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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venda de frutas na capital do Império

Escravo vendedor (²)
No final do Século XVII, se devemos crer nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, as frutas, verduras e flores eram escassas na cidade do Rio de Janeiro, que ainda não era capital, apenas uma cidade tentando resistir aos frequentes ataques e tentativas de invasão de piratas e corsários: 
"As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram, além das do país? Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores, juro-o, porque havia senhoras." (¹)
O correr dos anos, o crescimento e fortalecimento da cidade, a vinda temporária da Corte portuguesa ao Brasil, a Independência, trouxeram modificações significativas, tanto que Daniel P. Kidder, missionário metodista americano (³) que esteve no Rio de Janeiro durante o Período Regencial, pôde afirmar:
"[...] as frutas indígenas são muito variadas e saborosas. Além das laranjas, limas, cocos e abacaxis que são bastante conhecidos entre nós, há mangas, bananas, romãs, mamões, goiabas, jambos, araçás, mangabas e muitas outras espécies, cada uma das quais tem sabor e perfume peculiares.
Dispondo-se de tão grande variedade de frutas para atender os caprichos ou as necessidades da vida, por certo ninguém tem de que se queixar. Esses artigos são encontrados em profusão nos mercados e apregoados pelas ruas da cidade e dos subúrbios por escravos e negros libertos que os levam geralmente em balaios na cabeça. [...]" (⁴)
O olhar do estrangeiro que procurava pelas singularidades do país que visitava não deixou escapar o modo como os vendedores ambulantes de frutas atraíam seus fregueses:
"[...] Os vendedores ambulantes passam constantemente pelas ruas apregoando em altas vozes a natureza e a excelência de suas mercadorias ou emitindo algum som indeterminado, apenas para atrair a atenção do público. [...]" (⁵) 
As condições de transporte no Brasil daquela época eram precárias, e frutas, como todo mundo sabe, têm uma vida útil bem curta. Deviam portanto, ser de produção local ou, no máximo, de pouca distância da capital do Império, para que pudessem chegar aos compradores em estado satisfatório para consumo. 

_______________________

Vendedor de frutas no Rio de Janeiro, depois do fim da escravidão e da Proclamação da República (⁶) 




(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Cf. BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 110. Desenho de E. Riou, sobre esboços de F. Biard. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Daniel P. Kidder esteve no Brasil entre 1837 e 1840.
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 89.
(5) Ibid.
(6) Cf. VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Escravos transportavam mudanças no Rio de Janeiro

Escravo carregador (²)
Alguém decidia mudar de endereço, fosse residencial ou comercial. no Rio de Janeiro, durante o Século XIX. Iria procurar uma empresa especializada em mudanças?
Nada disso. Eram escravos, próprios ou contratados, que faziam o transporte de todas as tralhas que deviam mudar de lugar, evidência inequívoca do atraso técnico e dos costumes na capital do Império, e não só nela, mas em quase toda povoação no Brasil desse tempo. Um autor empenhado na luta abolicionista, Frederico Leopoldo César Burlamaqui, escreveu, em obra publicada no ano de 1837 (¹):
"[...] Causa riso ver nas ruas da capital, a mais polida cidade e a mais adiantada do Império, trinta ou quarenta escravos conduzindo em grande algazarra outros tantos fardos às cabeças, quando um só carro puxado por uma ou duas parelhas de bestas faria o mesmo serviço com dobrada celeridade e metade da despesa! Causa nojo ver uma enorme e informe zorra levar, em quatro ou cinco horas e a pouca distância, uma única pipa, que dez ou doze negros arrastam penosamente por cima de calçadas [...], destruindo de contínuo as ruas e ameaçando estropiar os viandantes, quando um carro convenientemente construído poderia levar seis ou oito destas pipas em alguns minutos e com dobrada celeridade a grandes distâncias! [...]" (³) 
Duas décadas mais tarde, o pintor francês Auguste François Biard (⁴) observou o mesmo procedimento para a realização de uma mudança no Rio de Janeiro: 
"[...] Logo que cheguei aqui (⁵) tive de interromper, um dia, o que estava fazendo, impelido pela curiosidade; ouvira uns sons estranhos de uma ponta à outra da rua; era apenas uma mudança. Cada negro conduzia um móvel, grande ou pequeno, leve ou pesado, conforme a sorte de cada um; e esses carregadores executavam sua tarefa obedecendo a um certo ritmo, entoando um canto, gutural por vezes, em que uma ou duas sílabas eram repetidas. Havia alguns que transportavam barris vazios três vezes maiores que as suas pessoas, e no fim de tudo vinha um piano de cauda carregado por seis homens, em duas filas. [...]" (⁶) 
Seria até pitoresco, não fosse o fato de que, afinal, era mais um aspecto da exploração da força de trabalho dos escravizados. Quem se preocuparia em encontrar algum modo mais razoável de se fazer uma mudança se havia escravos para isso? Somente a abolição definitiva do trabalho escravo poria fim a tamanho absurdo.

(1) Acredita-se que a Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica tenha sido escrita por volta de 1834. 
(2) Cf. BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 94. Desenho de E. Riou, sobre esboços de F. Biard. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César. Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica. Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 120.
(4) Viajou pelo Brasil entre 1858 e 1859.
(5) No Rio de Janeiro.
(6) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 46.


