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quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Quando começam os festejos do Natal

Estamos no final de outubro e já vejo lojas oferecendo artigos natalinos. Se isto continua, chegará um tempo em que o ano todo será Natal, e, com isso, perde-se a graça da festa. É mais ou menos o que acontece em relação à Páscoa, quando ovos de chocolate são postos à venda desde fins de janeiro. 
No dizer de Joaquim Manuel de Macedo, referindo-se ao Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, era esta a duração dos festejos de Natal durante o Século XVIII, e mesmo no XIX:
"As festas de Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias de Natal, de Ano Bom e de Reis." (¹)
De acordo com Macedo, os festejos de Natal eram, então, assinalados por missas, ceias e presépios:
"O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam (²) e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusmas de visitadores." (³)
Não havia muita novidade à disposição de quem vivia no Rio de Janeiro - como em todo o Brasil - durante o Século XVIII. Por isso, os presépios que anualmente eram abertos, talvez os mesmos, ano após ano, eram tão atraentes. Macedo referiu a existência de três, que mais se destacavam no Rio de Janeiro:
"No fim do Século passado (⁴), os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de S. Antônio, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do convento da Ajuda, mais pequeno [sic] que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo em que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelmente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da capela de N. S. do Livramento.
Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até a de Reis." (⁵) 
Uma coisa é certa; os festejos de Natal eram, em essência, religiosos. O elemento comercial não havia, ainda, se infiltrado neles.

(1)  MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 389.
(2) A missa do galo era celebrada à meia-noite; portanto, as ceias de Natal vinham antes dela.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.
(4) Referia-se ao Século XVIII.
(5) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit., p. 389.


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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Gelosias no Rio de Janeiro

Rótulas e gelosias foram usuais em casas do Brasil Colonial. Para que serviam? Na expressão de Joaquim Manuel de Macedo, "[...] rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas; mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas" (¹). 
Desde o Século XVIII, autoridades vinham se implicando com as rótulas e gelosias e tramando contra elas. No Século XIX, foram proibidas no Rio de Janeiro. São palavras também de Macedo:
"[...] logo em 1809 (²) a rua do Ouvidor, como todas as outras da cidade, melhorou muito o aspecto de suas casas, obedecendo ao edital de 11 de junho, mandado afixar pelo intendente-geral da polícia, o conselheiro Paulo Fernandes Viana, ordenando a abolição das rótulas e gelosias dos sobrados." (³)
Quem imagina, porém, que foi pronta a obediência, incorre em engano. Voltando ao que escreveu Joaquim Manuel de Macedo, somos informados de que "[...] muitas casas resistiram à reforma decretada pela civilização, somente aos poucos foram despedaçando suas rótulas e gelosias, e ainda hoje se conservam, anacrônicos, mas agora curiosíssimos exemplares daquelas casas antigas, por exemplo, em frente à porta principal da alfândega" (⁴). Conservavam-se, é claro, nos dias de Macedo. É bom que se diga que Memórias da Rua do Ouvidor teve sua primeira publicação em 1878.

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Portanto, já estando a Corte no Rio de Janeiro, desde que a família real chegara ao Brasil em 1808.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Op. cit.
(4) Ibid. 


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terça-feira, 29 de setembro de 2020

Nos internatos do Século XIX

Colégios em regime de internato já foram numerosos. Entende-se: na maior parte das povoações, havia, quando muito, uma escolinha de primeiras letras. Quem tivesse (ou pudesse ter) pretensões mais amplas de instrução precisava recorrer a colégios existentes nas cidades maiores e, por essa razão, era preciso que muitos alunos residissem na própria instituição de ensino. A proliferação de escolas em toda parte explica, ainda que parcialmente, o declínio no número de internatos disponíveis. Hoje constituem uma opção, não são inevitáveis.
Agora, leitores, convenhamos: não devia ser tarefa das mais fáceis preservar a disciplina no corpo discente de um internato, mesmo reconhecendo que no passado havia meios de coerção que ninguém hoje, em sã consciência, ousaria defender. Se querem um exemplo, considerem o que acontecia no Século XIX no internato do Imperial Colégio de Pedro II, instalado na capital do Império, para ser um modelo às instituições similares que viessem a ser criadas no Brasil. Vocês já vão entender do que estou falando. 
Joaquim Manuel de Macedo, que foi professor de História no Pedro II (¹) e, portanto, sabia do que estava falando, descreveu, em uma de suas obras, Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro, as instalações do internato, mencionando: "Indo da direita para a esquerda, a outra parte da casa que o corredor divide contém uma excelente sala que é a secretaria do internato, e em seguida uma saleta ou largo e curto corredor, onde está o livro do ponto; depois, uma outra saleta que se tornou em dois quartos destinados a servirem de prisão para os alunos que essa pena merecem". (²)
Haveria, por acaso, exagero nas palavras de Macedo? Vejamos, então, pela perspectiva de um aluno, José Vieira Fazenda, que, muito tempo depois de seus dias estudantis, escreveu em Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, ao recordar as disputas em que os colegiais se envolveram, em razão de um debate político que, na época, teve certa importância: "[...] As coisas chegariam a mau resultado, se não fora a disciplina rigorosa do Internato e o receio da privação de saída ou de dar com os ossos na solitária, quarto escuro, cheio de ratos, colocado por baixo de uma escada". 
É impossível não questionar a "pedagogia" embutida na existência de um compartimento desses em uma casa de ensino (³). Talvez fosse, porém, um poderoso instrumento de dissuasão para adolescentes turbulentos. Assim como as pessoas, cada época, com seus conceitos de instrução, tem suas virtudes e seus defeitos.

