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terça-feira, 24 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 7

Catedral de N. Sra. do Amparo (Amparo - SP)


Chegamos, leitor, à última postagem da série A Arquitetura Sacra Paulista e Mineira nas Regiões Cafeeiras. Depois de passear por várias cidades, visitaremos a Catedral de Nossa Senhora do Amparo, na cidade de Amparo - SP. É certo que haveria muitas outras cidades e suas igrejas a percorrer, mas algum tipo de seleção é sempre inevitável e, neste caso, valeram minhas preferências...
A primeira capela de Nossa Senhora do Amparo é datada de, aproximadamente, 1824 (muito antes, portanto, da expansão cafeeira, ocorrida a partir de 1850), e foi erigida em um terreno cedido por João Bueno da Cunha. Percebe-se, porém, o quanto o café foi decisivo para o estabelecimento de um núcleo urbano significativo quando consideramos a cronologia subsequente: a construção da igreja matriz ocorreu entre 1855 e 1878, constando que a imagem de Nossa Senhora do Amparo veio do Porto (Portugal), por solicitação de dona Anna Cintra, a Baronesa de Campinas. Ampliação posterior (início do século XX) acrescentou as duas torres. Os quadros a óleo são de Benedito Calixto. Bem mais recente é a elevação a catedral, ocorrida no ano de 1997.

A título de conclusão...


Julgo conveniente, ao concluir esta série, fazer um breve inventário dos padrões observáveis em relação ao assunto em análise. Vejamos, pois.

1. Como regra geral, uma capela é construída em uma fazenda ou outra área (quase) desabitada, e uma povoação vem a formar-se irregularmente ao redor dela. Uma exceção notável a esse modelo é a da Igreja de Santa Maria, em Jaguariúna, ao redor da qual foi estabelecida a Vila Bueno, devidamente planejada.

2. A capela primitiva, geralmente uma construção precária, é demolida para dar lugar a uma igreja de maior dimensão e solidez. Em alguns casos, a primeira igreja também é demolida e, em seu lugar, encontramos o templo atual (note-se que, provavelmente, ao demolir uma igreja para construir outra, não há qualquer consciência de que a anterior poderia significar algum patrimônio histórico digno de preservação).

3. A igreja, quase sempre o maior edifício de uma localidade, é levantada em etapas, de acordo com as possibilidades da população, refletindo, muitas vezes, o andar da economia do País. São casos mais ou menos recorrentes:
a) Edifica-se a nave e posteriormente são acrescentadas torres e/ou cúpula;
b) A construção passa por uma ampla reforma que descaracteriza por completo o edifício original.

4. Em consequência da construção por etapas:
a) O estilo torna-se eclético, mas sem que haja tal intenção (seja por falta de planejamento, seja porque as modas são outras);
b) As igrejas iniciadas em tempos áureos do café apresentam alvenaria grandiosa. Se, no entanto, são concluídas após a grande crise de 1929, tendem a apresentar o acabamento interior bem mais modesto, ensejando reformas extremas, principalmente a partir dos anos 70, que por vezes resultam em completa descaracterização. Excetuam-se aqui os poucos casos em que o tombamento impede tais alterações.

5. Finalmente, vale lembrar que o padrão é a reforma, não a restauração. Sobre essa questão, todavia, voltarei a escrever em momento oportuno.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 6

Monte Sião e Jacutinga são cidades do Estado de Minas Gerais que têm muito em comum com as cidades paulistas mais próximas, destacando-se nessas semelhanças o fato de que, no passado, foram áreas importantes para a agricultura cafeeira, além de terem recebido um enorme contingente de imigrantes para trabalhar na lavoura. Aliás, no caso das duas cidades mineiras, a presença italiana é fortíssima. Nessa penúltima postagem da série, tratarei do Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Monte Sião) e da Igreja Matriz de Santo Antônio (Jacutinga).

