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terça-feira, 26 de setembro de 2017

Produtos agrícolas cultivados por escravos para consumo próprio e para venda

Muitos proprietários de escravos tinham por costume ceder a seus cativos um pequeno lote, no qual podiam cultivar aquilo que quisessem. Essa prática era conveniente para os senhores, pois:
  • Suplementava a alimentação dos escravos sem que o proprietário tivesse qualquer despesa com isso;
  • Mantinha os escravos ocupados nas poucas horas vagas, nos domingos e nos feriados, evitando que se encontrassem para planejamento de alguma rebelião ou fuga;
  • Se os escravos eventualmente obtinham uma produção significativa, vendiam-na por preço módico para o próprio senhor.
Os cultivos usualmente praticados obedeciam às características regionais relacionadas a condições de clima e solo, mas alguns itens eram recorrentes, como milho, mandioca, abóbora, feijão e hortaliças. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o segundo Barão de Paty do Alferes, recomendou, em sua Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro (¹):
"O fazendeiro deve, o mais próximo que for possível da sede da fazenda, reservar uma porção de terra onde os escravos façam as suas roças, plantação de café, milho, feijões, bananas, batatas, carás, aipim, canas, etc. Não se deve, porém, consentir que a sua colheita seja vendida a outrem, e sim a seu senhor, que deve fielmente pagar-lhes por um preço razoável: isto para evitar extravios e frequências das tabernas." (²)
A despeito desse conselho dado aos senhores, havia escravos que vendiam seu pequeno excedente quando, onde e para quem queriam. O caso é que alguns senhores mantinham grande vigilância quanto a este assunto, enquanto outros não se importavam com a questão. Cabe também assinalar, em rápida explicação, que muitos fazendeiros votavam ódio mortal às tabernas existentes na beira das estradas que passavam perto de suas propriedades agrícolas porque, além de convidarem à embriaguez dos escravos, incapacitando-os temporariamente para o trabalho, era também nelas que, não raro, as fugas e rebeliões eram combinadas.
Resta considerar o que é que os escravos faziam com o dinheiro que recebiam pela venda de sua pequena produção agrícola. Responde Lacerda Werneck:
"Este dinheiro serve para os escravos haverem o tabaco e o fumo, de que são grandes consumidores, comprarem a comida de regalo, roupa fina, a de sua mulher se são casados, e de seus filhos." (³)
Escravo pronto para ir ao trabalho (⁴)
Fica a pergunta: Não seria demais esperar que escravos, submetidos a condições de vida aviltantes, se comportassem como operosos trabalhadores livres, poupando a pequena renda que obtinham e gastando apenas em artigos realmente úteis, para si mesmos e para suas famílias? Aliás, em relação à maior parte do tempo no qual prevaleceu o trabalho compulsório no Brasil, falar em famílias de escravos é um grande problema - não porque elas não existissem, mas porque o sistema em nada favorecia a estabilidade e a formação de vínculos duradouros entre cativos.
Uma questão sempre debatida vincula-se aos escravos que, economizando por muitos anos, acabavam por ter recursos suficientes para comprar a própria liberdade. Ora, isso não era impossível, e, às vezes, acontecia. Não era, porém, fato corriqueiro, uma vez que não era fácil, apenas plantando e vendendo modestos excedentes por baixo preço, chegar a ter tanto quanto o valor de mercado de um escravo. Se excetuarmos a fase final da escravidão (após 1870), quando estava claro que a abolição seria apenas uma questão de tempo, o trabalho mais favorável às manumissões não estava na agricultura, e sim na mineração, porque era aí que um escravo, tendo a sorte de achar grande quantidade de ouro ou diamantes valiosos, acabava sendo premiado com a liberdade. Há registro de cativos nessas condições que, uma vez libertos, acabaram, eles próprios, também mineradores e senhores de escravos.