(1) Era médico por formação, mas fez muito sucesso como romancista. Lembram-se de A Moreninha?
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 366.
(3) Seria incorreto supor que todos os internatos do Século XIX rezavam pelo mesmo catecismo. Mas, para quem quiser dar um mergulho no que poderia ser o quotidiano dos estudantes em um desses estabelecimentos, a leitura de O Ateneu, de Raul Pompeia, pode ser instrutiva.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Horário das refeições no Império Romano e no Brasil Colonial

Hábitos dos romanos ricos quanto ao horário das refeições


Menções feitas por vários autores da época sugerem que os antigos romanos, ao menos nos dias do Império, tinham por costume fazer uma refeição muito leve pela manhã, composta, como regra, por frutas, pão, talvez queijo, e nada mais que isso. Por que tanta frugalidade? Vocês já vão descobrir, leitores.
Estamos falando, é certo, dos romanos livres e de boa situação econômica. Pão e frutas eram o hábito de muitos por volta do meio-dia ou mesmo mais tarde, e não gastavam muito tempo nisso - é que lá pela hora nona (¹) vinha a refeição de verdade, o banquete do dia, que, como já se pode imaginar, invadia as horas da noite. Entre romanos abastados, dar banquetes, aos quais parentes e amigos eram convidados, era uma forma civilizada de convivência. 
Os comensais eram servidos enquanto se mantinham deitados em leitos parecidos com divãs. Apoiavam-se em um dos cotovelos, ficando os alimentos em mesas dotadas de três pés, os triclínios. Havia gente em Roma que travava verdadeiras disputas quanto à sofisticação dos banquetes oferecidos, contratando cozinheiros que, no comando de numerosos escravos, faziam comparecer às mesas alimentos preparados com os mais exóticos ingredientes. Gente comedida se contentava, porém, com culinária mais sóbria. Para que tudo corresse a contento, era comum ter sempre alguém para ler durante as refeições, e mesmo músicos e dançarinos para entretenimento do anfitrião e de seus convidados. 
A situação da gente pobre era bem diferente, valendo o mesmo no caso dos escravos. Portanto, deve-se entender que os excessos cometidos em banquetes oferecidos por Calígula e outros imperadores eram exceção, e não regra, ainda que suas práticas chegassem, às vezes, a pôr em perigo a saúde financeira do Império. De acordo com Suetônio (²), em apenas um ano, Calígula esgotou o tesouro acumulado por Tibério, seu antecessor, e, vendo que o dinheiro escasseava, não teve dúvida em fazer lançar novos impostos. 

Horário das refeições no Brasil Colonial


Agora, vejamos o que acontecia no Brasil Colonial, em se tratando do horário usual para refeições. Graças a Joaquim Manuel de Macedo (³), que explicou a questão muito bem em Memórias da Rua do Ouvidor, é fácil saber que gente desse tempo já distante tinha hábitos diferentes daqueles que predominam no Brasil de hoje:
"No século décimo sexto e ainda até quase o fim do décimo oitavo, os antigos colonos portugueses não tinham no Brasil café para tomá-lo com a aurora, mas almoçavam com o sol às seis ou sete horas da manhã, e jantavam com ele em pino ao meio-dia, salvo o direito de merendar (hoje se diz fazer lunch) às dez horas da manhã."
Macedo, consciente ou não de que seria útil aos leitores do futuro, ainda explicou como andavam os horários de refeições em seu próprio tempo, aquele a que nos referimos como sendo o "do Império". Professor de História que foi, ainda que médico por formação, tratou de mostrar a razão para tanta mudança nos costumes:
"Atualmente a sociedade civilizada almoça à hora em que os velhos portugueses jantavam, e janta de luzes à mesa à hora em que se levantavam da ceia aqueles nossos avós.
História de progresso e de civilização, que levam e estendem o sol de seus dias até depois da meia-noite com a iluminação a gás, e, ainda preguiçosos, saúdam o rompimento de suas auroras às nove horas da manhã, quando abrem as cortinas de seus macios leitos, e tomam, ainda bocejantes, o seu café madrugador."
O conjunto de transformações, não só nos horários de refeições, mas no estilo de vida como um todo, foi atribuído por Macedo à introdução de iluminação artificial eficiente - a gás, em seus dias - que possibilitava à gente que não tinha de madrugar para o trabalho, ficar acordada, a tagarelar, até muito tarde. Tarde, sim, mas para os padrões antigos, não para os notívagos do tempo do Império. Que diria se visse como vivemos no Século XXI? 
A ceia praticamente desapareceu dos hábitos brasileiros, exceto em ocasiões especiais ou por investidas fortuitas e quase sigilosas à geladeira, quando a noite se adianta. Refeições, como regra, ficaram mais rápidas, e, para a maioria das pessoas, ocorrem três vezes ao dia: antes do trabalho, no intervalo do trabalho e ao final do dia de trabalho. Percebem qual é aqui a palavra-chave, a moldar os hábitos? A disciplina imposta ao trabalho a partir da Revolução Industrial modificou radicalmente as práticas relacionadas ao horário das refeições no Ocidente. Acreditem, leitores: nem mesmo o Brasil escapou a esse processo. 

(1) Cerca de 15 horas, de acordo com a época do ano.
(2) De vita Caesarum, Livro IV.
(3) 1820 - 1882.


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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O calabouço da capital do Império do Brasil

Escravos presos ao tronco, de acordo com Debret (¹)

