segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Decepções dos Jesuítas na Catequese de Meninos Indígenas

Em uma carta escrita em São Vicente, datada de março de 1555, José de Anchieta assinalou, referindo-se ao Colégio de Piratininga:
"Temos uma grande escola de meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores. São eles a consolação nossa, bem que seus pais já pareçam mui diferentes nos costumes dos de outras terras; pois que não matam, não comem os inimigos, nem bebem da maneira por que dantes o faziam." (¹)
Os meninos índios, porém, logo cresceram, e lá se foi a "consolação" dos jesuítas - já adolescentes, os catecúmenos não mais queriam saber da rotina do colégio dos padres, e logo iam com seus parentes às práticas que, para os povos indígenas, caracterizavam os verdadeiros homens adultos. É ainda Anchieta quem relata, em uma outra carta, enviada ao Geral Diego Laynez em 1º de julho de 1560:
"Dos moços que falei no princípio foram ensinados não só nos costumes cristãos, cuja vida quanto era mais diferente da de seus pais, tanto maior ocasião dava de louvar a Deus e de receber consolação, não queria fazer menção por não refrescar as chagas, que parecem algum tanto estar curadas; e daqueles direi somente que chegando aos anos da puberdade, começaram a apoderar-se de si, vieram a tanta corrupção, que tanto excedem agora a seus pais em maldade quanto antes em bondade, e com tanta maior sem-vergonha [sic] e desenfreamento se dão às borracheiras e luxúrias, quanto com maior modéstia e obediência se entregavam dantes aos costumes cristãos e divinas instruções. Trabalhamos muito com eles para os reduzir ao caminho direito, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos cristãos procedem da mesma maneira." (²)
Será bom ressaltar que casos análogos ocorriam em quase todos os lugares nos quais os jesuítas estabeleciam missões, de modo que não será nada difícil imaginar quão frustrante era, para eles, observar que seus esforços resultavam inúteis. Lembrem-se os senhores leitores de que, no Século XVI, não era fácil empreender uma viagem à América, com a certeza quase absoluta de jamais retornar. Se é verdade que a Europa da época não era exatamente o melhor dos mundos, vir ao Continente Americano significava defrontar-se com o desconhecido, sem dispor dos recursos habituais para a sobrevivência. Vale reforçar, ainda, que, independente do que se pense hoje da catequese de indígenas, os jesuítas do Século XVI acreditavam com firmeza no trabalho que faziam e nele empregavam seus melhores esforços, daí porque a "deserção" dos meninos indígenas devia assumir um aspecto em extremo decepcionante. Disso resultou, portanto, uma gradual mudança de postura dos missionários. Se no princípio da catequese a ideia era empregar toda a doçura e caridade cristãs, não demorou para que os padres "jogassem a toalha", de modo que, em carta datada de 16 de abril de 1563, novamente endereçada ao Geral Diego Laynez, já vamos encontrar Anchieta disposto à adoção de práticas coercitivas no trato com os indígenas:
"Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle eos intrare." (³)
A Europa daqueles dias defrontava-se com a Reforma Protestante, com o Concílio de Trento, com a propagação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Ora, se era aceitável queimar hereges no Velho Mundo, por que pareceria estranho ou impróprio forçar os índios à conversão?

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 79
(2) Ibidp. 156
(3) Ibid.

2 comentários:

  1. Marta, mais um post fantástico. A decepção devia ser grande mas ainda me consigo surpreender com a dureza de homens que deviam ser o exemplo da bondade e candura... Enfim.
    Querida, passei para lhe desejar o mais doce dos Natais, e um 2015 cheio de desafios, pesquisas e conhecimento. Aproveito para agradecer a sua amável presença n'O Berço ao longo do ano.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Obrigada pelas visitas e comentários. Tenha um ótimo Natal. Espero por mais posts em O Berço do Mundo.

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