quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Utopia (Não Muito Utópica) de Thomas Morus

Utopia, hoje, é uma palavra geralmente usada para descrever um sonho ou projeto impossível ou, pelo menos, muito difícil de ser concretizado. A palavra surgiu, porém, como título de uma obra que falava de uma ilha imaginária, na qual existia uma civilização ideal. Apareceu quando era, ainda, a época dos grandes descobrimentos, e a possibilidade da existência de civilizações avançadas e até então desconhecidas passava pela cabeça de muitos europeus, mais ou menos como se discute, agora, se há vida inteligente em planetas distantes.
Ocorre, entretanto, que a "civilização perfeita" da ficção política escrita no Século XVI por Sir Thomas Morus, tinha muitos dos valores típicos do tempo em que viveu seu autor, ou mesmo elementos bem conhecidos de civilizações do passado, e, sob esse aspecto, não poderia ser classificada como um arroubo de originalidade. Querem ver, meus leitores?
  • À semelhança de alguns povos da Antiguidade, como os hebreus e os gregos de Esparta e Atenas, por exemplo, os utopianos tinham um legislador-fundador, cujo nome era Utopus e que, depois de civilizar a população selvagem da ilha, formulara a legislação que a regia;
  • Um príncipe, com mandato vitalício, era o governante supremo da Utopia, o que comprova que Morus não conseguia caminhar muito longe da ideia de monarquia então corrente na Europa;
  • Para auxiliar o príncipe vitalício havia um conselho de anciãos ou senado (lembram-se do senado romano?);
  • Questões de interesse público somente podiam ser debatidas no âmbito do senado e/ou das assembleias populares, atribuindo-se pena de morte para os desobedientes - apesar de supostamente impedir que decisões fossem tomadas às escondidas, pode-se questionar que havia, afinal, um tipo de censura ou restrição à liberdade de expressão dos cidadãos comuns da Utopia, cuja finalidade prática era evitar qualquer questionamento franco das regras estabelecidas;
  • Com exceção da agricultura, praticada tanto por homens como por mulheres, os demais ofícios eram divididos por sexo;
  • Filhos, como regra, aprendiam o ofício de seus pais (como nas corporações de ofício medievais), embora isso não fosse estritamente obrigatório;
  • O pai era a maior autoridade da família e cada grande grupo familiar (a que nós talvez déssemos o nome de clã) era regido pelo homem mais idoso, ou seja, pelo patriarca;
  • Ao casar-se, a moça é que ia viver com a família de seu marido, jamais o contrário, mais ou menos como acontecia na Grécia e Roma antigas;
  • Era permitido que os maridos castigassem as respectivas mulheres e que os pais castigassem os filhos;
  • Durante as refeições, as mulheres deviam servir a seus maridos, assim como os filhos estavam obrigados a servir a seus pais;
  • Trabalhos pesados na cozinha eram feitos por escravos, mas cozinhar e servir às mesas eram tarefas para as mulheres;
  • O casamento era, como regra geral, considerado indissolúvel, embora em casos graves de incompatibilidade o senado pudesse autorizar uma separação;
  • Na Utopia, a escravidão era admitida: os escravos eram, entre outros, prisioneiros de guerra, pessoas que haviam cometido adultério e criminosos sentenciados (como nas antigas penas de galés);
  • Condenados à escravidão eram, em caso de revolta, punidos com a morte;
  • Com o objetivo de encontrar uma solução para o excedente populacional que a ilha não poderia comportar, os utopianos, de modo análogo aos antigos gregos, fundavam colônias;
  • Ao fundar uma nova colônia em um lugar qualquer, os utopianos, se encontrassem ali habitantes, usavam a força para expulsá-los, e a isso consideravam uma guerra justa;
  • Em caso de guerra, os habitantes da Utopia costumavam contratar mercenários estrangeiros que fossem ao combate, de preferência a arriscar a pele dos cidadãos durante a luta;
  • Utopianos tinham inquietações filosóficas muito semelhantes àquelas que povoavam a mente de estudiosos europeus, quer do Medievo, quer do Renascimento.
Creio que, para nosso propósito, esta lista já é suficiente.
A que conclusão chegamos, leitores? Mesmo a Utopia utopicamente original não conseguiu fugir às amarras de sua época. Seu autor, um crítico mordaz das injustiças sociais que permeavam a Inglaterra de seu tempo, não teve destino muito feliz: Thomas Morus, no contexto do terremoto político-religioso que sacudiu a Europa e, em seu caso particular, a Inglaterra do Século XVI, acabou condenado à morte e foi decapitado em 1535. Sua Utopia, porém, se não foi a primeira fantasia de uma sociedade ideal a ser composta, veio a ser a mais popular, pelo menos no nome. 
Popularidade, porém, não é tudo. A despeito de sua sincera preocupação com questões relacionadas à justiça social, a Utopia (a obra, não a ilha) fazia a defesa de um controle tão estrito dos indivíduos que, sob a capa da igualdade, raiava à opressão. Que dizer de um país, ainda que hipotético, no qual toda a vida do cidadão era regulada por leis, desde a hora em que acordava até o momento em que ia dormir, assim como quando e quantas eram as refeições diárias que podiam ser feitas, qual era o tempo de trabalho, qual o tempo de lazer e como podia ser gasto, que atividade profissional devia ser exercida, quando e com quem se casaria e que posição ocuparia dentro de seu grupo familiar? Havia mais: Se o cidadão quisesse fazer uma viagem, somente poderia empreendê-la com o consentimento dos governantes, que predeterminavam a data de regresso e estipulavam que, na localidade a ser visitada, devia, enquanto lá estivesse, trabalhar com os que fossem da mesma profissão. 
Parece asfixiante, leitores? Nesse sentido, a Utopia imaginada e descrita por Thomas Morus estava mais para arcabouço de um Estado totalitário do que para fundamento de uma sociedade livre.

2 comentários:

  1. Uma sociedade esclavagista e misógina descrita como ideal é de bradar aos céus. Faz-me recordar, em algumas passagens, o "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, com a sua sociedade em castas em tudo orientada para a produção, que até proíbe relações sexuais e a procriação é feita em incubadoras.
    Arrepiante...

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    1. Hmmm, é mesmo, mas acho que há uma diferença: Huxley, ao que parece, tinha a intenção de chocar os leitores (desencadeando uma reflexão sobre os rumos possíveis da sociedade ocidental e os perigos da tecnocracia), enquanto Morus, até certo ponto, pretendia apresentar um modelo de sociedade ideal.

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