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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Como se vestiam os homens que iam à Corte durante o Governo Joanino

Para que alguém se apresentasse diante do príncipe regente, depois rei Dom João VI, era preciso que se vestisse decentemente, dentro dos padrões da moda da época. Mas como era isso?
Joaquim Manuel de Macedo, em Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, explicou:
"Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço, fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia (¹), levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda." (²) 
O detalhe curioso é que esta moda um tanto ridícula - pelos padrões atuais, mas não daquela época - somente foi abandonada, ainda de acordo com Macedo, por volta do tempo em que ocorreu a antecipação da maioridade do segundo imperador do Brasil:
"[...] O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia." (³)
Calças como representantes da democracia? Ora, reconheçamos, que exagero! Mas houve quem, a despeito da nova moda, perseverasse na antiga:
"Se aceitarem a ideia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela." (⁴) 
O tal homem tinha o direito de usar a roupa que quisesse. Mas é de se admitir que, provavelmente, ao vê-lo, parecesse aos circunstantes que estavam fazendo uma viagem no tempo.

(1) Exagero no rigor ao vestir-se.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 44.
(3) Ibid.
(4) Ibid.


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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Quem costurava as roupas de dona Leopoldina

Desembarque da princesa Leopoldina no Rio de Janeiro (¹)

Durante muito tempo, ou melhor, desde o início da colonização até que viesse ao Brasil a família real portuguesa, as roupas femininas foram, como regra, costuradas em casa da interessada em usá-las, pela própria dona ou por alguma escrava que, por ter o ofício de costureira, era considerada muito valiosa. Havia alfaiates que, além de trajes masculinos, também faziam roupas simples para mulheres, porém, como fornecedores desses artigos, eram exceção.
Mas veio 1808, veio a família real, vieram as mudanças daí decorrentes, vieram as costureiras francesas, as lojas de comerciantes franceses de artigos para vestuário feminino - tecidos, rendas, fitas, e uma infinidade de outras coisas, sempre anunciadas como última moda em Paris. Daí resultaram esquisitices que, adequadas ao inverno europeu, eram, no mínimo, ridículas sob o sol da capital do Império. "Calculem e façam ideia do que custa a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...", exclamou Joaquim Manuel de Macedo, acrescentando: "[...] em cada corte de seda, em cada toalete, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!..." (²)
Mas, falando das costureiras e modistas, cada uma era tanto mais famosa quanto fosse de maior prestígio a sua clientela. Qual não seria, então, a fama daquela que costurava para dona Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil? Voltemos a Macedo:
"Mlle. Josephine foi a modista da primeira imperatriz do Brasil, e, portanto, de todas as senhoras da corte, e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar frequentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predileção cortava cara e desapiedadamente." (³)
Estejam certos, leitores, de que, se vivemos em outros tempos, não deixou de haver alguma correspondência, embora os hábitos e sonhos de consumo sejam outros. Não é verdade que quem presta serviço a alguma celebridade, seja lá para o que for, logo ganha fama e tem uma quantidade enorme de imitadores? Em sua essência, a humanidade continua exatamente a mesma.

(1) Cf. DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(3) Ibid.


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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Quando começam os festejos do Natal

Estamos no final de outubro e já vejo lojas oferecendo artigos natalinos. Se isto continua, chegará um tempo em que o ano todo será Natal, e, com isso, perde-se a graça da festa. É mais ou menos o que acontece em relação à Páscoa, quando ovos de chocolate são postos à venda desde fins de janeiro. 
No dizer de Joaquim Manuel de Macedo, referindo-se ao Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, era esta a duração dos festejos de Natal durante o Século XVIII, e mesmo no XIX:
"As festas de Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis." (¹)
De acordo com Macedo, os festejos de Natal eram, então, assinalados por missas, ceias e presépios:
"O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam (²) e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores." (³)
Não havia muita novidade à disposição de quem vivia no Rio de Janeiro - como em todo o Brasil - durante o Século XVIII. Por isso, os presépios que anualmente eram abertos, talvez os mesmos, ano após ano, eram tão atraentes. Macedo referiu a existência de três, que mais se destacavam no Rio de Janeiro:
"No fim do Século passado (⁴), os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. Antônio, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno [sic] que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até a de Reis." (⁵) 
Uma coisa é certa; os festejos de Natal eram, em essência, religiosos. O elemento comercial não havia, ainda, se infiltrado neles.

(1)  MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 389.
(2) A missa do galo era celebrada à meia-noite; portanto, as ceias de Natal vinham antes dela.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.
(4) Referia-se ao Século XVIII.
(5) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.


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quarta-feira, 15 de maio de 2024

