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sexta-feira, 24 de maio de 2024

Superstições medievais

Em alguns lugares da Europa medieval acreditava-se ser possível impedir que uma bruxa entrasse numa casa se, ao lado da porta, fosse plantado um junípero - já tratei desse assunto aqui no blog. Mas, como se sabe, não paravam por aí as superstições, o que é até compreensível, devido ao isolamento e à carência de instrução em que vivia grande parte da população rural - e a maior parte da população era rural, mesmo. Quase todo o restante habitava pequenas vilas e cidades, e ir à escola era privilégio ao qual poucos tinham acesso. Mesmo entre os mais instruídos havia quem conservasse umas superstiçõezinhas escabrosas. Nesse sentido, o mundo, desde então, não mudou tanto assim.
Afirma-se, por exemplo, que os noivos, no dia do casamento, deviam ter o máximo cuidado quando iam até a porta da igreja em que se realizava a cerimônia formal. Achando, no caminho, aranhas ou sapos, podiam crer que o matrimônio seria coroado de felicidade; encontrar cobras, cães e frades era sinal de mau agouro. Pura tolice, é claro.
Passemos ao caso do uso de plantas com supostas propriedades mágicas. Apenas dois exemplos, dentre uma multidão de outros que poderiam ser citados: hastes de milefólio (Achillea millefolium) eram usadas desde a Antiguidade para previsão do tempo, enquanto o endro (Anethum graveolens) era prescrito como proteção contra malefícios de alguma bruxa, e sua ingestão com vinho era indicada para levar alguém a apaixonar-se loucamente. Embora esses usos de plantas nos pareçam ridículos, por tentativa e erro acabaram conduzindo a muitos acertos que contribuíram para o desenvolvimento da química e da farmacologia, entre outros estudos, como hoje os conhecemos.


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quinta-feira, 2 de junho de 2022

A Cruzada das Crianças

"Cruzados", desenho de Lee Woodward Zeigler (*)
Era o ano de 1212. O fracasso das Cruzadas formais fez nascer a convicção, apenas compreensível pela mística predominante naqueles dias, de que um exército composto por crianças seria capaz de reconquistar Jerusalém. Na presumível inocência dos pequenos imaginava-se haver alguma probabilidade de êxito, contrapondo-se ao fracasso das expedições formadas por guerreiros experientes que buscavam, na luta pelo controle de Jerusalém, expiar um arsenal completo de pecados. 
A ideia alastrou-se com certa facilidade e, pouco depois, um número considerável de meninos e meninas, a maioria de origem alemã e francesa, punha-se a caminho da chamada Terra Santa, sob o comando, afirma-se, de um camponezinho chamado Étienne. Os relatos da época - isso é inegável - são um tanto desencontrados quanto a detalhes, mas não se pode descartar a ocorrência, nesse tempo, de bandos de crianças em marcha para o sul da Europa, supondo que, de algum modo, seriam miraculosamente conduzidos à Palestina. 
Mas, se adultos fortes e devidamente alimentados, com boas armas e cavalos, fracassavam, como acreditar que, seguindo a pé e dependendo da caridade popular para alimentação, esses grupos de crianças e adolescentes poderiam reconquistar Jerusalém? Muitos ficaram pelo caminho, morrendo de frio, fome e exaustão, e uns poucos chegaram a voltar para casa. Aqueles que, havendo superado o longo trajeto, chegaram diante do Mediterrâneo, foram agraciados com uma proposta aparentemente generosa de proprietários de embarcações que se dispunham a transportá-los. Ingenuamente, aceitaram a oferta. Era uma armadilha, que os colocaria nas mãos de comerciantes de escravos.
Estranho paradoxo, esse, no modo como a mentalidade medieval via e tratava as crianças: somente elas, em sua pureza, poderiam reconquistar Jerusalém; por outro lado, nenhum respeito ou consideração para com aquelas que, alvo da mais pérfida astúcia, foram capturadas e vendidas para o trabalho escravo e para prostíbulos.

(*) THE YEAR'S ART. New York, Harry C. Jones, 1893, p. 266. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Moinhos de vento


Relembrem comigo, leitores: um pai tinha três filhos e, ao morrer, deixou herança a cada um deles. Ao mais velho, coube um moinho; ao do meio, um burro; ao mais jovem, um gato. Vocês já sabem, era o
Gato de Botas.
Mas, afinal, que tipo de moinho o pai poderia ter deixado ao primogênito? Se considerarmos que as raízes do conto estão na Idade Média, deveria ser um moinho de vento, porque foi nessa época que eles se popularizaram na Europa. Mas o fato de que o segundo filho tenha herdado um burrico levanta problemas. Talvez o animal servisse para transportar cereal moído ou ainda a ser triturado. No entanto, moinhos de proporções razoáveis eram, desde a Antiguidade, postos a girar com a força de jumentos (que, para essa tarefa, tinham os olhos vendados). O que me dizem? Quanto ao gato, vocês conhecem o resto da história.
Moleiro trabalhando,
imagem do Século XVI (*)
Não é coisa fácil adivinhar qual moinho teria inspirado o conto popular que Charles Perrault consagrou ao colocá-lo no papel. Mas, de fato, os moinhos de vento foram um grande avanço, porque, em regiões cujas condições naturais eram favoráveis, permitiram que quantidades cada vez maiores de cereal fossem processadas em menos tempo. Inicialmente acoplados às rodas de pedra no nível do solo, os moinhos de vento foram, posteriormente, adaptados a estruturas elevadas, em madeira ou alvenaria, e instalados de tal modo que a direção do vento não trouxesse qualquer dificuldade. Nasciam, assim, os moinhos de torre, contra os quais Dom Quixote se insurgiu, vendo neles gigantes terríveis que deveriam ser derrotados. 
Levanto aqui uma possibilidade de interpretação, deixando aos leitores o direito de pensar dela o que quiserem. Cervantes viveu antes da era industrial, e é pouco provável que seu herói às avessas arremetesse contra os moinhos vendo neles algo além de inimigos, como nas lendas fantásticas medievais que admirava em delírio. Seria permitido, todavia, a quem vive em nosso século, ver nisso uma imagem da luta do homem contra a força das máquinas (por ele mesmo inventadas, mas escapando ao seu controle e personificadas nos moinhos) e contra a natureza (que, malgrado todos os esforços, se recusa a aceitar dominação), e que, neste caso, seria representada pelo vento? Quem ousaria negar que as grandes invenções fascinam mas, ao mesmo tempo, impõem temor?

