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quinta-feira, 30 de março de 2017

Espécimes animais que você nunca encontrará em um zoológico

Seria difícil exagerar o progresso na impressão de livros ao longo do Século XVI, tanto em quantidade como em qualidade. Embora ainda não fossem baratos, os livros impressos eram muito mais acessíveis que os belos exemplares medievais copiados à mão e repletos de iluminuras. Mais gente lia, mais autores escreviam e publicavam. O desenvolvimento da qualidade gráfica possibilitou o aparecimento de livros como ICONES ANIMALIVM QVADRVPEDVM VIVIPARORVM ET OVIPARORVM e ICONES ANIMALIVM AQVATILIUM IN MARI & DVLCIBVS AQVIS de Conrad Gesner, publicados em Zürich em meados do Século XVI, com centenas de ilustrações: nesse tempo, cada uma delas precisava ser preparada manualmente por um artista, para, depois, ser inserida na composição da respectiva página. 
Os livros em questão mostravam animais chamados "domésticos", que todo mundo conhecia, tais como bois, vacas, patos, galinhas, cabras, etc., e também centenas de peixes, além de animais considerados selvagens, como rinocerontes, elefantes e girafas, sobre os quais reinava grande curiosidade, já que pouca gente na Europa tivera ocasião de vê-los, durante alguma viagem. 
Além de toda essa bicharada, as obras incluíam, aqui e ali, alguns seres realmente exóticos (se é que podemos falar assim), cujas aparições havia quem relatasse como autênticas. Leitores, é até difícil explicar! Será melhor se passarmos imediatamente às imagens (¹), que falarão por si mesmas.

1. Nem mesmo o autor se atreveu a dar nome; o monstro teria sido capturado em Salzburg no ano de 1531.


2. Alguém sabe o que é isso? A cauda lembra o cangambá ou a jaratataca, mas leva os filhotes consigo, como os gambás. As semelhanças param aí. Gesner dizia que era um animal do Continente Americano. Leitores, se algum dia virem um desses, venham contar aqui no blog, sim?


3. A aparição deste animal teria sido registrada na Itália. Como está incluído no livro dos animais aquáticos, supõe-se que fosse um deles. Seria isso a representação infeliz de um otarídeo - leão-marinho ou lobo-marinho, talvez?


4. Dois semelhantes: o primeiro teria sido avistado em Roma em novembro de 1523; já o segundo ("demônio-marinho"), com direito a aparições na Bélgica (Antuérpia), Noruega e Alemanha, vinha acompanhado de referências a autores da Antiguidade que atestavam sua existência.



5. Hidras são cnidários de água doce, e não há nada de monstruoso nisso. Mas a hidra de Conrad Gesner era muito parecida com o venenosíssimo animal da mitologia grega - o texto alemão falava em "serpente aquática com sete cabeças" - e são sete mesmo, todas bastante humanoides...


Quem de vocês terá visto estes bichos em algum zoológico ou aquário? Será que alguém teve a ideia de capturar e dissecar qualquer deles? Os livros de Gesner traziam também o unicórnio, o peixe-monge e o peixe-bispo, personagens que já andaram frequentando este blog.
Hora de falar sério, leitores. O que estas criaturas estranhas nos mostram é que:
  • Havia, no Século XVI, muita curiosidade por saber o que existia em outras terras (lembrem-se de que os livros de Conrad Gesner foram publicados algum tempo depois do apogeu do Renascimento e das Grandes Navegações, e logo contavam com várias edições);
  • Não podemos descartar o fato de que autores e editores incluíssem coisas absurdas intencionalmente em suas obras, como uma espécie de isca para fisgar leitores crédulos e/ou curiosos;
  • A sede de conhecimento vinha, muitas vezes, acompanhada da falta de informações confiáveis, e até especialistas geniais, como era o caso de Gesner, ainda eram crédulos para supor a existência real dessas simpáticas criaturas - criadas pela imaginação, naturalmente.

