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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Paracatu

D. Maria I não é exatamente uma personagem de saudosa memória no Brasil, mas foi em seu reinado que se deu a criação oficial da Vila de Paracatu do Príncipe, que, não obstante, era centro de povoamento e extração aurífera há bastante tempo, e sobre a qual o Barão de Eschwege escreveu:
"O córrego Rico, que percorre a região, deu origem à vila. Com efeito, o ouro daquele córrego possuía um bom aspecto, embora fosse de baixo título. [...] A afluência de aventureiros foi tão grande, que o governo de Gomes Freire de Andrade (¹) se viu obrigado a dividir e distribuir o distrito em 1744. [...]." (²)
Quando a exploração aurífera já havia declinado, como, de fato, ocorreu em praticamente todo o Brasil do começo do Século XIX, o padre Ayres de Casal afirmou:
"Paracatu do Príncipe, vila medíocre e famosa, bem assentada em terreno levantado, plano e vistoso com ruas direitas e calçadas, uma igreja matriz dedicada a Santo Antônio da Manga, três ermidas de N. Senhora com as invocações da Abadia, Amparo e Rosário, outra de Santa Ana, e duas boas fontes. Tem aula régia de latim. [...] Tem decaído muito do seu primeiro esplendor [...]." (³)
A expressão "vila medíocre", aqui, deve ser entendida como "de tamanho médio". Algumas fotos, a seguir, darão uma ideia do que se pode ver em Paracatu, já que o cuidado com o patrimônio histórico tem levado, inclusive, à reconstrução daquilo que o desgaste provocado pela passagem do tempo havia feito desaparecer.

Igreja Matriz de Santo Antônio, uma relíquia do Século XVIII

Igreja de Sant'Ana - a original, do Século XVIII, foi demolida em 1935, e a atual,
uma reconstrução, está no mesmo lugar da anterior

Chafariz

(1) Nascido em 1685 e falecido em 1763, Gomes Freire de Andrade, o primeiro conde de Bobadela, exerceu o mais alto cargo da administração portuguesa no Brasil Colonial entre 1733 e 1763.
(2) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 50.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 389.


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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Paraty


Uma publicação do Século XIX, o
Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854, descreveu assim a cidade de Paraty, que durante algum tempo, no Século XVIII, teve grande importância na rota de exportação do ouro que se extraía das Minas Gerais e era enviado a Portugal:
"Acha-se situada em um lugar aprazível e pitoresco [...]. Há 9 ruas que correm do nascente para o poente, que são as seguintes: da Capela, Cadeia, Rosário, Direita, Rocio, Lapa, Nova da Lapa, Santa Rita, Couto; e 6 do Noroeste para o Sul, que são: Fresca, Praia, Mercado, Matriz, Comércio, Craguatá; 4 praças: Municipal, Mercado, Rocio, Pedreira, onde se acha colocado um elegante chafariz de mármore [...]. As casas [...] excedem a 1.200, sendo uma grande parte de sobrado. [...] Há 4 igrejas, a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, as Capelas de Santa Rita, de Nossa Senhora do Rosário e a de Nossa Senhora das Dores; um hospital de Misericórdia, um teatrinho dramático de uma associação particular e uma sociedade de baile em casa própria." (*)
Há tempos, fiz algumas fotos dessa bela cidade, com seu rico legado arquitetônico colonial. Vejam, meus leitores e, quando puderem, visitem.

Rua colonial com uma curiosa passagem pra uso na maré alta:


Placas de identificação de ruas e de uma praça, o Largo da Pedreira:





Ruas com casario colonial:





Chafariz de mármore:



Igrejas:





Finalmente, uma recordação do tempo em que um conjunto de fortalezas defendia Paraty contra um eventual ataque de invasores ou ladrões do mar:


(*) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854.