Barbeiro do Século XVI que usava a flora nativa para tratar doentes

Foi no Século XVI, quando Antônio Salema era governador no Rio de Janeiro. Tomou-se a decisão de pôr um fim aos ataques dos tamoios, destruindo-os por completo. Os que não morreram, foram escravizados. Gentil contato esse, entre colonizadores e indígenas!...
É aí que entra uma história interessante, contada por Joaquim Manuel de Macedo em Memórias da Rua do Ouvidor, atribuindo-a a certa tradição, ainda que pouco documentada. Um barbeiro, que também se declarava cirurgião, e cujo nome era Aleixo Manuel, participou do grupo de colonizadores que foi à guerra contra os indígenas e, como recompensa, trouxe para si dois escravos, uma menina de três anos e o avô, com mais ou menos sessenta. Fez batizar a ambos, chamando-os, respectivamente, Inês e Tomé.
Acontece que, naqueles tempos em que médicos de verdade não eram frequentes nas terras portuguesas na América, era ao barbeiro, que se afirmava cirurgião, que se recorria, não só para fazer a barba e cortar o cabelo, mas para extrair dentes, para pequenas cirurgias e até para medicamentos, mesmo sabendo que os da época eram poucos e, em geral, ineficazes. A esperança é a última que morre, e, muitas vezes, morria com os doentes.
Pois bem, o esperto Aleixo Manuel logo se deu conta de que, trazendo consigo o indígena que escravizara, tinha à disposição uma mina de ouro:
"Aleixo Manuel colheu em breve proveitoso e merecido prêmio de seu nobre e generoso impulso de amor ao próximo para com os dois infelizes. Tomé, mandado por seu senhor a trazer-lhe do monte do Desterro (depois de Santa Teresa) a famosa e ótima água de Carioca, internava-se na floresta, e nela recolhia ervas, folhas, cortiças e raízes de árvores, cujas virtudes medicinais, por experiência, embora rude, conhecia, e as levava ao cirurgião a quem indicava as moléstias em cujo tratamento elas aproveitavam." (¹)
Não, o tal barbeiro e cirurgião não se abalava a fazer um estudo científico das propriedades das plantas que o indígena Tomé lhe trazia, nem se supunha que tivesse conhecimento para tanto. Mas, em uma terra onde os recursos médicos faltavam quase completamente, o simples fato de que alguns desses vegetais, cujo uso Tomé conhecia empiricamente e/ou por tradição recebida de seus ancestrais, fossem efetivos para algumas moléstias, foi suficiente para fazer com que, em breve, Aleixo Manuel se tornasse famoso no Rio de Janeiro, e chegasse a prosperar, no contexto em que vivia:
"Com esses novos recursos terapêuticos, Aleixo Manuel começou, graças ao pobre escravo, a distinguir-se por admiradas vitórias médicas, ganhou fama, teve clínica extensa e rendosa, reconstruiu sua cabana que se tornou casa muito regular e de bonito aspecto exterior, bem que de um só pavimento, e adicionou-lhe a um lado uma cerca ou gradil de varas, fechando pela frente pequeno jardim e canteiros de legumes, seguindo-se para o fundo o quintal." (²)
Macedo, que era médico por formação, deve ter-se divertido ao contar essa história. Havia nela, contudo, um conceito de importância: a flora nativa do Brasil tinha e tem muito a oferecer. Mesmo bastante estudada, está longe de ter revelado, já, todos os seus segredos. 

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Ibid. 


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quarta-feira, 24 de abril de 2024

Um escravo que restaurava livros

Havia falta de mão de obra qualificada no Brasil Colonial. Uma explicação para isso é que fidalgos (¹) estavam proibidos, pelas leis da época, de trabalhar nos chamados "ofícios mecânicos" (²), sob pena da perda da posição social que tanto valorizavam. Se eram abastados, colonizadores compravam escravos para o trabalho, mas, se não eram, viviam na maior penúria, ainda se achando nobres. 
Contudo, era justamente na escravidão que estava a origem da escassez de mão de obra qualificada, porque pessoas livres entendiam o trabalho como uma desonra, coisa deixada apenas para cativos, e, por isso, quase todos fugiam dele. Na tentativa de resolver o problema, dentro da lógica daquele tempo, havia proprietários de escravos que tratavam de ensinar ofícios aos cativos, e seu trabalho era, então, realizado tanto na propriedade do respectivo senhor, ou prestando serviço a outros. A remuneração, neste caso, era do proprietário, não do escravo (³).
Ora, ao lado desse cenário já pouco lisonjeiro, havia também uma carência acentuada de profissionais, mesmo em áreas não estigmatizadas socialmente, pelo simples fato de que algumas profissões exigiam uma qualificação difícil de ser obtida no Brasil. É curioso como, também nesses casos, a solução podia vir - era a lógica da época - mediante o treinamento de um ou mais escravos, sob a supervisão de pessoa habilitada. Foi o que aconteceu no Século XVIII no Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, quando era abade ninguém menos que frei Gaspar da Madre de Deus, famoso por seus escritos relacionados à história do Brasil. 
Vamos explicar a situação: o ilustre abade, no exercício do cargo, queria melhorar a biblioteca do mosteiro, cujos livros, já muito gastos, precisavam, com urgência, da mão de um restaurador. Lê-se nos Anais do Rio de Janeiro, de Balthazar da Silva Lisboa:
"O seu amor pela ciência o obrigou a recolher um livreiro na casa da livraria (⁴) com avultado salário, para compor os livros danificados dos insetos, fazendo ensinar este ofício a um escravo [...]." (⁵)
Daí por diante esperava-se que o escravo fizesse a manutenção dos livros. Escravos, aliás, faziam a maior parte do trabalho dentro de quase todas as instituições religiosas e em suas diversas propriedades (⁶). Um procedimento análogo foi adotado algum tempo depois, quando frei Francisco de São José era abade no mesmo Mosteiro de São Bento e decidiu estabelecer uma enfermaria para os escravos:
"[...] Construiu uma boa e regular casa para enfermaria dos escravos, provendo-a de todo o necessário, além de colchões, lençóis, etc. Fez instruir em medicina um escravo da fazenda dos Campos, a quem deu livros e instrumentos de cirurgia, preparando a sua instrução o cirurgião do partido (⁷), para acudir na falta dos professores aos doentes." (⁸)
Ora, se recebeu livros, o escravo devia, pelo menos, saber ler, o que já era uma grande novidade naqueles dias.  