No Brasil, um pouco mais tarde...

O jesuíta Simão de Vasconcelos escreveu, no Século XVII, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Monstros marinhos têm saído à costa, de cuja espécie, nem antes, nem depois sabemos que houvesse notícia em outra alguma parte do mundo. [...] Dos peixes-homens e peixes-mulheres vi grandes lapas junto ao mar, cheias de ossadas dos mortos; e vi suas caveiras, que não tinham mais diferença de homem ou mulher, que um buraco no toutiço, por onde dizem que respiram." (²)
Vejam só, leitores: não é que, afinal, apareceu uma testemunha ocular?!!!

(1) Para esta postagem seguiu-se a segunda edição das obras citadas, publicadas em Zürich por Christof Froshover em 1560; as imagens foram editadas digitalmente para facilitar a visualização neste blog.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 279 e 280.


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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Impressores, encadernadores e a revolução dos livros

Impressores trabalhando no Século XVI (¹)
Se você vivesse na Idade Média, leitor, e quisesse comprar um livro, precisaria encomendar uma cópia, que seria feita à mão. O tempo de espera, portanto, dependia, entre outros fatores, do tamanho do livro desejado.
Como o processo de cópia era lento e o material usado era dispendioso, os livros custavam caro, e poucos podiam pagar por eles. Isso, afinal, não era um grande problema para as "pessoas comuns", porque a maioria delas não sabia ler e, portanto, livros, para elas, eram objetos inúteis. Estudantes e mesmo eruditos precisavam recorrer às bibliotecas de conventos e universidades. Uma coleção que tivesse duzentos ou trezentos títulos já era bastante respeitável. Não deve causar espanto que, nesse tempo, em algumas bibliotecas os livros fossem presos a correntes que, por sua vez, eram ligadas às paredes. Isso evitava que algum estudioso apaixonado tentasse levar livros para casa, a despeito das dimensões pouco práticas das cópias manuscritas, com encadernações de couro e pesados fechos de bronze.
Tudo mudou a partir da invenção da prensa com tipos móveis. Correm histórias alternativas para esse acontecimento, mas foi Gutenberg quem conseguiu dar à imprensa um uso realmente viável em larga escala. Seu trabalho era limpo, rápido - para os padrões da época - e, embora os livros ainda fossem caros, eram muito mais acessíveis do que nos séculos precedentes, um feito que, em termos de importância, pode perfeitamente ser comparado ao descobrimento da América. Agora os livros eram fabricados em oficinas, nas quais novas profissões entravam em cena, destacando-se, entre elas, as de impressor e encadernador.
Cada página devia ser composta individualmente, mas, como os tipos ("letras") eram móveis, podiam ser reutilizados posteriormente para fazer outras páginas. Uma vantagem adicional é que, estando pronta a composição de uma página, podiam-se tirar tantas cópias quanto desejadas. Aplicava-se tinta à página, e, na prensa, um mecanismo relativamente simples (ponto para Gutenberg!), o texto era copiado em folhas de papel, que, em seguida, eram postas a secar. Tudo isso era trabalho do impressor.
Encadernadores fazendo seu trabalho em
uma oficina do Século XVI (²)
Depois que todas as páginas de um livro estavam impressas e secas, deviam ser juntadas - trabalho para o encadernador. Já havia quem fizesse essa tarefa antes da invenção da imprensa, mas dificilmente seria trabalho de tempo integral. Agora era diferente. Encadernadores tinham ampla ocupação, à medida que mais livros eram impressos e vendidos.
Simultaneamente, vieram à cena os comerciantes de livros, muitas vezes junto às próprias oficinas de impressores. Vendiam apenas as edições feitas ali mesmo, sendo, nesse aspecto, diferentes das livrarias como as conhecemos, nas quais são comercializadas obras das mais diversas editoras. Mas, convenhamos, era um grande progresso, principalmente se levarmos em conta que tudo isso acontecia em uma época - a do Renascimento - em que havia grande interesse pelas traduções de autores da Antiguidade Clássica (gregos e romanos), ao lado de uma expressiva produção original de autores que escreviam nos nascentes idiomas nacionais, deixando de lado a tradição de escrever apenas em latim. Novas ideias eram concebidas, escritas, impressas e postas a circular. Uma verdadeira revolução cultural, que não tardou a despertar preocupações no establishment religioso e monárquico. Procedimentos de censura não demorariam a aparecer.