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terça-feira, 15 de junho de 2021

A Catedral Metropolitana de Manaus

Quase concluindo a sua "viagem ao redor do Brasil", João Severiano da Fonseca (¹) passou por Manaus e considerou que a construção mais importante da localidade era, na ocasião, a Igreja Matriz, que assim descreveu:
"[...] O mais notável de seus edifícios é a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, templo severo e elegante, onde se veem reunidos a simplicidade e a majestade: seus altares de mármore branco lavrado são, se não falha a memória das informações que nos deram, do valor de vinte e quatro contos cada um, andando todo o fabrico em mais de mil contos." (²)
Vão aqui duas observações:
  • João Severiano da Fonseca visitou Manaus antes que fosse construído e inaugurado o Teatro Amazonas, concluiu que a Igreja Matriz era "o mais notável de seus edifícios" e dificilmente emitiria a mesma opinião se fosse o caso de compará-la ao teatro;
  • De onde viera tanto dinheiro para a construção da Matriz? Lembrem-se, leitores, de que isso foi no tempo em que a exportação da borracha fez algumas fortunas notáveis, ainda que não para os trabalhadores que extraíam a chamada "goma elástica".
A Igreja Matriz vista por João Severiano da Fonseca, hoje Catedral Metropolitana de Manaus, era nova em folha naquela ocasião, mas não foi o primeiro templo de Manaus com a invocação de Nossa Senhora da Conceição, conforme o mesmo autor teve o cuidado de explicar:
"É já a terceira [igreja] que se ergue. A primeira foi construída em 1695 pelos carmelitas, infatigáveis missionários a quem muito deveu a Província nos seus começos; reedificada pelo não menos benemérito governador Gama Lobo, no fim do século passado (³), incendiou-se em 1858, e sua reconstrução durou vinte anos." (⁴)
Aqueles dentre os leitores que conhecem Manaus e sua catedral podem julgar facilmente se a descrição feita por Severiano da Fonseca corresponde à realidade. Aos demais, aqui estão algumas fotos, para um pequeno passeio virtual.








(1) Médico veterano da Guerra do Paraguai, participou, também como médico, da expedição enviada para demarcar a fronteira entre o Brasil e a Bolívia. 
(2) FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil 1875 - 1878 Volume 2. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro e C., 1881, p. 369.
(3) O autor se referiu, evidentemente, ao Século XVIII, porquanto escreveu no XIX.
(4) FONSECA, João Severiano da. Op. cit., p. 369.


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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Era ou não era o navio de Teseu?

É questão espinhosa e, de acordo com Plutarco (¹), muito debatida na Antiguidade: era ou não era o navio de Teseu? 
Devo explicar. A tradição grega afirmava que, em tempos remotos, os atenienses, depois de uma derrota na guerra, haviam se obrigado a enviar a Creta, como tributo, a cada nove anos, sete rapazes e sete moças, que, lançados no infame Labirinto, seriam devorados pelo Minotauro. Cumpriu-se o acordo algumas vezes, até que o jovem Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, fazendo-se incluir entre os infelizes sorteados para a morte, foi a Cnossos, matou o Minotauro e, com o auxílio de uma estratégia criada por Ariadne, filha de Minos, rei de Creta, conseguiu escapar, retornando vitorioso a Atenas. É coisa lendária, já se vê, ainda que alguns tenham tentado explicar que haveria nisso um fundo de verdade: os jovens atenienses seriam escravizados em Creta, ficando o Minotauro por conta da imaginação. 
Em Vitae parallelae, Plutarco, que se apoiava na tradição oral e em autores cujos escritos, em sua maioria, não chegaram até nós, afirmou que os atenienses, agradecidos aos deuses, trataram de preservar para a posteridade a embarcação de trinta remos que fora usada por Teseu para ir a Creta e de lá retornar. O navio ficou, portanto, ancorado no porto, sem mais ser usado. Ocorre que, pela ação do tempo, uma parte ou outra ia, às vezes, se deteriorando, e era substituída por peça idêntica. Entra aí a questão referida por Plutarco: "O navio foi consertado tantas vezes, que filósofos de várias escolas de pensamento, em seus debates, citavam o caso como exemplo, defendendo alguns que o navio [apesar de tantos consertos] continuava a ser o mesmo que fora a Creta, enquanto outros alegavam que, já não restando nele partes originais, era agora uma nova embarcação." (²)
Ora, leitores, vamos transpor essa história para alguma coisa mais próxima de nós. Suponham que uma das embarcações da frota de Cabral, aquela do descobrimento oficial do Brasil em 1500, houvesse sobrevivido e estivesse ancorada, como relíquia, em um porto, no Brasil ou em Portugal, tanto faz. Com o tempo, para mantê-la viva, as peças danificadas pela maldade dos anos seriam substituídas por outras, mais novas, conservando-se, portanto, a forma, mas não a matéria-prima original. Quinhentos anos depois, pouca coisa restaria sem ser renovada. Seria, ainda assim, o navio da frota cabralina?
Para mais debate, pergunto: nós, quando adultos, somos ainda os mesmos de nossa infância e adolescência? Se sim, ou se não, em que sentido? Não acham, então, que, ainda hoje, o debate dos filósofos da Antiguidade tem lá sua razão de ser?