(*) AMMAN, Jost. Aller Stande auf Erden. Frankfurt: Georg Raben, 1568. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Em algumas cabeças medievais

Isto aqui já foi o auge da moda, a certa altura da Idade Média. Se quiserem mais exatidão, leitores, foi no Século XV:

Chapéu com chifres, Século XV (¹)

Alguém de vocês usaria um chapéu tão cheio de estilo como este?! Duvido. Não pensem que chapéus com chifres foram eventualmente usados como parte de fantasias no carnaval em Veneza ou como uma versão feminina dos capacetes vikings. Eram artigos de luxo, destinados às damas da nobreza que iam a grandes festas e que tinham acesso aos tecidos finos e joias requeridos, sendo nisso imitadas por gente de condição social inferior, com menos recursos, mas com um desejo insaciável de desfilar pelas ruas com algo tão atraente, ainda que de confecção menos dispendiosa (²).
Pode-se facilmente imaginar que não faltou oposição ao estranho acessório. Os chifres foram ficando cada vez mais longos, de modo que não era raro encontrar alguns com quase um metro de comprimento. Suponho que devia ser bastante incômodo andar com uma coisa dessas na cabeça. Ainda assim, a mania continuava a fazer adeptas. O clero acusou a moda de imoralidade e tentou, por meios que iam além das palavras, fazê-la cessar. Inutilmente, porém. 
Depois de algum tempo, contudo, os chapéus com chifres deixaram de ser novidade (³) e foram, afinal, abandonados. Hoje servem apenas para nos fazer rir, como tantas outras modas (⁴).

(1) Cf. ARIA et ANDERSON. Costume: Fanciful, Historical and Theatrical. London: Macmillan and Co., 1906, p; 41. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Parece que, desde então, o mundo não mudou muito.
(3) Como quase sempre acontece. 
(4) Tentem lembrar-se, leitores, de alguma coisa estranha que já usaram, e contem o que foi, deixando um comentário.


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quinta-feira, 25 de março de 2021

Cruzados em viagem

A afinação é trabalhosa, mas as mãos que empunham a espada são também ágeis na pequena harpa. A noite é fria, uma fogueira aquece o grupo que se forma ao redor. Conservando certa distância, outra fogueira, e outra, e outras. Muitas mais. Perto das tendas, o burburinho dos que alimentam os cavalos, curam feridos, preparam comida. Fisionomias cansadas estão por toda parte. Em meio à fumaça, a multidão composta por soldados e toda a gente que os acompanha parece uma onda que se move lentamente sobre as irregularidades do terreno.
O guerreiro trovador, dedilhando a harpa, começa uma cantiga que recorda uma terra distante, uma praia inóspita, um amor perdido. Aquecendo-se junto à fogueira, os companheiros ouvem em silêncio. Mesmo acostumados à rudeza dos campos de batalha, não perderam a sensibilidade e se encantam com as memórias que a música, tão suave, consegue evocar. À sua volta, persiste o movimento dos que, pragmáticos, se ocupam do indispensável à sobrevivência. 
A cantiga termina, ouve-se o crepitar da madeira que as chamas vão consumindo. Mais um instante, e o harpista começa a tocar uma canção alegre, que todos conhecem e que, como mágica, põe fim às reflexões melancólicas. Com alguma timidez, a princípio, mas com ruído crescente, batem palmas e movem os pés. Interiormente, até são tentados a dançar. A Terra Santa, para esses cruzados, é ainda uma miragem distante. Como em uma peregrinação, aquilo que tanto buscam talvez esteja, não na chegada, mas no caminho que percorrem.


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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Velas para marcar o tempo

Relógios de sol, de água e de areia foram muito usados no passado. Os romanos, por exemplo, somente aprenderam a usar relógios de sol depois que capturaram um, ao conquistarem Catania. Já uma clepsidra, relógio de água, foi vista pela primeira vez em Roma em 159 a.C. Alguns desses relógios eram belos e complexos, dependendo do grau de sofisticação tecnológica de quem os construía.
Houve, porém, um método rústico de marcar o t que esteve em uso em alguns lugares do norte da Europa durante a Idade Média: velas.
Como eram usadas:?
Quem as confeccionava tinha o cuidado de fazer nelas marcas a intervalos regulares e, por isso, à medida que queimavam, ofereciam uma ideia da passagem do tempo. Naturalmente não davam uma medida estrita das horas, mas é preciso lembrar que a correria contra o tempo, com uma agenda rigorosa para todas as tarefas, não era, ainda, uma preocupação da maioria das pessoas. Quanto ao mais, os sinos de igrejas e mosteiros se encarregavam de ditar, para a população adjacente, o ritmo da existência, em que a dimensão religiosa tinha um papel considerável.


