domingo, 7 de agosto de 2011

Dormir em Redes - Parte 2

Desfeiava-lhe a testa uma grande cicatriz - foi um trambolhão que levou na primeira noite em que deram-lhe uma rede para dormir - o pobre desterradozinho, que não sabia se haver com semelhante engenhoca, foi meter primeiro os pés e caiu desamparadamente sobre uma caixa de pinho de um dos companheiros.
                                                                                                                                         Aluísio Azevedo, O Mulato


O hábito indígena de dormir em redes, muito conveniente a quem tinha um estilo de vida nômade ou seminômade, espalhou-se amplamente pelas áreas de povoamento lusitano durante o período colonial. Sendo muitas vezes filhos de portugueses e índias, os bandeirantes de São Paulo fizeram uso habitual dessas camas portáteis em suas expedições pelo interior do Brasil, estivessem eles tentando aprisionar indígenas para escravização ou mesmo em procura de riquezas minerais (entenda-se: ouro).
Chama a atenção o fato de que o método descrito de armar redes dos monçoeiros era, em essência, o mesmo que fora descrito por Hans Staden relativamente aos índios - a rede era colocada entre dois paus ou duas árvores. O Conde de Azambuja, obrigado por dever de ofício a meter-se em viagem Tietê afora para ir a Cuiabá em 1751, assim explicou o uso que se fazia das redes nas monções, às quais se adicionava um mosquiteiro, por razões demasiado evidentes para carecerem de menção, e uma cobertura, em caso de chuva:
"Bem sabereis o grande uso que tem nesta terra a rede, a qual é a cama mais pronta e mais fácil de conduzir: porém, como esta não basta para livrar das muitas chuvas que necessariamente se apanham em uma travessia tão grande do sertão, como esta, não guarda também da imensidade de mosquitos, que em partes se encontram: para suprir esta falta, inventaram os viandantes deste caminho o mosquiteiro, que vem a ser uma cobertura de linhagem, ou de outra droga leve, a qual lançam por cima de uma corda, que prendem aos mesmos paus a que atam a rede, por cima dela dois palmos. Esta coberta chega até ao chão por todas as partes, fechada pelos lados e pelas cabeceiras, deixando-lhes nestas umas mangas para se enfiarem os punhos das redes. Quando chove cobrem esta máquina com uma baeta singela, da largura que baste para alcançar alguma coisa mais abaixo da altura em que a rede fica, depois de seu dono deitado nela." (*)
Muito tempo depois, durante a Expedição Langsdorff, repetia-se ainda a mesma rotina das monções, quanto a baixar acampamento, prover alimentação e instalar redes ao final de cada dia de viagem, conforme relato de Hércules Florence:
"À tardinha, lá pelo ocaso do sol, aproava-se, e então cada remador desempenhava o serviço que lhe havia indicado o guia para toda a viagem. Uns cortavam árvores, limpavam o terreno que ia ser acampamento; outros buscavam lenha seca para acenderem fogo; outros, enfim, armavam as barracas e suspendiam as redes. O cozinheiro preparava sua panelada dos feijões que deviam ser consumidos naquela hora ou no dia seguinte." (**)

Pouso da Represa Grande, de acordo com Hércules Florence (***)

(*) Da viagem que fez o Conde de Azambuja, D. Antônio Rolim, da cidade de São Paulo para a vila de Cuiabá em 1751, in
TAUNAY, A. de E. História das Bandeiras Paulistas, vol. 3, 3ª ed.
São Paulo: Melhoramentos/MEC, 1975, p. 199
(**) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 24
(***) Idem.


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