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terça-feira, 14 de maio de 2019

Trezentas cabeças de lobo

Com justiça ou sem ela, lobos são ícones da perversidade. O olhar lupino, sagaz e perscrutador, é mesmo feito para congelar o sangue dos mais valentes. Imagine-se, então, quando a ameaça vem, não de um lobo, apenas, mas de alcateias! 
A coisa é tão séria que, a cada inverno, um ou outro país acaba autorizando, mesmo em nossos dias, a caça restrita de lobos, seja porque atacam rebanhos, ou porque ameaçam povoações isoladas. Imagine-se o que seria, então, na Europa Medieval, com o povoamento menos denso, as dificuldades de comunicação e os caminhantes obrigados a se deslocarem, às vezes sob frio intenso, por rotas quase desertas, a não ser, talvez, pelos lobos famintos que perambulavam à espera de uma refeição.
Acham que estou exagerando, leitores? Posso provar que não. Aconteceu na segunda metade do Século X, quando Edgar I era rei da Inglaterra. Nessa época, inúmeras alcateias vagueavam pela Grã-Bretanha, constituindo-se em verdadeira ameaça à segurança da população. Foi aí que o rei teve uma ideia que, àquela altura dos acontecimentos, soou brilhante, ainda que, para nós, hoje, talvez pareça exageradamente antiecológica: determinou que o imposto anual a que os galeses estavam sujeitos fosse pago com trezentas cabeças de lobo. Querem saber o resultado? Em cerca de quatro anos o "problema dos lobos" desapareceu. Que governo eficiente!...


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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Guará, o "lobo" da América do Sul

Lobo-guará
(isto seria um sorriso... Ou não?

Talvez estivesse com sono...)
O guará (Chrysocyon brachyurus) não é, tecnicamente, um lobo (Canis lupus), embora desde os primeiros tempos da colonização, em virtude de algumas aparentes semelhanças, tenha sido chamado de lobo-guará. Sem pretensões a rigor científico, o Conde de Azambuja, que viajou em uma monção pelo Tietê e outros rios, durante o Século XVIII, registrou, quando da passagem pelo rio Pardo:
"A 17 se matou um lobo, que era do tamanho de um cão ordinário, e pelo avermelhado, a cabeça mais curta, a boca menos rasgada, e os dentes mais pequenos que os nossos costumam ter; e também parece não serem tão sagazes, porque o mataram à queima-roupa, parado de um perdigueiro, e quieto." (¹)
Vale notar, porém, que o Conde faz referência à sagacidade atribuída aos lobos cinzentos (veja a postagem anterior) e, em seu entendimento, o guará não se lhes equiparava neste atributo. Mas não é só. Ao lado de muitas outras dessemelhanças, cumpre notar que o guará tem hábitos solitários. Não se verá, por aí, nenhuma alcateia de guarás...
Em obra publicada na segunda década do Século XIX, o Padre Ayres de Casal também mencionou o guará, apontando, igualmente,  algumas distinções entre ele e os lobos conhecidos na Europa:
Crânio de lobo-guará (⁵)
"O guará tem a figura do lobo, com a diferença de uma pequena clina das espáduas até o coruto inclinada para diante; só se encontram nas províncias centrais, onde não são numerosos, nem tão daninhos como a sua espécie na Europa (²), sendo contudo roubadores de bezerrinhos; em algumas partes não duvidam chamar-lhe lobo; estimam-se-lhe a pele e os dentes." (³)
Estimam-se-lhe a pele e os dentes!!! Neste caso, as eventuais semelhanças entre o guará e os lobos devem ter valido ao pobre canídeo da América do Sul a perseguição implacável que a legislação do Reino fomentava, mediante premiação à caça, que se movia aos lobos de Portugal, conforme se mencionou na postagem anterior. Não se espanta, pois, que já no começo do século XIX, Ayres de Casal dissesse não serem os guarás muito numerosos.
A caça ao guará podia, também, ser motivada, digamos, por interesse científico, conforme se depreende deste relato de Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, realizada entre 1825 e 1829:
"Fez-se alto de jantar às 10 horas, para ter tempo de empalhar um lobo que fora morto à bala. Era do tamanho dos da Europa e estava bastante magro, prova de que apesar da abundância de veados e caititus, cuja carne é deliciosa, pouco achava que comer." (⁴)

Lobo-guará

Sim, meus leitores, mais uma evidência de que a vida destes animais não era nada fácil. E continua a não ser. Não são raras, atualmente, as notícias na imprensa de São Paulo, relativas a guarás atropelados e mortos nas rodovias que cruzam o Estado. É que, em busca de alimento, esforçam-se por ir de um pequeno trecho de mata a outro (nas poucas áreas florestadas que ainda restam) em meio às imensas extensões cultivadas e/ou habitadas e, para isso, arriscam-se à morte, principalmente nas horas da noite, quando acabam atingidos por algum veículo. Já se sugeriu que a existência de "corredores verdes" entre as áreas de mata poderia ser útil à preservação de uma grande variedade de espécies, e não apenas de guarás. Seja como for, é inegável que a crescente urbanização e expansão agrícola, sem o necessário planejamento em termos de preservação ambiental tem feito muitas vítimas, sendo o guará uma dentre elas.