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quinta-feira, 5 de março de 2020

A recepção de calouros nas universidades medievais

Esperando em um semáforo, vi passar à frente um grupo de estudantes de uma universidade local. Alguns iam pintados com o nome dos respectivos cursos, com os cabelos cortados, ou melhor, picotados, enquanto outros, que os seguiam, batiam palmas e faziam tanto alarido quanto podiam. Vocês já entenderam, não é? Era a hora do "trote", a recepção de calouros por estudantes veteranos.
Ah, pensei, eles nem sabem que toda essa algazarra tem suas raízes na Idade Média... 
Vou explicar. Para frequentar uma universidade medieval era preciso saber latim. Apesar disso, estudantes eram admitidos muito mais cedo do que acontece hoje - não era incomum que rapazotes de quatorze ou quinze anos entrassem para alguma universidade. A disciplina era severa e, como o material para escrita era dispendioso e escasso, todo aluno devia ter boa memória para reter tudo quanto diziam os professores. Assim é que se aprendia.
Os costumes quanto à recepção de novos estudantes variavam um pouco de um lugar para outro, mas a regra era considerar que os recém-chegados precisavam de algum tipo de "purificação" antes de ocupar um lugar nas salas de aula. Por isso, tinham as unhas e cabelos cortados, deviam tomar um banho (verdadeira tortura medieval) e, tendo recursos, dar uma festa para os veteranos. O bullying incluía, às vezes, uma espécie de desfile em que os novatos montavam jumentos. Não era raro, também, que se impusessem tarefas aos calouros, tais como carregar livros dos veteranos, além da obrigação de ceder o lugar junto ao fogo que aquecia o ambiente, sempre que um veterano chegava. Havia, por suposto, outras tradições ainda mais perversas, mas não menciono aqui para não dar a ideia a quem quer que seja. Só posso dizer que, aos estudantes que encontrei na L4, pedindo "esmolas" para a festa que, como calouros, deveriam custear, não resta nem mesmo o consolo da originalidade. O trote universitário é uma dessas tradições que todo mundo condena, mas que, com notável persistência, tem atravessado os séculos.


terça-feira, 14 de maio de 2019

Trezentas cabeças de lobo

Com justiça ou sem ela, lobos são ícones da perversidade. O olhar lupino, sagaz e perscrutador, é mesmo feito para congelar o sangue dos mais valentes. Imagine-se, então, quando a ameaça vem, não de um lobo, apenas, mas de alcateias! 
A coisa é tão séria que, a cada inverno, um ou outro país acaba autorizando, mesmo em nossos dias, a caça restrita de lobos, seja porque atacam rebanhos, ou porque ameaçam povoações isoladas. Imagine-se o que seria, então, na Europa Medieval, com o povoamento menos denso, as dificuldades de comunicação e os caminhantes obrigados a se deslocarem, às vezes sob frio intenso, por rotas quase desertas, a não ser, talvez, pelos lobos famintos que perambulavam à espera de uma refeição.
Acham que estou exagerando, leitores? Posso provar que não. Aconteceu na segunda metade do Século X, quando Edgar I era rei da Inglaterra. Nessa época, inúmeras alcateias vagueavam pela Grã-Bretanha, constituindo-se em verdadeira ameaça à segurança da população. Foi aí que o rei teve uma ideia que, àquela altura dos acontecimentos, soou brilhante, ainda que, para nós, hoje, talvez pareça exageradamente antiecológica: determinou que o imposto anual a que os galeses estavam sujeitos fosse pago com trezentas cabeças de lobo. Querem saber o resultado? Em cerca de quatro anos o "problema dos lobos" desapareceu. Que governo eficiente!...


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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Se você fosse um viking

Vindos do Norte, os vikings varreram as cidades litorâneas da Europa entre c. 790 d.C. e c. 1066 (¹), incendiando, pilhando e espalhando o pânico entre a população. Já se nota, pela data, que os ataques começaram quando Carlos Magno (²) ainda vivia, mas ganharam intensidade depois de sua morte, em decorrência do enfraquecimento e fragmentação do império que governara (³).
Existe alguma controvérsia quanto à causa da expansão viking, mas poucos duvidam de que, entre elas, pode ser mencionada a insuficiência de terras para cultivo, aliada aos poucos meses favoráveis à agricultura em sua Escandinávia natal. Isto, porém, não explica por que as viagens seguidas de invasões não ocorreram antes.
Lâmina de um machado viking (⁴)
Tente imaginar, leitor, como seria sua vida se você fosse um viking. Para ajudar, vão aqui algumas informações:
  • Você provavelmente moraria em uma casa muito simples, que, para evitar a perda de calor, não teria janelas, mas apenas algumas frestas para a entrada e saída do ar, além de uma porta;
  • A lavoura e a criação de gado ocupariam grande parte do tempo ao ar livre durante os meses em que o frio não fosse muito intenso;
  • Você passaria os meses menos frios ocupado, também, em estocar alimentos e lenha para o inverno;
  • Devido às condições restritivas de prática da agricultura, a caça seria um recurso importante para suplementar a alimentação;
  • O alimento seria cozido em um fogão cavado no chão de sua casa, de modo que haveria muita fumaça no ambiente;
  • As condições climáticas na Escandinávia favoreceriam o uso de roupas quentes, com predomínio do uso de peles e lã, embora o emprego de linho, como complemento ao vestuário, não fosse desconhecido;
  • Para que roupas de lã fossem confeccionadas, seria preciso que alguém na casa (você ou outra pessoa de sua família) fosse hábil no uso do tear (será útil, portanto, esclarecer que, entre os vikings, tecer e costurar eram tarefas reservadas às mulheres);
  • Tudo aquilo de que precisasse e não fosse produzido por sua própria família poderia vir de um mercado ou feira em alguma das cidades vikings, nas quais artesãos ofereciam seus serviços e produtos aos interessados (⁵);
  • O ataque a povoações ao sul da Escandinávia seria uma fonte importante de riquezas e, se você fosse um viking do sexo masculino, teria muito interesse em participar de uma dessas expedições;
  • Se, no entanto, você fosse uma mulher, deveria, durante a ausência dos envolvidos nas expedições de invasão e comércio, cuidar não apenas dos afazeres rotineiros de manutenção da casa e da família, como também comandar as tarefas locais que, de hábito, eram feitas pelos homens (⁶).
Então, que lhe parece, leitor? Era divertido ser um viking? A realidade não soa exatamente como na fantasias populares, concorda?

