quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Guido d'Arezzo, as Notas Musicais e uma Lição de Piano Nada Agradável

Não longe daqui uma menininha de sete anos martela, pela milésima vez, sua lição de piano. Bate as teclas com entusiasmo (ai!), e cantarola as notas, dizendo seus nomes com a duração correspondente. Ela não tem a menor ideia de que a nomenclatura das notas musicais nasceu na Idade Média, mais precisamente na virada do primeiro para o segundo milênio, quando um monge italiano, Guido d'Arezzo, quis tornar menos penosa a vida dos aprendizes e, para facilitar a memorização, usou um canto sacro antigo e muito conhecido, cuja composição é atribuída a Paulo Diácono (*), o Hino a São João Batista, no qual os cantores pediam que o dito santo purificasse seus lábios para que pudessem cantar melhor:

Ut queant laxis
Resonare fibris
Mira gestorum
Famuli tuorum
Solve polluti
Labii reatum
Sancte Iohannes

Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... Com a pequena modificação de Ut para , feita séculos mais tarde por uma questão de eufonia (**), tem-se a nomenclatura adotada até hoje em boa parte deste planeta, embora não seja a única. 
Guido d'Arezzo foi um teórico muito influente, não só em seus dias, mas também nos séculos posteriores. Já mereceria aplausos, no entanto, ainda que só tivesse inventado os nomes das notas musicais.
A menina continua a torturar o piano. Miserere nobis...

(*) Paulo Diácono viveu no Século VIII; existe alguma controvérsia quanto à autoria do Hino a São João Batista que, convencionalmente, lhe é atribuída.
(**) Quem acha que isso não tem importância deve tentar solfejar usando Ut em lugar de .

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