Mostrando postagens com marcador Século XVI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Século XVI. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Em nome dos reis que queriam ouro

Invasores europeus no Continente Americano na perspectiva do Mercantilismo


Eram tempos de Mercantilismo, ao menos para alguns reinos na Europa. Mercantilismo - talvez a explicação soe um pouco simplista - foi doutrina e prática econômica que, entre outras ideias, defendia o metalismo, o conceito de que um Estado seria tanto mais forte e poderoso quanto maior fosse sua reserva de metais preciosos, obtidos por meio de uma balança comercial favorável. Mas não só, conforme já veremos.
Os autoproclamados conquistadores, que invadiram e dominaram impérios no Continente Americano, corriam risco, matavam e morriam por si mesmos, com vistas à aquisição de riqueza pessoal. Mas iam também em nome do monarca, fosse rei ou imperador, sob cuja autoridade, em última instância, se encontravam. Era aos monarcas de nações europeias que muito interessava também a "conquista", da qual decorria o envio de embarcações abarrotadas de metais preciosos. O preceito mercantilista era seguido à risca.
Contudo, os "conquistadores" não se arriscavam apenas por riqueza pessoal ou pela prosperidade econômica de reis e imperadores que estavam muito longe, e a quem, em quase todos os casos, jamais veriam. Acreditavam piamente que a conquista era um serviço a Deus. Não pensem, leitores, que todo suposto conquistador era um hipócrita, que invocava perversamente o nome de Deus para justificar atos de suprema crueldade. Se é fato que havia gente pérfida a tal ponto, é igualmente certo que nem todos se enquadravam nessa categoria. A mentalidade cruzadística não se havia, ainda, evaporado por completo (¹).
Um exemplo prático ajudará a esclarecer essa questão. Publicou-se em Sevilha, no ano de 1534, uma obra escrita por Francisco de Xerez, que foi, nem mais e nem menos, que o secretário de Francisco Pizarro, famoso por invadir e atacar o Império Inca. Pois bem, nessa obra, ao relatar um confronto preliminar entre espanhóis e indígenas, Xerez escreveu, com uma candura de arrepiar os cabelos:
"[...] como Nosso Senhor favorece e socorre nas necessidades aos que estão a seu serviço, os índios foram desbaratados e fugiram, e os que estavam a cavalo foram atrás deles, ferindo e matando alguns [...]." (²)
Posteriormente, Pizarro mandou tropas a perseguir os indígenas que haviam escapado, e, tendo aprisionado àqueles que supunha líderes, entendeu-se com eles do modo que já ia se tornando frequente, sempre que invasores atacavam quem dispunha de alguma quantidade daquilo que acima de tudo desejavam, prata e ouro:
"[...] Destes fez justiça o governador, queimando a alguns e cortando a cabeça a outros." (³)
Se, na Europa, cristãos que divergiam dos pontos de vista religiosos dominantes eram queimados vivos, por que invasores espanhóis considerariam estranho o ato de decapitar ou queimar pessoas de cujas terras e riquezas pretendiam se apropriar, em nome de Deus e do rei (⁴)?

(1) Quem ousaria dizer, mesmo em nossos dias, que já desapareceu de todo?
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.
(4) Na época, Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império.


Veja também:

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Como terminou a primeira viagem de circum-navegação

Dia 6 de setembro de 1522: dezoito homens esquálidos em decorrência de indizíveis privações, chegam ao porto de Sanlúcar de Barrameda, Espanha, em uma embarcação que, literalmente, cai aos pedaços. Eram os únicos a completar aquela que, até onde se sabe, foi a primeira viagem de circum-navegação. 
No diário de Antonio Pigafetta, espanhol que se juntara à expedição comandada por Fernão de Magalhães, e que foi um dos dezoito a voltar, lê-se: 
"Graças à Providência, no sábado, dia 6 de setembro, entramos na baía de Sanlúcar, e, dos sessenta tripulantes que éramos ao sair das ilhas Molucas, só restamos dezoito, quase todos doentes. Quanto aos outros, houve os que fugiram para ficar no Timor, alguns foram sentenciados à morte em decorrência de crimes cometidos, e outros, ainda, morreram de fome." (¹)
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos habitantes de Sanlúcar ao ver chegar esses intrépidos sofredores, depois de sua louca aventura no mar! 
Dois dias mais tarde, os navegadores foram a Sevilha e, para contar que, afinal estavam de volta, dispararam toda a artilharia do navio - ou o que restava dela. No dia seguinte, 9 de setembro, terça-feira, desembarcaram e foram a terra. Não para casa, porém, e sim a cumprir promessa feita em viagem: 
"[...] descalços e levando uma vela na mão, fomos às igrejas de Nossa Senhora da Vitória e de Santa Maria da Antigua, conforme promessa que fizéramos nas ocasiões de angústia." (²)
Enquanto esses celebravam a volta, é possível que, em muitas casas, lágrimas caíssem pelos que nunca voltariam. 

(1) Os trechos do diário de Antonio Pigafetta aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid. 


Veja também:

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A Primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil e os livros existentes na Bahia

Era 28 de julho de 1591. Nesse dia foram publicados na Cidade da Bahia, ou Salvador, primeira capital do Brasil, os Editos da Fé e da Graça, pelo visitador Heitor Furtado de Mendonça, naquela que é conhecida como a Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil.
Nunca houve na colônia portuguesa na América um tribunal fixo do Santo Ofício. A Inquisição, por aqui, foi, por assim dizer, ambulante, com as "Visitações", que iam a um determinado lugar, apenas temporariamente. Na mesma data em que se publicaram os Editos da Fé e da Graça, com toda a solenidade que o lugar comportava, fez-se também pública uma ordem do visitador que demonstra muito bem até onde ia a repressão à liberdade de consciência nesses tempos que, felizmente, já vão longe: "[...] li  mais estes capítulos em que o dito senhor visitador mandava e declarava certas coisas, a saber, que lhe levassem todos os livros ou os róis de livros que tinham, e que não saísse ninguém da igreja antes de se acabar o ato [...]" (*).
Surpreendente? Não, porque vigorava, na época, o Index Librorum Prohibitorum, lista de livros proibidos, para publicação, posse ou leitura. Portanto, o visitador estava, legalmente, no direito de exigir conhecimento dos livros existentes na Cidade da Bahia e, se fosse o caso, de apreendê-los e destruí-los. É verdade que não deviam ser muitos os livros, porque pouca era a gente letrada para isso, mas, em tempos nos quais se julgava que ideias divergentes no campo religioso - as chamadas heresias - deviam ser extirpadas como se fossem doenças altamente contagiosas, a Inquisição começava por investigar onde poderiam estar as sementes do suposto joio. Ao visitador caberia descobrir, porém, que, no Brasil, muito mais frequentes que ensinos pouco ortodoxos, eram as práticas ofensivas às regras da Igreja, não só entre a gente comum, mas inclusive entre o clero da Bahia.

(*) MENDONÇA, Heitor Furtado de. Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil. São Paulo: 1922, p. 12.