(1) Quase todos os colonizadores se achavam pertencentes à nobreza, embora muitos estivessem bem longe disso.
(2) Eram chamadas "ofícios mecânicos" as profissões que envolviam trabalho manual. São exemplos as de sapateiro, tecelão, pedreiro, carpinteiro e muitas outras. 
(3) Essa prática persistiu não só no Brasil Colonial, como foi muito comum inclusive durante o Império. Havia gente que vivia exclusivamente dos ganhos provenientes do aluguel de escravos treinados em algum ofício.
(4) Por livraria, entenda-se biblioteca.
(5) LISBOA, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 354.
(6) A existência de cativos para o trabalho nos mosteiros, conventos e outros locais pertencentes às várias Ordens religiosas foi uma constante, não só durante os tempos coloniais, como mais tarde, em parte do Império. 
(7) "Partido", aqui, refere-se a uma grande área de cultivo.
(8) LISBOA, Balthazar da Silva. Op. cit., p. 362.


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quarta-feira, 17 de abril de 2024

Como era a Agência de Correios na capital do Império do Brasil no tempo das Regências

Algum de vocês, leitores, já sentiu uma viva irritação porque uma mensagem enviada por smartphone a um amigo não foi lida imediatamente? Examine-se, por contraste, quanto tempo levava, nos dias do Império, para que qualquer correspondência chegasse às mãos do destinatário, com o agravante de que aquele que a enviava sequer sabia se seria ela efetivamente entregue a quem competia. 
Vejamos, então, como era o funcionamento do Correio Geral na capital do Império, o Rio de Janeiro. Uma informação detalhada se encontra no que escreveu Daniel P. Kidder, missionário metodista americano que esteve no Brasil durante o Período Regencial. Quanto à aparência e localização do Correio Geral, observou:
"[...] junto ao portão da Alfândega, fica o Correio Geral. A entrada faz-se por um amplo vestíbulo cujo piso é revestido de lajes. Dos soldados que estão em serviço, uns montam guarda pelo chão, outros dormitam sobre bancos, pelos cantos. Um único lance de escada conduz ao andar superior [...]."  (¹) 
Quem tinha correspondência a receber ia exatamente ao segundo piso:
"[...] À direita, por trás de um balcão alto, estão as cartas e os jornais do correio, não em caixas, por ordem alfabética, mas em montes, de acordo com a proveniência. Minas, São Paulo e outros lugares importantes. Para cada monte existem na parede listas numéricas de destinatários, sob os títulos de "Cartas de Minas", "Cartas de São Paulo", etc. A correspondência do exterior, com exceção da que se destina às casas comerciais que pagam uma taxa anual pela entrega em domicílio, é amontoada na mais completa desordem e quem chega primeiro tem o direito de examinar toda a vasta montanha, bem como de separar suas cartas e as de seus amigos. [...]" (²) 
Quanto tempo levava para uma carta ir de um ponto a outro do Brasil? Isso variava, dependendo da distância e das condições de transporte:
"[...] As malas maiores circulam por via marítima. [...] O transporte lento e tedioso das malas postais pelo interior é feito em lombo de burro ou por estafetas a pé. A tarifa postal é bem moderada. [...]" (³)
Com tanta desorganização e condições precárias de transporte, seria razoável supor que o serviço de correios deixasse muito a desejar. Kidder, porém, afirmou jamais ter tido uma correspondência extraviada, e quanto ao atendimento por parte dos funcionários, fez esta avaliação surpreendente:
"[...] No geral, as atenções que se recebem no Correio do Rio de Janeiro marcam feliz contraste com o tratamento grosseiro e desatencioso dispensado ao público em idênticas repartições norte-americanas." (⁴) 
(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 65.
(2) Ibid., p. 65 e 66.
(3) Ibid., p. 66.
(4) Ibid., p. 66.


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sexta-feira, 29 de março de 2024

Luto na capital do Império nas horas da Sexta-feira Santa

No Brasil do Século XIX, ostentar religiosidade fazia bem à imagem pública de qualquer pessoa - com fé ou sem ela. Por isso, em ocasiões em que tradicionalmente as práticas religiosas eram lutuosas, ninguém que se pretendesse respeitável fugia à obrigação de aparentar tristeza. Era o que acontecia nas Sextas-feiras Santas. 
O olhar observador de um mercenário alemão que esteve no Brasil entre 1824 e 1826, C. Schlichthorst, captou esta imagem em palavras, a partir do que acontecia no Rio de Janeiro, capital do Império:
"Na Sexta-feira da Paixão, todas as igrejas se cobrem de preto, os altares, as alfaias de prata e ouro se envolvem em crepes, e toda a gente põe luto. De cinco em cinco minutos, as fortalezas e navios de guerra salvam com um tiro de canhão. Põem-se as bandeiras a meio pau e braceiam-se as vergas nos navios de guerra. Para onde quer que se volva o olhar, veem-se sinais da mais profunda tristeza. [...]" (*) 
Era, como já foi dito, tristeza aparentada, como mandava a boa conduta, não necessariamente tristeza sentida. Nesse tempo, o catolicismo era religião oficial. Explica-se, portanto, que a necessidade de ostentar luto fosse muito além do espaço das igrejas, alcançando, também, as unidades militares em terra e no mar.
 