(1) c. 45 - c. 125.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Arte sacra em argila

Os danos ao patrimônio histórico são, muitas vezes, anunciados na imprensa até com estardalhaço, e isso por uma razão bastante simples: são visíveis. Já no que se refere à preservação do chamado patrimônio cultural imaterial (que tem a ver com a cultura, a tradição, o jeito de fazer as coisas quotidianamente ou as celebrações de um povo ou mesmo uma comunidade, a música tradicional de um lugar, e assim por diante) a situação é um tanto mais complicada. Saberes se perdem silenciosamente e, não raro, aparece alguém para dizer: "Como é mesmo que se fazia aquela receita de...?" Ou ainda: "Minha avó contava que as bonecas eram feitas..." O caso é que, por descuido, tanta coisa interessante acaba por desaparecer da memória coletiva. E haja depois arqueologia (material ou imaterial!) que dê jeito no problema...
Pois bem, vi recentemente um caso interessante de esforço no sentido de preservar o saber relacionado a uma tradição bem típica de algumas regiões do Brasil, a confecção de objetos de argila. Muitos povos indígenas sempre foram bons nisso, e o contato com colonizadores, que precisavam desesperadamente de artefatos de uso diário, tais como jarros e panelas, levou à constituição de técnicas algo sincréticas que acabaram tendo uso para além do fornecimento de objetos de cozinha. Artesanato de caráter religioso, peças decorativas, até brinquedos foram feitos de argila. Em alguns lugares, ainda se faz, ou se ensina a fazer. Foi o que vi na Escola de Artes Sacras em Pirapora do Bom Jesus (SP), na qual, aliás, o ensino não é restrito à  elaboração de peças de acordo com a tradição religiosa local: a exposição de trabalhos da Escola tem obras relacionadas aos mais variados temas, conforme me explicou o professor Joel, que lá atua. As fotos que ilustram esta postagem são um ótimo exemplo tanto da qualidade do trabalho quanto do cuidado em preservar um saber que de outro modo, face ao estilo de vida típico do nosso tempo, seria um candidato ao desaparecimento.



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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Estação Ferroviária de Capivari: como muitas outras, merece ser restaurada

Edifício central da Estação
Ferroviária de Capivari - SP
Para muitas cidades, em especial as pequenas, a estação ferroviária foi, até por volta dos anos cinquenta (séc. XX), muito mais que um local de chegada e partida de trens. Com os trens vinham os jornais da Capital, vinham as mercadorias que abasteciam o comércio, vinham os parentes que se visitavam periodicamente. Era na estação ferroviária que funcionava o telégrafo que, além de contribuir para assegurar o funcionamento adequado da própria ferrovia, era também o instrumento através do qual as notícias podiam chegar mais depressa e, daí, passar de boca em boca entre a população da localidade.
Como se sabe, muitas das antigas ferrovias foram desativadas em décadas mais recentes, e os prédios das estações ferroviárias receberam outros usos. Em alguns casos o reconhecimento da importância histórica dessas construções levou à sua utilização como museus, centros culturais, bibliotecas. É desagradável, no entanto, quando se vê que algumas estações estão, literalmente, em ruínas.
Uma busca na lista de postagens deste blog indicará a existência de vários textos relativos à preservação da memória ferroviária. Seguindo essa linha de trabalho, estive um dia desses em Capivari, com a intenção de fotografar a pequena estação ferroviária de estilo britânico, que havia pertencido à Companhia Estrada de Ferro Sorocabana. As fotos que ilustram esta postagem darão conta ao leitor, sem a necessidade de muitas palavras, do que pode ser visto atualmente.