Veja também:

quarta-feira, 5 de junho de 2024

O Brasil, depois que Tomé de Sousa voltou a Portugal

                                                                                "Qual homem pode haver tão paciente, 
                                                                                Que, vendo o triste estado da Bahia 
                                                                                Não chore, não suspire e não lamente?"
                                                                                                                   (Gregório de Matos)

Muitos dentre os primeiros colonizadores do Brasil não eram gente de costumes propriamente exemplares, e menos ainda o eram alguns dos clérigos que aportaram em terras portuguesas na América durante o Século XVI (¹). Em uma carta escrita pelo missionário jesuíta Manuel da Nóbrega, tendo Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, como destinatário, pode ser lido este relatório bem pouco edificante:
"E assim está agora a terra nestes termos, que se contarem todas as coisas desta terra, todas acharão cheias de pecados mortais, cheias de adultérios, cheias de fornicações, excessos e abominações em tanto, que [...] escassamente se oferece um ou dois que guardem bem seu estado, ao menos sem pecado público. Pois dos outros pecados que direi, não há paz, mas tudo ódio, murmurações, roubos e rapinas, enganos e mentiras; não há segurança, nem se guarda um só mandamento de Deus, e muito menos os da Igreja." (²) 
A carta foi escrita por Nóbrega em 5 de junho de 1559, depois que Tomé de Sousa, cumprido seu tempo de governo no Brasil, havia retornado a Portugal. Portanto, a ideia seria expor como andavam os colonizadores, em particular na Bahia, onde fora fundada a primeira capital do Brasil. Já estava concluído, também, o segundo governo-geral, de Duarte da Costa, e, quanto ao terceiro, de Mem de Sá, começara há cerca de ano e meio. 
Fica evidente que o padre Manuel da Nóbrega conservava certa amizade com o primeiro governador-geral, e era pessimista, não apenas quanto à religiosidade dos colonizadores, mas até quanto à decência no convívio e ordem pública. Não seria fácil, para nenhum governador, impor regras de conduta a uma população que se via, ao pisar no Brasil, na liberdade decorrente de um vasto território, onde escasso seria o controle que autoridades civis e eclesiásticas poderiam exercer. 

(1) As acusações eram numerosas contra padres que vieram ao Brasil em companhia do primeiro bispo, Pedro Fernandes Sardinha. Eram destinados, não à catequese de indígenas, mas ao atendimento dos colonizadores portugueses.
(2) Citado em: LISBOA, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 68.


Veja também:

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Barbeiro do Século XVI que usava a flora nativa para tratar doentes

Foi no Século XVI, quando Antônio Salema era governador no Rio de Janeiro. Tomou-se a decisão de pôr um fim aos ataques dos tamoios, destruindo-os por completo. Os que não morreram, foram escravizados. Gentil contato esse, entre colonizadores e indígenas!...
É aí que entra uma história interessante, contada por Joaquim Manuel de Macedo em Memórias da Rua do Ouvidor, atribuindo-a a certa tradição, ainda que pouco documentada. Um barbeiro, que também se declarava cirurgião, e cujo nome era Aleixo Manuel, participou do grupo de colonizadores que foi à guerra contra os indígenas e, como recompensa, trouxe para si dois escravos, uma menina de três anos e o avô, com mais ou menos sessenta. Fez batizar a ambos, chamando-os, respectivamente, Inês e Tomé.
Acontece que, naqueles tempos em que médicos de verdade não eram frequentes nas terras portuguesas na América, era ao barbeiro, que se afirmava cirurgião, que se recorria, não só para fazer a barba e cortar o cabelo, mas para extrair dentes, para pequenas cirurgias e até para medicamentos, mesmo sabendo que os da época eram poucos e, em geral, ineficazes. A esperança é a última que morre, e, muitas vezes, morria com os doentes.
Pois bem, o esperto Aleixo Manuel logo se deu conta de que, trazendo consigo o indígena que escravizara, tinha à disposição uma mina de ouro:
"Aleixo Manuel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do monte do Desterro (depois de Santa Teresa) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais, por experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião a quem indicava as moléstias em cujo tratamento elas aproveitavam." (¹)
Não, o tal barbeiro e cirurgião não se abalava a fazer um estudo científico das propriedades das plantas que o indígena Tomé lhe trazia, nem se supunha que tivesse conhecimento para tanto. Mas, em uma terra onde os recursos médicos faltavam quase completamente, o simples fato de que alguns desses vegetais, cujo uso Tomé conhecia empiricamente e/ou por tradição recebida de seus ancestrais, fossem efetivos para algumas moléstias, foi suficiente para fazer com que, em breve, Aleixo Manuel se tornasse famoso no Rio de Janeiro, e chegasse a prosperar, no contexto em que vivia:
"Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manuel começou, graças ao pobre escravo, a distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama, teve clínica extensa e rendosa, reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal." (²)
Macedo, que era médico por formação, deve ter-se divertido ao contar essa história. Havia nela, contudo, um conceito de importância: a flora nativa do Brasil tinha e tem muito a oferecer. Mesmo bastante estudada, está longe de ter revelado, já, todos os seus segredos. 

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Ibid. 


Veja também:

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Colonizadores casados no Reino que se casavam novamente no Brasil

Os registros da Primeira Visitação do Santo Ofício ocorrida no Brasil, mais especificamente na Bahia, em 1591, mostram que não eram exatamente raros os casos de colonizadores casados (homens ou mulheres) que, vindo ao Brasil, deixavam cônjuge vivo no Reino e, valendo-se da distância que quase tudo ocultava, casavam-se novamente. Isto é, até que ameaçados pela Inquisição, que parecia tudo adivinhar, corriam para a mesa do visitador e revelavam o que haviam feito. Exemplos? Vejamos:

Confissão de Baltasar Martins Florença, mestre de açúcar que deixou a mulher na Madeira e se casou novamente no Brasil
"[...] ele confessante se veio para estas terras do Brasil, e deixou a dita sua mulher Isabel Nunes, e depois de estar ele confessante nestas partes do Brasil seis ou sete anos, [...] sabendo ele que ela estava viva, ele se casou [...] em Vila Velha [...] com Susana Borges Pereira [...] e a recebeu na igreja de Vila Velha [...] na forma como se costumam receber [...]." (¹)
Confissão de Catharina Morena, que fugiu da Espanha porque era maltratada pelo marido e veio para o Brasil, onde se casou segunda vez com documento falso
"[...] confessando disse que haverá onze anos, pouco mais ou menos, sendo ela então da idade de dezoito anos, casou-se na cidade de Toledo [...] com Francisco Duram [...], que então dizia ser da idade de trinta anos [...], e com o dito seu legítimo marido ela esteve fazendo vida marital [...] como casados que eram, espaço de seis meses pouco mais ou menos, usando o dito o ofício de estalajadeiro. E no fim dos ditos seis meses, por ela ter grande aborrecimento ao dito seu marido por ser ele costumado a embebedar-se [...] lhe fugiu de casa e o deixou [...] e se veio fugida com um homem castelhano chamado Francisco de Burgos que a trouxe consigo a este Brasil [...], e depois de estar neste Brasil algum tempo na conversação do dito Francisco de Burgos se apartou dele e o deixou, e ela se foi a Pernambuco, onde [...] vendo-se muito pobre e desremediada determinou de se casar, e fez fazer uma carta falsa fingindo que lhe vinha de Málaga, em que se dizia que o dito seu marido Francisco Duram era morto, a qual deu a ler a muitas pessoas, e assim fingindo-se viúva [...] ela se casou segunda vez com Antônio Jorge, português, mestre de açougue na dita vila de Pernambuco [...]." (²)  
Confissão de Antônia de Bairos, que veio ao Brasil condenada a degredo por adultério, e se casou novamente, sendo vivo o primeiro marido
"[...] e confessando disse que haverá trinta e dois anos, pouco mais ou menos, que ela veio do Reino degradada pelas justiças seculares por cinco anos para este Brasil por adultério, de que a acusou o dito seu marido [...] e lá em Portugal se amigou ela com um homem cristão velho chamado Henrique Barbas [...] e com ele se veio para este Brasil e aportaram na Capitania Porto Seguro, e logo na dita capitania, poucos dias depois de estarem nela, sabendo ela muito bem e o dito Henrique Barbas de como o dito marido Álvaro Chaveiro, seu legítimo marido, ficava vivo em Portugal, se casaram ambos, ela confessante com o dito Henrique Barbas, [...] e que depois de assim se casar em face da Igreja com o dito segundo marido Henrique Barbas, sendo ela e ele sabedores que o seu legítimo marido Álvaro Chaveiro estava vivo, viveram ambos como casados em Porto Seguro mais de quinze anos, e por ele vir a dar açoites e pancadas e muito má vida a ela confessante, [...] lhe fugiu de casa e se meteu na igreja da vila e começou a declarar e manifestar como o dito Henrique Barbas não era seu marido legítimo [...]." (³) 
Estes são casos conhecidos em razão das confissões feitas diante do visitador do Santo Ofício. Quantos mais devem ter ocorrido em todo o Brasil? Impossível saber. A distância e a enorme dificuldade de comunicação aliavam-se aos que, talvez supondo que nunca mais poriam os pés no Reino, imaginavam que passariam melhor seus dias na terra se arranjassem novo casamento.