(*) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826), trad. Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Brasília: Senado Federal: 2000, p. 118.


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sexta-feira, 8 de março de 2024

Roupas e acessórios masculinos que eram moda na época da chegada da família real ao Brasil

Primeiras semanas de 1808. Estando perto os navios que traziam a família real, além de uma pequena multidão que incluía gente da nobreza, funcionários públicos e mesmo alguns que não eram nem uma coisa e nem outra, mas que haviam conseguido embarcar, a cidade do Rio de Janeiro pôs-se agitada. 
Toda pessoa que tinha alguns recursos e que pretendia ir às ruas para ver a passagem do cortejo real tratou de arranjar roupa que julgava adequada.  Ninguém queria fazer má figura diante da nobreza que aportava. Nas palavras de José Vieira Fazenda, "as meias de seda, os sapatos rasos de fivela de ouro e prata, as cabeleiras de rabicho ou de bolsa, os espadins, os coletes de cetim bordados a matiz e os chapéus armados subiram de preço" (*). 
O desembarque de D. João, então príncipe regente, aconteceu em 8 de março de 1808. Poderíamos falar em uma corrida às lojas nos dias que o antecederam? Seguindo a índole do comércio nesses tempos já distantes (e não só neles), os preços elevaram-se bastante. Não há razão para crer que, após o desembarque, os preços baixassem, uma vez que os que chegavam também iam às lojas à procura dos artigos a que estavam habituados.
O comércio do Rio de Janeiro era, então, modesto. Mas ganhou força com a chegada da corte, que atraiu comerciantes ingleses e franceses, estes últimos, geralmente dedicados ao vestuário de luxo e outros artigos de moda. Quem, nesse momento, poderia prever quão longe iriam as mudanças que apenas começavam a acontecer?

(*) FAZENDA, José Vieira, Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940, p. 40. 


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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Paraty


Uma publicação do Século XIX, o
Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854, descreveu assim a cidade de Paraty, que durante algum tempo, no Século XVIII, teve grande importância na rota de exportação do ouro que se extraía das Minas Gerais e era enviado a Portugal:
"Acha-se situada em um lugar aprazível e pitoresco [...]. Há 9 ruas que correm do nascente para o poente, que são as seguintes: da Capela, Cadeia, Rosário, Direita, Rocio, Lapa, Nova da Lapa, Santa Rita, Couto; e 6 do Noroeste para o Sul, que são: Fresca, Praia, Mercado, Matriz, Comércio, Craguatá; 4 praças: Municipal, Mercado, Rocio, Pedreira, onde se acha colocado um elegante chafariz de mármore [...]. As casas [...] excedem a 1.200, sendo uma grande parte de sobrado. [...] Há 4 igrejas, a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, as Capelas de Santa Rita, de Nossa Senhora do Rosário e a de Nossa Senhora das Dores; um hospital de Misericórdia, um teatrinho dramático de uma associação particular e uma sociedade de baile em casa própria." (*)
Há tempos, fiz algumas fotos dessa bela cidade, com seu rico legado arquitetônico colonial. Vejam, meus leitores e, quando puderem, visitem.

Rua colonial com uma curiosa passagem pra uso na maré alta:


Placas de identificação de ruas e de uma praça, o Largo da Pedreira:





Ruas com casario colonial:





Chafariz de mármore:



Igrejas:





Finalmente, uma recordação do tempo em que um conjunto de fortalezas defendia Paraty contra um eventual ataque de invasores ou ladrões do mar:


(*) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1854. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854.


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terça-feira, 25 de maio de 2021