(1) A Memória do Barão de Paty do Alferes teve a primeira publicação no ano de 1847.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 40.
(3) Ibid.
(4) RIBEYROLLES, Charles. Brazil Pittoresco. Paris: Lemercier, 1861. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A utilidade do ensino de um ofício aos escravos

Escravos serrando madeira, de acordo com Debret (¹)

De um modo geral, escravos treinados em um ofício manual tinham, no mercado, um preço mais alto do que aquele que era praticado em relação aos demais cativos. Mas, além do valor de mercado, havia outra razão para ensinar uma profissão aos escravos: é que as fazendas, isoladas como eram costumeiramente, precisavam de trabalhadores que atendessem às necessidades locais. De outro modo, seria difícil, em áreas agrícolas, contratar mão de obra, fosse livre ou escrava, para determinadas tarefas.
O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, em sua Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda, cujo objetivo era dar instruções ao filho que iria começar a vida de fazendeiro, escreveu:
"Tende o cuidado logo, em princípio, de pôr alguns escravos moços a aprender os ofícios de carpinteiro, ferreiro e pedreiro; em pouco tempo estarão oficiais e tereis de casa operários, tendo-vos assim aproveitado do tempo despendido na aprendizagem.
Não vos esqueçais de fazer ensinar também algum a oleiro para fazer a telha e tijolo para o gasto da fazenda." (²)
O ensino de um ofício aos escravos resultava, portanto, na conveniência de ter trabalhadores qualificados à disposição, mas também em economia. Quanto à recomendação de ensinar "escravos moços", o motivo, facílimo de compreender, é que seria provável tê-los por mais tempo.
Já nas cidades, era bom negócio ser proprietário de um escravo qualificado em um ofício, uma vez que era costume alugar seus serviços a quem deles precisasse. A renda, é óbvio, ia para as mãos, ou melhor, para os bolsos do senhor, embora sempre houvesse um caso ou outro em que, para estímulo ao trabalho, à obediência, e para evitar fugas, se desse ao escravo uma pequena parte do valor obtido com a diária. Era, sim, uma brutal exploração, que muita gente, submersa na lógica escravista, nem conseguia enxergar e achava a coisa mais normal deste mundo. 

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 50.


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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Crianças escravizadas no Brasil

Refeição em casa de uma família proprietária de escravos, de acordo com Debret (¹)

Os filhos das escravas eram, legalmente, também escravos (²), a menos que fossem libertados pelo proprietário da mãe. Era costume que, a contar da data do parto, uma escrava ficasse três dias sem trabalhar. Depois, voltava às suas tarefas rotineiras.
A maioria dos senhores não tinha qualquer constrangimento em exigir trabalho dos pequenos escravos, tão logo fossem considerados capazes de fazer alguma coisa. Na prática, meninos e meninas de seis, sete anos de idade, eram já postos a trabalhar.
É verdade que tal desgraça não era duvidoso privilégio apenas de um país no qual vigorava o escravismo. Basta lembrar que na Inglaterra da Revolução Industrial era absolutamente comum que crianças trabalhassem na limpeza de chaminés (³), nos apertadíssimos túneis periféricos das minas de carvão, nas tecelagens e em muitos outros ramos de ocupação. Lá, ainda que as crianças fossem legalmente de condição livre, eram forçadas a trabalho penoso, fisicamente degradante e por longas jornadas (⁴), em decorrência da pobreza extrema em que viviam, como parte da população operária residente nos bairros miseráveis das grandes cidades industriais.
Mas retornemos, leitores, à questão das crianças escravizadas no Brasil. Dois exemplos serão úteis para quem desejar uma visualização do que ocorria. O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que fazia experiências com o cultivo de chá em suas terras, disse: "Tenho adotado o método de trazerem as folhas misturadas e, neste serviço, emprego negros, rapazes, mulheres e até crianças de seis anos para cima, que entre os outros também fazem algum serviço." (⁵) Esse relato, é bom mencionar, foi publicado pela primeira vez na década de quarenta do Século XIX.
Retrocedendo no tempo, temos um testemunho pungente, obra de Saint-Hilaire, da ocasião em que esse naturalista francês fazia suas andanças pelo Rio Grande do Sul, pouco antes da Independência. A coisa acontecia na casa de um charqueador de certa importância: 
"Há sempre na sala um negrinho de dez a doze anos, que permanece de pé, pronto a ir chamar os outros escravos, a oferecer um copo de água e a ir prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz do que esta criança. Não se assenta, nunca sorri, jamais se diverte, passa a vida tristemente apoiado à parede e é, frequentemente, martirizado pelos filhos do patrão. Quando anoitece, o sono o domina, e quando não há ninguém na sala, põe-se de joelhos para poder dormir; não é esta casa a única onde há este desumano hábito de se ter sempre um negrinho perto de si para dele utilizar-se, quando necessário." (⁶)
Sim, leitores, é de causar espanto o entorpecimento moral que a escravidão produzia. Quem, no entanto, saberá dizer quantas misérias sociais são toleradas mesmo hoje, sem que uma só palavra de desaprovação seja dita?

