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terça-feira, 5 de outubro de 2021

Obsoletos

Estas coisas foram vistas em uma caçamba, diante de uma loja em que se vendem e consertam equipamentos de informática:


Eram restos mortais de computadores, impressoras, monitores, scanners, e mais equipamentos afins. Alguns inteiros, outros desmontados, todos obsoletos, a caminho da reciclagem (¹). A revolução da informática se fez acompanhar de uma incrível perícia em gerar obsolescência e novas necessidades. Não é impossível que aquele celular caríssimo, que algum de vocês, leitores, comprou há pouco mais de um mês, pareça ultrapassado na próxima semana.
Façamos um pequeno retorno ao passado. Um anúncio publicado na revista carioca O Malho (²) em outubro de 1930, apontava para a modernização em algumas áreas - iluminação, transportes (esqueçam o óleo de fígado de bacalhau): 


Já este
cartoon, que apareceu em maio de 1924 na revista paulistana A Cigarra (³), fazia troça das muitas invenções que marcaram a terceira década do Século XX, e que, daí por diante, se tornaram mais e mais frequentes, ainda que a grande crise econômica de 1929 tenha, durante alguns anos, encolhido um pouco o mercado para novos produtos:

Dizia a legenda:
"- Acabo de inventar um novo sistema de fósforos...
- Bravo! E como são?
- Iguais aos outros, só que têm a cabeça no outro lado..."
À parte o aspecto cômico, parece que há nisso alguma coisa que lembra certas inovações eletrônicas de nosso tempo, não é?

(1) Assim espero. 
(2) O MALHO, Ano XXIX, nº 1466, 18 de outubro de 1930. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) A CIGARRA, Ano XII, nº 231, p. 43, 1º de maio de 1924. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 19 de março de 2020

Horário das refeições no Império Romano e no Brasil Colonial

Hábitos dos romanos ricos quanto ao horário das refeições


Menções feitas por vários autores da época sugerem que os antigos romanos, ao menos nos dias do Império, tinham por costume fazer uma refeição muito leve pela manhã, composta, como regra, por frutas, pão, talvez queijo, e nada mais que isso. Por que tanta frugalidade? Vocês já vão descobrir, leitores.
Estamos falando, é certo, dos romanos livres e de boa situação econômica. Pão e frutas eram o hábito de muitos por volta do meio-dia ou mesmo mais tarde, e não gastavam muito tempo nisso - é que lá pela hora nona (¹) vinha a refeição de verdade, o banquete do dia, que, como já se pode imaginar, invadia as horas da noite. Entre romanos abastados, dar banquetes, aos quais parentes e amigos eram convidados, era uma forma civilizada de convivência. 
Os comensais eram servidos enquanto se mantinham deitados em leitos parecidos com divãs. Apoiavam-se em um dos cotovelos, ficando os alimentos em mesas dotadas de três pés, os triclínios. Havia gente em Roma que travava verdadeiras disputas quanto à sofisticação dos banquetes oferecidos, contratando cozinheiros que, no comando de numerosos escravos, faziam comparecer às mesas alimentos preparados com os mais exóticos ingredientes. Gente comedida se contentava, porém, com culinária mais sóbria. Para que tudo corresse a contento, era comum ter sempre alguém para ler durante as refeições, e mesmo músicos e dançarinos para entretenimento do anfitrião e de seus convidados. 
A situação da gente pobre era bem diferente, valendo o mesmo no caso dos escravos. Portanto, deve-se entender que os excessos cometidos em banquetes oferecidos por Calígula e outros imperadores eram exceção, e não regra, ainda que suas práticas chegassem, às vezes, a pôr em perigo a saúde financeira do Império. De acordo com Suetônio (²), em apenas um ano, Calígula esgotou o tesouro acumulado por Tibério, seu antecessor, e, vendo que o dinheiro escasseava, não teve dúvida em fazer lançar novos impostos. 