Ruas imundas

Fundada no Século XVI (¹), a cidade do Rio de Janeiro tornou-se capital do Brasil, em substituição a Salvador, no Século XVIII (²). Os novos tempos, nos quais era preciso zelar pelas remessas de ouro e diamantes para o Reino, explicam a mudança. Desvanecia-se o primado do açúcar diante do brilho de minerais tão cobiçados.
Antes e depois de se tornar capital, o Rio de Janeiro, como muitas outras cidades coloniais, não era exatamente um monumento à higiene. De acordo com José Vieira Fazenda, no  começo do Século XVII a Câmara do Rio de Janeiro decidiu impor uma multa aos armadores de baleias que insistissem em carneá-las perto da barra, em razão, é claro, do odor extremamente desagradável exalado. Não se deve imaginar, portanto, que apenas as ruas eram sujas - a mesma coisa poderia ser dita em relação à orla marítima. Também segundo Vieira Fazenda, Bernardino Antônio Gomes, um médico ouvido pela Câmara em 1798, afirmou: "[...] "quase toda a praia desta cidade da banda da baía é por falta de cais extremamente imunda [...]; as ruas da Vala e Cano (³) são ingratas aos passageiros pelo vapor que exalam [...]"." (⁴)
Lembrando aos leitores que, em razão das ameaças constantes de invasões, o Rio de Janeiro colonial tinha muralhas para proteção, deve-se dizer, também, que era perto delas, em alguns pontos, que o lixo da cidade era lançado. Esqueçam, por favor, qualquer serviço de limpeza urbana nesse tempo, mas considerem, ainda por informação de José Vieira Fazenda, que tanto entulho de péssimo aroma oferecia, em adição, um problema estratégico: "Isso se dava perto da muralha, onde tal era a altura de imundícies, que haviam quase inutilizado a fortificação [...]." (⁵)
Como mudança de governo não significa, necessariamente, mudança nos costumes em relação à higiene dos lugares públicos, quem esteve no Brasil pela época da Independência ou pouco depois dela, constatou ruas tão sujas como... Como sempre. Saint-Hilaire, por exemplo, fez esta observação, ao comparar Rio de Janeiro e Porto Alegre: "Fácil perceber-se, desde o primeiro instante, que Porto Alegre é uma cidade nova; todas as casas são novas, e muitas ainda em construção; mas, depois do Rio de Janeiro, não tinha ainda visto uma cidade tão imunda, talvez mesmo a capital não o seja tanto" (⁶). Complementando essa constatação pouco elogiosa, tem-se o que escreveu C. Schlichthorst, oficial do Segundo Batalhão de Granadeiros do Império: "A imundície de tão grande cidade [Rio de Janeiro] com outro clima empestaria as ruas, pois cavalos e cães ficam onde caíram mortos, as cloacas despejam-se nas praias e praças públicas, e os mortos são sepultados nas igrejas" (⁷).
Já vamos acabar, leitores. Para que ninguém suponha que o correr dos anos do Império trouxe mudanças radicais, veremos o que escreveram Elizabeth Cary Agassiz e Jean Louis Agassiz, que visitaram o Rio de Janeiro na década de sessenta do Século XIX: "Observando-se o asseio escrupuloso que reina em todos os estabelecimentos públicos do Rio de Janeiro, estranha-se como é que as ruas dessa cidade são as mais imundas que vimos até hoje. É evidente, não há dúvida, que os brasileiros reconhecem a importância da boa conservação de todos os lugares públicos, e é singular que tolerem nas ruas de sua capital um estado de coisas tal que muitas vezes não se sabe onde colocar os pés." (⁸) Em defesa do Rio de Janeiro poder-se-ia dizer que sujeira nas vias públicas não era característica sua, exclusivamente. As ruas, mundo afora, não eram, em geral, muito diferentes. 
Como explicar tudo isso? Para os Agassiz, a culpa, em última instância, não era nem do governo, nem do descuido dos moradores: "Ruas estreitas infalivelmente cortadas, no centro, por uma vala onde se acumulam imundícies de todo gênero; esgotos de nenhuma espécie, um aspecto de descalabro geral, resultante, em parte, sem dúvida, da extrema umidade do clima [...]" (⁹). Para esses autores, as ruas eram imundas por causa da umidade, os habitantes de Minas Gerais eram inteligentes devido ao clima, e assim por diante. O determinismo geográfico (em decorrência das condições ambientais) era moda, e servia, em não poucos casos, de muleta para explicar e/ou justificar tanto problemas terríveis quanto coisas que podiam ser reputadas como altamente positivas. Não foi sem causa que essa forma de enxergar a realidade veio a sofrer muitas críticas.

(1) 1565.
(2) 1763.
(3) Esses nomes para ruas são, a propósito, bastante sugestivos.
(4) Cf. FAZENDA, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940, p. 438.
(5) Ibid., p. 169.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 50.
(7) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1924 - 1926). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 28.
(8) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 434.
(9) Ibid., p. 67.