Escrava vendedora de frutas carregando seu bebê (⁷)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Sobre a Lei do Ventre Livre e a libertação dos filhos de escravas, veja, também neste blog: "Quem Foi Libertado Pela Lei do Ventre Livre?"
(3) Eram consideradas perfeitas para a tarefa, justamente porque eram pequenas.
(4) Seis dias por semana, 12 horas por dia, e mesmo mais, em alguns casos.
(5) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 147 e 148.
(6) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 119 e 120.
(7) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Com que frequência os escravos mudavam de roupa

Às vezes subestimamos a liberdade. Nem percebemos que esse bendito direito de fazer o que nos dá na telha (com algumas restrições, é claro), nem sempre existiu e, mesmo hoje, não é compartilhado por toda a humanidade. 
Escrava voltando da roça (¹)
O indivíduo que vivia na condição de escravo em uma fazenda no Brasil tinha a sua rotina diária estritamente regulada pelo proprietário e pelos comandos do feitor. Havia hora para acordar, para ir em fila ao trabalho, para as magras refeições, para voltar à sede da fazenda, para os trabalhos da noite, para se recolher à senzala (ainda que, lá dentro, nas habitações coletivas, a conversa, contrariado as regras, seguisse por várias horas). O controle era quase absoluto.
É verdade que todo senhor devia conceder descanso aos escravos aos domingos e feriados religiosos, mas é também verdade que nem todos os senhores assim procediam, e há registros de queixas amargas dos escravos que eram obrigados a trabalhar continuamente, em particular nos tempos coloniais. Muitos proprietários tinham verdadeira obsessão em impedir que os seus cativos tivessem oportunidades para encontros com escravos de outras fazendas, receando que tramassem alguma revolta. 
Os "regulamentos" para controlar a vida dos escravos iam ao ponto de determinar quando lhes seria permitido ou imposta a obrigação de mudar de roupa. Escreveu o segundo barão de Paty do Alferes:
"No domingo de manhã, deve o escravo vestir roupa lavada, e a suja deve na segunda-feira ir para a barrela  e enxaguar-se na terça. Quando por motivo de chuva molharem-se, devem os escravos mudar logo de fato, e estender mesmo na sua senzala o que se molhou, para o tornarem a vestir no dia seguinte, quando saírem para o serviço, pondo de reserva a outra muda." (²)
Tentem lembrar-se disso, leitores, quando mudarem de roupa meia dúzia de vezes em um só dia...
Há mais. A situação de terem dois conjuntos de roupas, descrita por Lacerda Werneck, era quase um luxo, coisa dos tempos imperiais, quando os costumes, bem ou mal, já andavam algo mais decentes. Com o produto das pequenas roças que plantavam para si mesmos, havia escravos que compravam alguma roupa extra, que podiam usar nos feriados e cerimônias da Igreja. Mas, se voltarmos ao Período Colonial, será fácil encontrar autores que não vacilavam em afirmar que os escravos andavam seminus, cobertos por verdadeiros andrajos, em particular quando trabalhavam em engenhos de açúcar. Não poucos religiosos eram enfáticos em lembrar aos senhores que as penas do inferno lhes eram devidamente asseguradas por não vestirem e alimentarem os escravos com o mínimo da caridade que se esperava de cristãos professos.
A situação dos escravos urbanos, quanto ao vestuário, também não era das melhores, pelo menos até o começo do Século XIX. Há desenhos e aquarelas de Thomas Ender, por exemplo, nos quais escravas podem ser vistas precariamente vestidas. No entanto, o estabelecimento da Corte no Rio de Janeiro, tanto no Período Joanino como após a Independência, acarretou uma gradual mudança de costumes, de modo que os escravos que viviam na capital do Império principiaram a aparecer em público trajados com alguma decência. Como muitas vezes acompanhavam seus senhores nas idas e vindas pela cidade, tomavam-se providências para que os cativos usassem roupas apresentáveis. Esses escravos eram, também, menos estritamente controlados quanto a horários. Percebe-se que a gradual urbanização, mesmo não sendo o fator decisivo, acabou por contribuir para que a ordem escravista fosse desmantelada.

