sábado, 21 de maio de 2011

O Trabalho das Escravas nos Engenhos de Açúcar: Parte 3 - Na Casa das Fornalhas

A moenda de um engenho (conforme postagem anterior) era possivelmente o lugar mais perigoso que nele havia, mas não o mais parecido com a imagem popular do inferno. Esse posto era reservado à casa das fornalhas. É Antonil quem diz:
"Junto à casa da moenda, que chamam casa do engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, cárcere de fogo e fumo perpétuo, e viva imagem dos vulcões, Vesúvios e Etnas, e quase disse do purgatório ou do inferno." (¹)
Nesse lugar fantasmagórico, repleto de calor e fumaça em razão da queima permanente de madeira para alimentar as fornalhas, trabalhavam homens livres, pagos para tarefas especializadas, relacionadas a "dar o ponto" na calda que originaria o açúcar, além de um certo número de escravos, escolhidos deliberadamente entre os mais rebeldes que porventura houvesse no engenho, tal a natureza brutal da atividade a eles destinada. Eram esses escravos dentre aqueles que já haviam fugido, incitado rebeliões, ou se envolviam frequentemente em brigas, ou ainda atentavam contra feitores. Por essa razão, trabalhavam atados por pesadas correntes que, se não impediam os movimentos necessários às suas tarefas, tornavam a existência um suplício que, aliado ao ar pesado e infecto, só podia ser comparado ao inferno.
Aí, nesse antro de terror, trabalhava ao menos uma escrava, conhecida como "calcanha":
"Serve finalmente para varrer a casa e para concertar e acender as candeias (que são seis, e ardem com azeite de peixe) e para tirar as segundas e terceiras espumas do seu próprio parol e torná-las a botar na caldeira, uma escrava, a quem chamam por alcunha "a calcanha"." (²)
Seria ela também uma escrava "condenada" por algum ato de rebelião? Eventualmente poderia ser - ou não. Anônima, em meio a outros escravos, consumia-se também no amargo quotidiano produtor do doce açúcar - ironia que não passava despercebida nem mesmo naqueles dias.

(1) Antonil, A. J. Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas
(página 59 da edição original de 1711)
(2) Ibid., pp. 65 e 66, também da edição de 1711.


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