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 204.
(2) Está claro que Ayres de Casal não tinha qualquer compreensão quanto à taxonomia do guará e do lobo cinzento, daí supor, erroneamente, que pudessem ser da mesma espécie.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 63 e 64.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 60.
(5) O esqueleto de guará aqui retratado pertence ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP.


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domingo, 14 de julho de 2013

Aí vem o lobo mau!

Lobos como caçadores e como caça através dos tempos


"La raison du plus fort est toujours la meilleure: Nous l'allons montrer tout à l'heure."
                                                                                   Jean de La Fontaine, Le Loup et l'Agneau
 
Belos, mas temidos e, por isso mesmo, detestados, os lobos têm desde muito tempo frequentado lendas, fábulas e mais histórias. São retratados como pérfidos, traiçoeiros, dispostos a qualquer coisa para agarrar a presa pelo pescoço e, pior que um lobo, só muitos lobos juntos: quando se pensa que um lobo está sozinho, pode-se, na verdade, contar com uma alcateia nas proximidades. Seu uivo, rompendo o silêncio de uma noite invernal, é capaz de provocar calafrios mesmo nos mais corajosos dentre os humanos, e isso desde tempos imemoriais.
Esopo, na Antiguidade, colocou lobos em muitas de suas fábulas. É o caso, por exemplo, de "O Lobo e o Grou" (¹), "O Lobo e o Cachorro" (²) ou "O Lobo e o Cabrito" (³). A mais conhecida delas, porém, é, a meu julgar, a chamada "O Lobo e o Cordeiro": um lobo acusa, injustamente, um cordeiro de sujar a água que iria beber, mas isso não passa de reles pretexto para o que de fato pretende e acaba por fazer: jantar o animalzinho inocente. Curiosamente, para Esopo, havia só um animal que era capaz de superar um lobo em esperteza e maldade. A raposa!
Em tempos modernos, La Fontaine retomou as fábulas de Esopo e vestiu-as com versos em língua francesa.
Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau, em ilustração
de Paul Menerheim (⁷)
A mais célebre história envolvendo um lobo - o que pensam, leitores? - é provavelmente aquela que, na versão dos Irmãos Grimm, correu e corre ainda o planeta, e quase não há quem não a conheça. "Rotkäppchen", ou "Chapeuzinho Vermelho", nome que recebeu no Português do Brasil, não foi, certamente, inventada pelos dois estudiosos das tradições populares germânicas, pois em variadas formas já era contada em muitos lugares da Europa e, no Século XVII, teve uma versão impressa, de autoria de Charles Perrault, que teria reduzida probabilidade de agradar às crianças de hoje, uma vez que o lobo devorava a menina e ponto final. Na versão principal recolhida e contada pelos Irmãos Grimm (⁴), o lobo, abatido por um caçador, passa, digamos, por uma cirurgia, e de seu abdômen saem, vivíssimas (!!!), a vovó e a Chapeuzinho Vermelho...
Desnecessário é dizer que a mania do "politicamente correto" já acarretou versões mais ecológicas deste conto (supostamente) infantil; todo mundo sabe, também, que essa historinha aparentemente ingênua tem-se prestado a intermináveis estudos e debates sobre o comportamento humano. Mas, voltando ao assunto dos lobos, a antiga legislação portuguesa tinha, para eles, uma solução que causaria um certo espanto atualmente. É o que se vê no Livro Primeiro das Ordenações do Reino, Título 65, § 21 (⁵). Assumindo que os lobos causavam problemas à segurança das pessoas e ameaçavam rebanhos, caçá-los era não só permitido, mas incentivado, mediante premiação:
"E porque os lobos fazem grandes danos aos gados, havemos por bem que o homem que matar lobo velho, haja por cada um três mil réis, e por lobo pequeno, quinhentos réis. E o que emprazar cachorros (⁶) e os mostrar, haja quatrocentos réis, do qual prêmio se pagará a metade à custa da nossa Fazenda, e a outra à custa do povo, em cujo termo forem mortos. E o matador mostrará a cabeça e a pele do tal lobo ao juiz do lugar, o qual mandará fazer disso assento, e passará mandado para o almoxarife pagar logo a dita quantia à tal pessoa. [...]."
Problemas causados à parte, neste caso os lobos, quase sempre vilões da história, viam-se transformados em vítimas, com as cabeças literalmente postas a prêmio.

(1) Um grou salva a vida de um lobo que estava com um osso entalado na garganta. O ingrato, no entanto, depois de ver-se livre do perigo, maltrata a ave.
(2) Cansado de viver na penúria, à procura de caça, um lobo interroga um cão sobre seu aspecto excelente. Este lhe explica que tudo recebe do dono, mas acaba revelando que é obrigado a usar uma coleira, para que o prendam quando bem entenderem.
(3) Um lobo tenta enganar um cabrito, fazendo-se passar por sua mãe.
(4) São, na verdade, duas versões, e que aparecem, ambas, em Kinder und Hausmärchen.
(5) Sistematização de leis publicada, pela primeira vez, no início do século XVII. Seguiu-se a edição de 1824 da Universidade de Coimbra, sendo o texto trancrito no Português atual do Brasil.
(6) Filhotes de lobo.
(7) GRIMM, Jacob et Wilhelm. Kinder und Hausmärchen. Gütersloh: Bertelsmann, 1893. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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