanto ao modo de vida no Nordeste brasileiro por volta do começo do Século XVII, a obra Diálogos das Grandezas do Brasil (¹) inclui a informação de que as mulheres dos senhores de engenho, quando saíam de casa para ir à missa ou para visitar parentes, não tinham por hábito colocar os pés no chão, e muito menos andar a cavalo: iam sentadas em uma rede que, por sua vez, era carregada por escravos. Ingrata tarefa, a deles! No Diálogo Sexto, Brandônio afirma:
"[...] As mulheres [dos senhores de engenho] se trajam muito bem e custosamente, quando vão fora, caminham em ombros de escravos, metidas dentro de uma rede." (²)
Alviano, com certa estranheza, retruca:
"E não fora melhor em cadeira, ou em palanquim, como os da Índia [sic]?" (³)
Pacientemente, Brandônio explica:
"Não, porque a rede é excelente para se andar nela por caminhos e da cadeira seria trabalhoso usar-se, com respeito que sucedem estarem as igrejas desviadas, e da mesma maneira as visitas que fazem às suas amigas e parentas; também costumam levar consigo, para seu acompanhamento, além dos homens que levam de pé ou de cavalo, duas ou três escravas do gentio da Guiné ou da terra, que se não desviam de ir sempre ao redor da rede, a que acomodam uma alcatifa por baixo." (⁴) 
Notando, de passagem que alcatifa é uma espécie de tapete, é relevante que as redes fossem preferidas porque os caminhos eram precários, em particular em regiões rurais, onde estavam os engenhos. Mas o que acontecia à gente importante que residia nas maiores povoações pela mesma época? 
Nas cidades, a elite econômica, à medida que o processo de colonização se consolidou, tornou-se adepta das cadeirinhas de arruar, algumas delas bastante luxuosas. Uma menção a elas por José de Alencar, em As Minas de Prata, obra do Século XIX, mas ambientada no começo do Século XVII, a mesma época a que se referem os Diálogos, diz: "[...] a igreja enchia-se de fiéis, e no adro viam-se já as cadeirinhas e palanquins que traziam à missa as donas e filhas dos ricos senhores da Bahia". Nada surpreendente, se considerarmos que ir à missa, para além de um dever religioso, era oportunidade para contato social, e ouvir sermões era uma diversão muito apreciada, então.
Concluindo, deve-se observar que, nesse cenário, as cadeirinhas de arruar e palanquins de luxo acabavam sendo mais um instrumento para ostentar o poderio derivado da riqueza que o açúcar proporcionava, diante dos olhares admirados da gente miúda que, à margem, nas ruas, tudo observava. As redes, porém, não caíram em desuso tão cedo - continuaram em serviço em algumas localidades, carregadas por escravos, até mesmo nos dias do Império, como meio de transporte - se é que, de fato, merecem esse nome.

(1) A autoria é atribuída, com razoável probabilidade, a Ambrósio Fernandes Brandão.
(2) BRANDÃO, Ambrósio Fernandes. Diálogos das Grandezas do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2010, p. 297.
(3) Ibid.
(4) Ibid. 


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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Lavradores de cana-de-açúcar no Brasil Colonial

Ferramentas de um trabalhador rural
Nos tempos coloniais eram chamados "lavradores de cana-de-açúcar" os indivíduos livres, quase sempre sem capital para implantar um engenho, que cultivavam cana-de-açúcar servindo-se de trabalho escravo. A cana que produziam era fornecida para algum engenho das redondezas.
Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (¹), afirmou que na terceira década do Século XVII a Bahia tinha "cinquenta engenhos de açúcar, e para cada engenho mais de dez lavradores de canas". Portanto, os engenhos, além de utilizarem sua própria safra de cana para fazer açúcar, compravam ainda a produção de vários lavradores. Como era pouco comum a circulação de moeda nesse tempo, o açúcar que disso resultava era repartido entre o senhor de engenho e cada lavrador, em proporções previamente estabelecidas (²).
Sabe-se, porém, que as técnicas agrícolas empregadas pelos lavradores de cana-de-açúcar em suas respectivas propriedades eram, como regra geral, bastante primitivas. José Caetano Gomes, que queria sugerir melhorias no cultivo da cana, escreveu, quando já expirava o Século XVIII:
"Alguns lavradores, raríssimos, se têm servido do arado para fazer os regos, e de algum estrume nas terras já cansadas, porém o número é tão diminuto, que não merece entrar em linha de conta; o geral é limpar a terra a braço (³), ajuntar o capim, fazer covas com a enxada sem alinhamento, plantar sem estercar, fazer toda a plantação em um ou dois partidos, fugindo de terras virgens, porque assim como as muito estercadas ou estrumadas, fazem a cana a que se chama taioba, quero dizer, muito aquosa, muito oleosa e pouco açucarada." (⁴)
Técnicas agrícolas rudimentares, uso de enxadas como máximo de modernidade, pouco ou nenhum cuidado com a conservação do solo e, além de tudo isso, trabalho escravo. Poderia ser pior?

