quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Taipa de Pilão e Taipa de Mão

É muito comum, em autores do Período Colonial, a referência a construções que eram feitas de taipa. O Padre Anchieta, por exemplo, ao tratar das fortificações que se faziam no Rio de Janeiro na luta contra os franceses (que também queriam ficar por lá), informou que "...tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os índios e mamelucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo." (¹) Essa carta, datada de 9 de julho de 1565, tendo o Padre Diogo Mirão como destinatário, foi escrita estando Anchieta na Bahia.
Já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou, sobre os edifícios da cidade de São Paulo de seus dias, que eram "quase geralmente de taipa, isto é, de terra como greda acalcada entre duas pranchas, e branqueadas com tabatinga." (²) Antes de prosseguir, talvez seja útil lembrar que tabatinga é um tipo de argila que, naqueles dias, era comumente empregada para pintura de paredes, se não houvesse cal disponível.
Fragmento de construção em taipa de mão (pau a pique)
Ora, que coisa, afinal, é a taipa, à qual fazem referência tanto Anchieta quanto Ayres de Casal?
A chamada "taipa de pilão", empregada em construções de maior porte, consistia em argila que, posta em caixas, era socada até tornar-se uma massa muitíssimo resistente. Não há aqui exagero nenhum: construções de taipa de pilão (como igrejas, por exemplo, dos Séculos XVII e XVIII) têm chegado em boa forma até hoje, e isso sempre enfrentando as adversidades climáticas. Já a "taipa de mão", mais conhecida no Sudeste do Brasil como pau a pique, era frequentemente empregada para a construção de pequenas residências. As paredes eram feitas a partir de grades de madeira fixadas no solo e devidamente preenchidas com argila. Em localidades do interior do Brasil ainda é possível encontrar casas feitas de acordo com essa técnica.
Tanto a taipa de pilão quanto a de mão não são técnicas desenvolvidas no Brasil. Elas foram trazidas pelos colonizadores portugueses e, como é lógico, adaptadas para uso local. Podem ser encontradas em muitos lugares do mundo, já que requerem pouco material e o resultado, principalmente no caso da taipa de pilão, é bastante satisfatório.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 253
(2) CASAL, Manuel Ayres de Corografia Brasílica, vol. 1
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 234

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