Horário das refeições no Brasil Colonial


Agora, vejamos o que acontecia no Brasil Colonial, em se tratando do horário usual para refeições. Graças a Joaquim Manuel de Macedo (³), que explicou a questão muito bem em Memórias da Rua do Ouvidor, é fácil saber que gente desse tempo já distante tinha hábitos diferentes daqueles que predominam no Brasil de hoje:
"No século décimo sexto e ainda até quase o fim do décimo oitavo, os antigos colonos portugueses não tinham no Brasil café para tomá-lo com a aurora, mas almoçavam com o sol às seis ou sete horas da manhã, e jantavam com ele em pino ao meio-dia, salvo o direito de merendar (hoje se diz fazer lunch) às dez horas da manhã."
Macedo, consciente ou não de que seria útil aos leitores do futuro, ainda explicou como andavam os horários de refeições em seu próprio tempo, aquele a que nos referimos como sendo o "do Império". Professor de História que foi, ainda que médico por formação, tratou de mostrar a razão para tanta mudança nos costumes:
"Atualmente a sociedade civilizada almoça à hora em que os velhos portugueses jantavam, e janta de luzes à mesa à hora em que se levantavam da ceia aqueles nossos avós.
História de progresso e de civilização, que levam e estendem o sol de seus dias até depois da meia-noite com a iluminação a gás, e, ainda preguiçosos, saúdam o rompimento de suas auroras às nove horas da manhã, quando abrem as cortinas de seus macios leitos, e tomam, ainda bocejantes, o seu café madrugador."
O conjunto de transformações, não só nos horários de refeições, mas no estilo de vida como um todo, foi atribuído por Macedo à introdução de iluminação artificial eficiente - a gás, em seus dias - que possibilitava à gente que não tinha de madrugar para o trabalho, ficar acordada, a tagarelar, até muito tarde. Tarde, sim, mas para os padrões antigos, não para os notívagos do tempo do Império. Que diria se visse como vivemos no Século XXI? 
A ceia praticamente desapareceu dos hábitos brasileiros, exceto em ocasiões especiais ou por investidas fortuitas e quase sigilosas à geladeira, quando a noite se adianta. Refeições, como regra, ficaram mais rápidas, e, para a maioria das pessoas, ocorrem três vezes ao dia: antes do trabalho, no intervalo do trabalho e ao final do dia de trabalho. Percebem qual é aqui a palavra-chave, a moldar os hábitos? A disciplina imposta ao trabalho a partir da Revolução Industrial modificou radicalmente as práticas relacionadas ao horário das refeições no Ocidente. Acreditem, leitores: nem mesmo o Brasil escapou a esse processo. 

(1) Cerca de 15 horas, de acordo com a época do ano.
(2) De vita Caesarum, Livro IV.
(3) 1820 - 1882.


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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Luditas