Santuário de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa (Monte Sião - MG)



A edificação de uma primeira capela foi autorizada em 1849 e, pelo que se afirma na cidade, localizava-se aproximadamente onde está o coreto da Praça Prefeito Mário Zucato. Curiosa, no entanto, é a história da imagem trazida de Portugal nos idos de 1860, que já foi retirada do altar porque suas formas não são exatamente as que costumam ser empregadas para representar uma santa... Mas o caso é que foi restituída a seu posto e lá está para ser vista por quem quiser.
A igreja que sucedeu a primeira capela não existe mais, infelizmente. Foi demolida e deu lugar ao atual templo, cuja construção durou dos anos trinta aos cinquenta do século XX. A elevação à condição de Santuário de N. Sra. da Medalha Milagrosa data de 1999.

Ao centro, a imagem de N. Sra. da Medalha Milagrosa que é citada na postagem

Igreja Matriz de Santo Antônio (Jacutinga - MG)


Data de 1845 a edificação da primeira capela, em terras que foram cedidas por José Francisco Fernandes e esposa. A atual igreja destaca-se pela localização elevada e pela força e beleza da construção, rodeada de jardins. Os vitrais são interessantes e, quanto ao relógio da torre, afirma-se que foi construído na própria cidade.
A propósito, na praça que a cerca está um monumento celebrando o centenário da independência do Brasil, o qual ganha muito em significado, já que nos aproximamos do bicentenário (a ser comemorado em 2022). A placa superior diz "7 de Setembro 1822 - 1922 O povo de Jacutinga commemora o centenário da Independência do Brasil." Na ocasião em que estive na cidade faltava, porém (como se vê na foto), uma outra placa. Certamente vale a pena a restauração. Observo aqui, entretanto, que o "fenômeno" da desaparição de placas em monumentos não é, de modo algum, privilégio de Jacutinga - pode ser observado em muitas cidades, o que é lamentável, pois dificulta a identificação de pontos importantes tanto por turistas como pelos próprios moradores.


Veja também:

domingo, 15 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 5

Santuário do Senhor Bom Jesus (Monte Alegre do Sul - SP)


Quem quer que vá à pequenina Monte Alegre do Sul  por certo ficará encantado com a paisagem natural, que faz da cidade e de seus muitos hotéis campestres um excelente lugar para repouso. Não tenho dúvidas quanto ao potencial turístico da região, apenas considero-o subexplorado, uma vez que seu precioso patrimônio histórico sequer é divulgado como deveria.
Como já tive oportunidade de mencionar em outras postagens, são muitas as povoações nascidas a partir da construção de uma capelinha e, neste caso, o fenômeno se repete. A capela do Senhor Bom Jesus foi construída muito modestamente em 1873, em terras que pertenciam a Lourenço de Godoi. Entretanto, nova construção foi feita em 1882, sendo o atual edifício inaugurado em 1919 (a última restauração data de 1997). A elevação a Santuário do Senhor Bom Jesus ocorreu em 1932.
Algumas singularidades deste pequeno e belo templo são os altares (altar-mor em madeira, os demais em mármore) e as pinturas, do artista italiano D. Rocco.
A igreja é emoldurada pelo casario do século XIX e início do século XX que ainda se conserva, e que vale uma visita se você, leitor, viajar pela região.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário (Serra Negra - SP)


Serra Negra é famosa como estância hidromineral, pelo seu turismo de inverno, suas muitas malharias e pela indústria do vestuário em couro. Em meio a tantas atrações, seu aspecto histórico fica um pouco esquecido, mas não é, por isso, menos valioso. Menciono aqui, de acordo com o propósito desta série, a Matriz de Nossa Senhora do Rosário, por estar associada às origens da própria cidade.
A capela de N. Sra. do Rosário data de 1841, sendo edificada em terras pertencentes a Lourenço Franco de Oliveira, quando a época do apogeu do café ainda estava distante - as árvores com seus frutinhos vermelhos só viriam a integrar-se à paisagem montanhosa a partir de 1873, e, no rastro da necessidade de braços para a lavoura, a imigração italiana começou em 1880. Hoje, quem visita Serra Negra logo percebe, sem sequer precisar estudar História, que os descendentes dos imigrantes tornaram-se a maioria da população, sendo fácil notar, por toda parte, a influência italiana na arquitetura.


