quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Recrutados à Força Para a Luta Pela Independência

Hoje temos algo para quem acha que a totalidade dos que lutaram na guerra de independência fizeram-no por devoção patriótica. 
Foi o Brigadeiro Cunha Matos (¹) quem observou, ao viajar pelo interior do Brasil em 1823:
"Às quatro horas da tarde chegaram a esta casa um sargento, dois cabos e oito soldados do regimento de Cavalaria de Minas, conduzindo vinte e cinco recrutas encorrentados pelo pescoço [sic] e dois voluntários sem prisão (...)." (²)
Tentem imaginar, leitores, quão dispostos à luta estavam os recrutados, a ponto de ser necessário acorrentá-los!...
Não foi este o único caso. O mesmo Cunha Matos também registrou em seu Itinerário:
"...Às nove horas e vinte minutos encontrei uma leva de quinze recrutas, que seguiam para o Rio de Janeiro por ordem do capitão-mor da Vila de São Bento de Tamanduá, conduzidos pelo alferes de granadeiros do Regimento de Milícias da mesma vila. Este quinze recrutas, um dos quais se mutilou em um pé para não servir [sic], completam os cem que foram detalhados à Capitania-Mor." (³)
Esses não eram casos isolados. Ao contrário, repetiam-se em quase todo o Brasil, e embora houvesse gente disposta, de livre vontade, a lutar pela independência, a maioria da população tinha horror ao recrutamento. 
Afinal, tudo se explicava: Cada região tinha uma quota de recrutas que devia remeter à capital e, assim, os infelizes capturados à força eram, sob o mais severo tratamento, obrigados a pegar em armas, a tal ponto que havia quem julgasse preferível uma mutilação e consequente invalidez a ter de juntar-se às tropas do Império recém-nascido. Cunha Matos sabia de um grupo enorme de recrutas enviados ao Pará, dos quais apenas oitenta chegaram vivos e "tão doentes e com tão grandes papeiras (⁴) que causaram horror, por ser moléstia ali desconhecida. O general do Pará maltratou estes desgraçados, e a maior parte deles pereceu miseravelmente." (⁵)
Cenas como essa, em maior escala e com maior gravidade, iriam repetir-se décadas mais tarde, por ocasião da chamada Guerra do Paraguai, durante o recrutamento para compor os batalhões de Voluntários da Pátria. Como é sabido, não eram exatamente voluntários, a despeito do nome e das exceções.

(1) Português de nascimento, Cunha Matos veio ao Brasil ao tempo de D. João VI; acabou aderindo à independência do Brasil e ocupando cargos no Império.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás 
Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 24
(3) Ibid., p. 57
(4) Bócio, por carência de iodo na alimentação.
(5) MATOS, Raimundo José da Cunha Op. cit., p. 236

2 comentários:

  1. Interessante conhecer esse outro lado da história. O homem comum tem horror da guerra. Ainda bem que assim é.
    Beijinhos, uma linda semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. Durante todo o Império havia, entre a população pobre do Brasil (particularmente entre indígenas), um verdadeiro horror ao recrutamento, já que os soldados, de um modo geral, eram tratados pessimamente. Mas sempre houve e continua a haver quem tenha paixão pela guerra. A história da humanidade está repleta disso.

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