A manhã fria e cheia de névoa não se apresenta como um convite a sair de casa. Mas isso não é uma opção. A família toda (exceto o pai) deixa a mísera habitação e caminha para a fábrica em que trabalha. Nas ruas imundas, o esgoto corre a céu aberto e ratos disputam espaço com os pés dos que passam. O cheiro é péssimo. Há muita fumaça e as pessoas têm um aspecto pouco saudável. Entre os que não trabalham - porque não querem, porque não podem ou porque não acham emprego - o alcoolismo não é nada incomum.
Já na fábrica, a mãe inicia a dura rotina da tecelagem. Os filhos são ocupados em tarefas menores. Para todos, a jornada será longa, como acontece em seis dias de cada semana.
Os trabalhadores estão desassossegados. Circulam notícias, que ninguém quer comentar em voz alta, de que, em alguns lugares, operários descontentes estão destruindo máquinas e até incendiando fábricas. 
Luditas - quem eram eles?
Em History and Antiquities of Nottingham encontramos a informação de que foi em 1811 que as agitações começaram. Embora, na época, as autoridades locais não tivessem muita simpatia por qualquer revolta social, eram, ainda assim, capazes de reconhecer o lamentável estado de pauperização em que viviam os trabalhadores. No dia 11 de março, centenas de operários se reuniram para protestar em praça pública; a polícia tratou de dispersá-los, mas, à noite, algo aconteceu: "Homens saídos do vilarejo de Arnold vieram e quebraram sessenta e três teares, a maioria deles pertencente ao Sr. Broksop." (¹) 
Nas semanas imediatas não houve pausa na destruição de equipamentos, e os incêndios continuaram. Embora a polícia agisse para capturar os responsáveis, poucos foram presos, porque, segundo a mesma fonte, os homens estavam unidos "por juramentos ilícitos, usavam disfarces e eram organizados em sua obra de destruição" (²).  Ao que parece, leitores, foram esses os primeiros incidentes envolvendo luditas, ou seja, trabalhadores insatisfeitos que, intencionalmente, quebravam maquinário e incendiavam fábricas. Por cinco anos, fatos semelhantes ocorreram, não só no condado de Nottingham, como nos de Leicester, Lancaster, Derby e York.
Mas de onde, afinal, veio o nome de "luditas"? Aqui, leitores, as fontes divergem, como costuma ocorrer, em se tratando de um movimento popular e, por sua natureza, ilegal. History and Antiquities of Nottingham atribui a origem da palavra ao nome de certo rapazote insolente, Ludlam, originário de Leicestershire, que teve um entrevero violento com o próprio pai. O líder de cada bando de destruidores de fábricas era chamado "General Ludd" ou "Ned Ludd". Outra explicação para o nome "ludita" seria esta: Ned Ludd seria um menino que trabalhava em uma fábrica e que, por fazer o trabalho com menos habilidade do que se esperava, fora espancado pelo capataz e, em consequência, morrera. Vejam que este é um nó difícil de desatar.
A despeito da origem incerta, o modo de ação dos luditas mostra que havia, mesmo, algum grau de organização:
"Aquele que toma sobre si esse título [General Ludd] tem o comando absoluto dos homens de seu bando, que, armados com espadas, pistolas, espingardas, etc., entram nas fábricas e destroem as máquinas [teares], depois do que se reúnem a pouca distância da cena de destruição, onde o líder chama cada um dos homens, que respondem por certos números, e, se todos lá estão e a tarefa da noite terminou, ele dispara um tiro de pistola; todos, em seguida, se separam, indo para as respectivas casas, onde removem os disfarces negros com que se cobriam." (³)
Recompensas generosas em dinheiro foram oferecidas para favorecer a captura de luditas, mas mesmo essa tentação à cobiça, com a garantia adicional do anonimato, foi de pouco resultado. 
Consciência de classe ou desespero? A existência dos luditas, enquanto produto da Revolução Industrial inglesa, parece sugerir que, malgrado as condições extremamente desfavoráveis em que vivia a quase totalidade da população trabalhadora, havia uma parcela que tinha um grau nada desprezível de consciência quanto às mudanças que se operavam, mudanças essas que alterariam desde as raízes e irreversivelmente as relações de trabalho e produção.

(1) ORANGE, James. History and Antiquities of Nottingham vol. II. London: Hamilton, Adams, and Co., 1840  p. 874.
(2) Ibid.
(3) Ibid., p. 875; todas as citações de History and Antiquities of Nottingham que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 27 de abril de 2017

O papel das invenções e descobertas na Revolução Industrial

Ao longo do Século XVIII e primeira metade do Século XIX ocorreram notáveis invenções e descobertas, que favoreceram o desenvolvimento da industrialização e da urbanização. Vejam, leitores, apenas alguns exemplos, que podem ser citados dentre muitos outros:


É preciso lembrar, todavia, que as inovações tecnológicas e descobertas científicas não foram, por si mesmas, a Revolução Industrial, embora tenham ajudado a construir o cenário em que ela aconteceu. Além disso, ao longo do tempo, foram decisivas em oferecer dinamismo ao processo. Primariamente, a grande mudança que merece, de fato, o nome de "revolução", consistiu em reunir muitos tecelões que trabalhassem em um só lugar, na condição de assalariados, não como artesãos autônomos. Os teares ainda eram os mesmos, mas já não pertenciam aos trabalhadores. As inovações graduais, com o emprego de maquinário a vapor e de novas máquinas de fiar com uma capacidade enorme de produção, resultaram em quantidade crescente de tecidos, para atender à demanda interna da Inglaterra, e também para exportação. Os proprietários das fábricas, que investiam em instalações, maquinário e pagavam os salários dos operários, lucravam cada vez mais. Já a situação da massa de trabalhadores não era muito boa.
Havia, por certo, artesãos teimosos que tentavam resistir, mantendo sua produção artesanal em casa ou em oficinas próprias, quando as fábricas já eram uma realidade. Acabariam economicamente esmagados, é claro - como concorrer com a produção industrial, superior em quantidade e qualidade, e com preços muito mais interessantes para quem comprava?
As tecelagens foram o começo, mas a Revolução Industrial abarcou, aos poucos, outros setores de produção. Passou da Inglaterra à Europa Continental. Atravessou o Atlântico e chegou à América do Norte. A concorrência sempre crescente estimulava a inovação, tanto para conquistar como para evitar a perda de mercados. E continua a ser assim até hoje. 
Para concluir, façamos um pequeno experimento mental, que nos ajudará a entender o impacto das invenções e descobertas a partir do Século XVIII. Imaginem, leitores, que fosse possível a um homem, que houvesse morrido por volta do ano 1100 em algum lugarejo da Europa Ocidental, ressuscitar no ano 1300. Salvo umas poucas diferenças, o sujeito não veria grande mudança em relação ao mundo que conhecera. Agora, pensem na mesma situação, para alguém que morresse em 1700 e ressuscitasse dois séculos mais tarde, ou seja, por volta de 1900 - seria enorme a probabilidade de que tão (des)afortunada criatura julgasse estar em outro planeta, concordam? 

(*) A máquina a vapor não tem um “pai” só; a ideia, em si, nasceu na Antiguidade.
(**) Vários outros trabalhos nesse sentido aconteceram antes que o método de Jenner se mostrasse eficaz.
(***) Essas pesquisas, fundamentais para o desenvolvimento no campo tecnológico, ocorreram entre os Séculos XVIII e XIX.


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ovelhas devoradoras de homens

A relação entre o cercamento dos campos e a Revolução Industrial inglesa


Humanos devoram ovelhas (*). Fato curioso é que, na mitologia de vários povos da Antiguidade, era corrente que os homens, de início vegetarianos, haviam, a partir de certo momento, se tornado carnívoros. Entre os antigos gregos alguns pensavam que os humanos, que eram frugívoros, só experimentaram carne depois que Prometeu entregou a eles o fogo - entende-se facilmente a relação de causalidade. Seria, desde então, que animais começaram a ser oferecidos em sacrifício aos deuses... E, se era permitido aos deuses, por que não aos homens?
Mas pode ser pior. Houve quem atribuísse a origem dos hábitos carnívoros à deusa Deméter (Ceres, entre os romanos), aquela, que, segundo se supunha, amparava as searas. A contradição é apenas aparente: tendo a deusa cultivado uma bela plantação de cereais, que prometia farta colheita, um suíno teve a ideia de lá entrar e estragar tudo. Furiosa, Deméter cortou o fio da existência ao pobre animal, e, por conseguinte, condenou à morte todos os demais porcos, que passaram a ser criados apenas para morrer. Destino inglório, esse!
Bem, meus leitores, as lendas desse tipo são muitas, mas é melhor abandonar o assunto dos humanos carnívoros e passar ao caso das ovelhas devoradoras de homens. Pois saibam que foi Thomas Morus, em sua Utopia, quem, no Século XVI, acusou as ovelhas inglesas de antropofagia. Não que as meigas criaturas lanígeras houvessem, de súbito, adotado mudanças em seus hábitos alimentares, e nem mesmo eram elas as culpadas. O problema começara (suprema inovação!) com os homens. 
Expliquemos.
A ordem rural que prevalecera na Inglaterra da Idade Média andava a ruir. Criar carneiros tornou-se lucrativo, de modo que os proprietários de terras, pondo em uso uma série de expedientes, trataram de expulsar os camponeses, e, em pouco tempo, nuvens de ovinos eram vistas cobrindo os campos outrora cultivados. A lavoura da época requeria muita mão de obra; para a criação de carneiros, poucos pastores eram necessários.
Esse fenômeno, que ficou conhecido como "cercamento dos campos", desencadeou uma série de consequências, dentre as quais:
  • Os camponeses expulsos, que só sabiam trabalhar na agricultura, não encontravam outra ocupação;
  • Houve uma elevação considerável na criminalidade e na mendicância;
  • Leis severas e enforcamentos em série não eram suficientes para debelar a incidência de crimes;
  • Declinou a produção de alimentos, havendo, portanto, uma elevação nos preços dos que estavam disponíveis;
  • Mesmo que a produção de lã não fosse um monopólio legalmente reconhecido, os produtores, controlando o mercado, passaram a regular os preços, mantendo-os artificialmente elevados, de modo que os tecidos de lã não mais estavam ao alcance dos pobres.
Vejam então, leitores, que a acusação de "antropofagia", com que Thomas Morus invectivou as ovelhas, melhor caberia aos proprietários de terras - a nobreza e o clero, como o próprio Morus explicou. Exagero ou não, segundo esse autor, depois que os camponeses eram expulsos, nada mais ficava em pé entre as construções das aldeias, a não ser as igrejas. Eram usadas como estábulos.
O tempo da Revolução Industrial estava ainda longe, mas entende-se que o cercamento dos campos foi um dentre muitos fatores que proporcionaram condições para o surgimento da atividade fabril, na qual o ramo da tecelagem alcançou destaque. A enorme produção de lã assegurava um suprimento contínuo de matéria-prima para as fábricas. A configuração urbana mudou drasticamente, com o aparecimento de vastos e miseráveis subúrbios de onde provinha a mão de obra. Em quantidade e qualidade, tecidos ingleses mostraram-se superiores e, gradualmente, conquistaram mercados, mesmo em terras distantes. O que aconteceu na Inglaterra influenciou o mundo.

