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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Fogueiras de São João

Em tempos nos quais uma parte expressiva da Europa ainda era pagã (não gosto do termo, prefiro a expressão pré-cristã), era comum que a época do solstício de verão fosse celebrada com festas que incluíam o acendimento de enormes fogueiras. Os missionários cristãos que ousavam aventurar-se entre povos bárbaros ficavam perplexos com isso, pois defrontavam-se não apenas com uma questão religiosa, mas com costumes profundamente arraigados e que pareciam difíceis de substituir. Nesse caso, como em muitos outros, tornou-se usual adotar uma prática sincrética, de modo que gradualmente os festejos do solstício de verão passaram a homenagear santos católicos, tais como Santo Antônio de Pádua (falecido em 13 de junho de 1231), São João Batista (cujo nascimento comemora-se a 24 de junho) e São Pedro (cujo martírio é oficialmente relembrado no dia 29 de junho). Restaram, no entanto, as fogueiras, e as festas juninas, trazidas pelos portugueses, talvez sejam, ao lado do Carnaval, as celebrações populares mais amplamente difundidas no Brasil. Compreende-se: os festejos coincidem com a temporada de safra em boa parte do país, e a fartura de abóbora, variedades de batata-doce, milho, pinhão, amendoim, enseja um compartilhar alegre que, guardadas as devidas proporções, tem um toque de Thanksgiving tupiniquim.
Curiosamente, no entanto, vários folcloristas assinalam que as festas juninas nem sempre tiveram a conotação "caipira" que geralmente as caracteriza. Isso teria sido obra do Estado Novo, como parte de um projeto mais amplo de suprimir as diferenças regionais, que devia incluir as disparidades quanto aos hábitos culturais de cada região. O projeto varguista seria incentivar as escolas a assumirem a realização (e padronização) dos festejos juninos, adotando um modelo típico do Sudeste, que chegaria, desse modo, a suplantar outras modalidades que porventura existissem.
Não resta a menor dúvida quanto às intenções de Vargas em estabelecer um governo altamente centralizado, como o episódio da queima das bandeiras estaduais bem pode ilustrar. Mas o momento o favorecia, já que o rádio havia se tornado popular e era um fator poderoso para espalhar novas ideias e divulgar novos padrões de comportamento, principalmente quando devidamente controlado pelo famoso D.I.P. (o Departamento de Imprensa e Propaganda, que durante o Estado Novo tinha, entre outras atribuições, a responsabilidade de controlar os meios de comunicação).
Seja como for, algumas das mais famosas canções típicas do período junino tiveram sua primeira gravação durante a Era Vargas, ainda que não necessariamente durante o Estado Novo. Só como exemplo, "Sonho de Papel", de Alberto Ribeiro ("E um balão vai subindo / Vem caindo a garoa / O céu é tão lindo / E a noite é tão boa...") tem ótima gravação com Carmen Miranda em 1935,  enquanto "Pedro, Antônio e João", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, foi gravada por Dalva de Oliveira em 1940. É quase supérfluo dizer que essa foi uma época importante para a discografia brasileira, independente do que a política governamental procurasse estabelecer. Muita gente já dispunha de algum tipo de toca-discos e quem tivesse meios para isso podia, se quisesse, comprar os discos com as músicas que tinha ouvido no rádio. O que chega a ser divertido é observar que, no Brasil, deu-se um processo inverso ao que transformou, na Europa, as fogueiras do solstício de verão em festividade cristã - os santos católicos Santo Antônio, São João e São Pedro tornaram-se gente comum, de modo que João é sogro de Antônio e Pedro tem o desplante de fugir com a noiva "na hora de ir pro altar"...
Andei tentando fotografar uma boa festa junina, bem tradicional, mas por toda parte o que tenho encontrado são apenas bandeirinhas verde-amarelas, não por excesso de patriotismo, mas como referência futebolística. E como já não cai a garoa (o tempo tem estado muito seco nessa época, faz alguns anos), espero que o balão não suba, para bem das (poucas) matas e tranquilidade dos bombeiros. Ou seja, cada vez mais a fogueira ficará só no coração.