Escravos urbanos, usando libré, conduzem sua senhora à missa
em uma cadeirinha de arruar (³)

(1) RIBEYROLLES, Charles. Brazil Pittoresco. Paris: Lemercier, 1861. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 39 e 40.
(3) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Algodão para a roupa dos escravos

Grupo de escravas, de acordo com Thomas Ender (¹)

Nos tempos coloniais, eram frequentes as reprimendas do clero contra senhores que sequer tinham a preocupação de prover vestuário decente para seus escravos. Aos poucos, ao menos nesse aspecto, práticas mais civilizadas foram introduzidas, embora seja fácil perceber, pelas obras de desenhistas da primeira metade do Século XIX, que, mesmo no Rio de Janeiro, capital do Brasil, havia escravos verdadeiramente maltrapilhos percorrendo as ruas.
Na opinião do segundo barão de Paty do Alferes, todo fazendeiro deveria, em suas terras, cultivar algodão, ainda que apenas à beira dos caminhos, "embora essa não seja a cultura especial do agricultor, pois além de muitos outros usos domésticos e constantes, o algodão fiado fornece a melhor linha para coser a grosseira roupa dos escravos." (²)
Um pouco depois da Independência, um militar alemão de nome C. Schlichthorst, que esteve Brasil contratado como oficial do Segundo Batalhão de Granadeiros de Primeira Linha, observou que na capital do Império as mulheres de condição livre tendiam a usar, ao menos em público, roupas pretas ou coloridas, porém jamais peças brancas, e logo explicaria o motivo:
"As senhoras e moças vestem-se de preto ou de cores variegadas, cada qual seguindo, quanto a cores, seu gosto pessoal e não os rigores da moda. [...].
Em casa e nos passeios, senhoras e moças trazem vestidos coloridos de casa. Nunca brancos, pois esta cor é reservada ao trajar dos negros." (³)
Se é verdade que os registros de Schlichthorst eram às vezes inexatos (quer por um lapso de memória ou por falta de informação), neste caso ele estava correto, ao menos em parte: escravos, é fato, não tinham, necessariamente, que vestir roupas brancas, mas havia entre pessoas livres algum preconceito quanto a usar traje branco, que se imaginava uma característica dos cativos, já que muitas peças de vestuário usadas por escravos nos tempos do Império eram feitas com tecido rústico de algodão cru, embora camisas de tecido listrado, para os homens, e saias e turbantes coloridos, no caso das mulheres, não fossem incomuns. O caso é que, malgrado a pouca ou nenhuma delicadeza do tecido, não podemos deixar de notar que, em termos de cor, o vestuário dos escravos, com a predominância do branco, acabava sendo mais adequado ao clima de grande parte do Brasil do que eram as roupas usadas por pessoas de condição livre. No Rio de Janeiro, ao longo do Século XIX e mesmo mais tarde, a casimira inglesa, sempre em circunspectas cores escuras, tinha a preferência para a confecção do vestuário masculino usual entre a gente que se supunha de alguma importância. Imagine-se o que é que tal coisa significava sob um típico sol de verão!...
Mas voltemos ao vestuário dos escravos. 
Em algumas fazendas, o tecido de algodão era feito a partir da produção local. Porém, como muitos fazendeiros reservavam quase a totalidade de suas terras para culturas como café ou cana-de-açúcar, além da produção de gêneros de subsistência, havia espaço, no mercado, para quem se dispunha a fornecer o tecido pronto e na metragem desejada. Um anúncio de uma fábrica de tecidos de algodão do município de Magé, que apareceu no Almanque Laemmert de 1853, trazia a seguinte explicação:
"Esta fábrica [...] é de cardar, fiar, torcer e tecer algodão, tocada por água [...]. Fabrica panos grossos superiores aos de Minas, para roupas de escravos e sacaria [...]." (⁴)
Para maior comodidade dos interessados em compras, informava também ter depósito na capital:
"O depósito destes algodões é no Rio de Janeiro, Rua do Hospício, Casa de Samuel Southam &; C., únicos agentes, Rua dos Pescadores, 26." (⁵)