Segundo Joaquim Manuel de Macedo, no volume 3 do Ano Biográfico Brasileiro, o calabouço do Rio de Janeiro foi criado pelo vice-rei D. Luís de Vasconcelos (²), na intenção - acreditem, leitores - de limitar os exageros que eram cometidos pelos senhores quando castigavam seus escravos:
"Por ordem do rei e para coibir o excesso de castigos dados aos escravos nas casas de seus senhores, criou [o vice-rei] o calabouço público, feia e sinistra inovação; mas inspirada por louvável sentimento." (³)
Não imaginem os leitores que os serviços prestados pelo calabouço aos proprietários de escravos eram gratuitos. Nada disso! O esperto vice-rei, que tinha grandes projetos em termos de urbanização da capital de seu vice-reinado, logo encontrou aplicação para as quantias pagas pelos senhores. É também Macedo quem explica, desta vez em Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, depois de mencionar a existência de um cofre no qual eram lançadas as rendas decorrentes do trabalho dos homens livres que, acusados de "vadiagem", eram recolhidos à Casa de Correção:
"Além desse dinheiro [dos detidos na Casa de Correção] recolhiam-se também no mesmo cofre as quantias que pelos açoites dos escravos pagavam os senhores no calabouço. E assim ia o vice-rei ajuntando boas somas, que aplicava às diversas obras públicas, e especialmente às do Passeio Público." (⁴)
Como sabem os leitores, a independência política do Brasil em nada alterou a situação dos escravos. Senhores continuavam a mandar cativos para o calabouço sempre que lhes dava na veneta, ainda que a legislação penal do Império fizesse vistas grossas para os castigos aplicados em casa ou em qualquer outro lugar, desde que "moderados", até porque ninguém provavelmente iria ter o trabalho de fiscalizar. O Almanaque Laemmert de 1852 assim explicava o funcionamento do calabouço:
"Acha-se também no estabelecimento [a Administração das Obras] a prisão do calabouço, para a qual são enviados os escravos que são presos por fugidos ou outros quaisquer motivos, ou por ordem de seus próprios senhores, que o podem fazer mediante um bilhete de remessa com as declarações necessárias, e acompanhado da importância provável da despesa que o escravo pode fazer durante o tempo que se quer que ele ali seja conservado, e findo este prazo devem mandar renovar o depósito da importância das referidas despesas, e não o fazendo é o escravo posto em liberdade.
Todo o expediente relativo a escravos, quer de solturas e informações para elas, quer para serem vistos ou examinados, tem lugar unicamente de manhã, das oito e meia às nove, e de tarde, de uma às três (⁵), dos dias úteis. Os escravos remetidos por seus senhores são recebidos nos dias úteis desde as sete horas da manhã até às cinco da tarde, e nos dias de guarda, desde as nove da manhã até duas da tarde." (⁶)
Reparem, leitores, a naturalidade com que se explica o funcionamento do calabouço, como se faria em relação a qualquer repartição pública. Mais detalhes são providos pela edição de 1871 do Almanaque:
"Pela reclusão do escravo no calabouço se paga, nos períodos designados no regulamento, 400 réis diários, ou 1200 réis se esteve na enfermaria; além disto, nada se cobra de carceragem ou outros emolumentos. Na entrada do preso muda ele de roupa, que é guardada com qualquer objeto de valor que se lhe encontre para lhe ser restituído à vista de seu senhor no ato de ser posto em liberdade." (⁷)
Posto em liberdade? Ora, no ato de voltar para a escravidão!...
Mas não era só. A mesma edição de 1871 do Almanaque explicitava a presença de um médico para determinar se e quanto podia um escravo ser castigado (ou, se preferirem, torturado):
"Os castigos são mandados infligir aos escravos por ordem da polícia, à requisição de seus senhores, e o médico do estabelecimento verifica se o paciente está nas condições sanitárias de os sofrer." (⁸)
É evidente que as exigências quanto a uma ordem policial e à autorização de um médico serviam, formalmente, para restringir exageros, além de fornecer um verniz de legalidade, mas não eram raras as testemunhas que, na época, diziam ter visto escravos que saíam do calabouço completamente ensanguentados. Por outro lado, não chega a ser uma surpresa que houvesse algum médico que se prestasse ao trabalho de examinar prisioneiros que iam ser torturados, já que em nosso moderníssimo Século XXI há ainda países que praticam barbaridades como castigos físicos, que, ou incluem ou resultam em mutilação vitalícia, sob o beneplácito de médicos que atestam que os infelizes podem assim ser punidos. Não se discute aqui se há, em cada caso, crime ou não. O que se questiona é a selvageria das penalidades. No mínimo, o Estado que procede desse modo é tão brutal quanto os criminosos sentenciados.
Tudo o que se disse em relação ao calabouço, era válido na capital do Império. Deixo aos leitores que imaginem o que sucedia nos pontos mais longínquos do País, onde dificilmente haveria qualquer autoridade para limitar o arbítrio dos senhores. 

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Vice-rei do Brasil entre 1778 e 1790.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Ano Biográfico Brasileiro vol. 3. Rio de Janeiro: Typographia e Lithographia do Imperial Instituto Artístico, 1876, p. 120.
(4) Idem. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 102.
(5) Das treze às quinze horas.
(6) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano Bissexto de 1852. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1852, p. 105.
(7) HARING, Carlos Guilherme. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1871. Rio de Janeiro: E & H Laemmert, 1871, p. 137.
(8) Ibid.


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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A influência do despotismo de Estado no âmbito das relações familiares

Qualquer jovem estudante sabe: no Brasil dos tempos coloniais, e mesmo mais tarde, os senhores de engenho, fazendeiros, bandeirantes, etc., comandavam as respectivas famílias com autoridade inconteste. Para eles, pouco valiam as leis escritas. A justiça, eles a faziam aplicar como bem entendiam, o que significava que, à menor suspeita de alguma falta, mandavam matar mesmo a mulher ou algum dos filhos. Há, por exemplo, um caso célebre de um sujeito que mandou que um de seus filhos matasse um seu outro filho (irmão, portanto, daquele a quem se encomendou o assassinato), em virtude de desconfiar de que o rapaz andava de caso com uma de suas amantes (dele, pai). A ordem foi cumprida e o patriarca ainda teve o desplante de ordenar que o padre das redondezas comparecesse para o ofício fúnebre de missa por intenção da alma do assassinado.
Terrível? Essa é apenas uma dentre muitas histórias mais ou menos parecidas. 
Joaquim Manuel de Macedo, médico por formação, porém mais conhecido como romancista (foi também professor de História no Imperial Colégio de Pedro II), tinha uma ideia interessante sobre as atitudes brutais que, em certo tempo, imperaram nas famílias brasileiras - elas seriam apenas a aplicação, em família, do mesmo princípio que regulava o despotismo no âmbito do Estado, ainda que admitindo haver, apesar de tudo, casais que viviam bem e pais que, de fato, tinham grande amor pelos filhos. Ressalvava, no entanto, que "estas exceções não destruíam a regra que proviera daquela rudeza de costumes e da educação mais que austera, quase bárbara, da sociedade daqueles tempos de despotismo do governo do Estado, e despotismo do governo das famílias." (¹)
Um desdobramento do tal despotismo patriarcal, que hoje salta aos olhos de quem se dá ao trabalho de estudar a sociedade dos tempos coloniais, está relacionado à maneira como eram contratados os casamentos, em particular nos casos de famílias dotadas de algum patrimônio. Sigamos apreciando o humor no estilo de Macedo:
"Naquele tempo (no bom tempo), em grande número de casos o marido não era um consorte, era um senhor, e as moças casavam sem saber com quem, viam os noivos no dia do casamento, porque os pais tomavam pelos noivos e noivas o trabalho de enlaçar-lhes os corações sem consultá-los. O pai do noivo e o pai da noiva namoravam-se mutuamente com todos os preceitos e regras da aritmética, e desde que se punham de acordo na discussão do dote, ficava resolvido que o rapaz e a rapariga se adoravam perdidamente, ainda que nunca se tivessem visto, e realizava-se o casamento.
Quantas uniões infelizes resultavam de semelhante prática pode-se bem calcular. Deviam por certo abundar os maridos tiranos e as mulheres vítimas, as mulheres infiéis e os maridos desgraçados, e verdadeiros purgatórios nas vidas que passavam muitos casais." (²)
Ah, leitores, acho que tudo isso põe de sobreaviso quem quer que tenha a veleidade (ou, talvez, a ingenuidade) de achar que tempos antigos eram, necessariamente, tempos melhores. Joaquim Manuel de Macedo por certo não concordaria. Se vivesse em um universo patriarcal, a sua Moreninha estaria em muito má situação. Não era, porém, descabida entre a elite educada da capital do Império.