(1)  MENDONÇA, Heitor Furtado de. Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil. São Paulo: 1922, p. 32.
(2) Ibid., pp. 81 e 82.
(3) Ibid., pp. 85 e 86.


Veja também:

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Argumentos para trazer missionários jesuítas ao Brasil no Século XVI

Houve, no Século XVI, alguns casos de jesuítas que, estando muito doentes em Portugal, decidiram vir ao Brasil, acreditando que gastariam bem seus últimos dias sobre a terra se estivessem ocupados na catequese de indígenas. Ocorre que, ao chegarem ao Continente Americano, não só recuperaram a saúde, como ainda viveram largos anos, estimando-se que a mudança de ares fora a causa desse (quase) milagre. A despeito dos riscos inerentes à travessia do Atlântico, a vinda ao Brasil passou a ser vista como uma possibilidade de melhora na saúde dos padres que, vivendo no Reino, não encontravam alívio nos tratamentos a que eram submetidos. Convenhamos: a medicina da época não ajudava muito.
Mesmo assim, era reduzido o número de missionários envolvidos na catequese de indígenas e no ensino dos meninos, filhos de portugueses, e, por essa razão, os jesuítas encarregados da redação de cartas para seus irmãos de Ordem, viviam citando as palavras de Jesus nos Evangelhos, de que a seara era mesmo grande, mas eram poucos os trabalhadores (¹). Era preciso pedir mais gente para tanto trabalho. 
Que argumentos mais poderiam ser úteis para encorajar candidatos a missionários? Uma carta escrita na Bahia em setembro de 1560 pelo padre Rui Pereira, destinada aos jesuítas que viviam em Portugal, nos dá, indiretamente, algumas pistas de quais poderiam ser os pretextos para não vir - comida diferente, desconforto da vida no Brasil, etc. - e como poderiam ser refutados. Vejamos, primeiro, a questão da alimentação:
"[...] Se em Portugal há galinhas (²), cá as há muitas e mui baratas; se tem carneiros, cá há tantos animais que caçam nos matos e de tão boa carne, que me rio muito de Portugal em essa parte. Se tem vinho, há tantas águas que a olhos vistos me acho melhor com elas que com os vinhos de lá; se tem pão, cá o tive eu por vezes e fresco, e como antes dos mantimentos da terra que dele. E está claro ser mais sã a farinha da terra (³) , que o pão de lá; pois as frutas coma quem quiser as de lá, das quais cá temos muitas, que eu só as de cá me quero. [...]" (⁴) 
Mas quem quereria trocar as horas de sono em uma cama confortável, por uma rede, como aquelas em que dormiam os indígenas, fosse no mato ou em alguma povoação de colonizadores? Responde o padre Rui Pereira:
"[...] Dir-me-ão que vida pode ter um homem dormindo em uma rede pendurado no ar, que é isso cá tão grande coisa que tenho eu cama de colchões, aconselhando-me o médico que dormisse na rede, e achei tal, que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho. Outros terão outros pareceres, mas a experiência me constrange a ser dessa opinião." (⁵)
O jesuíta Rui Pereira argumentava com base em suas preferências. Talvez fosse um exemplo notável de aculturação ou, pelo menos, de adaptação às possiblidades em terra de missões. Argumentos como os seus, contudo, podem ter influenciado aqueles que, indecisos, vacilavam em "passar ao Brasil". Independentemente do que se pense do modo como aconteceu a catequese de indígenas, ser missionário no Século XVI não era para qualquer um.

(1) Cf. Evangelium Secundum Mattheum, 9. 37, 38 - "[...] messis quidem multa operarii autem pauci / rogate ergo dominum messis ut eiciat operarios in messem suam"; Secumdum Lucam 10. 2 - "messis quidem multa operari autem pauci rogate ergo Dominum messis ut mittat operarios im messem"
(2) A carne de galinha era vista, na época, como um alimento favorável aos enfermos. 
(3 Farinha de mandioca.
(4) Cf. LISBOA, Balthazar da Silva. Annaes do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 153.
(5) Ibid., p. 154.


Veja também:

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Façanhas bizarras de soldados que acompanharam Hernán Cortés na invasão do Império Asteca

A Hernán Cortés foram atribuídas todas as honras da conquista do México, com pouca ou nenhuma referência aos feitos e valor dos mais soldados - essa foi a queixa que, ao final de sua Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, fez Bernal Díaz del Castillo. Com notável memória, porque já eram passados muitos anos desde o fim do Império Asteca, fez uma lista extensa dos homens que acompanharam Cortés, mencionando o nome de quase todos, além de algumas de suas façanhas. 
Contudo, nem todos se notabilizaram pelos feitos de armas. Vejam, leitores, dentre os citados por Bernal Díaz, alguns que tiveram fama por outras razões:
"Cristóbal de Olí (1) [...] morreu [...] degolado [...] porque se insurgiu com uma armada que Cortés lhe confiara."
"Pedro de Solis Atrás-da-porta, porque estava sempre em sua casa atrás da porta, olhando os que passavam na rua, mas não podia ser visto [...]."
"um bom soldado (2) que tinha uma mão a menos, que fora cortada pela Justiça em Castela [...]."
"Juan Perez, que matou sua mulher [...]."
"[...] Fulano Suarez o Velho, que matou sua mulher com uma pedra de moer milho [...]."
"[...] Gonzalo de Umbria, muito bom soldado, a este [...] Cortés mandou cortar os dedos dos pés [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Yañes, natural de Córdoba, e este soldado foi conosco a Las Higueras, e enquanto isso sua mulher se casou com outro marido [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Ribadeo, galego, que nós apelidamos Beberreo, porque bebia muito vinho [...]."
"[...] um soldado que se chamava Álvaro, homem do mar, natural de Palos, do qual se dizia que teve com índias da terra trinta filhos em cerca de três anos [...]."
Finalmente, três homens com o mesmo sobrenome - Tarifa -, dois deles destacados mais pelo que falavam que pelo que faziam:
"[...] três soldados que tinham por sobrenome Tarifa; um foi morador de Guaxaca [...]; outro era chamado Tarifa dos serviços, porque vivia dizendo que servia a sua majestade e não lhe davam nada [...]; e ao outro chamavam Tarifa das mãos brancas, [...], porque não era para a guerra nem para coisa de trabalho, mas apenas para falar de coisas passadas que lhe haviam acontecido em Sevilha [...]." (3)
(1) Foi um dos principais líderes da campanha de conquista de Tenochtitlán.
(2) Seu nome não foi referido por Bernal Diaz del Castillo.
(3) Todos os trechos aqui citados da  Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


