domingo, 29 de maio de 2011

Peixe-Monge, Peixe-Bispo - Exóticas "Celebridades" do Renascimento

Cada época da trajetória humana neste planeta tem-se assinalado por um modo específico no relacionar-se com o conhecimento. Já houve tempo em que o saber, ao menos sob o aspecto formal, era reservado a uma camada social específica, como os sacerdotes ou escribas, por exemplo. Nesse modelo, tinha-se clara ideia de que conhecimento representava prestígio social (acompanhado, é certo, dos benefícios dele decorrentes) e, portanto, devia ser muito bem guardado, "a sete chaves", como se usa dizer, somente sendo transmitido aos membros do grupo devidamente iniciados. Basta um pouco de senso crítico para saber que essa mania não ficou restrita à Antiguidade.
Houve ocasiões, por outro lado, em que se considerou que tudo o que havia para ser descoberto já o fora anteriormente e, por isso, restava aos homens de ciência o empenho da preservação do saber, para que não se perdesse. Copiar, copiar, copiar - além de memorizar - era muito importante. Ainda que reconhecendo quão vital foi a preservação dos antigos livros assegurada por copistas, em tempos nos quais a imprensa era apenas um sonho, é de se comemorar que tal época tenha passado. Era preciso ir além.
O Renascimento é tido como um período no qual, ao lado de uma intensa busca pela compreensão dos mestres clássicos, desenvolveu-se um novo gosto pela investigação científica e, embora a palavra em si represente,para a maioria, sinônimo de artes plásticas (Da Vinci, Michelangelo, Boticelli...), deve-se compreender que o universo renascentista foi muito além. Desenvolveu-se a matemática, ganhou impulso a astronomia, a observação da natureza, alavancada pela admiração diante da descoberta de seres vivos até então desconhecidos no "Novo Mundo", ocupou muitos cérebros brilhantes. Tudo isso, ao lado da popularização da imprensa com tipos móveis tornou possível uma circulação do conhecimento como o mundo até então nunca havia presenciado, malgrado tentativas de restringir a divulgação de obras consideradas perigosas para o establishment.
Orca com filhote, segundo Bellonius
Vamos a uma exemplificação. Em 1553 foi publicado em Paris De aquatilibus, escrito por Pierre Belon, naturalista, também conhecido (como era usual entre renascentistas), como Petrus Bellonius Cenomanus. Nesse livro notável, escrito em latim e, portanto, destinado ao universo erudito da época, o autor procura apresentar uma sistematização dos seres vivos que vivem na água ou em suas imediações (como castor, hipopótamo, crocodilo, lagarto). Sendo a obra toda ilustrada, pode-se perceber como havia avançado o conhecimento. Veja-se, a título de elucidação, o caso dessa orca representada ao trazer um filhote ao mundo. Quanto progresso!
O "peixe-monge" de Bellonius
Pois bem, leitor, há mais a considerar. A despeito do expressivo volume de conhecimento bem organizado, muito do "saber" da época faria um ictiólogo da atualidade arrancar os cabelos de desespero. Quer ver? Embora o autor admita que muitos seres relatados pelos antigos não passavam de lenda, inclui entre os peixes listados nada menos que um peixe-monge... com direito a ilustração. Teria esse ser aparecido na costa da Noruega em meio a uma tempestade.
O "peixe-bispo", de acordo
com Rondelet
Mais ainda, Bellonius não foi o único a incorrer nessa "heresia". Um seu contemporâneo, também francês, Guillaume Rondelet, em L'Histoire Entiere des Poissons, de 1558, não só menciona o tal peixe-monge, mas vai além, citando também um peixe-bispo, que teria dado o ar da graça no litoral da Polônia em data incerta, talvez 1531, devidamente paramentado para celebrar missa. Desapareceu, é verdade, não sem antes cumprimentar membros do clero e abençoar a multidão que viera vê-lo. A mesma lorota sobre o peixe-bispo seria repetida por Fournier em Hydrographie (1643), afirmando-se, todavia, que o ano da aparição havia sido 1433.
Por mais que se tente encontrar um ser marinho que pudesse sugerir o "peixe-bispo", não há como negar a quantidade de imaginação e superstição cordialmente associadas para criar tal figura. Não nos enganemos. Estamos amarrados à época em que vivemos e pouco podemos fazer contra essa condição. Além disso, não devemos zombar dos erros da gente antiga. Só o tempo dirá de que coisas dos nossos dias hão de rir no futuro.


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