(1) A derrota dos vikings na batalha de Stamford Bridge, em 25 de setembro de 1066, é tradicionalmente apontada como um marco na decadência de sua capacidade bélica; entretanto, a aceitação dessa data não descarta a ocorrência de ataques menores posteriormente.
(2) 742 - 814.
(3) O sucessor de Carlos Magno foi Luís, conhecido como "o Piedoso", cujos filhos, estando este ainda vivo, iniciaram uma disputa acirrada pelo poder. Mais tarde, a assinatura do Tratado de Verdun (843 d.C.) sacramentou a fragmentação do império que Carlos Magno tentara construir.
(4) ANDERSON, Joseph. Scotland in Pagan Times. Edinburgh: David Douglas, 1883, p. 97. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Apesar de frequentemente associados a atitudes truculentas, os vikings eram ótimos comerciantes e tinham rotas para troca de mercadorias que alcançavam longas distâncias, indo muito além das terras que originalmente habitavam.
(6) Separadas das mulheres vikings por uma distância enorme tanto no tempo quanto no espaço, mulheres paulistas dos tempos coloniais viviam situação parecida quando os homens se juntavam às bandeiras que iam ao sertão para capturar indígenas e procurar metais preciosos. 


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quinta-feira, 21 de junho de 2018

A adoção de filhos e o aprendizado de uma profissão, de acordo com o Código de Hamurabi

Um rapazinho que vivesse em alguma cidade europeia em fins da Idade Média teria de passar por um longo processo de formação, caso desejasse ser um artesão qualificado e com a devida licença para trabalhar na corporação de ofício que lhe correspondia.
Como ainda hoje acontece, havia meninos que queriam seguir a profissão do pai, para perpetuar algum ramo de atividade familiar. Mas, como também acontece até hoje, havia quem quisesse ter uma profissão completamente diferente daquela exercida por seus ancestrais. Na Idade Média, convenhamos, o caminho ficava mais difícil: era preciso deixar a própria família e ser aceito como aprendiz na oficina de um mestre do ofício desejado (¹), e isto significava ir morar lá, com outros aprendizes, fazendo todo o trabalho ordenado, por horas, dias e anos a fio. Não se deve imaginar que os ditos aprendizes fossem tratados com muita gentileza. A educação medieval não era para tanto.
O tempo passava e, penosamente, o jovem adquiria as habilidades necessárias para ser aprovado em um exame rigoroso em sua corporação. A partir daí, era visto como um profissional, ainda trabalhando com seu mestre, para juntar o dinheiro necessário a fim de, algum dia, ser também um mestre, com oficina própria e aprendizes.
Se fizermos o cronômetro da eternidade retornar ao Século XVIII a.C., iremos encontrar na Mesopotâmia um modo de aprendizado profissional que, a seu modo, antecipava o padrão da Baixa Idade Média (²). Ditava o Código de Hamurabi:
"Se um artesão adota um menino para criá-lo e lhe ensina seu ofício, essa criança não poderá ser reclamada de volta. Mas, se o artesão não lhe ensinar o ofício, o filho adotivo poderá voltar à casa de seu pai."
De saída, é possível constatar que a criança adotada não era órfã ou abandonada, já que, se não fosse devidamente ensinada em um ofício, poderia retornar à família de origem. Sabe-se que, na Antiguidade, havia pessoas que, não tendo de modo algum um filho "natural", adotavam um sucessor (³), que deveria exercer funções sacerdotais em sua nova família ou clã, mas a questão decisiva, aqui, parece ser outra, ou seja, o ensino de uma profissão: um artesão adotava um menino para fazer dele alguém de seu ofício, na expectativa, talvez, de ter nesse jovem aprendiz um auxiliar. 
Alguma semelhança entre o ensino profissional dos antigos mesopotâmios e o das corporações de ofício medievais? Sim, mas sem qualquer intencionalidade (⁴). A História tem dessas coisas.

(1) Legalmente, o jovem medieval que deixava a família para aprender uma profissão não era considerado filho do mestre de ofício com quem ia morar. Em alguns casos, a família de origem do jovem até pagava pelo ensino profissionalizante que o filho recebia.
(2) Dependendo do lugar, o sistema de controle e ensino mediante corporações de ofício continuou a existir muito além dos tempos medievais.
(3) Esse procedimento foi bastante comum entre os romanos. Inicialmente, a adoção tinha por objetivo assegurar a existência de alguém que continuasse o culto aos antepassados da família. Mais tarde, as adoções passaram a ter enorme significado político: mesmo tendo filhos biológicos, houve imperadores que adotaram outros indivíduos, tencionando fazê-los seus sucessores no poder.
(4) Quem vivia na Idade Média não sabia nada a respeito de Hamurabi e seu famoso Código. Isso vale inclusive para os eruditos da época.



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quinta-feira, 20 de julho de 2017

