domingo, 8 de maio de 2011

Moedas de Troca no Comércio de Africanos Para Escravização: Parte 1 - O Zimbo da Bahia

Muitos autores dos primeiros tempos do Brasil colonial eram um tanto indiretos quando faziam referência ao infame comércio de seres humanos de que eram abastecidos de escravos os mercados na colônia (e não só!). Esses falsos pudores, eufemismos hipócritas, eram produto, quase sempre, de severas dúvidas de consciência, principalmente em religiosos. Afinal, como explicar que a Igreja estendesse sua proteção, ainda que ineficaz, sobre a população nativa do Brasil, mas referendasse a escravização de africanos, sendo ela mesma, por vezes, senhora de muitos trabalhadores compulsórios? É desnecessário lembrar que, a despeito disso, havia entre o clero quem enxergasse e condenasse toda e qualquer apropriação de um ser humano por outro, mas as vozes nesse sentido eram, infelizmente, a minoria.
Na época a justificativa dada era que, para os africanos, a escravidão resultaria em grande bem, por serem levados ao conhecimento da religião cristã. Resta saber quão cristãmente eram tratados esses infelizes, condenados quase invariavelmente a uma vida de torturante trabalho e a uma morte prematura decorrente de seus sofrimentos quotidianos.
Gente da importância do Pe. Antônio Vieira pode exemplificar o que acabei de dizer, na medida em que o célebre pregador assumia em seus discursos a defesa do direito dos indígenas à liberdade, embora a escravidão de africanos lhe parecesse razoável. Temos o hábito de atribuir tudo isso ao espírito da época. Faz parte, mas não nos deve cegar os olhos para a quase interminável carreira de desgraças que a escravidão acarretou ao Brasil. A propósito, sabemos pelos testamentos deixados pelos bandeirantes que morriam em campanha que a moda dos eufemismos para referir-se a escravos estendia-se aos indígenas capturados. Nesse caso, todavia, a explicação é fácil: a escravidão indígena era formalmente proibida, embora extensamente praticada, de modo que era preciso cuidado no relatar em testamento a posse do que se tinha mas não se devia ter. Simples mesmo, não?
Pois bem, o que vou referir agora chega a parecer loucura. Mas não é. Escreveu Frei Vicente do Salvador, em sua  História do Brasil (c. 1627), ao empreender uma descrição da Capitania de Porto Seguro:
"Porém sem isto tem outras coisas, pelas quais merecia ser bem povoada; porque no rio Grande, onde parte com a Capitania de Ilhéus, tem muito pau-brasil, e no rio das Caravelas muito zimbo, dinheiro de Angola, que são uns buziozinhos mui miúdos de que levam pipas cheias, e trazem por elas navios de negros, e na terra deste rio, e em todas as mais que há até entestar com as de Vasco Fernandes Coutinho, se dá muito bem o gado vacum, e se podem com facilidade fazer muitos engenhos."
Era só o que faltava: "muito zimbo, dinheiro de Angola (...) de que levam pipas cheias, e trazem por elas navios de negros..." Essa quase inacreditável coincidência "natural" viria a favorecer o tráfico. Como veremos nas próximas postagens, os búzios da Bahia não foram, porém, a única "moeda" em vigor na África.

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