(1) O manuscrito foi concluído por volta de 1627.
(2) Era frequente que fosse metade para cada um.
(3) Dos escravos, certamente.
(4) GOMES, José Caetano. Memória Sobre a Cultura e Produtos da Cana-de-Açúcar. Lisboa: Casa Literária do Arco do Cego, 1800, p. 3.


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terça-feira, 20 de junho de 2017

Senhores de engenho eram explorados por comerciantes de açúcar

Entre os motivos tradicionalmente apontados para o declínio em importância da produção açucareira colonial encontra-se a descoberta de jazidas auríferas, as "Gerais". Por causa da corrida às minas, o preço dos escravos passou por considerável elevação, a tal ponto que muitos senhores de engenho, pensando apenas no ganho imediato, vendiam seus cativos para negociantes que pretendiam fornecer mão de obra para as áreas em que se procurava ouro (¹). Além disso, como havia elevada demanda por alimentos para abastecer as regiões mineradoras, muitos senhores de engenho deixaram de cultivar cana, total ou parcialmente, usando as terras no plantio de gêneros que pudessem ser vendidos aos "mineiros" a peso de ouro (literalmente), já que os suprimentos precisavam ser transportados de lugares distantes e quase nada se cultivava junto às povoações que, do dia para a noite, surgiam em lugares de ricas jazidas. Pouca gente era sensata o suficiente para plantar alguma coisa quando o ouro era arrancado da terra com aparente facilidade (²).
Isso, porém, não era tudo. Epidemias (varíola e febre amarela, principalmente) dizimavam a população colonial, tanto de livres como de escravos. Por consequência, havia redução na mão de obra disponível para a lavoura e para o trabalho nos engenhos. O impacto era severo sobre a produção açucareira. 
Percebendo a fragilidade da situação dos proprietários de engenho, desesperados que estavam para vender o açúcar que conseguiam produzir (³), mercadores e mestres de navios entravam em acordo, de modo a forçar uma redução nos preços usuais - é o que se depreende de uma carta escrita pelo padre Antônio Viera ao Conde de Castelo Melhor:
"Fecharam-se este ano os mercadores em não querer comprar, e os mestres de navios em não querer carregar, para levarem de graça o que se não pode cultivar sem tão custosos instrumentos, como os das fábricas dos engenhos; e havendo leis e forcas para os outros ladrões e homicidas, só para estes que roubam e matam um Estado tão benemérito não há castigo." (⁴)
A carta, escrita na Bahia, onde Vieira passou seus últimos anos, tinha a data de 8 de julho de 1692. Embora a produção de açúcar estivesse longe de desaparecer, havia chegado o tempo de uma completa alteração no foco da economia colonial, que acabaria, inclusive, por resultar na mudança da capital brasileira para o Rio de Janeiro. O Reino queria ouro e, finalmente, as terras portuguesas na América começavam a enviar o tão sonhado metal.

(1) Nem mesmo proibições seguidas de ameaças severas obstavam essa prática.
(2) As técnicas de extração aurífera empregadas no Brasil Colonial eram bastante primitivas. Muita terra rica em ouro se perdia, e apenas jazidas mais ou menos superficiais podiam ser exploradas.
(3) Os proprietários de engenhos, apontados como topo da pirâmide social nos tempos coloniais, estavam às vezes tão endividados que temiam perder tudo o que tinham, em particular após alguns anos de safras ruins, acompanhadas por perda de escravos em razão de alguma doença.
(4) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 442.