(1) O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. 
Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 22.
(3) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1924 - 1926). Brasília: Senado Federal: 2000, 92.
(4) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano de 1853. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1853.
(5) Ibid.


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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Arroz para as casas de família e para os escravos doentes

O arroz é considerado um artigo básico de alimentação no Brasil. Frequenta a mesa de todo mundo e será difícil achar alguém que diga: Não gosto de arroz!
Hoje é assim; nem sempre foi. Nos tempos coloniais as farinhas de mandioca e de milho eram os alimentos de consumo generalizado, em lugar do trigo, para tristeza dos colonos, saudosos do Reino. Era difícil substituir o trigo, principalmente na panificação e na confeitaria. Apenas na Capitania de São Vicente é que se cultivava trigo com algum sucesso, talvez pela quase impossibilidade de importações. Bem mais simples era obter farinha de mandioca (que os indígenas conheciam e já dominavam a técnica de produção), ou do milho (¹), que se adaptava muito bem ao clima e solo de boa parte das terras brasileiras. 
O arroz, vindo da Ásia, só aos poucos foi ganhando espaço na dieta regular da população, até por uma questão territorial - a expansão da colônia portuguesa por áreas antes consideradas espanholas revelou locais bastante favoráveis à cultura do arroz. 
Em um pequeno livro datado de 1847, o segundo Barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, escreveu:
"O arroz é também indispensável nas casas de família: serve ele não só para muitos pratos deliciosos, como mesmo para a exportação, para o hospital dos escravos nas moléstias agudas, para os convalescentes, etc." (²)
Seria temeridade, a partir de uma única referência, avaliar a extensão dessa prática: arroz para a mesa dos senhores, mas, para os escravos, só quando estavam doentes. Porém, é fartamente sabido que o arroz não estava incluído na péssima alimentação fornecida, de hábito, ao escravos, cuja finalidade não era agradar ao paladar, e sim mantê-los vivos e trabalhando, pelo menor custo possível. 
Lacerda Werneck abordava a questão do uso do arroz para a realidade de uma fazenda no Rio de Janeiro, sem qualquer pretensão a ditar verdades que fossem válidas para o restante do Brasil. Ficam subentendidos, porém, ao menos dois fatos distintivos entre as fazendas do Século XIX e os engenhos coloniais de cana-de-açúcar:
a) Os fazendeiros do Século XIX evidenciavam uma certa preocupação com a qualidade do alimento de que dispunham para si mesmos, em contraste com a  pobreza nutricional que reinava nas casas de muitos senhores de engenho dos tempos coloniais (³); 
b) Chama a atenção o fato de que, nas fazendas do Império, havia algum cuidado em dar aos escravos doentes condições mínimas para que recobrassem a saúde, coisa que, se devemos crer no testemunho de muitos autores seus contemporâneos, não passaria jamais pela cabeça dos latifundiários de engenhos coloniais, cuja meta era apenas produzir açúcar para exportação. Talvez essa mudança de mentalidade possa ser associada à perspectiva do fim do tráfico de africanos escravizados, que provocava, em meados do Século XIX, certo temor da falta de mão de obra para a lavoura.

(1) O milho é originário da América, ainda que não do Brasil.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 93.
(3) Decorrente do hábito de cultivar apenas cana-de-açúcar, sendo negligenciada a lavoura de subsistência.