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

A lenda da aparição de Teseu na batalha de Maratona

Teseu foi um herói lendário, supostamente introdutor do conceito de democracia em Atenas, e teria vivido nos primórdios da cidade. Nada impede que haja existido alguém real com esse nome, a quem o tempo e as sucessivas narrações dos feitos se encarregaram de quase deificar. Em sua homenagem eram realizadas cerimônias em Atenas, que Plutarco, justificando em Vitae parallelae, relacionou a uma suposta aparição durante a batalha de Maratona em 490 a.C., durante a Primeira Guerra Médica: "Naquela terrível batalha que travaram em Maratona contra os medos (¹), afirma-se que muitos dos combatentes que nela estiveram viram nitidamente a figura de Teseu que marchava diante deles portando armas e, de espada em punho, fazia muitas vítimas entre os inimigos" (²).
Lendas bélicas não são exclusividade de povo algum. Os romanos também tinham como certa a aparição de Castor e Pólux, os gêmeos celestes, em momentos decisivos de suas guerras. Uma dessas ocasiões teria sido em um combate contra os latinos, no contexto do fim da realeza, com a deposição do rei Tarquínio, o Soberbo, e o estabelecimento da República em Roma. São palavras de Aneu Floro, em Rerum Romanarum: "Tanto foi a ferocidade da batalha que correu a notícia de que estavam os deuses Castor e Pólux como espectadores, montados em cavalos brancos, e não houve quem duvidasse" (³).
Se essa ideia de que deuses e heróis mortos tinham a capacidade de aparecer para ajudar os vivos fosse coisa só da Antiguidade, eu poderia desejar um bom dia a vocês, leitores, e encerrar o assunto por aqui. Mas não! Vamos às tradições vinculadas à luta de portugueses contra tamoios e franceses no Rio de Janeiro, no Século XVI. Deixo o caso por conta do padre Simão de Vasconcelos, jesuíta famoso por seus escritos publicados no Século XVII, em que relata o incidente da aparição de São Sebastião para ajudar as forças lusas contra os guerreiros nativos da América: "[...] os tamoios todos na mesma conformidade perguntavam depois aos nossos com grande espanto, quem era aquele soldado gentil-homem, que andava armado no tempo do conflito, e saltava intrépido em nossas canoas? "Porque a vista dele", diziam, "nos meteu terror. E foi a causa de fugirmos, igualmente à do incêndio". Foi tido o caso por milagroso. Eu nisto não determino nada; acho porém que fazem força as palavras de José [de Anchieta], que escrevendo dele diz assim: "A mão de Deus andou ali, e mostrou nesta ocasião sua misericórdia e providência: foi medo que Deus nosso Senhor pôs aos índios à vista daquele incêndio; e particular favor do glorioso mártir São Sebastião, que ali foi visto dos tamoios, que perguntavam depois, quem era um soldado que andava armado, muito gentil-homem, saltando de canoa em canoa, e os espantara, e fizera fugir?"." (⁴)
Sem querer assumir a ocorrência de um milagre, Simão de Vasconcelos contou o incidente, mas é razoável supor que, como homem de seu tempo, acreditasse nele. De qualquer modo, e já entrando no lado efetivamente histórico da questão, o governador-geral Mem de Sá, chegando com alguns navios ao Rio de Janeiro no começo de 1567, para desfechar um ataque decisivo contra franceses e indígenas, decidiu que o combate seria travado no dia 20 de janeiro, não por acaso a data em que o calendário católico celebra o soldado romano e mártir São Sebastião. Saíram-se bem os portugueses, ainda que com algumas perdas: "Depois de vários sucessos, encontros e recontros [...] foi entrada e vencida [a fortificação inimiga] com estrago lastimoso, porque dos tamoios não ficou um com vida. Dos franceses morreram dois no conflito, e cinco que houveram às mãos os portugueses, foram pendurados em um pau, para escarmento de outros: à vista de tão triste espetáculo, ficaram tremendo as demais aldeias" (⁵).Coisas da colonização, leitores!

(1) Os gregos se referiam genericamente ao Império Persa, que agregava diversos povos, como sendo dos medos, e, por essa razão, as guerras entre gregos e persas são conhecidas como Guerras Médicas.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) FLORO, Aneu. Epitome Rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 53 e 54.
(5) Ibid., p. 55.


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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Uniformes esportivos para atletas do final do Século XIX

Praticantes de esportes precisam de roupas e calçados apropriados. Contudo, no último ano do Século XIX, as grandes marcas de artigos esportivos, como hoje as entendemos, ainda não existiam. Onde é que os esportistas que viviam no Rio de Janeiro, na época capital do Brasil, compravam trajes para suas aventuras?
Ora, meus leitores, eram frequentemente as lojas de roupas masculinas que anunciavam ter em estoque artigos destinados a esportistas. Alguns dos produtos eram de fabricação (quase) artesanal:

1. "Bonnets para cyclistas e remadores" (¹)


2. "Jerseys para remadores, maillots para cyclistas" (²)


Notem que, mesmo diante da mania etimológica que fazia muitos adeptos, a falta de vocábulos usuais em português do Brasil para descrever assuntos esportivos obrigava os anunciantes ao emprego de termos estrangeiros (³) ou, em alguns casos, a uma curiosa "miscigenação", evidenciando quanto a língua é dinâmica e levando a adaptações que ocorrem em todo o tempo para atender às mudanças na sociedade. Com o passar dos anos, alguns termos foram definitivamente aportuguesados, enquanto outros caíram no esquecimento. 
Para concluir, vejam mais um anúncio, desta vez de uma fábrica de bonés para regatas, ciclismo e outras atividades (⁴). A prática de esportes, com uma pontinha de controvérsia, era moda, e um fabricante de bonés não podia, é claro, perder a oportunidade de ampliar as vendas.



(1) SEMANA SPORTIVA, Ano XI, nª 403, 22 de setembro de 1900.
(2) Ibid., Ano XI, nº 409, 3 de novembro de 1900.
(3) Pode-se imaginar quanto o emprego de galicismos e anglicismos provocava crises alérgicas horrendas em muito Policarpo Quaresma da vida real.
(4) SEMANA SPORTIVA, Ano XI, nº 370, 27 de janeiro de 1900.
Os exemplares originais da Semana Sportiva citados aqui pertencem à BNDigital. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 20 de outubro de 2020

O que os príncipes Dom João e Dona Carlota Joaquina vestiam quando desembarcaram no Rio de Janeiro em 1808