A atual Igreja Matriz foi construída entre os anos de 1909 e 1916, com o emprego do estilo arquitetônico toscano-lombardo, em conexão com as origens da população da cidade. Na década de 60 toda a construção passou por reforma, principalmente em seu interior, em que se destacam belas pinturas e vitrais.


Veja também:

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 3

Olá, leitor, vamos continuar nossa peregrinação histórica virtual... As visitas de hoje serão à Matriz Centenária de Santa Maria, em Jaguariúna, e à Matriz de Sant'Ana, em Pedreira. Para quem não sabe, Pedreira e Jaguariúna são cidades vizinhas - muito vizinhas.
Ah, recomendo a quem não leu a primeira postagem da série, que o faça, para melhor entendimento do que vai ser dito (clique aqui).

Matriz Centenária de Santa Maria (Jaguariúna - SP)


A Igreja Matriz de Santa Maria, também conhecida como Matriz Centenária,  foi construída por ordem do Coronel Amâncio Bueno, que era proprietário de terras na região do que hoje conhecemos por Jaguariúna, como parte de um projeto de urbanização consciente e deliberado,  resultante do desmembramento de terras da Fazenda Florianópolis. Curiosamente, ao contrário do que era prática mais ou menos usual na época em muitas localidades, em que ruas e casas surgiam sem grande organização, o Coronel Amâncio Bueno contratou um engenheiro, Wilhelm Giesbrecht, para planejar o que viria a ser a Villa Bueno, na qual a Igreja Matriz deveria ocupar um lugar de destaque, e o arruamento adjacente, sempre que possível retilíneo, levava em conta a existência do rio Jaguari e a possibilidade de eventuais inundações.
As obras de edificação começaram em 1889, sendo a conclusão datada de 1894, resultando em um templo no estilo gótico-bizantino. Ainda durante a construção, a Paróquia de Santa Maria foi devidamente oficializada em fevereiro de 1892. Obras posteriores tornaram a praça defronte à igreja particularmente importante, já que nela instalou-se um primeiro chafariz, destinado ao abastecimento de água para a população que se estabeleceu nos arredores. Na mesma praça foi colocado, ainda no século XIX, um monumento comemorativo à iniciativa  do Coronel Amâncio Bueno quanto à edificação da igreja, que está muito bem preservado (foto, à direita).


Igreja Matriz de Sant'Ana (Pedreira - SP)


A Igreja Matriz de Sant'Ana, em Pedreira, tem quase a mesma idade da de Jaguariúna - data de 1899. Vale explicar que Pedreira nasceu pelo povoamento de terras da Fazenda Sant'Ana, uma propriedade dedicada ao cultivo de café, que desde 1885 pertenceu ao Coronel João Pedro de Godoy Moreira, considerado o fundador da cidade. A construção segue o estilo gótico e, na praça existente defronte à igreja, há um monumento listando todos os párocos que ali atuaram (de suas origens à atualidade).



Veja também:

sábado, 31 de julho de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 2

Igreja Matriz de São João Batista (Rio Claro - SP)


Retomo aqui o assunto da postagem anterior, iniciando um passeio por algumas igrejas historicamente significativas, localizadas no interior de São Paulo e de Minas Gerais. A visita de hoje é à Igreja Matriz de São João Batista, em Rio Claro (SP).
As origens da cidade e da Matriz estão conectadas - afinal, seguindo a tradição dos extensos toponímicos, Rio Claro foi, originalmente, São João Batista do Rio Claro. Não há dúvida de que aspectos práticos levaram ao encurtamento do nome da cidade, como ocorreu em muitíssimos outros lugares. Mas vamos ao que interessa...
A povoação de Rio Claro teve sua primeira capela curada em 1827, a qual foi elevada a paróquia em 1832. Uma primeira igreja matriz foi inaugurada em 1877, sendo demolida para dar lugar à atual, cujas obras foram iniciadas em 1912. A consagração da atual Igreja Matriz de São João Batista data de 1926, tendo passado por reforma entre 1976 e 1996. Um aspecto diferenciador desta igreja está no amplo e muito bem cuidado jardim que a cerca.