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sexta-feira, 12 de junho de 2015

A chamada dos escravos

Escravos respondiam à chamada pela manhã e à noite, e seguiam em fila para o trabalho


O dia de trabalho de um escravo da lavoura começava muito cedo, embora o horário variasse um pouco, de acordo com a região e as regras que cada senhor fazia executar em sua propriedade. Invariavelmente, porém, tudo principiava pela "chamada", uma contagem de cativos para garantir que ninguém cometesse o equívoco de esquecer o trabalho. Era também um meio para verificar se alguém, durante a noite, havia conseguido fugir.
O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, com a intenção de instruir o filho que, ainda jovem, ia assumir uma propriedade agrícola, escreveu a Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro, na qual detalhou o modo pelo qual, segundo seu ponto de vista, devia ser conduzida a chamada:
"O administrador (¹), meia hora antes de romper o dia, deve mandar tocar a chamada, à qual acode, de pronto e a um ponto já designado, toda a escravatura dos diversos trabalhos; formam-se os escravos com separação dos dois sexos e por alturas, ficando os mais altos à direita, e as mulheres defronte dos homens e os feitores no centro. Passa-lhes o administrador uma revista, para ver os que faltam, tomando nota se por doentes, se por omissão ou fuga; dá alta aos restabelecidos do hospital e recolhe a ele os que se acham enfermos; observa se os escravos têm a ferramenta própria do trabalho do dia, cuja ordem deve ser dada de véspera. Imediatamente os mandará persignar e rezar duas ou três orações e seguir logo ao seu destino, acompanhados do feitor." (²)

Escravos em fila, a caminho da roça (⁴)
O toque de chamada era, nas grandes propriedades, feito com uso de um sino. Em algumas menores, porém, na falta do sino, era costume bater um objeto metálico em uma enxada. 
Prosaico? Certamente.
Ninguém deve supor, porém, que a mesma ordem fosse rigorosamente seguida em todas as fazendas, mas a rotina era algo parecida. A chamada, é bom lembrar, podia ser feita a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que se desconfiasse de alguma fuga ou tentativa de revolta.
A rotina da chamada repetia-se ao anoitecer:
"O administrador, de noite, quando chegar a escravatura, deve de novo formá-la, passar uma segunda revista, ver se trouxeram capim para a cavalariça ou lenha para si ou para gasto da casa, se dela precisar. Ordenará então o serão da noite, ou no paiol ou no engenho de mandioca, únicos que a humanidade e o seu interesse toleram [sic], porém que não exceda das oito e meia às nove horas; findo o serão irão os escravos cear e logo depois recolher-se às suas senzalas, proibindo-se que saiam até ao toque da chamada da madrugada." (³)
A duríssima jornada dos escravos não terminava, portanto, ao cair da tarde - prolongava-se noite adentro, sempre de acordo com o costume da fazenda ou a conveniência do senhor. O fato de que se proibia sair das senzalas até a hora da chamada na madrugada seguinte mostra, no entanto, que, a despeito do cansaço muito natural, resultante das longas horas de trabalho sob sol ou chuva, com uma alimentação nem sempre adequada, havia escravos que tinham outras ideias e, escapulir podia ser uma tentação, quer para simples conversas, para correr até a venda mais próxima, ou mesmo para planejar uma tentativa de fuga.

(1) Um trabalhador assalariado, que devia supervisionar todo o trabalho na fazenda.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 32 e 33.
(3) Ibid, pp. 35 e 36.
(4) RIBEYROLLES, Charles. Brazil Pittoresco. Paris: Lemercier, 1861. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mercadorias que, no Século XIX, eram transportadas por mulas na Província do Rio de Janeiro

Antes da existência das ferrovias, o transporte de carga no Brasil era feito por animais. Em distâncias menores ou em terrenos muito acidentados, como o Caminho do Mar, quase tudo era carregado por escravos. Rapidez, portanto, não era exatamente uma virtude desse sistema, e as quantidades transportadas também não podiam ser enormes. Além disso, a condição de chegada das mercadorias variava de forma significativa, em particular no caso de alimentos e outros artigos perecíveis. Quem podia garantir a qualidade do charque, por exemplo, depois de exposto à chuvarada de certas épocas do ano?
Tratando do transporte de mercadorias na Província do Rio de Janeiro durante o Império, o segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, escreveu:
"Ainda na nossa província se fazem todos os transportes às costas de bestas, e nelas se conduz milhões de arrobas de café, muito açúcar, aguardente, toda a casta de legumes que vão ao nosso mercado, galinhas, os toucinhos, carnes de porco, os belos queijos que nos vêm das províncias do interior, os seus algodões em tecido e em rama, o chá que nos principia a vir como um gigantesco ensaio, tudo, em uma palavra, vem carregado às costas destes animais, que nos trazem também o ouro das minas, os seus diamantes e pedras preciosas." (¹)

