A afinação é trabalhosa, mas as mãos que empunham a espada são também ágeis na pequena harpa. A noite é fria, uma fogueira aquece o grupo que se forma ao redor. Conservando certa distância, outra fogueira, e outra, e outras. Muitas mais. Perto das tendas, o burburinho dos que alimentam os cavalos, curam feridos, preparam comida. Fisionomias cansadas estão por toda parte. Em meio à fumaça, a multidão composta por soldados e toda a gente que os acompanha parece uma onda que se move lentamente sobre as irregularidades do terreno.
O guerreiro trovador, dedilhando a harpa, começa uma cantiga que recorda uma terra distante, uma praia inóspita, um amor perdido. Aquecendo-se junto à fogueira, os companheiros ouvem em silêncio. Mesmo acostumados à rudeza dos campos de batalha, não perderam a sensibilidade e se encantam com as memórias que a música, tão suave, consegue evocar. À sua volta, persiste o movimento dos que, pragmáticos, se ocupam do indispensável à sobrevivência.
A cantiga termina, ouve-se o crepitar da madeira que as chamas vão consumindo. Mais um instante, e o harpista começa a tocar uma canção alegre, que todos conhecem e que, como mágica, põe fim às reflexões melancólicas. Com alguma timidez, a princípio, mas com ruído crescente, batem palmas e movem os pés. Interiormente, até são tentados a dançar. A Terra Santa, para esses cruzados, é ainda uma miragem distante. Como em uma peregrinação, aquilo que tanto buscam talvez esteja, não na chegada, mas no caminho que percorrem.
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