(*) Nem todos os seres humanos devoram ovelhas; a blogueira, por exemplo, tem horror dessa carnificina.


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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A roca e o fuso d'A Bela Adormecida e os teares da Revolução Industrial

"E Ana Margarida, ama de mestre Afonso Domingues, saiu da porta com a roca ainda na cinta, e o fuso espetado entre o linho e o ourelo que o apertava."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas

A princesa prestes a tocar o fuso, ilustração
de Wilhelm Jordan (²)
As versões da história são muitas, mas o que importa é que a linda princesinha, ao nascer, cai no desagrado de uma bruxa ou fada invejosa (¹), e, em consequência, é predestinada a um sono de cem anos, tão logo tenha seu lindo dedinho picado pelo fuso de uma roca. Desesperado, o rei, pai da menininha, ordena que todas as rocas sejam destruídas. Mas (conto de fada ou de bruxa que se preza sempre tem um "mas"...), um dia, o inevitável acontece. A menina curiosa vê escorrer uma gotinha de sangue e logo adormece. O reino todo resolve dormir também, até que (sim, todo conto de fadas também costuma ter um "até que") um príncipe maravilhoso, cem anos mais tarde, removendo a floresta cerrada e as teias de aranha que haviam crescido por toda parte, chega até a princesa e, com um beijo, a faz despertar, bem como a todo o seu séquito de dorminhocos. Como é óbvio, acontece uma festa de casamento e todos vivem felizes para sempre.
Dornröschen, para os Irmãos Grimm, ou A Bela Adormecida, como o conto é costumeiramente chamado em português, pode ser muito instrutivo para quem se interessa por História. É o que veremos agora mesmo, leitores.
Roca e fuso eram usados para transformar linho, cânhamo, flocos de lã, etc., em fios, que, depois, em um tear, seriam usados para fazer tecido. Não é sem causa que uma das imagens mais frequentemente associadas à ocupação de mulheres na Idade Média seja justamente a de alguém fiando. Independente de condição social, saber fiar e tecer era uma questão de sobrevivência. Nesse tempo, todo o processo de produção de fios e tecidos era extremamente moroso, o que explica, ao menos em parte, por que as pessoas tinham, em geral, poucas roupas, que eram consertadas repetidas vezes. O tempo do tear a vapor, uma verdadeira marca da chamada Revolução Industrial inglesa, ainda estava distante: a spinning jenny, capaz de fiar oito fios ao mesmo tempo, é datada de 1764, enquanto que o primeiro tear a vapor somente foi registrado em 1780. Com esses inventos, perdia-se a serenidade de fiar lentamente, ao modo medieval, e entravam em cena os trabalhadores reunidos em enormes galpões - as fábricas - em que, ao ritmo das máquinas, e não mais segundo a capacidade individual dos seres humanos, os fios e tecidos eram fabricados em larga escala, para atender a mercados em expansão, bem perto, no próprio país, ou muito longe, além do oceano.