(1) AMMAN, Jost. Aller Stande auf Erden. Frankfurt: Georg Raben, 1568.
(2) Ibid.


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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre o unicórnio


Unicórnio, de acordo com representação do Século XVI (*)
Um unicórnio deveria ser, por definição e etimologia, um ser vivo dotado de um único chifre. Fácil, dirão alguns leitores, veja os rinocerontes!...
Mas, como se sabe, há rinocerontes com dois chifres, e o problema permanece porque a suposta criatura a que na Antiguidade e no Medievo se atribuía o nome de unicórnio era bem diversa de um rinoceronte. Era geralmente descrita como um belíssimo cavalo branco, tendo, na testa, um longo chifre espiralado. Vê-se, portanto, que até onde vão os conhecimentos da humanidade, tal ser não existe e, provavelmente nunca existiu - não foram encontrados fósseis que tivessem tais características.
Ainda assim, pela época do Renascimento acreditava-se, na Europa, que pó de chifre de unicórnio era o melhor remédio contra venenos diversos, inclusive de animais peçonhentos, além de combater pestes em geral. Resta saber de que animal, de fato, vinha tal pó...
Se recordarmos a devastação causada pela Peste Negra (pandemia de peste bubônica), talvez possamos dizer, não sem um sorriso mordaz, que a mortandade decorreu, afinal, da falta de um suprimento conveniente de chifres de unicórnio, não é mesmo? Não me entendam mal, leitores. O mais difícil é aceitar que ainda hoje haja quem acredite nessas tolices.

(*) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 1. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Perfumes famosos e apreciados de antigamente

Embora não se possa ter certeza de quando, exatamente, começaram a ser usadas, sabe-se que os povos antigos amavam as substâncias aromáticas. Dá conta disso a legendária imagem das caravanas de camelos que circulavam pelo Oriente carregadas de especiarias para o comércio, o que não significa que apenas os orientais se interessassem por elas. É certo que não.
No Egito fazia-se largo emprego de substâncias aromáticas nos rituais associados à preparação dos mortos para o sepultamento; a região do Nilo constituía-se, por isso, em um mercado expressivo para mercadores que traziam uma vasta gama de substâncias, dentre as quais se destacava a mirra, em virtude de estar associada à ideia da ressurreição. Entretanto, o uso de aromas não estava vinculado apenas aos ritos religiosos ou funerários: quer de origem vegetal, quer animal, diferentes substâncias já eram combinadas para a produção de perfumes, cuja finalidade, além do aspecto cosmético, era simplesmente proporcionar prazer a quem os usava, pelo emanar de um odor considerado agradável. Esse último uso seria, pelos séculos afora, largamente difundido, e é, em grande parte, o que move até hoje a indústria de perfumes, em âmbito mundial.
Nos rituais dos hebreus os aromas tinham também lugar importante. Havia incenso e também óleo perfumado cujo destino era de caráter estritamente religioso. Designando as substâncias neles incluídas pelos nomes usuais na atualidade, devemos citar o azeite de oliva, a mirra, a canela do Ceilão e da China e o cálamo.
Para os gregos da Antiguidade, o aroma do
tomilho 
era capaz de infundir coragem
em quem devia ir 
à guerra
Já para quem acha que tomilho é apenas parte do trio de especiarias que constitui o mais perfeito tempero para pizzas, vale destacar que os gregos tinham, sobre o seu uso, outras ideias. O tomilho era por eles empregado para friccionar o corpo dos soldados antes das batalhas. A razão? Considerava-se que tinha a capacidade de energizar quem o usava, conferindo, por seu aroma, mais coragem e combatividade.
Ora, isso aponta para o fato de que já se compreendia, empiricamente, que diferentes aromas podiam ter propriedades terapêuticas, produzindo, alguns, uma sensação de calma e relaxamento, enquanto outros eram estimulantes. Entre os gregos, bem como entre outros povos, as substâncias aromáticas tinham também uso medicinal, como o revelam obras deixadas pelos mestres da medicina do passado, embora, nesse caso, seja necessário admitir que alguns usos podiam ser verdadeiramente desastrosos.
Na Europa a perfumaria viria a ganhar um enorme impulso a partir das Cruzadas, isso porque o contato com o vasto conhecimento dos árabes em assuntos relacionados à preparação de diversas substâncias foi decisivo para que, gradualmente, a química, como ciência, rompesse com a superstição. Uma composição aromática muito apreciada, pelas alturas do Renascimento, que poderia ser chamada de "perfume", como nós o entendemos, levava, entre outros itens, óleos essenciais de alfazema, rosas, bergamota e cravo.
O aperfeiçoamento da destilação, processo investigado desde fins dos tempos antigos e (re)aprendido através dos árabes, abriu as portas para uma verdadeira revolução na arte dos perfumes. Inicialmente produzidos em pequena escala, iriam, a partir do século XVIII, constituir-se em marcas famosas, algumas das quais subsistem até nossos dias.