Estação Ferroviária da cidade de Capivari - SP
Decepcionante? Sim, mas nada incomum. Ocorre que, enquanto fazia as fotos, passou por ali um senhor que, parando para conversar, identificou-se como um trabalhador aposentado que, em idos tempos, transportava açúcar demerara até a estação para embarque. As informações que apresento, daqui por diante, são devidas à sua simpática contribuição.
Plataforma de embarque da
Estação Ferroviária de Capivari - SP
Explicou-me que há algum tempo havia funcionado na estação uma entidade filantrópica que já deixara o local (a placa ainda está lá). Andando pelos trilhos que ainda restam, mostrou-me uma ponte que fora parte da ferrovia e que, desativada e desmontada, fora jogada ali ao lado, onde, aliás, ainda está, quase completamente coberta de mato (pergunto-me por que, ao menos por respeito ao ambiente, não reciclam ou reutilizam o material). Ainda em pé, mas em muito mau estado, a cabine usada pelo guarda sinalizador tem abrigado usos impublicáveis. E a estação, cuja restauração é frequentemente prometida, continua lá, em estado mais que precário, à espera de que os trabalhos finalmente comecem ou que a mão do tempo acabe dando o golpe de misericórdia.
Antes que nos despedíssemos, meu interlocutor, com uma simplicidade não desprovida de bom senso e sabedoria, ainda acrescentou:
"Meus filhos sempre me falam: Pai, o senhor só tem coisas velhas pra mostrar? E eu respondo: Eu tenho coisas velhas pra mostrar, mas vocês terão o quê? Não se conserva mais nada..."
Com suas palavras, só posso concluir a postagem. O "mato grosso do Capivari", de que tratei na postagem anterior, não irá voltar nunca mais, mas essa estaçãozinha pode bem ser restaurada. Espero que seja, o quanto antes.

Restos de uma antiga ponte da Ferrovia Sorocabana em Capivari - SP

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terça-feira, 3 de maio de 2011

As ruínas podem ser belas

Restaurar antigas construções constitui-se em parte essencial do que se convencionou chamar de preservação do patrimônio histórico. Não é tarefa fácil, já que demanda, quase sempre, um volume expressivo de recursos, em paralelo à exigência de mão de obra muito qualificada. Sim, não é também uma tarefa fácil porque em um país como o Brasil, no qual há recursos claramente insuficientes destinados à educação e à saúde pública, não chega a surpreender que o patrimônio histórico venha a ser considerado como coisa de importância secundária. Não o é, entretanto, ainda que, por preceito, numa sociedade democrática a população tenha todo o direito a esclarecimentos quanto à utilidade daquilo que se quer conservar. Na última semana, ouvi alguém dizer, em relação a uma igreja do século XIX, que melhor seria colocar tudo aquilo abaixo, já que precisa de cuidados contínuos, é "velha demais" e "um dia desses ainda vai cair na cabeça de um monte de gente". Ora, basta que eventualmente os encarregados da administração pública venham a ter essas mesmas ideias e a bela igrejinha do barroco tardio acabará caindo mesmo, mas por falta do devido cuidado.
Um dos prédios da Casa de Saúde de Amparo,
datado de 1876
Todavia... Nunca lhe ocorreu, leitor, que o desgaste provocado pela passagem do tempo pode ser muito charmoso, bonito até? Não estou propondo, evidentemente, que velhos edifícios, quase caindo, sejam deixados a despencar, pondo em risco a segurança de quem quer que deles se aproxime. Além disso, como todos sabem, nem tudo o que é velho tem de ser preservado. A não ser em casos excepcionais, quando um determinado conjunto arquitetônico é particularmente expressivo, é mais razoável supor que seja preservada uma amostra significativa, assegurando a memória de um dado período, sem comprometer o uso racional do espaço urbano, de acordo com as novas demandas populacionais e tecnológicas.
A placa informa que o prédio está
em vias de restauração
Como se vê, esse é um assunto que requer decisões inteiramente desapaixonadas, fruto de estrita racionalidade. Acontece que, por vezes, a beleza de certos prédios em ruínas nos dá o que pensar. 
Dentro da área do Parque Ecológico de Amparo (S.P.) estão os antigos edifícios da Casa de Saúde, erguidos na segunda metade do século XIX, época na qual desenvolveu-se uma nova concepção de serviços médicos, muito diversa dos antigos conceitos que até então haviam predominado e relacionados, por exemplo, à localização em termos de área urbana ou ao uso do espaço construído. No local, uma placa indica que o conjunto está a caminho de uma restauração. Excelente, mas é inegável que as construções, já tomadas pelo mato, têm o encanto do que poderíamos chamar de "peso do passado", visível a quem quer que seja capaz de refletir sobre o que observa.  Afinal, como seria possível capturar (e preservar) a magia dessa árvore que cresceu incrustada na parede da velha edificação?

Quanto tempo terá sido necessário para que essa árvore crescesse na parede?


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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Que tal embutir a rede elétrica?