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domingo, 21 de março de 2010

Os sinos dobram. Por quê?

A utilidade dos sinos das igrejas, da Idade Média aos nossos dias


Em suas origens, as primeiras comunidades cristãs reuniam-se, ao que tudo indica, em casas de famílias que aderiam à nova fé. Porém, à medida que o cristianismo ganhou espaço na sociedade romana, edifícios próprios para os serviços religiosos começaram a ser construídos. No século IV, Eusébio de Cesareia (em sua História Eclesiástica) relatou como, após o Edito de Milão (313 d.C.) as igrejas destruídas durante décadas de perseguição foram reconstruídas, ao mesmo tempo em que novos templos eram edificados e consagrados. Entretanto, apenas na Idade Média é que as igrejas iriam ganhar a importância e as proporções que as colocariam entre os maiores edifícios públicos. E passariam a ter sinos, também. Por quê?
Você, leitor, quando quer saber as horas, olha para um relógio. Há muitos deles, em todo lugar. Mas nos tempos medievais, quando alguém queria saber as horas, precisava ouvir os sinos das igrejas ou dos mosteiros. Eram os sinos que anunciavam a hora dos serviços religiosos e, quem desejasse comparecer (o que, naqueles dias, significava quase a totalidade da população) tinha nas badaladas um aviso para se preparar. Desse modo, as igrejas prestavam um serviço, criando algum tipo confiável de marcação do tempo, porém chegavam, também, a exercer um grande controle, pois os horários dos serviços religiosos ditavam o ritmo da vida quotidiana.
Somente no século XIX é que os relógios pessoais (de bolso) tornaram-se frequentes - mas até aí o hábito já estava solidificado por séculos de uso, e as igrejas continuaram e continuam a ter sinos para conclamar os fiéis à devoção.
Engana-se, porém, quem imagina que essa fosse a única finalidade dos sinos das igrejas. As badaladas continham códigos que nós, hoje, desconhecemos, mas cujo significado os antigos sabiam muito bem. Assim é que, além do toque habitual para as missas, havia, por exemplo, os chamados de alarme, indicando, talvez, a ocorrência de um incêndio. Nesse caso, esperava-se que todos os moradores das redondezas cooperassem para debelar o fogo, pois bombeiros especializados, como temos atualmente, não existiam. E vale também lembrar aqui um episódio curioso da História do Brasil, quando, já nos últimos dias do Primeiro Reinado, Sua Majestade, D. Pedro I, visitou Minas Gerais, em um momento no qual a maioria dos brasileiros mostrava-se descontente com sua política de aproximação com Portugal, que parecia pôr em risco a independência. Ora, quando o imperador adentrava Ouro Preto, foi efusivamente saudado pelo toque simultâneo dos sinos das (muitíssimas) igrejas, que dobravam a Finados... 
Vale ainda acrescentar que nem sempre os sinos foram alocados em torres, mas à medida que os conhecimentos técnicos permitiram, as igrejas passaram a ter pontos elevados, os campanários, nos quais um conjunto de sinos era instalado, permitindo maior riqueza  sonora, evidentemente, mas criando também um ponto de observação indispensável à segurança das cidades daqueles tempos. De qualquer maneira, como já disse, o hábito estabeleceu-se e, nos nossos dias, quando todos temos um ou mais relógios, quando bombeiros atendem com eficiência e profissionalismo a casos de incêndio e quando os meios de comunicação de massa trazem notícias em tempo real, continuamos a ver igrejas sendo construídas com altas torres, talvez porque, sempre que soam,  os sinos parecem estabelecer um elo entre os devotos de hoje e os do passado, vínculo este que tem sido parte constante do imaginário fundamental na perpetuação do cristianismo como o conhecemos.


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