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quarta-feira, 30 de março de 2016

Senhores de engenho só eram muito religiosos quando conveniente

É conceito popular que, antigamente, as pessoas eram muito religiosas, e, por isso mesmo, respeitadoras de tudo que se relacionava aos locais de culto e ao clero que aí ministrava. Ora, meus leitores, a ser verdade um caso que contou Rocha Pita, historiador baiano do Século XVIII, talvez seja preciso considerar que a gente que vivia no Brasil Colonial era em extremo piedosa só mesmo quando conveniente.
Foi no tempo que antecedeu a ocupação de Pernambuco por holandeses. Segundo Rocha Pita, a riqueza gerada pela produção açucareira fazia com que a elite colonial apreciasse alardear abastança e vivesse "cometendo muitos delitos, em que por se ostentarem mais famosos no poder, pareciam menos observantes da religião". (¹)
Sucedeu naqueles dias que um padre, sobremodo consciente de seus deveres, teve a ideia de repreender os abusos que observava, dizendo, em um sermão inflamado, que não tardaria em haver castigo a tantos desmandos, uma vez que Olinda cairia em poder de invasores holandeses. É desnecessário afirmar que essa declaração seria, pouco depois, reputada como profecia (²).
Pensam os leitores que os ouvintes, em atitude de penitentes, baixaram a cabeça ao que dizia o padre? Nada disso. Escreveu Rocha Pita:
"A estas palavras, levantando-se alguns dos principais que assistiam ao sermão, o mandaram calar, e o fizeram descer do púlpito com violência e confusão, sem poder o pároco atalhar aquela força, posto que aplicara todos os meios de a obviar; desordem a que se seguiu brevemente a perda de Pernambuco e o cumprimento daquelas palavras, tão mal recebidas nos seus ânimos então, como depois lembradas nos seus arrependimentos, e ainda hoje conservadas com lágrimas nas memórias de todos os moradores mais qualificados de Pernambuco." (³)
Vejam, portanto, leitores, em que é que deu a tão propalada religiosidade de antigamente. Resta apenas acrescentar que nem era necessário ser profeta para desconfiar da possibilidade de uma invasão: a Bahia já fora anteriormente ocupada por holandeses, e a rivalidade entre Holanda e Espanha (na época senhora do Brasil, em razão da União Ibérica) era um fator que faria qualquer analista sério da conjuntura internacional supor que uma tentativa de ocupação de Pernambuco era iminente, até pela cobiça que a rica produção açucareira despertava entre comerciantes europeus.

Olinda, em Pernambuco, durante a ocupação holandesa (⁴)

(1) PITTA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. 
(2) A ocupação holandesa em Pernambuco durou de 1630 a 1654.
Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 120.
(3) Ibid.
(4) MONTANUS, Arnoldus. Amerika. Amsterdam: Jacobus von Meurs, 1673.


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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Os feitores dos engenhos coloniais