(1) Haverá alguma diferença entre uma bruxa e uma fada perversa?
(2) WEGENER, Friedrich. Dornröschen. Berlin: Globus Verlag, 1901.


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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Crianças escravizadas no Brasil

Refeição em casa de uma família proprietária de escravos, de acordo com Debret (¹)

Os filhos das escravas eram, legalmente, também escravos (²), a menos que fossem libertados pelo proprietário da mãe. Era costume que, a contar da data do parto, uma escrava ficasse três dias sem trabalhar. Depois, voltava às suas tarefas rotineiras.
A maioria dos senhores não tinha qualquer constrangimento em exigir trabalho dos pequenos escravos, tão logo fossem considerados capazes de fazer alguma coisa. Na prática, meninos e meninas de seis, sete anos de idade, eram já postos a trabalhar.
É verdade que tal desgraça não era duvidoso privilégio apenas de um país no qual vigorava o escravismo. Basta lembrar que na Inglaterra da Revolução Industrial era absolutamente comum que crianças trabalhassem na limpeza de chaminés (³), nos apertadíssimos túneis periféricos das minas de carvão, nas tecelagens e em muitos outros ramos de ocupação. Lá, ainda que as crianças fossem legalmente de condição livre, eram forçadas a trabalho penoso, fisicamente degradante e por longas jornadas (⁴), em decorrência da pobreza extrema em que viviam, como parte da população operária residente nos bairros miseráveis das grandes cidades industriais.
Mas retornemos, leitores, à questão das crianças escravizadas no Brasil. Dois exemplos serão úteis para quem desejar uma visualização do que ocorria. O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que fazia experiências com o cultivo de chá em suas terras, disse: "Tenho adotado o método de trazerem as folhas misturadas e, neste serviço, emprego negros, rapazes, mulheres e até crianças de seis anos para cima, que entre os outros também fazem algum serviço." (⁵) Esse relato, é bom mencionar, foi publicado pela primeira vez na década de quarenta do Século XIX.
Retrocedendo no tempo, temos um testemunho pungente, obra de Saint-Hilaire, da ocasião em que esse naturalista francês fazia suas andanças pelo Rio Grande do Sul, pouco antes da Independência. A coisa acontecia na casa de um charqueador de certa importância: 
"Há sempre na sala um negrinho de dez a doze anos, que permanece de pé, pronto a ir chamar os outros escravos, a oferecer um copo de água e a ir prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz do que esta criança. Não se assenta, nunca sorri, jamais se diverte, passa a vida tristemente apoiado à parede e é, frequentemente, martirizado pelos filhos do patrão. Quando anoitece, o sono o domina, e quando não há ninguém na sala, põe-se de joelhos para poder dormir; não é esta casa a única onde há este desumano hábito de se ter sempre um negrinho perto de si para dele utilizar-se, quando necessário." (⁶)
Sim, leitores, é de causar espanto o entorpecimento moral que a escravidão produzia. Quem, no entanto, saberá dizer quantas misérias sociais são toleradas mesmo hoje, sem que uma só palavra de desaprovação seja dita?

