quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Escravos Vendedores

Durante a Escravidão, Havia Escravos Especializados em Várias Tarefas


"Com efeito, eram diferentes letras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação, como Pedro Benguela, Antônio Moçambique...
- E estão todos aqui em casa? perguntou ele.
- Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá."
Machado de Assis, Dom Casmurro


Escrava vendedora de
galinhas (**)
Assim como os trabalhadores livres, escravos podiam também ser especializados em alguma tarefa, fosse porque tivessem aprendido um ofício, fosse porque os respectivos senhores os destinavam a certos trabalhos em particular. Desse modo, havia escravos vendedores, escravos "de recados", escravos (especialmente escravas) para afazeres domésticos, escravos "do eito", ou seja, da lavoura, e assim por diante.
Quanto aos ofícios, propriamente, havia escravos sapateiros, pedreiros, barbeiros... Disso decorria que o proprietário, às vezes, alugava o(s) escravo(s) para que prestasse(m) serviço a outras pessoas. É claro que o pagamento pelo trabalho ia para as mãos do senhor e não do escravo, embora certos acordos não fossem proibidos. Não havia nenhum regulamento que impedisse um senhor de prometer ao escravo uma parte dos ganhos, uma "comissão", no caso de escravos encarregados da venda de um produto qualquer.
Viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil durante o Século XIX notaram que era grande o número de escravos que, pelas ruas do Rio de Janeiro, apregoavam uma variedade de artigos para venda. Há registros escritos e iconográficos desse costume. Como exemplo, vejamos um trechinho anotado pelo príncipe Adalberto da Prússia:

Escrava vendedora de frutas (***)
"Frequentemente os negros que passavam carregavam na cabeça caixas envidraçadas com artigos de armarinho para vender; muitas vezes vendendo roletes de cana-de-açúcar também. Muito originais e quase grotescos são os pregões com que gritam ou cantam apregoando sua mercadoria." (*)
Havia, é certo, escravas com enormes tabuleiros de doces, havia quem vendesse bonecas de pano e outros brinquedos rústicos - coisas que faziam a delícia das crianças da época. Havia também vendedores de café, caldo de cana, limonada... A lista é enorme. A maior parte das pessoas achava tudo isso normal, sem levar em conta que, afinal, os vendedores eram escravos. Não trabalhavam para si mesmos, e sim para o lucro dos respectivos senhores.


Escravo vendedor de doces (****)
(*) ADALBERTO, Príncipe da Prússia Brasil: Amazônia - Xingu
Brasília: Senado Federal, 2002, pp. 30 e 31
(**) Escrava vendedora de galinhas no Rio de Janeiro, provavelmente Século XIX. O original pertence ao acervo da BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização.
(***) _____________ Brasilian Souvenir
Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845
O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização.
(****) Escravo vendedor de doces, de acordo com Joaquim Lopes de Barros, 1840/41. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização.


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