Veja também:

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Três "tigres" para Carlos V

Onça-pintada (Panthera onca)
Depois de derrotar os astecas e tomar Tenochtitlán, sua capital, Hernán Cortés tratou de enviar a Carlos V, rei da Espanha e mandatário supremo do Sacro Império Romano-Germânico, a parte que lhe correspondia do tesouro asteca e do valor relativo aos escravizados. Juntamente iam cartas, contendo relatórios detalhados da guerra e das riquezas que essa "conquista" adicionava ao jovem soberano. Além disso, era intenção de Cortés que ninguém que não ele próprio fosse nomeado governador do território a que se deu o nome de Nova Espanha.
Sabe-se, por informação de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés, que os navios que partiram rumo à Espanha no final de 1522 levavam, também, um curioso e complicado presente para Carlos V: "[...] partiram do porto de Veracruz no dia vinte do mês de dezembro de 1522 anos [...], e no caminho se soltaram dois tigres [sic] dos três que levavam e feriram a alguns marinheiros, e entraram em acordo de matar o que restava, porque era muito bravo e não podiam mantê-lo sob controle [...]" (¹).
Pobres animais expatriados! Não sabemos, ao certo, o que aconteceu aos dois primeiros, e bem pode ser que tenham escapulido e voltado ao seu habitat; o terceiro, porém, não teve tanta sorte. Agora, leitores, cabe recordar que tigres não são nativos do Continente Americano. Colonizadores tinham o costume de chamar "tigre" ao jaguar (Panthera onca), que, no Brasil, é mais conhecido como onça-pintada. Trata-se do maior felino das Américas e exemplares adultos podem passar dos cem quilos. Não é surpresa, portanto, que o malfadado presente destinado a Carlos V tenha ficado pelo caminho.
Sem tigres, ou melhor, sem onças, os navios seguiram viagem, apenas para ter sua missão fracassada diante de um ataque corsário, comandado pelo francês Jean Florin (²). O impacto foi enorme. Cartas, mapas, descrições feitas por Cortés e outros espanhóis caíram nas mãos de Francisco I, rei da França, e serviram de guia em navegações posteriores, empreendidas por franceses, com o propósito de fincar o pé no Continente Americano. Nas palavras de Bernal Díaz, "[...] toda a França estava maravilhada das riquezas que tínhamos enviado a nosso grande imperador, e o próprio rei da França cobiçava ter parte nas ilhas de Nova Espanha [...]" (³).
Anos depois, Florin, o notável corsário que tão igualmente notável prejuízo causara à Espanha, foi capturado e conduzido a Sevilha. Foi enforcado - alguém imaginaria outra coisa?  Sob a perspectiva da Espanha deve ter sido, convenhamos, uma vingança magra, pelo tamanho do desaforo.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Também chamado Jean Fleury.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


Veja também:

terça-feira, 9 de março de 2021

Aferição de pesos e medidas no Brasil Colonial

Se vocês, leitores, quiserem algum instrumento de medida - uma régua para uso escolar ou para escritório, digamos - irão à loja mais próxima que venda o dito objeto e lá comprarão um, não é verdade? Supõe-se, a partir daí, que terão confiança nessa régua, crendo que, quando necessário, fornecerá a medida com exatidão. Vale o mesmo para medidas usadas na cozinha, ou talvez em uma oficina. As balanças e outros instrumentos empregados no comércio são regularmente aferidos, como se sabe, pelo órgão público competente.
Imaginem, agora, a situação de quem usava instrumentos de medida no Brasil Colonial. Como ter certeza de que ofereciam o resultado correto? Como saber que, afinal, medidas de capacidade, usadas nas vendas por pequenos comerciantes, não eram, em última análise, um instrumento de fraude?
A resposta é esta: medidas consideradas padrão ficavam em poder da Câmara Municipal de cada localidade, e era ela que, periodicamente, devia providenciar a aferição dos pesos e medidas empregados no comércio, indicando, para isso, uma pessoa qualificada. A Câmara de São Paulo, por exemplo, decidiu, em julho de 1584:
"Aos dois dias do mês de julho, era de mil e quinhentos e oitenta e quatro anos, foi mandado [...] apregoar as posturas neste livro contidas [...] e que quem tivesse medidas ou varas de medir ou pesos os trouxesse para aferir, com pena de dois tostões [...]."
A multa estipulada era pequenina em termos absolutos, mas quase não havia dinheiro amoedado circulando na vila. Curioso, mesmo, era o modo como se avisava a população quanto à obrigatoriedade de apresentar pesos e medidas para aferição, conforme se vê em outra ata, datada de 14 de setembro de 1585:
"[...] o almotacel Jerônimo Maciel mandou deitar pregão pelo porteiro [...] e assim mandou que todas as pessoas que tivessem pesos e medidas as trouxessem perante ele [...] tudo para ser visto e examinado se estavam certas e boas [sic], e o dito porteiro deitou o dito pregão em altas vozes, que ouviu a gente do povo a que o quis ouvir, e que as tais medidas, pesos e meios alqueires (¹) trouxessem dentro em três dias perante ele para o dito efeito, sob pena de duzentos réis [...]." (²)
A reunião dos oficiais da Câmara acontecia habitualmente aos sábados. Havendo alguma coisa a ser comunicada ao povo, o porteiro, concluída a missa no domingo imediato, punha-se do lado de fora da igreja, a fim de ler a proclamação, porque nesse dia estavam presentes não só aqueles que residiam dentro dos muros da vila, como quem morava em fazendas nos arredores. Pode-se bem imaginar quanto essa prática contribuía para preservar os sentimentos religiosos entre a população...

(1) Um alqueire, como medida de volume, equivalia, nesse tempo, a pouco mais de treze litros.
(2) As atas aqui citadas foram transcritas na ortografia atual, com adição da pontuação indispensável.