Escrava vendedora de frutas carregando seu bebê (⁷)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Sobre a Lei do Ventre Livre e a libertação dos filhos de escravas, veja, também neste blog: "Quem Foi Libertado Pela Lei do Ventre Livre?"
(3) Eram consideradas perfeitas para a tarefa, justamente porque eram pequenas.
(4) Seis dias por semana, 12 horas por dia, e mesmo mais, em alguns casos.
(5) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 147 e 148.
(6) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 119 e 120.
(7) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Por que Malthus (ainda) não tem razão

"E se em cada caso de namoro gorado morresse um homem, tinha já diminuído muito o gênero humano, e Malthus perderia o latim."
Machado de Assis, A Mão e a Luva

A população cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos só aumenta em progressão aritmética. Está aí a simplificação das ideias de Thomas Robert Malthus, clérigo inglês que escreveu An Essay on the Principle of Population. Preocupadíssimo com o que lhe parecia um aumento sem precedentes da pobreza, propunha que os pobres empreendessem um estrito controle da natalidade, naturalmente pelo único método que, em seus dias, de fato funcionava: nada de relações sexuais, mesmo dentro do casamento. Em defesa de Malthus pode-se observar que ele não foi o primeiro e muito menos o último a aventar a ideia da abstinência para evitar a proliferação de bebês em famílias pobres. Além disso, naqueles tempos, as famílias, independente de condição social, eram quase sempre muito numerosas, ainda que muitos bebês não chegassem à idade adulta - a mortalidade infantil era elevada.
A pobreza que assombrava Malthus era bem velha. Ele é que talvez não a conhecesse, até que a dita cuja resolveu mudar de endereço, migrando de áreas campesinas para os miseráveis subúrbios de Londres e de outras cidades industriais da Inglaterra. 
A "profecia" de Malthus estava ancorada em observações feitas no Século XVIII e primeira metade do XIX. Por que é que não se concretizou tão prontamente?
Há várias razões para isso, e dentre elas, algumas decorrentes da própria industrialização. Junto com o invento de máquinas para as fábricas (principalmente de tecidos), vieram as máquinas para a lavoura. Pouca gente sabe, mas a agricultura foi beneficiada, por exemplo, com o uso de tratores a vapor. Isso, é claro, contribuía para ampliar as possibilidades de cultivo de áreas cada vez maiores, aumentando, por consequência, a oferta de alimentos. Um outro fator, o desenvolvimento da indústria química, favoreceu o aparecimento de uma série de produtos, tais como adubos e defensivos agrícolas, que muito contribuíram para o aumento da produção. É nesse sentido que se diz que, ao lado da chamada Revolução Industrial, ocorreu também uma Revolução Agrícola, estando uma profundamente relacionada à outra.
A industrialização acabou levando, mediante a produção em larga escala, a um barateamento de artigos como tecidos, de tal modo que mesmo os mais pobres já não andavam sujeitos ao uso de andrajos, como antigamente. É bastante provável que, já pelo final do Século XIX, em muitos lugares os trabalhadores e suas famílias tivessem uma expectativa de vida mais favorável do que a alcançada pela  nobreza nos séculos precedentes. Malthus estava errado?
Talvez apenas temporariamente.
Qualquer pessoa que tenha a cabeça no lugar ficará preocupada, se considerar o mundo de hoje. A população continua a aumentar e aumentar, enquanto as terras agricultáveis são danificadas por uma variedade de fatores. Danos ambientais sem precedentes (¹) levam à incerteza não só quanto ao suprimento de comida, mas também, e muito mais grave, quanto ao de água, até mesmo em lugares que eram tidos como verdadeiros paraísos aquáticos - os leitores sabem muito bem do que é que estou falando. E, pior, sem água suficiente, a agricultura se inviabiliza, os gêneros alimentícios tornam-se escassos, os preços sobem.
Malthus, Malthus, Malthus...
Ainda assim, sempre houve e sempre haverá quem veja vantagens no aumento da população, seja por razões religiosas, ou mesmo políticas. De acordo com Políbio de Megalópolis, um grego que foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas (²), os moradores de Tarento, na Península Itálica (³), contrariando o hábito de muitos outros povos, costumavam enterrar os mortos do lado de dentro das muralhas que protegiam sua cidade, uma vez que acreditavam piamente em um oráculo que lhes assegurara que seriam uma população tanto mais feliz quanto mais numerosa alcançasse ser...

(1) Ainda que não isoladamente.
(2) Entre Roma e Cartago.
(3) Era parte da chamada Magna Grécia.


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