segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Arroz Para as Casas de Família e Para os Escravos Doentes

O arroz é considerado um artigo básico de alimentação no Brasil. Frequenta a mesa de todo mundo e será difícil achar alguém que diga: Não gosto de arroz!
Hoje é assim; nem sempre foi. Nos tempos coloniais as farinhas de mandioca e de milho eram os alimentos de consumo generalizado, em lugar do trigo, para tristeza dos colonos, saudosos do Reino. Era difícil substituir o trigo, principalmente na panificação e na confeitaria. Apenas na Capitania de São Vicente é que se cultivava trigo com algum sucesso, talvez pela quase impossibilidade de importações. Bem mais simples era obter farinha de mandioca (que os indígenas conheciam e já dominavam a técnica de produção), ou do milho (*), que se adaptava muito bem ao clima e solo de boa parte das terras brasileiras. 
O arroz, vindo da Ásia, só aos poucos foi ganhando espaço na dieta regular da população, até por uma questão territorial - a expansão da colônia portuguesa por áreas antes consideradas espanholas revelou locais bastante favoráveis à cultura do arroz. 
Em um pequeno livro datado de 1847, o segundo Barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, escreveu:
"O arroz é também indispensável nas casas de família: serve ele não só para muitos pratos deliciosos, como mesmo para a exportação, para o hospital dos escravos nas moléstias agudas, para os convalescentes, etc." (**)
Seria temeridade, a partir de uma única referência, avaliar a extensão dessa prática: arroz para a mesa dos senhores, mas, para os escravos, só quando estavam doentes. Porém, é fartamente sabido que o arroz não estava incluído na péssima alimentação fornecida, de hábito, ao escravos, cuja finalidade não era agradar ao paladar, e sim mantê-los vivos e trabalhando, pelo menor custo possível. 
Lacerda Werneck abordava a questão do uso do arroz para a realidade de uma fazenda no Rio de Janeiro, sem qualquer pretensão a ditar verdades que fossem válidas para o restante do Brasil. Ficam subentendidos, porém, ao menos dois fatos distintivos entre as fazendas do Século XIX e os engenhos coloniais de cana-de-açúcar:
a) Os fazendeiros do Século XIX evidenciavam uma certa preocupação com a qualidade do alimento de que dispunham para si mesmos, em contraste com a  pobreza nutricional que reinava nas casas de muitos senhores de engenho dos tempos coloniais (**); 
b) Chama a atenção o fato de que, nas fazendas do Império, havia algum cuidado em dar aos escravos doentes condições mínimas para que recobrassem a saúde, coisa que, se devemos crer no testemunho de muitos autores seus contemporâneos, não passaria jamais pela cabeça dos latifundiários de engenhos coloniais, cuja meta era apenas produzir açúcar para exportação. Talvez essa mudança de mentalidade possa ser associada à perspectiva do fim do tráfico de africanos escravizados, que provocava, em meados do Século XIX, certo temor da falta de mão de obra para a lavoura.

(*) O milho é originário da América, ainda que não do Brasil.
(**) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 93
(**) Decorrente do hábito de cultivar apenas cana-de-açúcar, sendo negligenciada a lavoura de subsistência.

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