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, pp. 378 e 379.
(2) Ibid., pp. 377 e 378.


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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Iluminação noturna: das lâmpadas a óleo à luz elétrica

Iluminação pública com azeite de peixe, de acordo com José dos Reis Carvalho (¹)

"Já viram lâmpada sem óleo conservar a sua luz?" (²), perguntou Joaquim Manuel de Macedo. Sim, no passado o óleo, independente de que tipo fosse, era a chave para manter as lâmpadas acesas quando chegava a noite, trazendo consigo a escuridão. E tudo foi muito escuro por milênios, a não ser pelas velas ou lâmpadas a óleo ou azeite. Quem saía às ruas nas horas da noite precisava levar consigo algum tipo de lanterna ou lampião, e mesmo assim era difícil enxergar além da distância suficiente para alguns passos. Compreende-se, pois, porque é que a maioria das pessoas evitava sair quando escurecia. Era mesmo muito arriscado.
Séculos não muito distantes de nós trouxeram consigo a iluminação de rua, que faz recordar aquele trechinho de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, - um antigo lampião de azeite, - triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação."
Com os lampiões de rua vieram também os acendedores de lampiões, que deviam fazer seu trabalho todo final de tarde. No Brasil, os lampiões da iluminação pública foram, por muito tempo, abastecidos principalmente com óleo de baleia (³).
Posteriormente as cidades passaram a ter um sistema mais moderno de iluminação, no qual os lampiões funcionavam a gás. Nessa época, mesmo sendo escassa a iluminação, uma cidade, à noite, parecia muito brilhante, quando contrastada à escuridão que imperava ao seu redor. Ora, se não temos hoje ideia do que significava isso, já que vivemos em um mundo no qual a regra é o excesso de luzes e não a falta delas, temos, ao menos, um relato interessante do pintor francês François A. Biard, que esteve no Rio de Janeiro em 1858:
"Numa curva do caminho descortinei um espetáculo soberbo: lá em baixo todas as ruas iluminadas, toda a cidade verdadeiramente feérica. Os lampiões a gás espalhados pelas montanhas, como as de Santa Teresa, do Castelo e Glória, destacavam-se no céu, misturavam-se com as estrelas, no meio das quais o Cruzeiro do Sul brilhava como uma cruz de fogo." (⁴)
O aparecimento da luz elétrica tornou mais confortável a circulação pelas ruas das cidades em horário noturno, ainda que não tenha, necessariamente, significado maior segurança (não por culpa da luz, porém). A beleza das luzes urbanas quase apagou, no entanto, um espetáculo ainda mais belo - o do céu noturno, cada vez mais difícil de ser observado, a não ser muito longe das áreas densamente povoadas.

(1) Obra de José dos Reis Carvalho, 1851. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 381.
(3) Lampiões a querosene também foram usados.
(4) BIARD, François A. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 39.


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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Cadeias públicas no Império do Brasil