Cidades que conservam um razoável patrimônio histórico têm, em virtude disso, um enorme potencial turístico. Embora esse potencial nem sempre seja explorado convenientemente, não há dúvida de que pode acrescentar muito às possibilidades econômicas de uma localidade. Nesse caso, espera-se que a administração pública faça o necessário para não apenas divulgar o patrimônio histórico com o objetivo de atrair turistas, mas que também venha a empenhar-se em dar aos visitantes condições satisfatórias para uma estada agradável, estimulando um possível retorno, algum dia. Isso inclui não só manter os locais históricos em condições excelentes (o que é óbvio), mas também favorecer o setor de hotéis e restaurantes, além de prover condições adequadas de informação e transporte. Infelizmente, não é o que acontece, em muitos casos.
É evidente a diferença entre lugares com e sem a
rede elétrica encobrindo o cenário
Tenho observado, porém, mesmo em locais até bem preservados, que por vezes os turistas precisam ter habilidades verdadeiramente ginásticas se quiserem obter boas fotos. A razão é simples: o emaranhado da rede elétrica, diante de locais importantes, torna difícil, senão impossível, registrar e levar para casa (e, claro, para as redes sociais), o momento da visita, por vezes tão aguardada. Não creio que seja alguma missão inexequível embutir a fiação, deixando a vista livre para ser devidamente apreciada. Essa providência, já adotada em alguns lugares (inclusive com a uso de um novo tipo de iluminação, que poderíamos chamar "de época"), enriquece bastante a experiência do turismo histórico. Fica aqui, portanto, a sugestão aos administradores municipais.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A questão dos instrumentos musicais em museus

A maioria dos museus de cidades do Estado de São Paulo tem, em seu acervo, um ou mais instrumentos musicais. São, em geral, instrumentos que pertenceram a algum músico de destaque na cidade e, depois de sua morte, ficam expostos ao público, como uma espécie de homenagem. Isso é bom, mas poderia ser melhor.
Todo mundo sabe que instrumentos musicais tendem a conservar-se melhor quando são convenientemente usados com alguma regularidade. Portanto, deixar um instrumento guardado dentro de uma caixa de vidro, sem uso algum, apenas contribui para sua usual deterioração. Por isso, a solução óbvia, é que esses instrumentos precisam ser tocados! Mas como conciliar o uso e a preservação?
Minha ideia é que, excetuando-se instrumentos que, de fato, não têm mais condições de uso, os demais deveriam, antes de mais nada, ser restaurados por luthiers competentes. Em seguida, poder-se-ia procurar na própria cidade executantes que, em determinadas datas e, de preferência, em uma sala do próprio museu, deem concertos usando esses instrumentos. Assim, o proveito será grande, pois os instrumentos serão tocados por conhecedores que, a pedido do museu, podem falar ao público sobre o instrumento, seu proprietário original e, naturalmente, sobre as músicas que serão apresentadas. Ou seja, conservam-se os instrumentos, valorizam-se os músicos e educa-se o público.
É trabalhoso? Pode ser, mas assim, inegavelmente, o público terá mais apreço pelos instrumentos que compõem o acervo do museu do que teria pela mera observação do cadáver de um violino, sem cravelhas, sem cavalete,  sem estandarte, sem encordoamento e sem alma - em sentido duplo, por suposto.


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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

"""Pinturas rupestres"""

Há mais ou menos um ano, já tratei neste blog da questão dos "pichadores" que, aqui e ali, encarregam-se de destruir o patrimônio histórico. O problema é tanto mais grave quanto há, por vezes, uma tendência em considerar seus atos como meras travessuras. Mas não são. O caso que veremos hoje exemplifica isso claramente.
Porto Feliz é o que se poderia chamar de cidade histórica de primeira linha. De seu porto de Araraitaguaba, às margens do rio Tietê, partiam habitualmente as monções (*) rumo ao interior do Brasil, ainda praticamente desconhecido e, por isso mesmo, misterioso, desde fins do século XVII, por todo o XVIII e início do XIX. Pois bem, das monções e bandeiras voltaremos a tratar outras vezes. O que quero mostrar a você, leitor, é a "intervenção" de alguns pichadores no belíssimo paredão de rocha que margeia o antigo ponto de partida das monções. A origem geológica do local é muito discutida, e não é propósito deste blog entrar no mérito da questão, bastando apenas dizer que, para muitos, a origem é glacial, enquanto outros entendem que há evidentes marcas de deslocamento de água na área, o que poderia indicar que, em algum tempo no passado, o rio teria sido muito maior, chegando sua margem até aquele ponto. Seja lá como for, é lugar de grande beleza natural e evidente significado histórico. Qualquer ato destrutivo, aqui, raia a sacrilégio. Então, que o leitor considere por si mesmo as imagens abaixo:


Observou as "pinturas rupestres"? Não, leitor, elas não vêm de tempos remotos, quando o paredão foi formado, nem foram feitas pelos nativos que habitavam a região antes da chegada dos portugueses. Posso assegurar que são obra de hominídeos bem mais recentes...
Remover pichações em paredes comuns já acarreta aborrecimentos. Nesse caso, no entanto, significaria ter que, provavelmente, desgastar a rocha natural, alterando para sempre o que a natureza esculpiu. O dano é, portanto, muito maior. É revoltante imaginar que tenha sido perpetrado de forma irresponsável, possivelmente sem qualquer sentimento de culpa.

(*) Monções eram expedições predominantemente fluviais que iam ao interior do Brasil à procura de jazidas de metais preciosos.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E as estações ferroviárias? Como estão?

Recentemente escrevi neste blog sobre uma das maiores empresas fabricantes de locomotivas no século XIX e primeira metade do século XX, a Baldwin Locomotive Works. Volto ao assunto das ferrovias para um pequeno relatório do que tenho observado em termos de preservação das estações ferroviárias, pelo menos no que se refere ao Estado de São Paulo.
Como se sabe, as ferrovias foram privatizadas e, no momento, as sobreviventes são utilizadas para transporte de carga. Com isso, os antigos prédios das estações ferroviárias começaram a receber usos diferentes. Em alguns casos, o fato de esses edifícios serem tidos como patrimônio histórico foi levado em conta, mas em outros pode-se dizer que o abandono é total. Ainda assim, o conceito de patrimônio histórico nem sempre é bem compreendido. Há, por suposto, uma grande diferença entre restauração e reforma de um prédio. No primeiro caso, a conservação é feita segundo técnicas que estejam em conformidade com a edificação original; no segundo, tenta-se manter a aparência, sem muito cuidado em preservar as características primitivas. O resultado não poderia ser outro: com o uso de técnicas e materiais estranhos aos métodos de construção antigamente empregados, tem-se resultados algo esquisitos, embora bem intencionados.
Em linhas gerais, as estações têm sido usadas como centros culturais (felizmente, é o caso mais comum), ou para atividades comerciais, ou como depósitos, ou como moradia, ou ainda... como coisa nenhuma. Com tamanha "diversidade", como fazer um balanço da situação?
Leitor, para isso, você é o melhor juiz. Abaixo está um pequeno vídeo, com imagens de algumas das estações ferroviárias que visitei. Veja e forme sua opinião a respeito. Se você está lendo esta postagem em um leitor de feeds ou por e-mail, acesse: Estações ferroviárias em São Paulo e Minas Gerais.


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terça-feira, 24 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 7

Catedral de N. Sra. do Amparo (Amparo - SP)


Chegamos, leitor, à última postagem da série A Arquitetura Sacra Paulista e Mineira nas Regiões Cafeeiras. Depois de passear por várias cidades, visitaremos a Catedral de Nossa Senhora do Amparo, na cidade de Amparo - SP. É certo que haveria muitas outras cidades e suas igrejas a percorrer, mas algum tipo de seleção é sempre inevitável e, neste caso, valeram minhas preferências...
A primeira capela de Nossa Senhora do Amparo é datada de, aproximadamente, 1824 (muito antes, portanto, da expansão cafeeira, ocorrida a partir de 1850), e foi erigida em um terreno cedido por João Bueno da Cunha. Percebe-se, porém, o quanto o café foi decisivo para o estabelecimento de um núcleo urbano significativo quando consideramos a cronologia subsequente: a construção da igreja matriz ocorreu entre 1855 e 1878, constando que a imagem de Nossa Senhora do Amparo veio do Porto (Portugal), por solicitação de dona Anna Cintra, a Baronesa de Campinas. Ampliação posterior (início do século XX) acrescentou as duas torres. Os quadros a óleo são de Benedito Calixto. Bem mais recente é a elevação a catedral, ocorrida no ano de 1997.

A título de conclusão...


Julgo conveniente, ao concluir esta série, fazer um breve inventário dos padrões observáveis em relação ao assunto em análise. Vejamos, pois.