Horticultura e jardinagem na Idade Média

Walahfrid Strabo, um monge beneditino do Século IX, era tão apaixonado pelas plantas que cultivava que, em homenagem a elas, escreveu um poema (naturalmente em latim), chamado Hortulus. Por isso, sabemos que em seu jardim havia, entre outros cultivos, sálvia, arruda, abrótano, melão, absinto, marrúbio, erva-doce, íris, levístico, cerefólio, lírio, papoula, sálvia-esclareia, menta, poejo, aipo, bardana, agrimônia, erva-dos-gatos, rabanete e rosas. Ufa...
Aqueles dentre os leitores que sonham em cultivar um terreno ao estilo medieval já têm um ponto de partida. Alguns vegetais da lista de Strabo não são encontrados no Brasil, mas sua coleção tampouco dava conta de todos os cultivos usuais na Europa Medieval. Um número bem maior de espécies era conhecido, dependendo, é certo, das condições climáticas de cada região (¹).
Muitos jardins medievais seriam, para nossos padrões, um misto de horta, jardim e pomar, visto que, neles, era possível encontrar legumes, verduras, flores, ervas aromáticas e medicinais e até árvores frutíferas. Como não havia lojas onde comprar sementes e mudas, o jardineiro devia, necessariamente, tratar de conservar sementes de uma safra para outra, se quisesse plantar as mesmas espécies no ano seguinte. Viajantes que, vez ou outra, passavam pelo lugar, podiam trazer preciosas amostras de espécies ainda desconhecidas e cujo cultivo seria experimentado com prazer.
Quem quiser entender o que eram a horticultura e a jardinagem na Idade Média precisará deixar de lado muito do que se sabe dessas práticas na atualidade. As ferramentas disponíveis não eram das mais eficientes; tampouco havia a indústria química para fornecer fertilizantes, herbicidas e outros produtos - tais coisas estavam ainda muitos séculos no futuro (²). Como sempre, porém, era preciso cavar a terra, adubar, remover ervas daninhas e, algumas vezes, tomar providências para manter as aves bem longe dos canteiros.
O cultivo da terra, mesmo em pequena escala, era, porém, indispensável à vida. Afinal, de onde é que viriam as ervas para medicamentos, para alimentação, para compor os cosméticos da época, para usos relacionados à limpeza e cuidados das casas? No universo das "pessoas comuns", hortas e jardins eram cultivados, portanto, com o propósito de suprir necessidades quotidianas, mas mesmo eruditos (³) não desdenhavam os prazeres da jardinagem. Sem pôr as mãos na terra, não seria possível que um bom número deles pudesse escrever obras sobre técnicas de cultivo, como de fato o fizeram (⁴).
E quanto aos servos? A eles, como regra geral, competia a agricultura em larga escala, não como um prazer, mas como uma obrigação (⁵). Os campos em que eram cultivados cereais estavam sob sua responsabilidade. Em termos de estratificação social, esses trabalhadores eram vistos sempre como inferiores. No entanto, toda a sociedade medieval dependia deles para sobreviver.

Trabalhando em um jardim (⁶)

(1) Há divergências quanto à identificação de várias espécies mencionadas em escritos medievais, mas a seguinte lista, contendo em ordem alfabética alguns cultivos mais comuns e seguramente reconhecidos, dará uma ideia aos leitores daquilo que podia ser encontrado num belo jardim, fosse em um claustro ou na propriedade de algum secular: abrótano, absinto-selvagem, acônito, agrimônia, aipo, alcaravia, alecrim, alho, anis, arruda, aspargo, avelã, azevinho, bardana, borragem, cálamo, calêndula, camomila, carvalho, cebola, cerefólio, cereja, chicória, coentro, cominho, dedaleira, dente-de-leão, doce-cecília, edelweiss, endívia, erva-doce, erva-dos-gatos, estragão, funcho, hissopo, hortelã, íris, jacinto, junípero, lavanda, levístico, lírio-do-vale, louro, maçã, malva, manjericão, manjerona, marmelo, marrúbio, melão, melissa, miosótis, mirtilo, morango-silvestre, mostarda-preta, narciso, papoula, peônia, pera, poejo, prímula, rabanete, rosa, salsa, sálvia, sálvia-esclareia, segurelha, tília, tomilho, uva, valeriana, verbasco, violeta-doce.
(2) Decidir se são boas ou más fica por conta de vocês, leitores.
(3) Membros do clero ou não.
(4) Levando em conta algumas características da mentalidade tipicamente medieval, é admissível conjecturar que a posição de honra atribuída à jardinagem tivesse fundamento religioso: "plantaverat autem Dominus Deus paradisum voluptatis a principio in quo posuit hominem quem formaverat / [..] tulit ergo Dominus Deus hominem et posuit eum in paradiso voluptatis ut operaretur et custodiret illum" (Liber Genesis II, 8, 15)
(5) Portanto, a nobre jardinagem seria uma recordação do trabalho que mantinha o homem ocupado antes do funesto bate-papo com a serpente; o trabalho dos servos em cultivar os campos corresponderia à maldição que acompanhara a expulsão do Paraíso: "maledicta terra in opere tuo in laboribus comedes eam cunctis diebus vitae tuae" (Liber Genesis III, 17)
(6) Imagem publicada em edição do Século XVI para uma obra de Pietro de' Crescenzi, autor medieval (Séculos XIII e XIV). A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Guido d'Arezzo, as notas musicais e uma lição de piano nada agradável

Não longe daqui uma menininha de sete anos martela, pela milésima vez, sua lição de piano. Bate as teclas com entusiasmo (ai!), e cantarola as notas, dizendo seus nomes com a duração correspondente. Ela não tem a menor ideia de que a nomenclatura das notas musicais nasceu na Idade Média, mais precisamente na virada do primeiro para o segundo milênio, quando um monge italiano, Guido d'Arezzo, quis tornar menos penosa a vida dos aprendizes e, para facilitar a memorização, usou um canto sacro antigo e muito conhecido, cuja composição é atribuída a Paulo Diácono (¹), o Hino a São João Batista, no qual os cantores pediam que o dito santo purificasse seus lábios para que pudessem cantar melhor:

Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Iohannes

Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... Com a pequena modificação de Ut para , feita séculos mais tarde por uma questão de eufonia (²), tem-se a nomenclatura adotada até hoje em boa parte deste planeta, embora não seja a única. 
Guido d'Arezzo foi um teórico muito influente, não só em seus dias, mas também nos séculos posteriores. Já mereceria aplausos, no entanto, ainda que só tivesse inventado os nomes das notas musicais.
A menina continua a torturar o piano. Miserere nobis...

(1) Paulo Diácono viveu no Século VIII; existe alguma controvérsia quanto à autoria do Hino a São João Batista que, convencionalmente, lhe é atribuída.
(2) Quem acha que isso não tem importância deve tentar solfejar usando Ut em lugar de .