Até uma oficina de ferreiro funcionava como prisão


No Brasil, como se sabe, tem havido por vezes uma enorme diferença entre o que as leis determinam/determinavam e o que em realidade sucede/sucedia. Um exemplo notável desse "fenômeno" é o que ocorria em relação às cadeias públicas nos dias do Império.
A Constituição de 1824, outorgada pelo primeiro imperador, D. Pedro I, declarava em seu Artigo 179, XXI:
"As cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias e natureza dos seus crimes."
Cumpria-se? Nem tanto. Ou nem de leve. 
Joaquim Manuel de Macedo escreveu, entre 1862/1863:
"É verdade que um cárcere sempre é um cárcere. Mas ah! se em vez de passeardes comigo pela capital do Império, empreendêsseis uma viagem instrutiva pelas vilas do interior das nossas províncias, entrando na conta a do Rio de Janeiro [...], e visitásseis suas cadeias; cair-vos-ia, eu o juro, a alma aos pés, observando a inconstitucionalidade, o estado miserável desses focos de peste, onde se amontoam detidos de envolta com sentenciados, simples suspeitos de mistura com celerados, respirando todos ondas pesadas de um ar corrupto e repugnante [...]." (¹)
De passagem, recordemo-nos de que Macedo era, por formação, um médico, daí a preocupação com a qualidade do ar que respiravam os presos nas cadeias públicas. Aliás, a descrição feita por ele, levando-se em conta a atualização necessária, poderia ser perfeitamente aplicada a grande parte das cadeias e presídios da atualidade. Mas não mudemos de assunto...
Herança do período colonial, em muitos lugares a cadeia funcionava no primeiro pavimento de um prédio cujo andar superior era destinado à Câmara Municipal. Aos poucos, essas duas serventias foram ganhando independência, de modo que novas prisões deviam ser construídas. Nem sempre, porém, atendiam a critérios de higiene e de segurança.
Referindo-se à cadeia pública de Juiz de Fora, que viu em 1867, o inglês Richard Burton observou: "A prisão não guardaria um criminoso londrino durante um quarto de hora." (²)
Já sobre a prisão de Sabará, também em Minas Gerais, escreveu:
"Ao sul, fica um prédio pretensioso e antigo, de pedra-sabão embaixo e adobe em cima, tendo na frente uma sacada, apoiada em quatro colunas de madeira. O sino e as armas imperiais em cima mostram que se trata da Municipalidade; as feias janelas gradeadas embaixo mostram que se trata da cadeia. [...] Os presos pobres são aqui, como em todo o Brasil, sustentados pelo poder público, e não deixados, como em Goa e Madeira, na dependência da caridade privada." (²)
Em muito melhores condições estava, de acordo com o mesmo autor, a prisão de Ouro Preto, na época ainda capital da Província de Minas Gerais:
"O lado sul da praça é ocupado por um belo e sólido prédio antigo, a prisão; dizem os mineiros que, em Ouro Preto, só há duas coisas boas: a cadeia e a água. Alegava-se que era a melhor cadeia do Brasil; talvez fosse, mas, agora, não pode se comparar com a bem construída Casa de Correção (³). No local, há um chafariz com uma comprida inscrição, e uma dupla escadaria conduz à entrada, com sentinelas, flanqueada por janelas gradeadas. O primeiro e o segundo pavimentos têm colunas jônicas, com enormes e pesadas volutas, e ao redor do telhado há uma maciça balaustrada de pedra, com uma estátua da Justiça e outras virtudes de cada lado; também não foi esquecido o para-raios. Os presos são 454 homens e 12 mulheres, uma diferença notável. Visitamos, no andar superior, a enfermaria e as salas destinadas aos recrutas dispostos a desertar (⁴); o sistema de esgotos foi um tanto melhorado, mas ainda há algo a fazer, no que diz respeito à limpeza. Os presos mostram-se mais diligentes que habitualmente, e o diretor da prisão, Sr. Joaquim Pinto Rosa, judiciosamente providência para que todos eles executem algum trabalho manual."
Saibam porém os leitores que o caso mais estranho de prisão, cuja descrição conheço, foi mencionado pelo brigadeiro Cunha Matos, que esteve na Vila de São João da Palma poucos anos após a independência. Disse ele:
"Não há nesta vila Casa de Câmara, e uma loja de ferreiro serve de cadeia, de forma que os presos que estão com os pés no tronco, acham-se expostos às faíscas do ferro em brasa." (⁵)
Vejam lá se não havia, afinal, uma curiosa síntese de prisão e câmara de tortura! No entanto, o fato de que Cunha Matos tenha visto gente presa ao tronco, tendo os pés pouco a pouco torrados pelas faíscas, significa que nem mesmo semelhante tormento era suficiente fator de dissuasão à criminalidade.

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 177.
(2) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 78.
(3) Do Rio de Janeiro, capital do Império.
(4) A descrição de Richard Burton data da época da Guerra do Paraguai. Muitos dos chamados "Voluntários da Pátria" nada tinham de voluntários: eram recrutados à força, e conduzidos ao serviço militar sob a mira das armas.
(5) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 146.


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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Quem deveria amamentar os bebês?

Durante muito tempo amamentar bebês humanos foi tarefa delegada a amas de leite, livres ou escravas. As mães, quando tinham posição social elevada, jamais faziam isso. Houve até filósofo que abordasse a questão, tentando mostrar que meninos destinados a liderar a sociedade nunca deveriam ser amamentados pelas próprias mães, pois tal contato com elas seria prejudicial à sua educação.
Diante dessa mentalidade, não deve surpreender a ninguém o fato de que, no Brasil, até boa parte do Século XIX, a amamentação de crianças livres fosse confiada a escravas. A Literatura está repleta de referências a esse costume. Veja-se este trecho, a título de exemplo, da obra As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo:
"Uma noite, por exemplo, levou o crioulo a conversar no terreiro da venda.
Depois de fácil ajuste para um de seus frequentes deboches em senzalas de escravas e sítios ocupados por gente depravada, o Barbudo perguntou:
– Simeão, donde diabo veio o favor que conseguiste de teus senhores? Olha que deveras eles te estimam!
– Minha mãe foi ama de leite da menina – respondeu o crioulo."
Ainda outro exemplo, também de Macedo, em Uma Pupila Rica:
"Não consentem que eu tenha uma amiga, nem que eu desça sozinha ao jardim, nem que saia uma vez de casa, ao menos para levarem-me à igreja: despediram a minha ama de leite que meu pai libertara com a condição de acompanhar-me até o meu casamento: enclausurada e suspeita, as criadas espiam-me..."
Ama de leite (*)
Em uma época na qual havia poucas ocupações socialmente aceitáveis para mulheres de condição livre, mas pobres, e que, portanto, precisavam ganhar o próprio sustento, ser ama de leite era uma solução, temporária, é verdade, mas à qual não poucas recorriam. Valendo-nos, mais uma vez, da Literatura, encontramos em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, este trecho:
" - Olha! pediu ela, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Mole, nesta ultima barriga, tomou conta de um pequeno aí na casa de uma família de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mês... E muito bom passadio!..."
Aos poucos, porém, sob influência do pensamento médico e com o fim da escravidão, as expectativas da sociedade iriam mudar. Por um lado, verificou-se que a amamentação era, de fato, muito importante para a saúde do bebê; por outro, passou-se a deplorar que, para isso, as tenras criancinhas fossem entregues aos cuidados de pessoas estranhas. Em nome da higiene e da necessidade, aquilo que se condenara, ou seja, que as mães de elevada posição social amamentassem seus pimpolhos, passou-se a recomendar como um dever sagrado e intransferível. A propaganda logo faria uso desse novo ideário, como, a seguir, constatarão os senhores leitores, através de dois anúncios que ilustram muito bem a questão.
Neste primeiro caso, o anúncio publicado na revista paulistana A Cigarra em dezembro de 1924 afirma sem rodeios o dever materno da amamentação, oferecendo um produto que "realiza este ideal":
 

Já neste outro anúncio, que apareceu em A Cigarra em janeiro de 1928, um outro produto é apresentado na suposição de que favoreceria a saúde das mães que amamentavam seus bebês:



(*) _______________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os "aguadeiros", vendedores de água


Vendedor de água (⁴)