A maioria dos dicionários define feitor como sendo o indivíduo que administra bens ou negócios em lugar do proprietário. Andei fazendo uma investigação informal, com gente de vários níveis de escolaridade, e constatei que, no imaginário popular do Brasil, a palavra está revestida de outro significado: para a maioria, é alguém que manda ou tem poder para impor a própria vontade, enquanto que alguns foram explícitos em fazer a ligação com o indivíduo que comandava o trabalho dos escravos. Embora a minha pesquisa, até pelo caráter de informalidade, não tenha nenhuma pretensão a rigor científico, é fácil verificar que o papel do feitor, como elemento responsável pela subordinação dos cativos nos locais de trabalho, acabou impregnando o vocábulo com um aspecto altamente pejorativo, que contraria a aparente neutralidade que os dicionários tendem a apresentar.
O padre André João Antonil, escrevendo no começo do Século XVIII, foi autor da famosíssima definição, segundo a qual os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho"; foi ele, também, quem comparou os feitores aos braços do senhor:
"Os braços de que se vale o senhor de engenho, para o bom governo da gente e da fazenda, são os feitores. Porém, se cada um deles quiser ser cabeça, será o governo monstruoso, e um verdadeiro retrato do cão Cérbero, a quem os poetas fabulosamente dão três cabeças." (¹)
Que comparação essa de Antonil! Cérbero era o cão mitológico que, para os gregos, guardava a entrada do mundo dos mortos - ou inferno, se quiserem...
A questão, aqui, é que Antonil era enfático em recomendar aos senhores que cuidassem em explicitar aos feitores os limites à autoridade, para que excessos não fossem cometidos (²):
"Eu não digo que se não dê autoridade aos feitores; digo que esta autoridade há de ser bem ordenada e dependente, não absoluta, de sorte que os menores se hajam com subordinação ao maior, e todos ao senhor, a quem servem. Convém que os escravos se persuadam que o feitor-mor tem muito poder para lhes mandar e para os repreender e castigar, quando for necessário, porém de tal sorte que também saibam que podem recorrer ao senhor e que hão de ser ouvidos, como pede a justiça." (³)
É difícil saber se, de fato, senhores tinham alguma preocupação com as arbitrariedades dos feitores. Como regra geral, o que importava era que, ao fim de cada safra, os lucros que o açúcar proporcionava fossem elevados. Porém, eventualmente, algum feitor podia "sair dos trilhos", suplantando a própria autoridade do senhor ou, pior ainda, dando motivo para uma revolta de escravos. Antonil sugeria, portanto, um expediente para acalmar o cativo injustiçado e dar a entender que o senhor não fechava os olhos para os erros dos feitores, sem, no entanto, reduzir a autoridade que lhes conferia: 
"Nem os outros feitores, por terem mando, hão de crer que o seu poder não é coartado, nem limitado, principalmente ao que é castigar e prender. Portanto o senhor há de declarar muito bem a autoridade que dá a cada um deles, e mais ao maior, e se excederem, há de puxar pelas rédeas com a repreensão que os excessos merecem, mas não diante dos escravos, para que outra vez se não levantem contra o feitor, e este leve a mal de ser repreendido diante deles, e se não atreva a governá-los. Só bastará que por terceira pessoa se faça entender ao escravo que padeceu, e a alguns outros dos mais antigos da fazenda, que o senhor estranhou muito ao feitor o excesso que cometeu, e que quando se não emende, o há de despedir certamente." (⁴)
Um feitor-mor, que na prática quotidiana era quem administrava um engenho, tinha uma série de encargos suficiente para mantê-lo muito ocupado. Sua lista de tarefas em nada ficaria devendo, em termos quantitativos, à do administrador de uma grande empresa na atualidade:
"Obrigação do feitor-mor do engenho é governar a gente e reparti-la a seu tempo, como é bem, para o serviço. A ele pertence saber do senhor a quem se há de avisar para que corte a cana, e mandar-lhe logo recado. Tratar de aviar os barcos e os carros para buscar a cana, formas e lenha. Dar conta ao senhor de tudo o que é necessário para o aparelho do engenho, antes de começar a moer, e logo acabada a safra, arrumar tudo em seu lugar. Vigiar que ninguém falte à sua obrigação, e acudir depressa a qualquer desastre que suceda, para lhe dar, quanto puder ser, o remédio. Adoecendo qualquer escravo, deve livrá-lo do trabalho e pôr outro em seu lugar, e dar parte ao senhor, para que trate de o mandar curar, e ao capelão, para que o ouça de confissão e o disponha, crescendo a doença, com os mais sacramentos para morrer. Advirta que se não metam no carro os bois que trabalharam muito nos dias antecedentes, e que em todo o serviço, assim como se dá algum descanso aos bois e aos cavalos, assim se dê, e com maior razão, por suas equipações, aos escravos." (⁵)
O trabalho do feitor-mor era complementado, na maioria dos engenhos, pelo de um feitor encarregado exclusivamente da moenda, havendo, também, feitores "dos partidos", ou seja, feitores encarregados de administrar as plantações de cana-de-açúcar.
O minucioso Antonil (⁶) ainda tratou de explicar qual deveria ser o salário anual dos feitores:
"Ao feitor-mor dão, nos engenhos reais, sessenta mil réis. Ao feitor da moenda, aonde se mói por sete e oito meses, quarenta ou cinquenta mil réis, particularmente se se lhe encomenda algum outro serviço, mas aonde há menos que fazer, e não se ocupa em outra coisa, dão trinta mil réis. Aos que assistem nos partidos e fazendas, também hoje, aonde a lida é grande, dão quarenta ou quarenta e cinco mil réis." (⁷)
É difícil determinar, com exatidão, qual era o poder de compra dos salários referidos, mas sabe-se que antes que o preço dos cativos chegasse às nuvens em decorrência da descoberta do ouro das Gerais, sessenta mil réis era o preço usual de um escravo forte e saudável. A conclusão óbvia é que, malgrado a autoridade de que era investido, da brutalidade no trato com os escravos que o caracterizava, do verdadeiro terror que impunha aos subordinados, um feitor era, afinal, também um indivíduo de baixa posição social. Trabalhava muito, tinha enormes responsabilidades, mas não via qualquer perspectiva de enriquecer com a renda que lhe cabia (⁸). Os verdadeiros lucros do açúcar iam para outros bolsos.

