quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre os Padres que Vinham ao Brasil no Século XVI

É de Joaquim Manuel de Macedo (¹) uma curiosa afirmação sobre os padres que, no início da colonização, vinham ao Brasil - diz ele que "os padres entraram com o pé esquerdo na Terra de Santa Cruz" (²). E explica:
"Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no Reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir."
A situação era de tamanha seriedade que, quando em 1549 vieram os primeiros jesuítas, Nóbrega, um deles, ficou horrorizado com o desregramento que notou entre os "padres seculares" que já andavam pela Colônia. Daí o empenho para que ficasse clara a distinção entre os "padres da Companhia" e os outros.
É fato que o número de sacerdotes era reduzido e de modo algum suficiente para atender a todas as povoações. Era, então, perfeitamente possível que alguém passasse quase a vida toda sem qualquer assistência religiosa, em tempos nos quais a Igreja desempenhava um papel preponderante na sociedade e, por conseguinte, nas ideias que povoavam a cabeça de cada colono. Aprovemos ou não, na época a religião podia ser um fator importante de controle social - uma ferramenta valiosa como freio à má conduta dos colonos, em situações nas quais o Estado era, na prática, ausente. Disso decorria a importância de que os padres fossem exemplos de bom comportamento. Não era, porém, o que usualmente ocorria.
Nóbrega tinha a língua afiada e, em carta datada de 1549, que enviou a seus irmãos de Ordem em Portugal, não economizou nas palavras ao descrever os religiosos que encontrou no Brasil:
"Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos, porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter os salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários a seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça, em detrimento de seus interesses. Cuido que, se não fora pelo favor que temos do governador e principais da terra, e assim porque Deus não o quer permitir, que nos tiveram já tiradas as vidas. Esperamos que venha o bispo, que proveja isto com temor, pois nós outros não podemos por amor." (³)
Até quanto ao bispo que viesse, tinha Nóbrega as suas restrições, já que, escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues a respeito do prelado que devia receber a dignidade episcopal (⁴), observou: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (⁵)
Disso se conclui que Nóbrega estava em plena consciência quanto à enormidade do trabalho de catequese que desejava empreender. Que, ao menos, não viessem padres de má conduta para atrapalhar!

(1) Todo mundo conhece Joaquim Manuel de Macedo como romancista - o homem que escreveu A Moreninha. Mas poucos sabem que, por formação, era médico, e que atuou como professor de História no Imperial Colégio de Pedro II.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro
Brasília: Senado Federal, 2005, p. 231
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed.
Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 311
(4) Dom Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 296

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