Veja também:

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quem podia ser barbeiro em São Paulo no Século XVI

O que faziam os barbeiros do final do Século XVI? Aparavam barbas, naturalmente, e cabelos... Não só. A população da vila de São Paulo recorria aos barbeiros para várias tarefas que hoje poucos buscariam (se é que alguém ainda faz), e que eram, contudo, muito procuradas em tempos passados: sangrias (¹), por exemplo, e também curativos para feridas, porque a probabilidade de haver um médico nas vilas coloniais era muito reduzida.
Ocorre que, ciumentos de suas prerrogativas, os barbeiros reconhecidos por uma corporação de ofício colocavam todos os empecilhos que podiam à atuação de intrusos na profissão. No ano de 1597 os oficiais da Câmara de São Paulo decidiram agir contra a entrada indiscriminada de forasteiros que se propunham ao trabalho de barbeiros, e que diminuíam, portanto, a freguesia disponível para os profissionais que já residiam na localidade. Diz a ata correspondente:
"Aos dezesseis dias do mês de agosto do dito ano fizeram audiência os oficiais da Câmara e assentaram coisas pertencentes ao bem comum. E logo assentaram entre todos que porquanto nesta vila havia muitas pessoas que de fora vinham e outros que não eram examinados curavam feridas e faziam sangrias por toda a terra, e que pois havia na vila Antônio Ruiz, barbeiro e homem experimentado e examinado (²), que era bem fazê-lo juiz do ofício e que sem sua ordem e sem ser visto todo o que assim curar não possa fazer nem usar da dita cura e sangrias sem sua licença e carta de examinação [sic], salvo quem em suas casas o faz e mostrem o fazer por necessidade ou em negócio e caso fortuito, não sendo achado o dito Antônio Ruiz, farão as ditas curas e sangrias para quem souberem fazer [...]." (³)
No entanto, meus leitores, talvez nos seja lícito supor que, por trás dessa tão salutar preocupação da Câmara, talvez manobrasse o próprio barbeiro Antônio Ruiz, porque, logo em seguida, a ata é enfática em dizer que o homem compareceu de imediato a prestar juramento para ser feito juiz de ofício: 
"[...] para este efeito apareceu logo o dito Antônio Ruiz e recebeu juramento dos Santos Evangelhos perante mim, escrivão, sobre um livro deles, da mão do vereador Antônio de Proença, e prometeu de usar e fazer o dito seu ofício bem e fielmente para estar aqui com os ditos oficiais que lhe mandaram passar provisão deste caso [...]."
Quanta prontidão! Sabendo que paulistas da época eram mestres em tergiversar, se conveniente, não parece pouco razoável fazer a leitura dessa ata menos pelo que diz e mais pelo subentendido, em relação à prática do sangrento ofício de barbeiro no Século XVI (⁴).

(1) A falta de médicos era gritante no território colonial, de modo que até jesuítas tinham, eventualmente, autorização do Padre Geral para efetuar sangrias, uma mania da época que se acreditava salvar vidas, embora não tenham sido poucas, certamente, as que se perderam por causa dela.
(2) Examinado talvez ainda em Portugal, em uma corporação de ofício.
(3) A Ata da Câmara de São Paulo de 16 de agosto de 1597 foi aqui transcrita na ortografia atual e com a adição de alguma pontuação, para torná-la compreensível aos leitores da atualidade (assim espero).
(4) O ofício de barbeiro continuou a envolver sangrias, curativos e até extração de dentes por muito tempo.


Veja também:

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Armas dos espanhóis nas mãos de guerreiros astecas

Retirada é uma ação estratégica organizada, quando o confronto aberto parece indesejável ou impossível. Hernán Cortés bem que tentou, mas a saída de seu bando de invasores de Tenochtitlán, após a morte do imperador Montezuma, não foi mais que uma fuga, com um só lema: salve-se quem puder.
Sob o ataque da população local em fúria, espanhóis e indígenas aliados (¹) tentaram escapulir, carregando parte do enorme tesouro que haviam encontrado. Tanto peso, porém, era demais para quem precisava fugir para salvar a vida. Sob chuva, neblina e em terreno difícil, as perdas em homens, cavalos e armas foram terríveis. Para os sobreviventes, essa foi a "noite triste".
Era 1520. Nos meses seguintes, Cortés tratou de reorganizar seu grupo, atraindo mais soldados e obtendo armamento. Os astecas, contudo, não descansavam. Não davam tréguas, enviando grupos de combatentes que não permitiam que europeus e seus aliados pudessem sequer dormir em paz. Além do encontro eventual em templos astecas dos ossos de companheiros que haviam perdido, os invasores logo descobriram que as espadas deixadas em Tenochtitlán não eram desperdiçadas, quando, em algum combate, viam seus oponentes usando "lanças muito longas para matar os cavalos, nelas engastadas as espadas que nos tomaram na noite do desbarate" (²), segundo informou Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés.   
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos espanhóis quando viram nas lanças astecas um brilho de lâminas de Toledo!... Mas não foi só. Ainda de acordo com Bernal Díaz, os valorosos astecas logo aprenderam a empunhar as espadas com maestria: "Os capitães mexicanos [...] traziam espadas das nossas, fazendo com elas muitas demonstrações de valentia, e diziam que com nossas armas nos haviam de matar [...]" (³).

(1) Principalmente tlaxcaltecas.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


Veja também:

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Arariboia

Arariboia (¹) era cacique temiminó. Colonizadores portugueses gostavam muito dele, em razão de ser seu aliado. É fácil notar que os índios que se opunham à colonização eram considerados maus.
À frente dos guerreiros de sua tribo, Arariboia juntou-se às forças do governador-geral Mem de Sá para a guerra de expulsão dos franceses que haviam gostado tanto da baía de Guanabara que não queriam deixá-la em mãos de portugueses. A atuação dos indígenas, de um e de outro lado, foi importante no confronto. Afinal, vitoriosos os portugueses, foram enviadas notícias ao Reino. Em resultado, o jovem rei D. Sebastião mandou presentes ao chefe temiminó que tanto se destacara. "[...] El-rei D. Sebastião louvou o esforço do índio, mandou-lhe peças de estima, e entre elas um hábito de Cristo com tença, e um vestido de seu próprio corpo" (²), escreveu Simão de Vasconcelos, autor seiscentista. Sabe-se também que a Arariboia e sua gente foi concedido um lugar, a título de sesmaria, não muito longe do Rio de Janeiro. Era vantajoso ter um aliado desses por perto, com armas na mão para defesa dos colonizadores, sempre que fosse preciso. Seria impertinência perguntar que sentido faziam esses presentes, para quem fora, até pouco antes, senhor inconteste na terra em que nascera?
O episódio mais famoso associado a Arariboia tem que ver com a chegada do governador Antônio de Salema ao Rio de Janeiro em 1575, para assumir o mando nas "capitanias do sul". Foi recebido tanto por portugueses como por chefes indígenas, entre os quais o já idoso temiminó, a quem se dera o nome de Martim Afonso de Sousa (³) por ocasião do batismo. Conta frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (⁴), que, vindo Arariboia à presença do mandatário recém-chegado, foi-lhe concedida uma cadeira em que se sentasse. Isso era uma grande honra, segundo o costume da época, porque gente comum, se chegava a estar diante do governador, devia permanecer em pé, com o chapéu na mão e falando apenas quando permitido. O temiminó, porém, tinha outras ideias, e parece não ter dado grande importância às cerimônias dos colonizadores:
"[...] como o governador desse cadeira, e ele em se assentando cavalgasse uma perna sobre a outra segundo o seu costume, mandou-lhe dizer o governador pelo intérprete que ali tinha, que não era aquela boa cortesia quando falava com um governador, que representava a pessoa de el-rei.
Respondeu o índio de repente, não sem cólera e arrogância, dizendo-lhe: "Se tu souberas quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a el-rei, não estranharas dar-lhes agora este pequeno descanso, mas já que me achas pouco cortesão eu me vou para minha aldeia, onde nós não curamos desses pontos, e não tornarei mais à tua corte". Porém nunca deixou de se achar com os seus em todas as ocasiões, que o ocupou."
Grande Arariboia! Não podemos ter certeza de que as coisas foram exatamente assim - temos o relato de frei Vicente do Salvador, mas os índios, como se sabe, nada deixaram escrito. É de se lamentar, e muito. Tendo em conta, porém, o quanto os atritos entre nativos e colonizadores eram frequentes, não é absurda a suposição de que, ao menos na essência, esse incidente pode ser autêntico, porque não se esperaria que, décadas mais tarde, alguém se lembrasse dele, não fora pela forte impressão que causara.