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domingo, 16 de junho de 2013

Ler e escrever, eis a questão - Parte 2

Escrever era difícil até para Carlos Magno


O fim do Império Romano (no Ocidente) e a gradual ruralização da sociedade contribuíram bastante para que o analfabetismo proliferasse. Escolas e professores particulares eram coisa das cidades, e muito raramente se encontraria isso entre camponeses esfomeados que viviam oprimidos pela expectativa da próxima invasão. O latim, língua do falecido Império, gradualmente restringiu-se aos clérigos e às poucas pessoas mais instruídas, enquanto a população em geral falava os vários idiomas nascidos da miscigenação do latim com as línguas bárbaras. Não deixa de ser curioso, hoje, observar os poucos manuscritos que restaram de tempos em que se tentava grafar essas novas línguas com os caracteres latinos. A realidade, porém, é que escrever tornou-se, mais uma vez, um privilégio de que poucas pessoas desfrutavam. O imperador Carlos Magno, cuja vida transcorreu em anos dos séculos VIII e IX, foi um entusiasta da fundação de escolas. Diz-se, porém, que ele próprio somente aprendeu a ler quando tinha já uns trinta anos, e nunca soube escrever nada mais expressivo que umas poucas garatujas. E, se o grande imperador era assim, que pensar da maioria de seus súditos?
Em boa parte da Idade Média na Europa Ocidental o saber foi cultivado - mas também restrito - aos mosteiros e, mais tarde, às nascentes universidades. E, se posteriormente o Renascimento trouxe à cultura uma lufada de vitalidade, tal fato não foi suficiente para alterar a condição das massas que, em geral, permaneciam na mais crassa ignorância, embora a proliferação de livros impressos - os novos objetos do desejo mesmo entre burgueses - tenha contribuído para tornar desejável a capacidade de ler. Acrescente-se ainda que, no Século XVI, em lugares onde a Reforma Protestante se impôs, surgiu uma certa preocupação em estender aos meninos e meninas do povo a possibilidade da frequência a uma escola, para que, na idade adulta, pudessem, como fiéis, ler a Bíblia por si mesmos.
Tudo isso, no entanto, não mudava muito a situação persistente na maioria das localidades: ser capaz de ler e escrever bem constituía-se ainda e por si só, em uma profissão. Já não eram esses escrevinhadores profissionais chamados "escribas", e sim "escrivães". E, como sempre, a burocracia de Estado era a esponja que os absorvia.


