quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Estação Ferroviária de Capivari: Como Muitas Outras, Merece Ser Restaurada

Edifício central da Estação
Ferroviária de Capivari - SP
Para muitas cidades, em especial as pequenas, a estação ferroviária foi, até por volta dos anos cinquenta (séc. XX), muito mais que um local de chegada e partida de trens. Com os trens vinham os jornais da Capital, vinham as mercadorias que abasteciam o comércio, vinham os parentes que se visitavam periodicamente. Era na estação ferroviária que funcionava o telégrafo que, além de contribuir para assegurar o funcionamento adequado da própria ferrovia, era também o instrumento através do qual as notícias podiam chegar mais depressa e, daí, passar de boca em boca entre a população da localidade.
Como se sabe, muitas das antigas ferrovias foram desativadas em décadas mais recentes, e os prédios das estações ferroviárias receberam outros usos. Em alguns casos o reconhecimento da importância histórica dessas construções levou à sua utilização como museus, centros culturais, bibliotecas. É desagradável, no entanto, quando se vê que algumas estações estão, literalmente, em ruínas.
Uma busca na lista de postagens deste blog indicará a existência de vários textos relativos à preservação da memória ferroviária. Seguindo essa linha de trabalho, estive um dia desses em Capivari, com a intenção de fotografar a pequena estação ferroviária de estilo britânico, que havia pertencido à Companhia Estrada de Ferro Sorocabana. As fotos que ilustram esta postagem darão conta ao leitor, sem a necessidade de muitas palavras, do que pode ser visto atualmente.

Estação Ferroviária da cidade de Capivari - SP
Decepcionante? Sim, mas nada incomum. Ocorre que, enquanto fazia as fotos, passou por ali um senhor que, parando para conversar, identificou-se como um trabalhador aposentado que, em idos tempos, transportava açúcar demerara até a estação para embarque. As informações que apresento, daqui por diante, são devidas à sua simpática contribuição.
Plataforma de embarque da
Estação Ferroviária de Capivari - SP
Explicou-me que há algum tempo havia funcionado na estação uma entidade filantrópica que já deixara o local (a placa ainda está lá). Andando pelos trilhos que ainda restam, mostrou-me uma ponte que fora parte da ferrovia e que, desativada e desmontada, fora jogada ali ao lado, onde, aliás, ainda está, quase completamente coberta de mato (pergunto-me por que, ao menos por respeito ao ambiente, não reciclam ou reutilizam o material). Ainda em pé, mas em muito mau estado, a cabine usada pelo guarda sinalizador tem abrigado usos impublicáveis. E a estação, cuja restauração é frequentemente prometida, continua lá, em estado mais que precário, à espera de que os trabalhos finalmente comecem ou que a mão do tempo acabe dando o golpe de misericórdia.
Antes que nos despedíssemos, meu interlocutor, com uma simplicidade não desprovida de bom senso e sabedoria, ainda acrescentou:
"Meus filhos sempre me falam: Pai, o senhor só tem coisas velhas pra mostrar? E eu respondo: Eu tenho coisas velhas pra mostrar, mas vocês terão o quê? Não se conserva mais nada..."
Com suas palavras, só posso concluir a postagem. O "mato grosso do Capivari", de que tratei na postagem anterior, não irá voltar nunca mais, mas essa estaçãozinha pode bem ser restaurada. Espero que seja, o quanto antes.

Restos de uma antiga ponte da Ferrovia Sorocabana em Capivari - SP

Para ler mais sobre este assunto, acesse:

4 comentários:

  1. Que saudade de quando ia para piracicaba de trem com meus pais, até hoje as vezes sonho que a ferrovia voltou a funcionar

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    1. Restam, ao menos, as ferrovias turísticas. Dá pra matar a saudade e para mostrar às crianças como era viajar de trem...

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  2. Cara Marta, sei que beleza é um conceito muito relativo, mas, para mim, essa era, de longe, a estação mais bonita do ramal de Piracicaba (Jundiaí-Itaici-Piracicaba-São Pedro), hoje desaparecido. Curiosamente, ela foi construída em 1918, quando a cidade já estava em franca decadência e políticos locais estavam receosos quanto à E. F. Sorocabana fechar a estação devido ao baixo movimento da época (existia uma estação primitiva, de 1875, que foi derrubada para a construção dessa). A verdade, no entanto, era que o ramal de Piracicaba da Sorocabana foi construído nos anos 1970 do século XIX pela Ytuana, ferrovia que foi absorvida pela EFS em 1905 e desapareceu. O ramal foi desativado para passageiros em 1976. Há relatos de cargas, no entanto, passando por ele pelo menos até o início de 1980 - se isto for verdade, deveriam ser muito poucas. A verdade é que, depois que a Cia Paulista de Estradas de Ferro construiu também um ramal para Piracicaba partindo de Nova Odessa e passando por Santa Barbara do Oeste, em 1922, com bitola larga e mais próximo de São Paulo, com trens diretos, sem precisar haver baldeação com havia pela Sorocabana (em Jundiaí), o ramal da Sorocabana, que já não era dos mais rentáveis, passou a ser considerado como um peso para a ferrovia. Milagrosamente, sobreviveu até 1976. E a provável principal razão de a estação de Capivari ter sobrevivido praticamente inteira e em razoável estado de conservação (comparado com várias outras estações pelo país afora) é justamente o fato de a decadência da cidade não ter verbas nem vontade política para demoli-la )o que teria sido uma pena). Ralph (www.estacoesferroviarias.com.br)

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    1. Olá, Ralph Mennucci Giesbrecht, você tem razão, a estação de Capivari é mesmo muito bonita - ou foi... Já faz algum tempo que estive lá, e não sei em que condições está agora, uma vez que, na ocasião, me disseram que havia um projeto para restauração e uso cultural.
      Em fins do Século XIX já se dizia que a construção das ferrovias em São Paulo por companhias que usavam bitolas diferentes (de modo que os trens de uma não podiam circular pelos trilhos das outras, e tendo como resultado prático as incômodas baldeações), acabaria criando problemas sérios de interligação, com a ocorrência provável de trechos pouco utilizados. E, como bem sabemos, a maior preocupação, em muitos casos, nem era o transporte de passageiros, e sim o de carga, com uma mercadoria em especial: o café, destinado a Santos, para exportação.
      Agradeço a sua excelente colaboração. Apareça por aqui outras vezes...

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