(1) Há outras grafias, como Ararigboia, por exemplo.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 73.
(3) O mesmo nome do navegador português que percorrera, com sua expedição, o litoral brasileiro, várias décadas antes. Não confundir com outro indígena catequizado que aderira aos portugueses, o cacique Tibiriçá, que, no batismo, também foi chamado Martim Afonso, e que viveu em São Paulo no Século XVI.
(4) O manuscrito é de c. 1627.


terça-feira, 30 de junho de 2020

Indígenas foram expulsos de três aldeias para a fundação da primeira capital do Brasil

O documento que veremos foi citado por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na segunda parte do Novo Orbe Seráfico, e trata da fundação da cidade da Bahia (ou Salvador), primeira capital do Brasil. Foi encontrado, segundo Jaboatão, em um catálogo antigo dos governadores da Bahia, e nele se dizia que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, chegara ao Brasil em março de 1549, mas esteve "preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal" (¹). 
Para que tanto preparo, para que tanta espera? Diz o documento:
"[...] preparando até o mês de julho a gente de guerra, que havia trazido de Portugal, escolhido já o sítio por Diogo Álvares (²) [...], que é o em que está hoje fundada a cidade, por ter porto acomodado para os navios e ser terra levantada, que a faz participante de todas as virações, marchou o dito capitão-mor (³) com mil homens de guerra (⁴) e quatrocentos índios, e com efeito fizeram despejar as três aldeias do gentio (⁵), que se achavam estabelecidas onde é o terreiro de Jesus (⁶), o Convento do Carmo e o Desterro [...]."
Acontecimentos dessa época são um tanto incertos; documentos escritos posteriormente podem conter erros. As fontes divergem, por exemplo, em relação ao número de soldados que acompanharam Tomé de Sousa na viagem ao Brasil. Uma coisa, porém, é certa: a Bahia era habitada por indígenas e, para que Salvador fosse fundada nos moldes de uma povoação portuguesa, ou sairiam eles, espontaneamente, ou seriam expulsos. 
Não surpreende que Tomé de Sousa tenha contado, além dos soldados que trouxera do Reino, com a ajuda de indígenas. Sabe-se que os vários grupos tribais tinham divergências quase permanentes e, conquistando as boas graças de alguns, era possível facilmente tê-los como apoio na expulsão de outros, principalmente se levarmos em conta que os nativos que apoiaram Tomé de Sousa deviam ser aqueles tupinambás com que se aparentara Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que, escapando ao mar e à antropofagia, deixou numerosa descendência mameluca. 
Há que se considerar, ainda, que a existência de três aldeias indígenas na localidade poderia ser um exagero, uma vez que povoações nativas eram, usualmente, algo distantes umas das outras, para preservar um território de caça e coleta capaz de sustentar, ao menos parcialmente, as respectivas populações, embora não seja de todo impossível que, próximo ao litoral, grupos indígenas vivessem mais perto uns dos outros, já que do mar podia vir muito de sua alimentação. No entanto, essa dificuldade talvez desapareça, se considerarmos que colonizadores poderiam pensar que cada habitação coletiva indígena seria, por si mesma, uma aldeia, e, desse modo, três grandes moradias fossem julgadas três povoações distintas. Não se pode desconsiderar, também, o exagero intencional, com o fim de encarecer ao monarca e mais autoridades do Reino as dificuldades superadas por aqueles que enviara ao Brasil, e grandes serviços, portanto, que prestavam a seu rei, para os quais se esperava régia recompensa.
Como já disse, aos indígenas que viviam nas terras da futura Cidade da Bahia apenas se ofereciam duas opções: ou saíam espontaneamente, ou seriam expulsos. O documento que analisamos, sem disfarces ou considerações humanitárias, conta muito bem (e oficialmente) o que aconteceu. Surpreendente? Não, porque era a lógica da conquista, praticada, nesse tempo, não só na América, mas na própria Europa, quando as várias monarquias guerreavam entre si, conquistavam territórios que, automaticamente, adicionavam a seus domínios, passando os súditos de um rei ou imperador a outro. Consequências desse fenômeno existem até hoje, no patchwork das nacionalidades e culturas dentro de Estados que, em alguns casos, são muito pequenos.

(1) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 20.
(2) Diogo Álvares Correa, o Caramuru, náufrago português que já vivia entre indígenas na Bahia.
(3) Tomé de Sousa, considerado capitão-mor até que estabelecesse o Governo-Geral, quando passaria a ter o título de governador-geral.
(4) Outras fontes falam em um número diferente de soldados. De qualquer forma, o fato de se fazer acompanhar desde o Reino por um número considerável de soldados mostra que já se supunha que a ocupação da terra não seria pacífica.
(5) "Gentios" eram os indígenas não catequizados,
(6) Ou seja, defronte ao local onde posteriormente foi edificado o Colégio dos Jesuítas.


Veja também:

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um assassinato brutal no Rio de Janeiro no Século XVI

A data oficial de fundação da cidade do Rio de Janeiro é 1º de março de 1565, no contexto da luta pela expulsão de franceses que tentavam fincar pé na área. Em 1535 não havia lá, ao que se sabe, nenhuma povoação permanente de colonizadores europeus, ainda que a terra fosse reconhecida como propriedade da Coroa portuguesa (¹). A despeito disso, há registro de um incidente sangrento ocorrido na região, quando, por duas semanas, em 1534 ou 1535 (²), ali esteve uma armada espanhola que ia ao Rio da Prata. O fato é conhecido pelo relato de Ulrich Schmidel, um alemão que viajava nessa armada, e que, muitos anos depois, de volta à Europa, publicou um livro que tinha por título Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart (³). Disse ele:
"Navegamos dessa para outra ilha [sic] chamada Rio Ienea (⁴) [...], que pertence ao rei de Portugal [...], onde ficamos cerca de quatorze dias. Foi lá que dom Pedro de Mendoza (⁵), nosso capitão-general, determinou que Juan de Osorio [...] nos comandasse como seu substituto, porque ele [Pedro de Mendoza] estava doente e sem poder mover-se. Não demorou para que Juan de Osorio fizesse inimigos e fosse falsamente acusado de promover um levante contra Pedro de Mendoza. Por esse motivo, dom Pedro de Mendoza mandou que outros quatro capitães [...] matassem o dito Juan de Osorio a punhaladas [...], e que o apresentassem como traidor. Fez também passar bando, ordenando que ninguém se atrevesse a ter compaixão de Osorio, para não incorrer em idêntico castigo." (⁶)
É fato que os comandantes de armadas que viajavam no Século XVI levavam permissão para agir como juízes absolutos, porque esse era um modo de assegurar a disciplina entre marinheiros e soldados, que, de outro modo, seriam, talvez, incontroláveis. Contudo, não houve, ao que parece, nenhum processo formal contra Juan de Osorio, bastando a acusação de que tramara uma revolta para que fosse morto. Não havendo processo, não houve também uma execução formal, e sim um assassinato. Mesmo o conciso Schmidel, que raramente punha sentimentos  no papel, que narrou friamente o canibalismo praticado por colonizadores (que isso fizeram para não morrer de fome), concluiu sua narrativa do incidente dizendo: "Isto foi uma injustiça que se cometeu [contra Osorio], como bem sabe Deus todo-poderoso [...], porque ele era um homem correto e bom soldado, capaz de manter ordem e disciplina entre gente de guerra." (⁶) 