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quarta-feira, 28 de julho de 2010

A arquitetura sacra paulista e mineira nas regiões cafeeiras - 1

Catedral de N. Sra. do Amparo em fotografia infravermelha
(Amparo - SP)
Tenho visitado nos últimos meses várias cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais, na região em que, nas décadas iniciais do século XX, o café era a grande estrela da produção agrícola. Por ocasião dessas visitas, procurei observar o que poderia ser rotulado de "patrimônio histórico", aquilo que merece, de fato, preservação. Há, em alguns casos, construções já devidamente tombadas, enquanto outras, mesmo sem exibir esse rótulo, não são menos importantes. Acontece que, depois de muito observar e refletir, vejo que, majoritariamente, edifícios de destaque pelo interesse histórico, nos lugares mencionados são, muitas vezes, igrejas.
O que isso significa? Pelo menos três coisas:

1. Sabe-se que, em muitos casos, a colonização e a ocupação do território brasileiro foram feitas com a marca do provisório, descuidadamente, o que obrigou, quase sempre, à substituição das antigas construções por outras "mais modernas". Não é raro ouvir alguém contar: "Aqui era a prefeitura", "era a escola tal", "era a biblioteca"... Isso nos conduz a, no mínimo, duas possibilidades: a primeira, é que construções precárias tenham se deteriorado e por isso foram demolidas, enquanto a segunda é que uma noção distorcida de progresso tenha levado à destruição de prédios mais antigos, ainda que em bom estado, para dar lugar a edifícios novos.

2. Nem sempre os recursos eram abundantes e, dessa forma, deviam ser alocados naquilo que a comunidade valorizava - daí a existência de belos locais de culto mesmo em cidades de potencial econômico restrito. Na prática, as igrejas tornavam-se motivo de orgulho para a população, como um centro da vida social e, sendo mais solidamente construídas, é natural que tenham sobrevivido mais tempo, havendo numerosas que podem ser vistas e visitadas atualmente. A mesma linha de raciocínio explica a razão de muitas delas estarem tão bem preservadas, mesmo em localidades em que as casas particulares, outrora suntuosas, não passam agora de ruínas, ainda que de significativo interesse histórico. Sem contar, é claro, o zelo das autoridades eclesiásticas em cuidar das igrejas sob sua jurisdição.

3. Há igrejas que apresentam um aspecto interessante: tiveram a construção iniciada durante a época de prosperidade decorrente das exportações de café, cuja decadência significou uma pausa nas obras. Nesse caso, há duas possibilidades, pelo menos:
a) A igreja foi terminada, mas modestamente, o que é verificável, por exemplo, quando o exterior é grandioso e a ornamentação interna, muito simples;
b) A igreja teve a construção paralisada e só foi concluída décadas depois, de modo que diversos estilos arquitetônicos, tanto externa quanto internamente, podem ser observados.

Devo acrescentar que as igrejas a que me refiro são templos católicos. Procurei igrejas protestantes que apresentassem o mesmo perfil, mas não encontrei. No entanto, se houver alguma, gostaria de conhecer. Você conhece? Conte-me!
Nas próximas postagens darei alguns detalhes sobre vários dos mais significativos exemplares dessa arquitetura sacra paulista e mineira, para que você, leitor, que eventualmente se interesse em visitar alguns desses lugares, tenha seu apetite histórico aguçado.


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