Caravana de mercadores, de acordo com Rugendas (²)
Quando são considerados todos os inconvenientes do transporte por animais, parece difícil crer que tenha demorado tanto a iniciativa da implantação de ferrovias. Faltava vontade política (³), os investimentos necessários eram, de fato, muito altos, porém o mais chocante era a conformação e mesmo a ignorância que impregnava a mentalidade dos grandes produtores rurais da época, perfeitamente convencidos de que tudo o que precisavam para garantir bons lucros era de um ótimo plantel de escravos e de animais de carga. Não soará espantoso, diante de tanta falta de visão, que chegassem a confundir uns com os outros. Não tinham a capacidade de perceber que o mundo passava por uma rápida evolução no âmbito industrial e tecnológico e que, no ritmo moroso das mulas, as exportações brasileiras, já muito comprometidas pela monocultura, acabariam perdendo o reduzido espaço de que dispunham.

(1) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 117 e 118.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização.
(3) No Rio de Janeiro a iniciativa privada foi decisiva, ainda que tenha se mostrado um desastre para o ousado Mauá; em São Paulo foram espantosos os debates travados em torno do assunto das ferrovias na Assembleia Provincial. A ignorância e a teimosia eram, em alguns casos, notáveis.


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sexta-feira, 3 de abril de 2015

O uso da religião como instrumento para garantir a submissão dos escravos

É de amplo conhecimento que religiões foram e são, às vezes, usadas para propósitos, digamos... nada religiosos. A surpresa vem quando a coisa torna-se tão  escandalosa quanto ostensiva. 
Chama a atenção, senhores leitores, como uma obrinha até progressista em alguns aspectos, escrita originalmente na primeira metade do Século XIX, tornava-se, com apenas um punhado de linhas, a expressão da máxima perversidade do sistema escravista. Refiro-me à Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro, cujo autor foi o segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. Vamos à citação:
"O escravo deve ter domingo e dia santo, ouvir missa, se a houver na fazenda, saber a doutrina cristã, confessar-se anualmente: é isto um freio que os sujeita muito, principalmente se o confessor sabe cumprir o seu dever, e os exorta para terem moralidade, bons costumes, amor ao trabalho e obediência cega a seus senhores e a quem os governa." (*)
Os leitores hão de convir que será difícil encontrar alguma coisa mais explícita quanto ao uso da religião como instrumento para subordinação dos cativos.
Nos tempos coloniais era raro que a regra de descanso aos domingos e dias de festas religiosas fosse respeitada, sendo porém mais frequente sua observância durante o Império. Por outro lado, salta aos olhos a expectativa do barão/fazendeiro/escritor de que o confessor dos escravos entendesse ser um dever doutriná-los para o "amor ao trabalho e obediência cega a seus senhores e a quem os governa". Ora, se o religioso vivesse na própria fazenda, às expensas do proprietário, é bem provável que, fazendo silenciar a consciência que lhe apontava a desumanidade do sistema, apoiasse, do púlpito e do confessionário, aquele que lhe garantia o sustento.
Fica claro, então, que, por inteligente e progressista que fosse o escritor da Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda, era ele um senhor de escravos, e como tal é que raciocinava. Talvez não houvesse, mesmo, como ser diferente. O sistema era brutal e a maioria das pessoas que lhe moviam as engrenagens jamais conseguiria romper com a lógica que possibilitava aos "proprietários" de seres humanos o enriquecimento mediante a extorsão da força de trabalho de seus escravos, mesmo porque eram em extremo beneficiadas por ela.

(*) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 40.


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