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terça-feira, 20 de março de 2012

O mito da fênix

Que tipo de ser era a fênix? Pode-se defini-la, segundo a mitologia, como uma ave que tinha a capacidade de autocombustão para, depois, renascer das próprias cinzas. Era, claro, um símbolo da renovação da vida, talvez de crença em algum tipo de ressurreição, quem sabe ligada ao ciclo interminável de repetição das estações do ano, e não um ser vivo real, daqueles que se pode ver em um zoológico.
Acontece que, no século XVI, quando o movimento renascentista espalhou em inúmeras mentes instruídas um desejo quase incontrolável de classificar o que se apresentava na natureza, apareceu publicado em Paris um alentado volume (¹) cujo título era Portraits D'Oyseaux, Animaux, Serpens, Herbes, Arbres, Hommes et Femmes, d'Arabie & Egypte (sim, é isso mesmo, podem acreditar!), cujo autor era Pierre Belon, a quem, segundo o hábito típico do Renascimento, dava-se frequentemente o nome latino, ou seja, Petrus Bellonius Cenomanus. Como já disse, esse livro tinha o objetivo de, mediante excelentes ilustrações, classificar seres vivos e, curiosamente, nele estava listada a fênix, na seção de aves de rapina.

A fênix existente no livro de Pierre Belon, que afirmava
retratá-la de acordo com o costume
O autor assumia nunca ter visto uma, mas dizia que Aristóteles a tinha mencionado, assim como Plínio, e que ambos, possivelmente sem nunca ter com os próprios olhos testemunhado a existência de tal criatura, baseavam-se, no entanto, no relato de Heródoto. Sim, é aqui que a coisa fica interessante, pois de fato Heródoto refere-se a ela, nos seguintes termos, ao tratar do que presenciara no Egito:
"Outra ave sagrada há ali que vi apenas em pintura, e cujo nome é fênix. São raras, pois, as ocasiões em que pode ser vista, e em tão largos intervalos, que dizem os de Heliópolis que somente a cada quinhentos anos aparece no Egito, ao morrer seu pai. De acordo com as descrições, seu aspecto e tamanho são semelhantes aos de uma águia, tendo as penas parcialmente douradas e vermelhas.
Contam-se dela coisas fabulosas, que me parecem pouco dignas de crédito, mas ainda assim não deixarei de relatá-las. Para fazer transportar o cadáver de seu pai da Arábia até o templo do Sol, faz assim: confecciona primeiro um ovo sólido de mirra, do maior tamanho que possa carregar, testando o peso para verificar se pode com ele e, depois, o esvazia para criar nele um nicho capaz de conter o cadáver e, depois de ali colocá-lo, preenche os vazios com mirra, de tal modo que, com o cadáver dentro, o ovo tenha o mesmo peso que apresentava quando era apenas de mirra. Fechado o ovo, é carregado pela ave até o templo do Sol no Egito. É isso o que conta-se dessa ave."
Em conclusão,  vê-se que ninguém a viu, o próprio Heródoto não acreditava em sua existência, mas todos a descrevem. É certo que, no contexto da mitologia do Antigo Egito, a fênix fazia sentido, mas daí a continuar a aparecer em uma classificação de seres vivos no século XVI vai uma distância enorme. (²)
Apesar de toda a revolução no pensamento ocidental que o Renascimento representa, romper com a tradição de sábios da Antiguidade como Heródoto, Aristóteles e Plínio podia ser pesado demais. Sabemos bem como é isso, pois se já não invocamos Aristóteles cada vez que precisamos reforçar uma ideia, muitos de nós ainda têm grandes dificuldades em arrancar as amarras ideológicas que nos prendem ao passado, mesmo quando reconhecemos o quanto são inúteis e absurdas.