A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro provocou um rebuliço. No dia do desembarque, 8 de março de 1808, a população, em massa, postou-se nas ruas por onde o cortejo deveria passar. Quem é que deixaria, por vontade própria, de presenciar tal espetáculo? Por outro lado, era conveniente que os recém-chegados tratassem de fazer boa figura diante dos leais súditos, que, eufóricos, quase não se continham de tanto entusiasmo. Talvez em poucos dias mudassem de parecer, mas isso já é outra história.
D. Carlota Joaquina,
retratada por Debret (²)
Nessa ocasião D. João ainda não era rei. Governava na condição de príncipe regente, porque D. Maria I, a rainha, fora considerada incapaz, por questão de saúde, para o exercício do cargo. De qualquer modo, cumpridas certas formalidades ainda no navio, D. João pôde, afinal, pôr os pés em terra (¹), certamente com uma sensação de alívio. De acordo com José Vieira Fazenda em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, "[...] trajava casaca comprida, de gola muito alta, colete branco bordado, calções de cetim, botas curtas, dragonas, e levava à cabeça enorme chapéu armado, ornado de arminho, e grande espadagão pendente de cordões de fios de ouro, com as competentes borlas". Não era grande coisa, em comparação ao que se via nas cortes europeias anteriores à Revolução Francesa. Mas, para o povo do Rio de Janeiro, não acostumado a tanto brilho, ostentava uma aparência quase mágica.
Por outro lado, sua nobre consorte não parecia nada satisfeita. Que surpresa! Nas palavras de Vieira Fazenda, Carlota Joaquina estava "vivamente contrariada". Prossegue o mesmo autor: "Contou-nos testemunha ocular, que a viu passar na Rua do Rosário, que ia ela vestida simplesmente de preto, cabelos cortados e não empoados (³), sem joia alguma e sem mais ornato". 
D. Maria I, que, afinal de contas, ainda era a rainha, somente desembarcou, ou melhor, foi desembarcada, no dia seguinte, com muita discrição.

(1) D. João já estivera na Bahia, depois de viagem atribulada para cruzar o Atlântico.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Contrariando, portanto, a moda da época. Pensem, leitores no trajar das ilustres damas que, entre 1814 e 1815, lotavam os salões de baile durante o Congresso de Viena.


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Arariboia

Arariboia (¹) era cacique temiminó. Colonizadores portugueses gostavam muito dele, em razão de ser seu aliado. É fácil notar que os índios que se opunham à colonização eram considerados maus.
À frente dos guerreiros de sua tribo, Arariboia juntou-se às forças do governador-geral Mem de Sá para a guerra de expulsão dos franceses que haviam gostado tanto da baía de Guanabara que não queriam deixá-la em mãos de portugueses. A atuação dos indígenas, de um e de outro lado, foi importante no confronto. Afinal, vitoriosos os portugueses, foram enviadas notícias ao Reino. Em resultado, o jovem rei D. Sebastião mandou presentes ao chefe temiminó que tanto se destacara. "[...] El-rei D. Sebastião louvou o esforço do índio, mandou-lhe peças de estima, e entre elas um hábito de Cristo com tença, e um vestido de seu próprio corpo" (²), escreveu Simão de Vasconcelos, autor seiscentista. Sabe-se também que a Arariboia e sua gente foi concedido um lugar, a título de sesmaria, não muito longe do Rio de Janeiro. Era vantajoso ter um aliado desses por perto, com armas na mão para defesa dos colonizadores, sempre que fosse preciso. Seria impertinência perguntar que sentido faziam esses presentes, para quem fora, até pouco antes, senhor inconteste na terra em que nascera?
O episódio mais famoso associado a Arariboia tem que ver com a chegada do governador Antônio de Salema ao Rio de Janeiro em 1575, para assumir o mando nas "capitanias do sul". Foi recebido tanto por portugueses como por chefes indígenas, entre os quais o já idoso temiminó, a quem se dera o nome de Martim Afonso de Sousa (³) por ocasião do batismo. Conta frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (⁴), que, vindo Arariboia à presença do mandatário recém-chegado, foi-lhe concedida uma cadeira em que se sentasse. Isso era uma grande honra, segundo o costume da época, porque gente comum, se chegava a estar diante do governador, devia permanecer em pé, com o chapéu na mão e falando apenas quando permitido. O temiminó, porém, tinha outras ideias, e parece não ter dado grande importância às cerimônias dos colonizadores:
"[...] como o governador desse cadeira, e ele em se assentando cavalgasse uma perna sobre a outra segundo o seu costume, mandou-lhe dizer o governador pelo intérprete que ali tinha, que não era aquela boa cortesia quando falava com um governador, que representava a pessoa de el-rei.
Respondeu o índio de repente, não sem cólera e arrogância, dizendo-lhe: "Se tu souberas quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a el-rei, não estranharas dar-lhes agora este pequeno descanso, mas já que me achas pouco cortesão eu me vou para minha aldeia, onde nós não curamos desses pontos, e não tornarei mais à tua corte". Porém nunca deixou de se achar com os seus em todas as ocasiões, que o ocupou."
Grande Arariboia! Não podemos ter certeza de que as coisas foram exatamente assim - temos o relato de frei Vicente do Salvador, mas os índios, como se sabe, nada deixaram escrito. É de se lamentar, e muito. Tendo em conta, porém, o quanto os atritos entre nativos e colonizadores eram frequentes, não é absurda a suposição de que, ao menos na essência, esse incidente pode ser autêntico, porque não se esperaria que, décadas mais tarde, alguém se lembrasse dele, não fora pela forte impressão que causara.

(1) Há outras grafias, como Ararigboia, por exemplo.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 73.
(3) O mesmo nome do navegador português que percorrera, com sua expedição, o litoral brasileiro, várias décadas antes. Não confundir com outro indígena catequizado que aderira aos portugueses, o cacique Tibiriçá, que, no batismo, também foi chamado Martim Afonso, e que viveu em São Paulo no Século XVI.
(4) O manuscrito é de c. 1627.