(1) Há bastante tempo ocorrem debates quanto à origem do nome "Rio de Janeiro", bem como quanto à data em que essa denominação foi atribuída. À parte disso, a região tinha feitorias desde as primeiras décadas do Século XVI, ainda que uma povoação formalmente estabelecida não existisse quando a frota espanhola em que Schmidel viajava passou por lá. Outro fator importante a recordar é que esse mercenário alemão somente escreveu e publicou suas memórias muito tempo depois do fato aqui referido.
(2) Há divergências quanto à data. Embora Schmidel diga 1534, há quem pense que, levando em conta o calendário que adotava, a data deveria ser 1535 ou 1536.
(3) A primeira edição é de 1567. 
(4) A edição de 1599 traz Rio Ienea ou Rio Iamero (Rio de Janeiro).
(5) Os nomes de Pedro de Mendoza e Juan de Osorio aparecem aqui como de fato eram, e não na estropiada grafia de Schmidel, que escrevia conforme os nomes pareciam soar em sua língua materna.
(6) SCHMIDEL, Ulrich. Warhafftige Historien einer wunderbaren Schiffart. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 19 de maio de 2020

Infrações cometidas por um ferreiro que viveu em São Paulo no Século XVI

Em 1587 os oficiais da Câmara de São Paulo mandaram publicar um tabelamento de preços que podiam ser cobrados pelos ferreiros que trabalhavam na própria vila, ou nos arredores de sua jurisdição. Ora, meus leitores, temos boas razões para crer que a obediência ao tabelamento não mereceria ser classificada como exemplar, porque, no ano seguinte, 1588, manifestaram-se queixas amargas contra um ferreiro que, para impedir que seus fregueses examinassem a tabela de preços, adotara um expediente algo curioso. Deixemos que fale a documentação da época, com seu sabor característico. Dizia a ata da Câmara relativa ao dia 15 de abril de 1588 (¹):
"Aos quinze dias do mês de abril da era de mil quinhentos e oitenta e oito anos, nesta vila de São Paulo [...], pelo procurador do concelho (²) foi requerido ...] que [...] provessem sobre as posturas feitas no ano passado [...], e o povo clamava da pouca justiça mormente agravada da grande carestia e desordem do ferreiro [...]."
Portanto, leitores, fica-se sabendo, já de saída, que o perturbador da boa ordem era o ferreiro, contra quem clamava a opinião pública. Dias mais tarde, os vereadores decidiram chamar à vila dois aprendizes do ferreiro, de quem suponham poder arrancar informações confiáveis:
"Hoje, vinte e oito dias do mês de maio da era de mil e quinhentos e oitenta e oito anos, nesta vila de São Paulo [...] se ajuntaram os oficiais da Câmara [...] e [...] acordaram os oficiais que se notificasse a Domingos Fernandes, ferreiro, que com pena de mil réis mandasse a esta vila seus aprendizes [...] para com eles fazer certas diligências [...]."
Infere-se, por esse documento, que a oficina do ferreiro devia estar fora da cerca que protegia a vila. Não sabemos o que podem ter conversado o ferreiro e seus aprendizes diante da ordem expedida pela vereança, mas é certo que dois homens compareceram para depor, e não parece ter havido grande dificuldade em fazê-los dar com a língua nos dentes:
"Hoje, quatro dias do mês de junho da era de 1588 anos, nesta vila de São Paulo [...] se ajuntaram os oficiais da Câmara [...] para fazerem diligência com os aprendizes de Domingos Fernandes, ferreiro, porquanto todo o povo geralmente se queixava por sua carestia, e que não guardava nem queria guardar as taxas que lhe foram dadas de seu ofício [...]."
Cumpridas as formalidades correntes na época, segundo as quais as testemunhas deveriam jurar dizer a verdade pondo a mão direita sobre um livro dos Evangelhos, passaram os vereadores a interrogar Clemente Alves:
"[...] o vereador Fernão Dias (³) lhe fez pergunta se sabia ele se seu amo Domingos Fernandes guardava as posturas e taxas que lhe foram dadas da Câmara, declarou que era verdade que seu amo não guardava as posturas e dava as coisas que fazia na sua tenda por mais da taxa, e se fez pergunta por que razão seu amo mandara pregar o regimento (⁴) que lhe foi dado nesta Câmara no cume do esteio [...], tão alto que não podia ninguém ler e visto de muito poucos, respondeu que é verdade que seu amo lhe mandou a ele pregar o dito regimento na ilharga do dito esteio alto, dizendo-lhe que quem o quisesse ver o fosse lá ler ou dissesse que lho descessem [...]."
Hilária, certamente, essa estratégia do ferreiro descumpridor dos regulamentos. O segundo aprendiz, identificado como Pedro (⁵), confirmou os ditos de seu colega:
"[...] lhe fez pergunta se era verdade que seu amo não guardava as taxas e posturas que lhe foram dadas nesta Câmara e seu regimento, declarou que seu amo não guardava as posturas da Câmara nem usava pelo dito regimento, e levava o que queria pelas obras, e pelo não guardar o mandou pôr à ilharga do esteio da casa, alto que o não podia ler debaixo, dizendo que quem o quisesse ler o mandasse descer [...]."
As trapaças do ferreiro parecem ter irritado os administradores da vila. Uma multa dupla foi estipulada, à qual se juntou a ameaça de que nova desobediência poderia ter consequências mais graves, que, no entanto, não foram referidas:
"Vista a diligência que nesta Câmara se fez com os obreiros ou seus aprendizes de Domingos Fernandes, ferreiro, como declaram que seu amo não guarda as posturas da taxa que desta Câmara lhe foi dada [...], mas tudo faz e dá como ele quer para mais da taxa, o condenamos em mil réis [...], e visto outrossim como ele, em vez de pôr o regimento que desta Câmara levou à porta como é costume, e o mandou pregar em um esteio da casa da tenda tão alto que pessoa alguma o pudesse ler do chão, e é parte que de mui poucos podia ser visto, no que usou como homem pouco temente às Justiças, o condenamos pela desobediência e desordem em quinhentos réis [...], e será avisado que daqui por diante use melhor de seu ofício, guardando as taxas em tudo, sob pena de ser gravemente castigado."
O que teria tornado os aprendizes tão loquazes? Não sabemos. É certo, contudo, que a penalidade deveria servir para desestimular imitadores. Quem conhece alguma coisa da vida na São Paulo quinhentista ou seiscentista sabe, porém, que explorar a freguesia não era defeito apenas de um ferreiro. 
A vida nas vilas coloniais, precária como era, acabava resultando em um convite à sagacidade de comerciantes e artesãos de vários ofícios, ávidos por maiores lucros, contra os quais as sucessivas administrações precisavam lidar, nem sempre com muito sucesso.