1. Como regra geral, uma capela é construída em uma fazenda ou outra área (quase) desabitada, e uma povoação vem a formar-se irregularmente ao redor dela. Uma exceção notável a esse modelo é a da Igreja de Santa Maria, em Jaguariúna, ao redor da qual foi estabelecida a Vila Bueno, devidamente planejada.

2. A capela primitiva, geralmente uma construção precária, é demolida para dar lugar a uma igreja de maior dimensão e solidez. Em alguns casos, a primeira igreja também é demolida e, em seu lugar, encontramos o templo atual (note-se que, provavelmente, ao demolir uma igreja para construir outra, não há qualquer consciência de que a anterior poderia significar algum patrimônio histórico digno de preservação).

3. A igreja, quase sempre o maior edifício de uma localidade, é levantada em etapas, de acordo com as possibilidades da população, refletindo, muitas vezes, o andar da economia do País. São casos mais ou menos recorrentes:
a) Edifica-se a nave e posteriormente são acrescentadas torres e/ou cúpula;
b) A construção passa por uma ampla reforma que descaracteriza por completo o edifício original.

4. Em consequência da construção por etapas:
a) O estilo torna-se eclético, mas sem que haja tal intenção (seja por falta de planejamento, seja porque as modas são outras);
b) As igrejas iniciadas em tempos áureos do café apresentam alvenaria grandiosa. Se, no entanto, são concluídas após a grande crise de 1929, tendem a apresentar o acabamento interior bem mais modesto, ensejando reformas extremas, principalmente a partir dos anos 70, que por vezes resultam em completa descaracterização. Excetuam-se aqui os poucos casos em que o tombamento impede tais alterações.

5. Finalmente, vale lembrar que o padrão é a reforma, não a restauração. Sobre essa questão, todavia, voltarei a escrever em momento oportuno.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 6

Monte Sião e Jacutinga são cidades do Estado de Minas Gerais que têm muito em comum com as cidades paulistas mais próximas, destacando-se nessas semelhanças o fato de que, no passado, foram áreas importantes para a agricultura cafeeira, além de terem recebido um enorme contingente de imigrantes para trabalhar na lavoura. Aliás, no caso das duas cidades mineiras, a presença italiana é fortíssima. Nessa penúltima postagem da série, tratarei do Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Monte Sião) e da Igreja Matriz de Santo Antônio (Jacutinga).

Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Monte Sião - MG)



A edificação de uma primeira capela foi autorizada em 1849 e, pelo que se afirma na cidade, localizava-se aproximadamente onde está o coreto da Praça Prefeito Mário Zucato. Curiosa, no entanto, é a história da imagem trazida de Portugal nos idos de 1860, que já foi retirada do altar porque suas formas não são exatamente as que costumam ser empregadas para representar uma santa... Mas o caso é que foi restituída a seu posto e lá está para ser vista por quem quiser.
A igreja que sucedeu a primeira capela não existe mais, infelizmente. Foi demolida e deu lugar ao atual templo, cuja construção durou dos anos trinta aos cinquenta do século XX. A elevação à condição de Santuário de N. Sra. da Medalha Milagrosa data de 1999.

Ao centro, a imagem de N. Sra. da Medalha Milagrosa que é citada na postagem

Igreja Matriz de Santo Antônio (Jacutinga - MG)


Data de 1845 a edificação da primeira capela, em terras que foram cedidas por José Francisco Fernandes e esposa. A atual igreja destaca-se pela localização elevada e pela força e beleza da construção, rodeada de jardins. Os vitrais são interessantes e, quanto ao relógio da torre, afirma-se que foi construído na própria cidade.
A propósito, na praça que a cerca está um monumento celebrando o centenário da independência do Brasil, o qual ganha muito em significado, já que nos aproximamos do bicentenário (a ser comemorado em 2022). A placa superior diz "7 de Setembro 1822 - 1922 O povo de Jacutinga commemora o centenário da Independência do Brasil." Na ocasião em que estive na cidade faltava, porém (como se vê na foto), uma outra placa. Certamente vale a pena a restauração. Observo aqui, entretanto, que o "fenômeno" da desaparição de placas em monumentos não é, de modo algum, privilégio de Jacutinga - pode ser observado em muitas cidades, o que é lamentável, pois dificulta a identificação de pontos importantes tanto por turistas como pelos próprios moradores.


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