(1) 1557.
(2) Nada disso chega a ser em extremo surpreendente - Pierre Belon, em uma obra erudita chamada De Aquatilibus (1553), menciona um peixe-monge, que aparece devidamente ilustrado, conforme pode-se ver na postagem já publicada neste blog com o título "Peixe-monge, peixe-bispo - exóticas 'celebridades' do Renascimento".


sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal, com Albrecht Dürer e "Maria mit dem Affen"

Ao contrário do que muitos pensam, os mestres renascentistas, de um modo geral, não puseram de lado, em suas obras, as temáticas religiosas. O simples fato de serem, muitos deles, apaixonados pelo que conheciam da arte e do universo greco-romanos, não significou o abandono dos assuntos bíblicos. Apenas adicionou um novo repertório às suas possibilidades de expressão artística. Aliás, o mundo em que viviam girava, em muitos de seus aspectos, ao redor de um eixo, por assim dizer, religioso. Por isso, quase não há artista do Renascimento, seja italiano ou de outra nacionalidade, que não tenha, em alguma de suas obras ou em várias delas, retratado, por exemplo, Maria com Jesus, ainda menino, nos braços. É o caso de Albrecht Dürer,  alemão de Nürnberg que, como muitos outros grandes nomes de sua época, interessou-se por uma grande variedade de ramos do conhecimento, deixando livros até sobre anatomia, engenharia militar e estudos de simetria (um assunto que seus contemporâneos amavam), mas sendo hoje mais famoso como artista plástico. Tinha, a seu favor, o fato de poder imprimir suas obras, em tempos nos quais imprimir livros começava a ser um grande negócio, atingindo um público muito maior de leitores-consumidores do que aquele que, nos séculos anteriores, tinha acesso a obras de arte, por assim dizer, somente "ao vivo".
Em tempos anteriores ao moderno desenvolvimento da pesquisa histórica e arqueológica, era comum que os grandes artistas, neste caso os do Renascimento, representassem cenas ambientadas na Antiguidade em meio ao panorama típico dos séculos XV e XVI. Observa-se isso facilmente em obras dos grandes mestres italianos, e, na Alemanha de Dürer, as coisas seguiram pelo mesmo caminho.


Ora, seguindo esta lógica, não chega a ser surpresa encontrar, nesta gravura de c. 1506, Maria e Jesus em meio a um cenário natural e arquitetônico bem germânico. O que causa espanto e de germânico não tinha nada, nem teria em nosso tempo, a não ser em jardins zoológicos, é o espécime animal que se encontra no canto inferior esquerdo. Consegue identificá-lo, leitor? Essa gravura é usualmente chamada "Maria mit dem Affen". Conclusão: é um macaco...
Quem achar que não é muito parecido com um símio deve lembrar-se de que, no século XVI e mesmo muito depois, as pessoas não costumavam ter muita intimidade com animais não nativos de sua região, e Albrecht Dürer, com alta probabilidade, nunca tinha visto um. Esse desconhecimento não acontecia somente na Europa. Basta recordar, a título de exemplo, da reação de verdadeiro espanto dos nativos da América diante dos primeiros cavalos que viram. Lembra também, de certa forma, o terror do exército romano, na Antiguidade, diante dos elefantes de Pirro ou de Aníbal.