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 14.
(2) Vê-se, portanto, de onde é que vem o conceito popular da palavra feitor, a que me referi; o conselho dado por Antonil deixa entrever o fato de que os homens encarregados de comandar os escravos eram dados a cometer arbitrariedades.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 14.
(4) Ibid., pp. 14 e 15.
(5) Ibid., pp. 15 e 16.
(6) A obra de Antonil é valiosa, entre outros aspectos, porque preservou detalhes da vida nos engenhos que, de outro modo, talvez fossem perdidos para sempre.
(7) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 17.
(8) Antonil explicava, na mesma obra, que os capelães de engenho recebiam, anualmente, quarenta ou cinquenta mil réis, mais alimentação à mesa do senhor. Havia, em cada engenho, muitos outros trabalhadores livres.


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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Os pecados dos senhores de engenho

Todo jovem estudante brasileiro, quando apresentado às questões relacionadas ao Período Colonial, logo aprende que os figurões da época eram mesmo os senhores de engenho. Tinham o controle da produção de açúcar (a grande riqueza da terra e fonte de lucros para o Reino), eram donos do dinheiro e não economizavam na ostentação (embora dentro de casa fossem descuidados no vestuário); faziam e desfaziam no controle político das povoações próximas aos engenhos e, em suas residências, eram os mandões absolutos, com uma autoridade de vida e morte sobre todos os subordinados, o que incluía mulher e filhos, trabalhadores assalariados, vizinhos cultivadores de cana-de-açúcar e toda a escravaria de sua propriedade.
A lei dificilmente os alcançava. Há relatos verídicos de um senhor que executou a nora por suposto adultério e de outro que mandou matar um filho por suspeitá-lo interessado em uma sua amante. A exploração sexual das escravas era coisa corriqueira e - absurdo dos absurdos - muitas vezes os filhos que disso procediam eram conservados na escravidão.
Torturar escravos era, por gente assim, entendido como um direito de propriedade. Não tinham pago pelos cativos? Então, segundo essa lógica, podiam fazer deles o que bem entendessem.
Com tudo isso, eram os senhores de engenho, ao menos formalmente, muito religiosos. Iam às missas, aparentavam respeitar os padres, muitos tinham capela e capelão próprio em suas terras, reputavam por grandíssima honra ter um religioso na família (¹). Não deixavam de ser, contudo, o maior entrave à catequese, tanto de índios como de africanos, no dizer dos próprios missionários, e isso em virtude do mau exemplo que ofereciam. O açúcar era produzido à custa de muito pecado, é o que se deduz deste trecho escrito pelo padre jesuíta Fernão Cardim:
"Os encargos de consciência são muitos, os pecados que se cometem neles (²), não têm conta; quase todos andam amancebados por causa das muitas ocasiões; bem cheio de pecados vai esse doce, porque tanto fazem; grande é a paciência de Deus, que tanto sofre." (³)
Estava o Século XVI marchando para o final quando Cardim escreveu as palavras que acabo de citar. Nem havia chegado ainda o apogeu da produção açucareira. Até lá, quanto mais não aconteceria!