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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Corporações de ofício

As corporações de ofício eram organizações que reuniam os artesãos de cada atividade profissional existente na maioria das cidades europeias, desde os tempos da Baixa Idade Média. 
Uma das atribuições de cada corporação era prover e controlar o ensino da respectiva profissão. Meninos eram admitidos como aprendizes e, depois de um longo tempo, já com a competência necessária, eram examinados por mestres experientes. Sendo aprovados, passavam a ser reconhecidos como companheiros ou oficiais, e obtinham licença para exercer o ofício. Trabalhavam, então, usualmente, na oficina de um grande mestre, até que juntassem dinheiro suficiente para se estabelecerem por si mesmos (também para isso precisavam obter a aprovação de sua respectiva corporação). Dos membros da corporação exigia-se estrita obediência às regras estabelecidas, a mais alta qualidade em todos os trabalhos e fidelidade às técnicas e processos usados em seu ofício, que deviam ser mantidos em segredo.
Sapateiros trabalhando em uma oficina
(ilustração do Século XVI, obra de Jost Amman

 em Aller Stände auf Erden)
Além disso, para evitar o que se considerava concorrência desleal, as corporações trabalhavam no sentido de barrar a presença de artesãos de outras vilas ou cidades, garantindo, portanto, uma espécie de monopólio para os seus membros, dentro do território sobre o qual exerciam controle. E, como se fosse pouco, cada uma dessas associações tratava ainda de estipular os preços que deviam ser cobrados pelos produtos e/ou serviços oferecidos, de modo que, para prevenir uma desvalorização, ficava proibida a concorrência entre os membros da própria corporação.
Havia corporações para os mais variados ofícios: sapateiros, pedreiros, curtidores (de couros e artigos afins), armeiros, tecelões, impressores e encadernadores de livros, além de muitos outros. A associação de mestres-cantores, tornada famosa pela ópera de Richard Wagner (Die Meistersinger von Nürnberg), não era propriamente uma corporação de ofício, já que seus integrantes eram músicos amadores, que, profissionalmente, exerciam diversas atividades - Hans Sachs, por exemplo, era um proficiente sapateiro. A similaridade entre a organização dos mestres-cantores e as corporações de ofício fica por conta do controle severo, tanto para a admissão de novos membros, como pela exigência do mais estrito cumprimento das regras estabelecidas, cuja confrontação oferece o pretexto em torno do qual a ópera se desenvolve.
Há quem sugira comparar as corporações de ofício aos sindicatos, mas esta comparação, além de anacrônica, não deixa de ser também reducionista, por mais que seja razoável admitir que haja mesmo alguns elementos em comum, como é o caso, por exemplo, da defesa dos interesses de um dado ofício. Porém, ao contrário de um sindicato típico, as corporações de ofício reuniam empregadores, empregados e aprendizes, sob férreo controle dos primeiros. Já se vê, portanto, que a comparação por similaridade seria um despropósito.
Como quase tudo na história da humanidade, as corporações tiveram seu auge para, depois, declinarem e desaparecerem, já que não podiam fazer frente à concorrência da produção em escala industrial. Deixaram, porém, vestígios nada desprezíveis, que não passarão despercebidos à vivacidade mental dos leitores.

*****

No Brasil, a Constituição Imperial de 1824, no Artigo 179,  determinava:
XXIV - Nenhum gênero de trabalho, de cultura, indústria ou comércio pode ser proibido, uma vez que não se oponha aos costumes públicos, à segurança e saúde dos cidadãos.
XXV - Ficam abolidas as corporações de ofícios, seus juízes, escrivães e mestres.


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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Torneios medievais de cavalaria

A cavalaria teve grande importância social durante a Alta Idade Média. Nobres treinavam, desde a infância, para a excelência em habilidades militares. Embora as querelas entre senhores não fossem raras, nem sempre havia uma guerra de verdade à mão de quem queria ou precisava manter a forma, e, para suprir essa falta, eram realizados os torneios.
Já que a intenção era, também, fazer a maior exibição possível das virtudes guerreiras, não só os cavaleiros eram convidados para as competições. Mulheres, clérigos, nobres em geral, e a turma da diversão - músicos, bobos, etc. - todos compareciam. Montavam-se tendas para acomodar essa gente. Comida e bebida? Certamente havia, e em proporções pantagruélicas.
Como regra geral, os competidores podiam usar apenas armas "cegas", ou seja, sem corte ou pontas agudas, já que o objetivo era apenas fazer com que os oponentes caíssem dos respectivos cavalos. Não obstante, a possibilidade de ferimentos graves, e mesmo de alguma morte, era real. 
Soavam trombetas, começavam os combates, poeira e suor impregnavam a arena. A plateia assistia torcendo freneticamente por seus favoritos, principalmente no caso das damas que se sabiam cortejadas por algum dos competidores. Quem vencia, era aclamado em prosa e verso; suas façanhas, repetidas de boca em boca, acabavam, por vezes, ganhando ares lendários.
Nem sempre, porém, um torneio era apenas festa. Há muitos relatos de cavaleiros que aproveitavam a oportunidade para causar, deliberadamente, danos severos a seus desafetos, ainda que o juramento os obrigasse a competir com lealdade.
Dentro da lógica da cavalaria medieval, os torneios eram importantes como treinamento militar. Eram, também, uma ocasião, digamos, "civilizada", para que os ódios reprimidos encontrassem uma forma legítima de expressão.
Com o declínio da importância militar da cavalaria medieval os torneios foram caindo em desuso. Os cavaleiros usavam armaduras muito pesadas e eram ótimos em lutar a cavalo. A pé, tornavam-se vulneráveis, em especial diante das chuvas de flechas lançadas por exércitos de arqueiros. A introdução das armas de fogo deu, em mais de um sentido, o golpe de misericórdia na cavalaria medieval. A Europa ocidental passava, então, por grandes mudanças, novas táticas e mesmo novas tecnologias foram introduzidas no combate. Já não fazia sentido treinar cavaleiros que não teriam uso prático nas guerras.