"Aguadeiros" eram chamados os vendedores de água que, antigamente, percorriam as ruas das cidades brasileiras. Nem sempre eram escravos. Havia alguns, em menor número, que eram de condição livre. No entanto, quer livres, quer cativos, eram muito necessários em tempos nos quais o suprimento de água potável, para uso doméstico, podia ser um grande problema.
Os escravos vendedores de água tinham um modo peculiar de anunciar a mercadoria, conforme conta Joaquim Manuel de Macedo, ao explicar que, durante o vice-reinado de Dom Luís de Vasconcelos (¹), chuvas muito fortes deixaram a cidade do Rio de Janeiro com grande falta de água, fazendo com que os preços praticados pelos aguadeiros subissem vertiginosamente:
"Alguns meses apenas tinham passado depois da chegada de Luís de Vasconcelos ao Rio de Janeiro, quando, em consequência de chuvas aturadas e violentas, romperam-se os aquedutos das fontes públicas, deixando os habitantes da cidade em luta com a carestia d'água, que somente de longe se podia trazer.
Então o pretinho que passava pela rua gritando - Ii! - fazia pagar por um preço relativamente fabuloso o pote d'água que levava à cabeça, e isso era um tormento para os pobres e um motivo de lamentações para os ricos." (²)
Curiosa, mesmo, é a origem atribuída ao grito que os aguadeiros usavam para deixar claro a meio mundo que iam já pela rua com a água tão necessária. É ainda Macedo quem se dispõe a elucidar a questão:
"Se não compreendeis bem a significação deste grito dos vendedores d'água, que ainda se ouvia no Rio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico. Logo depois da fundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios que vendiam água aos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: - Ig! Ig! - palavra que foi corrompida mais tarde pelos africanos escravos." (³)
Origem difícil de comprovar, convenhamos. Mas a explicação é engenhosa, e Joaquim Manuel de Macedo não é o único autor a fazer-lhe a defesa.

Escravos carregadores de água (⁵)

Cabe notar que nem todo mundo comprava água dos aguadeiros. Havia, por suposto, quem dispunha de sua própria fonte ou poço, ou ainda quem tinha um ou mais escravos encarregados da tarefa de buscar água nos chafarizes ou em outros pontos de abastecimento.
Levaria ainda um bom número de anos para que as grandes cidades brasileiras deixassem de ter problemas para assegurar, aos moradores, qualidade satisfatória no abastecimento de água. Já quanto às pequenas povoações no interior, em particular nas localidades em que longas estiagens não são incomuns, não é possível afirmar que, mesmo hoje, o problema tenha sido de todo resolvido. Um absurdo, afinal, que já na segunda década do Século XXI, ainda precisemos expressar insatisfação com a estrutura de saneamento básico de parte do Brasil.

(1) Governou o Brasil entre 1778 a 1790.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 82.
(3) Ibid., pp. 82 e 83.
(4) _____________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Ibid. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog .


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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Coches, tílburis, carruagens

Transporte urbano com tração animal


Câmara dos Senadores, tendo, nas imediações, veículos de tração animal (¹)

O Paço Imperial, construído no Rio de Janeiro no Século XVIII, para servir,  inicialmente, como residência do Governador (vice-rei), era dotado de duas cocheiras, segundo descrição de Joaquim Manuel de Macedo:
"A face do norte apresentava [...] um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril." (²)
Não se espantem os leitores: cocheiras eram absolutamente necessárias. Animais que serviam ao transporte de humanos e de carga precisavam de moradia.
Muita gente andava a cavalo; em áreas urbanas, porém, a maioria das pessoas preferia os "carros", que podiam ser coches, seges, troles, tílburis, e assim por diante.
Como a maioria de nós, gente do século XXI, não tem a menor intimidade com o uso desses veículos, vai aqui um pequeno dicionário para alguns deles, sem nenhuma pretensão a rigor técnico, apenas para dar uma ideia:

Sege - tinha só um par de rodas e um assento. Cortinas ocultavam o(s) passageiro(s).
Coche - semelhante à sege, mas geralmente com quatro rodas.
Carruagem - Montada sobre molas, para reduzir o impacto ao passar por buracos e outras irregularidades do terreno (não pouco frequentes).
Carroça - com duas ou quatro rodas, servia para o transporte de carga. Era puxada por cavalos, burros ou mulas.
Trole - era uma carruagem bem simples, que se usava para o transporte de passageiros, principalmente no interior do Brasil.
Tílburi - Tinha um só par de rodas, com um único animal de tração.

Um fiacre, desenho de Thomas Ender (³)

A literatura brasileira do Século XIX contém numerosas referências a meios de transporte com tração animal, mesmo porque eles eram parte da vida quotidiana de quase todo mundo. Em Dom Casmurro, por exemplo, a personagem que dá título à obra relata o apreço que tinha, na infância, por passear na sege de propriedade do pai. Bentinho contará por si mesmo:
"Era uma velha sege obsoleta, de duas rodas, estreita e curta, com duas cortinas de couro na frente, que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. Cada cortina tinha um óculo de vidro, por onde eu gostava de espiar para fora.
- Senta, Bentinho!
- Deixa espiar, mamãe!
E em pé, quando era mais pequeno, metia a cara no vidro, e via o cocheiro com as suas grandes botas, escanchado na mula da esquerda, e segurando a rédea da outra; na mão levava o chicote grosso e comprido. Tudo incômodo, as botas, o chicote e as mulas, mas ele gostava e eu também."
É bom lembrar que a maioria das pessoas, nas cidades, fazia uso de "carros de aluguel", num sistema semelhante aos modernos táxis, mas havia quem tivesse seu próprio meio de transporte. A propósito, quem tinha, por exemplo, um coche particular, devia ter, também, um escravo ou empregado para a função de cocheiro ou condutor. Nos carros de aluguel o cocheiro era, em geral, assalariado para a função. É também de Machado de Assis esse trechinho de Quincas Borba que nos permite entrever o fato de que cocheiros podiam, afinal, ser pessoas que apreciavam informações em primeira mão, o que obrigava casais apaixonados à guarda de um comportamento, digamos, discreto:
"Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que há de haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente falava à vontade, e iria ao fim da Terra."

Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender (⁴)

(1) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental. Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 36.
(3) Fiacre, desenho de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Meio-coche, desenho aquarelado de Thomas Ender. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Máquinas a vapor


Embarcação a vapor no Rio das Velhas, 1868 (¹)

As locomotivas a vapor foram tão marcantes ao longo do século XIX e, por algumas décadas, também do século XX, que, para muita gente, locomotiva a vapor e máquina a vapor são a mesma coisa. Mas não são: a máquina a vapor foi invento que possibilitou que muitos outros dele decorressem - havia uma infinidade de equipamentos a vapor, desde os grandes teares que movimentavam a indústria têxtil da Inglaterra e de outros países, passando por navios e maquinário agrícola, até, curiosamente, automóveis que chegaram a ter alguma circulação, antes que motores a diesel ou gasolina se afirmassem soberanos.
Para se ter uma noção da importância que as embarcações a vapor desempenharam no século XIX, basta mencionar que os correios que faziam a ligação entre a Corte (Rio de Janeiro) e São Paulo eram determinados com base nas datas em que os vapores executavam esse trajeto (entenda-se, a metonímia era usual).

Locomotiva a vapor sobre a Ponte da Barra, Estrada de Ferro D. Pedro II, 1881 (²)

Foram, no entanto, as locomotivas, arrastando carros e vagões (de passageiros e carga, respectivamente) que ganharam a afeição popular. Pelos "caminhos de ferro" as notícias, antes tão lentas, circulavam mais depressa; muito menino, olhando o trenzinho que surgia, à distância, deve ter sonhado em romper com a vidinha sossegada do lugar de origem, para ir tentar a sorte em uma cidade grande. Não há dúvida - para o Brasil do Século XIX, a construção de ferrovias, ainda que morosa e limitada a algumas regiões, trouxe uma ruptura significativa com o passado.
Não surpreende, pois, que Joaquim Manuel de Macedo escrevesse, nos tempos do Segundo Reinado:
"Vivemos no século do vapor, e atualmente tudo se faz a vapor, até mesmo os estadistas e os salvadores da pátria.
E é também por isso que o Brasil vai a vapor. Para onde? Não sei. Só Deus o sabe." (³)

(1) Primeiro vapor a percorrer o Rio das Velhas; fotografia de Augusto Riedel, 1868. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Linha Central da Estrada de Ferro D. Pedro II, Ponte da Barra, 1881. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 242.


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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Quão pesada era uma cadeirinha de arruar?

Senhora conduzida por escravos em uma cadeirinha de arruar (¹)

Vou dizendo logo de saída, senhores leitores: não tenho resposta à pergunta que propus no título desta postagem. Não faço a mínima ideia (²). Mas sei de um sujeito que, empiricamente, deve ter descoberto quão pesada era uma cadeirinha de arruar.
O episódio foi contado por Joaquim Manuel de Macedo (sim, o autor de A Moreninha), o médico, professor de História no Colégio Pedro II e escritor, e segundo ele, ocorreu no Rio de Janeiro quando Dom Luís de Vasconcelos era vice-rei no Brasil. Portanto, ainda no Século XVIII, em algum momento entre 1778 e 1790.
De acordo com Macedo (³), que, asseverando a autenticidade do fato afirmava, nesse sentido, ter feito todas as investigações, em um dia de intenso calor João Homem fazia-se carregar em uma cadeirinha por dois escravos, ladeira acima, no Morro da Conceição. Naturalmente vinham os escravos bastante fatigados, suando profusamente, mesmo porque João Homem não era um indivíduo de dimensões lá muito reduzidas.

Cadeirinha de arruar de meados do Século XIX (⁴)

Ora, quem acha que apenas madames eram transportadas em cadeirinhas de arruar está muito enganado. Os do sexo masculino também faziam uso desse meio de transporte. Voltemos, pois, à história de João Homem.
Lá ia a cadeirinha morro acima, quando, descendo, passou por ela o próprio vice-rei, Dom Luís de Vasconcelos. Deixo, agora, que J. M. de Macedo conte o restante:
"Luís de Vasconcelos, que vinha de mau humor, irritou-se, vendo os escravos arquejando de fadiga: mandou-os parar, fez sair da cadeirinha a João Homem, ordenou-lhe que tomasse o lugar de um dos negros, obrigou a este a ir sentar-se dentro da cadeirinha, e lá se foi o senhor, ajudando a carregar o escravo pela ladeira acima.
- É para ensiná-lo a ser mais humano - disse o vice-rei. E depois prosseguiu em seu caminho muito contente de si."
Penso que jamais saberemos o que terá sucedido posteriormente. Seria João Homem capaz de vingar-se do escravo? É possível, tanto quanto é igualmente possível que o temor de que o vice-rei rei tomasse conhecimento da desforra tenha sido suficiente para manter em respeito o despeitado senhor de escravos. O episódio, no entanto, é delicioso, concordam?

(1) Carlos Julião, final do Séc. XVIII ou início do XIX. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Todas as cadeirinhas de arruar que vi eram confeccionadas em madeira de boa qualidade. Não eram leves, portanto.
(3) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 98.
(4) H. Lewis, 1848. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Joaquim Manuel de Macedo - um professor de História na capital do Império do Brasil

Se você acha que Joaquim Manuel de Macedo foi apenas um romancista do Século XIX - o sujeito que escreveu A Moreninha - está muito enganado. Macedo era, por formação, um médico, mas acabou professor de História no Colégio Pedro II. Fez fama com seus romances, que caíram rapidamente nas graças do público, mas escreveu também Lições de História do Brasil Para Uso dos Alunos do Imperial Colégio de Pedro Segundo, cuja primeira edição data de 1861. Nesse livro, é bom recordar, Macedo pretendia (pelos menos assim afirmava) ter seguido a História Geral do Brasil, de F. A. Varnhagen, o que deve ser entendido como sendo referência à primeira edição, já que a segunda, mais "definitiva", somente viria em 1872 - posteriormente, como se vê, à primeira edição da obra didática de J. M. de Macedo.
Aqui estão alguns trechos de seu livro, que dão uma ideia do que o professor Joaquim Manuel de Macedo andava a ensinar a seus alunos no Pedro II. Vejamos (*):