(1) Embora não fosse regra geral, quase sempre o "escolhido" para ser padre era o filho mais novo; em contrapartida, esse rapazinho teria acesso a uma coisa que estava ao alcance de poucos na Colônia: estudo!
(2) Nos engenhos.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 184.


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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Prejuízos possíveis em um engenho colonial de cana-de-açúcar

Pelo muito que se valorizava social, política e economicamente a figura de um senhor de engenho no Brasil Colonial, poderá alguém ter uma ideia equivocada do que realmente significava ser proprietário de um engenho de açúcar, como se tal condição colocasse um homem e sua família ao abrigo de quaisquer dificuldades. Mas não era assim, e não era porque, conforme aprendemos com o jesuíta Antonil (*), que vivenciou de perto a realidade do Brasil açucareiro, um senhor de engenho podia ter, em sua propriedade, um número considerável de razões para prejuízo, que o conduziriam, em última análise, à bancarrota, se não devidamente administradas.
A primeira dessas razões (e é significativo que nosso famoso informante a tenha listado em primeiro lugar) era a fuga ou a morte de escravos. Sabe-se hoje que um africano, arrancado de seu Continente de origem e obrigado a trabalhar no Brasil, não tinha, em um engenho, uma expectativa de vida das mais favoráveis, tal a dureza do trabalho e das condições de vida que se lhe impunham, o que, segundo o próprio Antonil, obrigava cada senhor a, anualmente, adquirir novas "peças". Diante da vastidão despovoada do Brasil, muitos escravos reuniam toda a coragem que podiam e empreendiam fuga, indo reunir-se a outros, sob igual sorte, em povoações a que se deu o nome de quilombos. Sabe-se também que, longe de serem ocorrências excepcionais, os quilombos eram, sim, até comuns, fornecendo, para os escravos fugitivos, um abrigo, ainda que temporário.
Na lista de Antonil, a perda de cavalos e bois aparece em segundo lugar (outro fato curioso). Esses animais realizavam uma parte considerável do trabalho do engenho e, no caso dos bois, eram geralmente empregados para puxar os carros que transportavam a cana até a moenda e o açúcar até o porto de embarque, sucedendo por vezes que, devido às péssimas condições das estradas, em especial durante as temporadas de chuva, os bois chegavam a morrer de exaustão pelo trabalho que lhes era imposto.
Vem em seguida a menção às secas, fenômeno que, no Nordeste brasileiro, revestia-se de particular importância, uma vez que podia pôr a perder toda uma safra, embora os senhores apreciassem alguma estiagem, já que proporcionava à cana um maior potencial açucareiro.
Finalmente, lista Antonil os desastres ou imprevistos que anualmente podiam acometer um engenho e, embora não haja menção específica do que deviam ser eles, pode-se imaginar, por exemplo, eventuais incêndios, pragas na lavoura, excesso de chuva, e assim por diante.
Diante disso, leitor, fica evidente que, se a posição dos senhores era realmente elevada, os riscos que corriam também eram grandes, em um cenário no qual, apesar dos altos rendimentos que podiam vir a obter, não eram também, na cadeia que envolvia a produção, refino, exportação e comercialização do açúcar, com toda certeza, dos que mais lucravam.


(*) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: 1711, p. 4.


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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Senhores de engenho: ainda que poderosos, nem sempre bem-vestidos

"Casou aos vinte e cinco anos, em 1859, com a filha de um senhor de engenho de Pernambuco, chamado Melchior. O pai da moça ficara entusiasmado, ouvindo ao futuro genro certo plano de produção de açúcar, por meio de uma união de engenhos e de um mecanismo simplíssimo. Foi no Teatro de Santa Isabel, no Recife, que Melchior lhe ouviu expor os lineamentos principais da ideia.
- Havemos de falar nisso outra vez, disse Melchior; por que não vai ao nosso engenho?"
                                                                                                                            Machado de Assis, Sales

