terça-feira, 3 de maio de 2011

As Ruínas Podem Ser Belas

Restaurar antigas construções constitui-se em parte essencial do que se convencionou chamar de preservação do patrimônio histórico. Não é tarefa fácil, já que demanda, quase sempre, um volume expressivo de recursos, em paralelo à exigência de mão de obra muito qualificada. Sim, não é também uma tarefa fácil porque em um país como o Brasil, no qual há recursos claramente insuficientes destinados à educação e à saúde pública, não chega a surpreender que o patrimônio histórico venha a ser considerado como coisa de importância secundária. Não o é, entretanto, ainda que, por preceito, numa sociedade democrática a população tenha todo o direito a esclarecimentos quanto à utilidade daquilo que se quer conservar. Na última semana, ouvi alguém dizer, em relação a uma igreja do século XIX, que melhor seria colocar tudo aquilo abaixo, já que precisa de cuidados contínuos, é "velha demais" e "um dia desses ainda vai cair na cabeça de um monte de gente". Ora, basta que eventualmente os encarregados da administração pública venham a ter essas mesmas ideias e a bela igrejinha do barroco tardio acabará caindo mesmo, mas por falta do devido cuidado.
Um dos prédios da Casa de Saúde de Amparo, datado de 1876
Todavia... Nunca lhe ocorreu, leitor, que o desgaste provocado pela passagem do tempo pode ser muito charmoso, bonito até? Não estou propondo, evidentemente, que velhos edifícios, quase caindo, sejam deixados a despencar, pondo em risco a segurança de quem quer que deles se aproxime. Além disso, como todos sabem, nem tudo o que é velho tem de ser preservado. A não ser em casos excepcionais, quando um determinado conjunto arquitetônico é particularmente expressivo, é mais razoável supor que seja preservada uma amostra significativa, assegurando a memória de um dado período, sem comprometer o uso racional do espaço urbano, de acordo com as novas demandas populacionais e tecnológicas.
A placa informa que o prédio está em vias de restauração
Como se vê, esse é um assunto que requer decisões inteiramente desapaixonadas, fruto de estrita racionalidade. Acontece que, por vezes, a beleza de certos prédios em ruínas nos dá o que pensar. 
Dentro da área do Parque Ecológico de Amparo (S.P.) estão os antigos edifícios da Casa de Saúde, erguidos na segunda metade do século XIX, época na qual desenvolveu-se uma nova concepção de serviços médicos, muito diversa dos antigos conceitos que até então haviam predominado e relacionados, por exemplo, à localização em termos de área urbana ou ao uso do espaço construído. No local, uma placa indica que o conjunto está a caminho de uma restauração. Excelente, mas é inegável que as construções, já tomadas pelo mato, têm o encanto do que poderíamos chamar de "peso do passado", visível a quem quer que seja capaz de refletir sobre o que observa.  Afinal, como seria possível capturar (e preservar) a magia dessa árvore que cresceu incrustada na parede da velha edificação?

Quanto tempo terá sido necessário para que essa árvore crescesse na parede?

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