Exércitos medievais em combate (cavaleiros e arqueiros),
de acordo com um manuscrito francês do Século XV (*)
Ah, mas havia quem não concordasse... 
Os leitores já sabem: falo do ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha,  exemplo acabado de heroísmo às avessas, correndo mundo montado em Rocinante, tendo Sancho por escudeiro e (como todo cavaleiro andante), em busca de façanhas que fizessem por merecer o amor de sua Dulcineia de Toboso. Mas o impiedoso Cervantes fez com que tudo lhe saísse muito mal.
O que tornava o Quixote ridículo? O exagero e, principalmente, o anacronismo. Preciosa lição para nossos dias

(*) ____________ Illuminated Manuscripts and Miniatures. Londres: Maggs Bros.. s.d. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Método usado pelos saxões para determinar se um acusado era inocente

A dificuldade existe desde tempos imemoriais - como descobrir se alguém acusado de um delito qualquer é ou não culpado?
Da Mesopotâmia de uns mil e setecentos anos antes de Cristo veio o Código de Hamurabi, segundo o qual o denunciado devia ser jogado no rio Eufrates. Se sobrevivesse, era declarado inocente. Se não... Se não, era considerado culpado, já estava, de todo modo, morto e, como vantagens adicionais, poupava aos magistrados o trabalho da execução e lançava a responsabilidade da sentença sobre as águas do rio ou sobre os deuses.
Os saxões que, durante a Idade Média, foram migrando da Europa Continental para a Grã-Bretanha, tinham um método para determinar a culpabilidade que lembra um pouco a "lógica" do Código de Hamurabi. Como verão, senhores leitores, o procedimento era bastante simples.
Uma bola de ferro era aquecida, até que ficasse incandescente. O acusado era então trazido à presença dos magistrados, sendo por eles convidado a segurar a dita bola de ferro. Se não sofresse qualquer queimadura, era declarado inocente e, ato contínuo, posto em liberdade. Antes dessa horripilante prova o acusado ou acusada tinha um tempo apropriado para jejuar e fazer suas orações, o que era, afinal, uma evidência de grande humanidade e justiça, não é mesmo?

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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre o unicórnio


Unicórnio, de acordo com representação do Século XVI (*)
Um unicórnio deveria ser, por definição e etimologia, um ser vivo dotado de um único chifre. Fácil, dirão alguns leitores, veja os rinocerontes!...
Mas, como se sabe, há rinocerontes com dois chifres, e o problema permanece porque a suposta criatura a que na Antiguidade e no Medievo se atribuía o nome de unicórnio era bem diversa de um rinoceronte. Era geralmente descrita como um belíssimo cavalo branco, tendo, na testa, um longo chifre espiralado. Vê-se, portanto, que até onde vão os conhecimentos da humanidade, tal ser não existe e, provavelmente nunca existiu - não foram encontrados fósseis que tivessem tais características.
Ainda assim, pela época do Renascimento acreditava-se, na Europa, que pó de chifre de unicórnio era o melhor remédio contra venenos diversos, inclusive de animais peçonhentos, além de combater pestes em geral. Resta saber de que animal, de fato, vinha tal pó...
Se recordarmos a devastação causada pela Peste Negra (pandemia de peste bubônica), talvez possamos dizer, não sem um sorriso mordaz, que a mortandade decorreu, afinal, da falta de um suprimento conveniente de chifres de unicórnio, não é mesmo? Não me entendam mal, leitores. O mais difícil é aceitar que ainda hoje haja quem acredite nessas tolices.

(*) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 1. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 30 de junho de 2013

Os jograis, músicos populares da Idade Média

A vida dos jograis, músicos ambulantes da Idade Média, não devia ser nada fácil. Antes de mais nada, precisavam desenvolver múltiplas habilidades: tinham de saber tocar e manter adequadamente os instrumentos musicais de que se serviam; deviam, igualmente, saber cantar bem (já que, no âmbito popular, o conceito de música instrumental, como hoje o entendemos, era então desconhecido); era desejável que soubessem compor melodias e fazer versos.
Mas não era só. Precisavam dominar uma variedade de técnicas acrobáticas, com as quais pudessem atrair e entreter o público, fosse em feiras, nas proximidades de igrejas ou mesmo trabalhando para nobres senhores em seus castelos. Truques mágicos também não estavam descartados em seu repertório.
Pois bem, assim qualificados, esses músicos-acróbatas não tinham emprego fixo e, por isso, precisavam procurar seu público indo de um lugar a outro, de modo que seu sustento era incerto. Vê-se, portanto, que estavam longe de desfrutar de prestígio social.
Não eram, via de regra, gente muito estimada. Conselhos municipais tentavam ver-se livres desses ambulantes, e a maioria dos religiosos torcia o nariz ante sua presença.
Muito de seu repertório, essencialmente oral, se perdeu, e, em realidade, não se poderia esperar outra coisa, mas é possível que algumas de suas cantigas, repetidas de boca em boca, tenham passado de uma geração a outra, sobrevivendo assim a obra de algum compositor anônimo muito além dos tempos medievais. Sem dominar as estritas e enfadonhas regras da música "culta" da época, eram, todavia, em sua simplicidade e mesmo em sua rudeza, capazes de expressar de forma autêntica os sentimentos da "gente comum" de seus dias. Suando em penosas tarefas agrícolas, era bem possível que camponeses assobiassem algumas de suas músicas, mais que quaisquer outras.
Não se deve supor, no entanto, que apenas quem queria ser jogral (por escolha ou falta de opção) é que aprendia música. Além de seu uso óbvio no âmbito religioso, a música também era vista como parte essencial da educação da nobreza, indício certo do refinamento que se esperava de gente de alta posição social. Desse modo, era importante saber tocar bem um instrumento musical e cantar com delicadeza, sem descuidar do aprendizado da dança, que estava, de todo modo, bastante associado ao da música. Esses músicos nobres e bem educados eram, porém, amadores. Os verdadeiros profissionais eram, então, os pobres e desprezados jograis.
O renascimento urbano se encarregaria de mudar a situação.
Sedentarizando-se, os músicos profissionais iriam ter suas próprias corporações de ofício, ganhariam respeito e credibilidade e passariam a desfrutar de um bom número de privilégios, colocando-se, socialmente, em posições sobremodo mais elevadas que seus antecessores. Foi isso lá pelos fins do Século XIII...