Se considerarmos a hierarquização social do Brasil no período colonial e até mesmo no Império veremos que, na maior parte do tempo, os senhores de engenho reinaram absolutos. Donos das grandes propriedades que não apenas cultivavam cana mas, principalmente, produziam o valorizado açúcar, esses homens ocupavam posição com a qual sonhavam quase todos colonizadores. Eram respeitados, sua vontade era decisiva não apenas no âmbito de sua família ou de seu engenho, mas sobre toda a população que, de uma maneira ou outra, dele dependia - cultivadores de cana, trabalhadores livres, moradores das povoações adjacentes e, por suposto, escravos, fossem de origem africana ou indígena.
É legendária a observação de Antonil: "O ser Senhor de Engenho é título a que muitos aspiram, porque traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos. E se for, qual deve ser, homem de cabedal e governo, bem se pode estimar no Brasil o ser Senhor de Engenho, quanto proporcionadamente se estimam os títulos entre os fidalgos do Reino." (¹)

Engenho Junqueiro, aquarela de F. S. Scholla, 1844 (²)
Ninguém deve imaginar, no entanto, que esses poderosos da Colônia viviam em luxo extremado. Ao contrário, como em toda a vida rural do período, a simplicidade era a regra. Mais de um século depois de Antonil, um outro registro, esta vez de Auguste de Saint-Hilaire, retrata o modo de vida de um senhor de engenho do Rio de Janeiro e, embora seja provável que o naturalista francês tivesse em mente um senhor em particular, é perfeitamente razoável entender que outros senhores viviam de modo semelhante. Vejamos:
"A posse de engenho de açúcar confere entre os lavradores do Rio de Janeiro como que uma espécie de nobreza. De um "Senhor de Engenho" só se fala com consideração e adquirir tal preeminência é a ambição geral. [...]
Em casa usa roupa de brim, tamancos, calça mal amarrada e não põe gravata; enfim, indica-lhe a toilette que é amigo do comodismo.
Mas, se monta a cavalo e sai, é preciso que o vestuário lhe corresponda à importância e então enverga o jaleco, as calças, as botas luzidias, usa esporas de prata, cavalga sela muito bem tratada.
Um pajem negro fardado com uma espécie de libré, é-lhe de rigor. Empertiga-se, ergue a cabeça e fala com a voz forte e o tom imperioso que indicam o homem acostumado a mandar em muitos escravos." (³)
Malgrado o intervalo de tempo e de lugar - um trecho é do início do século XVIII, outro do XIX, um refere-se particularmente ao Nordeste açucareiro, outro ao Rio de Janeiro - há evidentes similaridades entre essas citações. A alta posição social que ocupavam, a admiração geral proporcionada pela condição de senhor, o mandar sem contestação, todas características muito valorizadas em uma sociedade em que o trabalho manual era visto como próprio de camadas baixas, contrastam com as observações de Saint-Hilaire quanto ao prosaico trajar dentro de casa (⁴). Afinal, o que contava mesmo era a aparência diante do público, e quanto a isso (depreende-se facilmente do texto), os senhores eram sempre muito cuidadosos. Toda essa pompa e autoridade que permeavam o imaginário popular somente viriam e encontrar concorrência à altura nos poderosos Barões do Café. Mas isso, só mesmo na segunda metade do século XIX. 

(1) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas.
(2) O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 17.
(4) Ainda sobre a questão do vestuário dos moradores da casa-grande, escreveu Capistrano de Abreu:
"O dono da casa-grande, como toda a população masculina, exceto quando viajava, andava de ceroula e camisa, geralmente com rosários, relíquias, orações cuidadosamente cosidas e escapulários ao pescoço. Nas ocasiões solenes, recebendo visitas, revestia-se de quimão, timão ou chambre. "Quando um brasileiro põe-se a usar um desses hábitos talares começa a se considerar personagem importante (gentleman) e com título portanto a muita consideração", informa Koster. A roupa caseira das mulheres constava de camisa e saia; o casebeque só apareceu mais tarde."
(ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de História Colonial: 1500 - 1800. Brasília, Ed. Senado Federal, 1998 p. 204)


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