(1) Os trechos de atas da Câmara de São Paulo foram transcritos na ortografia atual, sendo acrescentada a pontuação indispensável. 
(2) Concelho com "c", unidade municipal portuguesa.
(3) Esse Fernão Dias, vereador, viveu no Século XVI. Não era, portanto, o bandeirante conhecido como "caçador de esmeraldas".
(4) O regimento devia ser manuscrito em papel ou outro material, porque, nesse tempo, ao que se sabe, não havia quem imprimisse alguma coisa em São Paulo.
(5) A falta de um sobrenome talvez seja um lapso do escrivão, mas poderia ser indicação de que esse aprendiz fosse um indígena formalmente cristianizado. Refere-se que foi capaz de assinar seu nome no final da ata correspondente.


terça-feira, 5 de maio de 2020

O que os ferreiros de São Paulo fabricavam no Século XVI

- Mestre Antônio! Ó de casa!...
A fumaça que vem da fornalha enche todo o ambiente, já de si escuro. Só se vê o vermelho do carvão em brasa e, em um dos cantos da oficina, um aprendiz, que, com o martelo, tortura os ouvidos de quem chega, com o som de uma ferradura que ajusta na bigorna. Verdadeiro mistério é que o teto de sapé não se incendeie.
- Ô mestre Antônio! 
Um homem vem, lentamente, ver quem chama.
- Ô Lourenço, bons dias!...
- Bons dias. Vim buscar a encomenda...
- Já está quase tudo pronto, homem. Então partem amanhã?
- Amanhã, depois da missa. Não quer ir?
- Não. Tenho aprendizes, e, desta vez, fico. No ano que vem, talvez vá, também. Venha conferir: estão aqui as tesouras, as facas. Olhe as enxadas, o machado...
Loureço dá um risinho maroto.
- Nem precisava tanto capricho, mestre Antônio!
É que as encomendas eram para "resgates", as trocas com indígenas que a gente de São Paulo fazia em suas idas ao sertão. 
- O facão que me pediu, dos bons, fica pronto daqui a pouco. Estava polindo a lâmina. Vai sair uma beleza!...
- Então, passo depois. E quanto àquelas correntes?
- Guardei lá dentro. São garantidas. As "peças" (¹) não lhe escapam. 
Nova risada.
- Terá sua parte, mestre Antônio...

Deixemos mestre Antônio entretido no trabalho, com seus aprendizes e fregueses. Ferreiros que viviam e trabalhavam na Europa no Século XVI tinham como principais encomendas a fabricação de armas, ferramentas e objetos de uso doméstico. Já aqueles estabelecidos na vila de São Paulo, na mesma época, precisavam atender às demandas do quotidiano colonial, com suas inevitáveis especificidades. 
Como sabemos disso?
Um tabelamento de preços, imposto no ano de 1587, é documento valioso para mostrar o que é que mantinha os ferreiros da vila ocupados. A ordem partiu da Câmara de São Paulo e foi lida publicamente no dia 24 de agosto, "ao pé da cruz que está junto ao adro da dita vila", conforme era costume. Impossível não pensar em tudo o que tal cruz não teria ouvido nesses tempos, se ouvir pudesse, é claro.
A lista é extensa; vamos ao que é indispensável, em transcrição na ortografia atual e com a pontuação necessária à compreensão:
"Das foices roçadeiras de roçar (²), dando seu dono o ferro, setenta réis de feitio, e se o ferreiro der o carvão lhe pagará o dono da foice, e das foices [...] de resgate, sessenta réis; [...] de uma foice nova calçada que vender o ferreiro, duzentos réis; das enxadas para casa, setenta réis de feitio; das enxadas para resgate cinquenta réis de feitio; [...] de um machado novo, sendo ferro e aço de quem manda fazer para trabalho de casa, cem réis; [...] do feitio de um machado novo para resgate, sendo o ferro do dono, oitenta réis; [...] do feitio de uns engonços (³), dando quem os manda fazer o ferro, dez réis; de uma perna para mesa ou cadeira, sendo o ferro de quem o manda fazer, de feitio cinco réis; pregos de foices de trabalho, dois réis, e dando seu dono o ferro, um real; tachinhas para caixas de marmelada, dando seu dono o ferro, duas por real, e sendo do ferreiro, três por dois réis; [...] do feitio de um espeto de três palmos, sendo o ferro de quem o manda fazer, com argola, trinta réis; [...] anzóis pargueiros a três réis [...]; do feitio de um cadeado, sendo o ferro de quem o manda fazer, com uma chave, seis vinténs, e sendo do ferreiro, duzentos réis; de uma chave macho, cinquenta réis, e de feitio de uma fêmea, quatro vinténs; de um ferrolho com sua fechadura e chave, sendo o ferro de quem o manda fazer, para porta de casa, [...] trezentos réis, e sendo do ferreiro, trezentos e cinquenta réis [...]; uma tesoura de resgate, cinquenta réis, e se for o ferro de quem a mandar fazer, trinta réis; [...] de uns estribos de ferro do ferreiro, três cruzados."
Para quem se aventurasse a desobedecer, a mesma ata ainda estipulava uma "pena de quinhentos réis, a metade para o acusador e a metade para o concelho (⁴)."
O que podemos concluir dessa lista que quase acaba com o fôlego de quem lê?
Vejamos cinco aspectos:
  • Devia haver um número muito maior de objetos que ferreiros podiam fornecer, constando na tabela de preços apenas os mais comuns;
  •  Fica evidente a diferença entre ferramentas para uso próprio e "para resgate", pela variação nos preços entre elas. Lembrando que "resgates" eram as trocas ou escambo que se fazia com indígenas, nota-se que era explícita a ideia de que, para esse efeito, as ferramentas não precisavam ser lá muito boas;
  • As tachinhas para as caixas de marmelada eram importantes: a produção de marmeladas da vila de São Paulo tinha fama que alcançava outras capitanias, e, malgrado o pequeno valor cobrado pelos preguinhos, quem as exportava para outras capitanias precisava de um bom número deles;
  • Embora o tabelamento fosse feito em moeda da época, não se deve esquecer que, no Século XVI, e mesmo mais tarde, quase não havia dinheiro amoedado circulando em São Paulo (⁵), e, portanto, os valores deviam funcionar apenas como referência, sendo os pagamentos feitos, de hábito, em espécie;
  • Finalmente, havia um óbvio incentivo à delação, visto que aquele que denunciasse um infrator receberia metade do valor da multa imposta. Essa prática talvez desobrigasse a Câmara de exercer fiscalização por si mesma, porque não faltaria quem desse com a língua nos dentes, se algum ferreiro tentasse burlar o tabelamento (⁶).

(1) No Brasil Colonial, escravos eram muitas vezes chamados "peças". Neste caso, é uma referência a indígenas que sertanistas de São Paulo capturavam e forçavam ao trabalho.
(2) De que mais seriam?
(3) Dobradiças.
(4) Concelho, aqui, é mesmo com "c", por se referir à administração municipal da época.
(5) O mesmo acontecia em outros pontos de colonização no Brasil.
(6) Sim, isso acontecia, mesmo sob a ameaça de multa.