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domingo, 29 de maio de 2011

Peixe-monge, peixe-bispo - exóticas "celebridades" do Renascimento

Cada época da trajetória humana neste planeta tem-se assinalado por um modo específico no relacionar-se com o conhecimento. Já houve tempo em que o saber, ao menos sob o aspecto formal, era reservado a uma camada social específica, como os sacerdotes ou escribas, por exemplo. Nesse modelo, tinha-se clara ideia de que conhecimento representava prestígio social (acompanhado, é certo, dos benefícios dele decorrentes) e, portanto, devia ser muito bem guardado, "a sete chaves", como se usa dizer, somente sendo transmitido aos membros do grupo devidamente iniciados. Basta um pouco de senso crítico para saber que essa mania não ficou restrita à Antiguidade.
Houve ocasiões, por outro lado, em que se considerou que tudo o que havia para ser descoberto já o fora anteriormente e, por isso, restava aos homens de ciência o empenho da preservação do saber, para que não se perdesse. Copiar, copiar, copiar - além de memorizar - era muito importante. Ainda que reconhecendo quão vital foi a preservação dos antigos livros assegurada por copistas, em tempos nos quais a imprensa era apenas um sonho, é de se comemorar que tal época tenha passado. Era preciso ir além.
O Renascimento é tido como um período no qual, ao lado de uma intensa busca pela compreensão dos mestres clássicos, desenvolveu-se um novo gosto pela investigação científica e, embora a palavra em si represente,para a maioria, sinônimo de artes plásticas (Da Vinci, Michelangelo, Boticelli...), deve-se compreender que o universo renascentista foi muito além. Desenvolveu-se a matemática, ganhou impulso a astronomia, a observação da natureza, alavancada pela admiração diante da descoberta de seres vivos até então desconhecidos no "Novo Mundo", ocupou muitos cérebros brilhantes. Tudo isso, ao lado da popularização da imprensa com tipos móveis tornou possível uma circulação do conhecimento como o mundo até então nunca havia presenciado, malgrado tentativas de restringir a divulgação de obras consideradas perigosas para o establishment.
Orca com filhote, segundo Bellonius
Vamos a uma exemplificação. Em 1553 foi publicado em Paris De aquatilibus, escrito por Pierre Belon, naturalista, também conhecido (como era usual entre renascentistas), como Petrus Bellonius Cenomanus. Nesse livro notável, escrito em latim e, portanto, destinado ao universo erudito da época, o autor procura apresentar uma sistematização dos seres vivos que vivem na água ou em suas imediações (como castor, hipopótamo, crocodilo, lagarto). Sendo a obra toda ilustrada, pode-se perceber como havia avançado o conhecimento. Veja-se, a título de elucidação, o caso dessa orca representada ao trazer um filhote ao mundo. Quanto progresso!
O "peixe-monge" de Bellonius
Pois bem, leitor, há mais a considerar. A despeito do expressivo volume de conhecimento bem organizado, muito do "saber" da época faria um ictiólogo da atualidade arrancar os cabelos de desespero. Quer ver? Embora o autor admita que muitos seres relatados pelos antigos não passavam de lenda, inclui entre os peixes listados nada menos que um peixe-monge... com direito a ilustração. Teria esse ser aparecido na costa da Noruega em meio a uma tempestade.
O "peixe-bispo", de acordo
com Rondelet
Mais ainda, Bellonius não foi o único a incorrer nessa "heresia". Um seu contemporâneo, também francês, Guillaume Rondelet, em L'Histoire Entiere des Poissons, de 1558, não só menciona o tal peixe-monge, mas vai além, citando também um peixe-bispo, que teria dado o ar da graça no litoral da Polônia em data incerta, talvez 1531, devidamente paramentado para celebrar missa. Desapareceu, é verdade, não sem antes cumprimentar membros do clero e abençoar a multidão que viera vê-lo. A mesma lorota sobre o peixe-bispo seria repetida por Fournier em Hydrographie (1643), afirmando-se, todavia, que o ano da aparição havia sido 1433.
Por mais que se tente encontrar um ser marinho que pudesse sugerir o "peixe-bispo", não há como negar a quantidade de imaginação e superstição cordialmente associadas para criar tal figura. Não nos enganemos. Estamos amarrados à época em que vivemos e pouco podemos fazer contra essa condição. Além disso, não devemos zombar dos erros da gente antiga. Só o tempo dirá de que coisas dos nossos dias hão de rir no futuro.