a) Crítica aos jesuítas (p. 40):
"Mas os padres da Companhia não paravam aí, e em sua orgulhosa ambição queriam ter no governador-geral do Brasil um instrumento de sua preponderância, e não sofriam pacientemente que essa autoridade contrariasse às vezes os seus interesses e os seus planos de futuro."
Além disso, assim se expressou com respeito à expulsão dos jesuítas de Portugal e seus domínios (pp. 205 e 206):
"Sem discutir o direito incontestável que assistia ao governo de Portugal para tomar essa transcendente medida, é fácil demonstrar que ela foi útil, e era necessária ao Brasil. Os jesuítas tinham sem dúvida prestado imensos serviços à grande colônia portuguesa da América; a época porém da sua conveniente intervenção ou já estava passada, ou eles não conheciam mais o limite, além do qual a sua influência de benéfica se tornava perigosa e intolerável; o seu interesse particular servira a causa da humanidade nos primeiros tempos coloniais; desde alguns anos porém mostrava-se em luta desregrada com os altos interesses do Estado; defendendo a liberdade dos índios, embora por conveniência própria, a Companhia tinha-se mostrado humanitária e civilizadora; mas depois abusando do seu poder sobre os rudes filhos do deserto, e deles fazendo uma coorte, que não hesitou em opor ao governo do rei, condenou-se, como uma instituição revoltosa e nociva, e provocou o raio com que a fulminou o Marquês de Pombal, a quem apoiaram as convicções de toda a população civilizada do país."

b) Sobre a "aclamação" de Amador Bueno (p. 107), servindo-se do assunto para doutrinar os meninos quanto a não deverem nunca incitar a multidão para uma mudança de governo:
"O desinteresse e a abnegação de Amador Bueno deixaram uma bela página à História do Brasil: ainda mesmo aqueles que explicarem o seu procedimento pelas probabilidades ou quase certeza de um reinado efêmero, pois que São Paulo não poderia manter-se independente, reconhecerão ao menos a força de ânimo e a nobreza do coração do homem, que resistiu ao encanto da ambição, e que não quis que se derramasse o sangue do povo para experimentar a fortuna, ou para, ainda mesmo por algumas semanas, ser o chefe de um Estado, e chamar-se rei; nunca se incita sem perigo a ambição dos homens, e aquele que assim incitado refreia a multidão que o procura e quer exaltar, presta um serviço relevante, e deve ser levado à posteridade."

c) Guerra contra os holandeses no Século XVII (p. 143):
"A insurreição já estava nos corações pernambucanos, quando Vidal de Negreiros correu a excitá-la. Os vigorosos motores dela foram o triunfo da nacionalidade portuguesa em 1640, e a influência da religião católica que os brasileiros não toleravam que continuasse a ser insultada e proscrita. O grito de guerra soltado por Vidal ao ligar-se a Vieira foi este: "Deus e liberdade!"
Assim pois a destruição do poder holandês no Brasil foi principalmente devida em boa parte aos erros dos próprios holandeses, e depois em máxima parte à impulsão dos dois nobilíssimos sentimentos: o da religião, e o do nacionalismo."
Recorde-se, apenas, que nos dias de Macedo estava em vigor a Constituição de 1824, segundo a qual o Catolicismo era religião oficial do Império do Brasil.

d) Quilombo de Palmares (p. 164):
"É provável, ou mesmo certo, que a imaginação de um ou outro escritor mais poético, que as relações de informantes exagerados por medo ou por gosto, enfeitassem os rudes quilombos com uma história romanesca de instituições, costumes e tendências generosas, que desafiam a curiosidade, e mesmo tal qual admiração.
[...].
Ocupando uma grande extensão, subdivididos em quilombos principais, no berço de dois dos quais se levantaram depois as vilas de Jacuípe e da Atalaia, os famosos Palmares chegaram a conter, segundo uns onze mil, e segundo outros até trinta mil escravos fugidos, e provavelmente desertores, e criminosos, e avultavam pois ameaçadores, oferecendo guarida e liberdade a quantos escravos queriam escapar ao domínio de seus senhores, e zombando do governo da Capitania que os não podia destruir."
A escravidão estava ainda em vigor no Brasil - duraria até 1888 - não sendo surpresa que, à época, os quilombos fossem condenados, porque eram vistos, em última análise, como um atentado à estabilidade econômica do Império. Além disso, o medo de uma revolta de escravos, de grandes proporções, não estava, de modo algum, ausente.

e) Repressão à Revolução Pernambucana de 1817 (p. 257), uma nova oportunidade para doutrinar os alunos contra qualquer ação no sentido de uma mudança no governo estabelecido:
"Aqueles que se arrojam a empunhar as armas contra o governo estabelecido, que o atacam em campo armado, tentando destruir as instituições, e perturbando a ordem da sociedade, expõem-se aos golpes da espada da lei, que os condena, e quando soa a hora tremenda do castigo, sofrem as consequências de seus próprios atos. Então é natural que se lamente a necessidade da punição, mas respeita-se a mão da autoridade que pesa sobre os culpados; então aplaude-se a anistia que regenera o condenado, e que o lava do crime no Jordão da clemência; mas se não vem a anistia, nem por isso a consciência pública desconhece o fundamento do castigo."
Quando a primeira edição foi publicada, não haviam chegado, ainda, os dias da maior efervescência quanto à campanha republicana. No entanto, fica evidente o propósito de incutir nos jovens estudantes o senso de obrigação quanto a preservar a Monarquia. Parece-me, todavia, que o efeito da "vacina" não foi lá muito eficaz: não poucos alunos do Colégio Pedro II prosseguiam seus estudos na Faculdade de Direito de São Paulo, de onde saíram muitos republicanos convictos.

***

Creio serem desnecessárias maiores considerações. Os leitores deste blog são gente esclarecida e em condições de analisar os trechos acima, citados apenas a título de amostragem. Vê-se que o conceito de ensino de História tem passado por consideráveis reviravoltas. E sabe-se lá por quantas outras ainda não há de passar!

(*) Todas as citações foram extraídas da seguinte edição: MACEDO, Joaquim Manuel de. Lições de História do Brasil Para Uso dos Alunos do Imperial Colégio de Pedro Segundo. Rio de Janeiro: Domingos José Gomes Brandão, 1863.


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