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domingo, 16 de junho de 2013

Ler e escrever, eis a questão - Parte 2

Escrever era difícil até para Carlos Magno


O fim do Império Romano (no Ocidente) e a gradual ruralização da sociedade contribuíram bastante para que o analfabetismo proliferasse. Escolas e professores particulares eram coisa das cidades, e muito raramente se encontraria isso entre camponeses esfomeados que viviam oprimidos pela expectativa da próxima invasão. O latim, língua do falecido Império, gradualmente restringiu-se aos clérigos e às poucas pessoas mais instruídas, enquanto a população em geral falava os vários idiomas nascidos da miscigenação do latim com as línguas bárbaras. Não deixa de ser curioso, hoje, observar os poucos manuscritos que restaram de tempos em que se tentava grafar essas novas línguas com os caracteres latinos. A realidade, porém, é que escrever tornou-se, mais uma vez, um privilégio de que poucas pessoas desfrutavam. O imperador Carlos Magno, cuja vida transcorreu em anos dos séculos VIII e IX, foi um entusiasta da fundação de escolas. Diz-se, porém, que ele próprio somente aprendeu a ler quando tinha já uns trinta anos, e nunca soube escrever nada mais expressivo que umas poucas garatujas. E, se o grande imperador era assim, que pensar da maioria de seus súditos?
Em boa parte da Idade Média na Europa Ocidental o saber foi cultivado - mas também restrito - aos mosteiros e, mais tarde, às nascentes universidades. E, se posteriormente o Renascimento trouxe à cultura uma lufada de vitalidade, tal fato não foi suficiente para alterar a condição das massas que, em geral, permaneciam na mais crassa ignorância, embora a proliferação de livros impressos - os novos objetos do desejo mesmo entre burgueses - tenha contribuído para tornar desejável a capacidade de ler. Acrescente-se ainda que, no Século XVI, em lugares onde a Reforma Protestante se impôs, surgiu uma certa preocupação em estender aos meninos e meninas do povo a possibilidade da frequência a uma escola, para que, na idade adulta, pudessem, como fiéis, ler a Bíblia por si mesmos.
Tudo isso, no entanto, não mudava muito a situação persistente na maioria das localidades: ser capaz de ler e escrever bem constituía-se ainda e por si só, em uma profissão. Já não eram esses escrevinhadores profissionais chamados "escribas", e sim "escrivães". E, como sempre, a burocracia de Estado era a esponja que os absorvia.


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domingo, 21 de março de 2010

Os sinos dobram. Por quê?

A utilidade dos sinos das igrejas, da Idade Média aos nossos dias


Em suas origens, as primeiras comunidades cristãs reuniam-se, ao que tudo indica, em casas de famílias que aderiam à nova fé. Porém, à medida que o cristianismo ganhou espaço na sociedade romana, edifícios próprios para os serviços religiosos começaram a ser construídos. No século IV, Eusébio de Cesareia (em sua História Eclesiástica) relatou como, após o Edito de Milão (313 d.C.) as igrejas destruídas durante décadas de perseguição foram reconstruídas, ao mesmo tempo em que novos templos eram edificados e consagrados. Entretanto, apenas na Idade Média é que as igrejas iriam ganhar a importância e as proporções que as colocariam entre os maiores edifícios públicos. E passariam a ter sinos, também. Por quê?
Você, leitor, quando quer saber as horas, olha para um relógio. Há muitos deles, em todo lugar. Mas nos tempos medievais, quando alguém queria saber as horas, precisava ouvir os sinos das igrejas ou dos mosteiros. Eram os sinos que anunciavam a hora dos serviços religiosos e, quem desejasse comparecer (o que, naqueles dias, significava quase a totalidade da população) tinha nas badaladas um aviso para se preparar. Desse modo, as igrejas prestavam um serviço, criando algum tipo confiável de marcação do tempo, porém chegavam, também, a exercer um grande controle, pois os horários dos serviços religiosos ditavam o ritmo da vida quotidiana.
Somente no século XIX é que os relógios pessoais (de bolso) tornaram-se frequentes - mas até aí o hábito já estava solidificado por séculos de uso, e as igrejas continuaram e continuam a ter sinos para conclamar os fiéis à devoção.
Engana-se, porém, quem imagina que essa fosse a única finalidade dos sinos das igrejas. As badaladas continham códigos que nós, hoje, desconhecemos, mas cujo significado os antigos sabiam muito bem. Assim é que, além do toque habitual para as missas, havia, por exemplo, os chamados de alarme, indicando, talvez, a ocorrência de um incêndio. Nesse caso, esperava-se que todos os moradores das redondezas cooperassem para debelar o fogo, pois bombeiros especializados, como temos atualmente, não existiam. E vale também lembrar aqui um episódio curioso da História do Brasil, quando, já nos últimos dias do Primeiro Reinado, Sua Majestade, D. Pedro I, visitou Minas Gerais, em um momento no qual a maioria dos brasileiros mostrava-se descontente com sua política de aproximação com Portugal, que parecia pôr em risco a independência. Ora, quando o imperador adentrava Ouro Preto, foi efusivamente saudado pelo toque simultâneo dos sinos das (muitíssimas) igrejas, que dobravam a Finados... 
Vale ainda acrescentar que nem sempre os sinos foram alocados em torres, mas à medida que os conhecimentos técnicos permitiram, as igrejas passaram a ter pontos elevados, os campanários, nos quais um conjunto de sinos era instalado, permitindo maior riqueza  sonora, evidentemente, mas criando também um ponto de observação indispensável à segurança das cidades daqueles tempos. De qualquer maneira, como já disse, o hábito estabeleceu-se e, nos nossos dias, quando todos temos um ou mais relógios, quando bombeiros atendem com eficiência e profissionalismo a casos de incêndio e quando os meios de comunicação de massa trazem notícias em tempo real, continuamos a ver igrejas sendo construídas com altas torres, talvez porque, sempre que soam,  os sinos parecem estabelecer um elo entre os devotos de hoje e os do passado, vínculo este que tem sido parte constante do imaginário fundamental na perpetuação do cristianismo como o conhecemos.


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