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sexta-feira, 26 de julho de 2024

Horário de refeições e descanso adotado por jesuítas no Brasil Colonial

Ordens religiosas sempre foram muito estritas no cumprimento dos horários prescritos nas respectivas regras. Sim, mas no Brasil Colonial talvez houvesse necessidade de adaptações. Sabe-se, por exemplo, que a catequese de indígenas praticada por jesuítas seguia uma rotina, não dos padres, mas dos ameríndios. Até mesmo os religiosos que viviam nos colégios jesuítas estabelecidos em terras portuguesas na América tinham uma rotina adaptada às condições locais, conforme se lê na Informação da Província do Brasil, escrita em 1585, presumivelmente por José de Anchieta, depois da observação um tanto curiosa de que o Brasil era "terra desleixada e remissa e algo melancólica" (¹):
"No verão se levantam os nossos às quatro e se deitam aos três quartos para as nove, e no inverno levantam-se às cinco e deitam-se aos três quartos para as dez. Comem o jantar no verão às dez e ceia às seis; e no inverno jantam às onze e ceiam às sete da noite." (²)
Recomendo aos leitores uma comparação com os hábitos dos brasileiros quanto ao horário das refeições, a partir da leitura de uma postagem já existente neste blog, "Horário das refeições no Império Romano e no Brasil Colonial". Não se deve esquecer, contudo, que nas reduções jesuíticas estabelecidas em outras áreas da América do Sul a rotina diária e semanal era, quanto ao trabalho e às práticas religiosas, estritamente observada, e, a quem se interessar pelo assunto, recomendo outra postagem, "A rotina de catequese e trabalho em reduções jesuíticas na América do Sul".

(1)  ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 425.
(2) Ibid.


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Obstáculos à catequese de indígenas, de acordo com José de Anchieta

Não foi o desconhecimento da língua falada pelos indígenas a maior dificuldade enfrentada pelos missionários que, desde meados do Século XVI, vieram ao Brasil no interesse de desenvolver um projeto de catequese. Nos colégios jesuítas estabelecidos na América portuguesa era obrigatório o estudo do "grego da terra", como jocosamente se referiam à língua predominante na costa do Brasil, e, não muito mais tarde, já havia até gramática pela qual orientar a instrução dos religiosos. Com base em um documento datado de 1584 (¹) e atribuído a Anchieta (²), pode-se afirmar que, sob a ótica dos jesuítas, os maiores obstáculos à catequese eram de outra natureza, e poderiam ser assim resumidos:
  • Prática da poligamia por indígenas;
  • Apreço pelo "vinho" (principalmente pela bebida fermentada de caju, cujo uso o próprio Anchieta reconhecia ser preferível moderar que tentar abolir);
  • Guerras frequentes por questão de honra, seguidas, não raro, de antropofagia;
  • Inconstância, já que ameríndios pareciam aceitar prontamente as ideias propostas pelos missionários, porém, mais tarde, abandonavam-nas com idêntica facilidade (³);
  • Falta de "temor e sujeição" (os missionários, incluindo Anchieta, achavam que a catequese poderia ser facilitada, se imposta pelas autoridades coloniais, que obrigassem, por exemplo, ao aldeamento dos indígenas em comunidades subordinadas aos padres).
Qual destes itens corresponderia à maior dificuldade? Conforme Anchieta, nenhum deles; o problema mais grave não era nativo da América:
"Os maiores impedimentos nascem dos portugueses, e o primeiro é não haver neles zelo da salvação dos índios [...], antes os têm por selvagens e, ao que mostram, lhes pesa de ouvir dizer que sabem eles alguma coisa da lei de Deus [...]." (⁴)
A maioria dos colonizadores via nos índios apenas um vasto acervo de mão de obra gratuita, a cuja escravização mesmo as autoridades coloniais faziam vistas grossas, isso quando não estavam diretamente envolvidas no apresamento dos naturais da terra sob o pretexto de "guerras justas". A Companhia de Jesus, por seu turno, buscava implantar um modelo de catequese em que os ameríndios viveriam em comunidades sob a tutela dos padres. Perspectivas tão diferentes resultaram em cerca de dois séculos de confrontos.

(1) "Informação do Brasil e de Suas Capitanias". In: ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 333.
(2) Ele mesmo um notável missionário.
(3) É interessante que Anchieta não parecia considerar que a suposta inconstância podia ser, talvez, fruto de um choque cultural. Como regra, não era esse o modo de ver os fatos no Século XVI.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O poeta José de Anchieta

Praia de Iperoig (Ubatuba - SP), onde se supõe
que Anchieta tenha escrito o Poema à Virgem

Anchieta é famoso pelo Poema à Virgem, do qual todo mundo ouve falar na escola, mas que quase ninguém lê - os versos foram escritos em latim e, segundo o próprio Anchieta relatou, registrados originalmente nas areias de Iperoig enquanto foi refém dos tamoios (¹). Sobre a habilidade de Anchieta em fazer versos, o padre Simão de Vasconcelos, jesuíta como ele, escreveu:
"Compôs [...] em várias partes do Brasil, com vivo e raro engenho, muitas obras poéticas, em toda a sorte de metro, em que era mui fácil, todas ao divino e a fim de evitar abusos e entretenimentos menos honestos." (²) 
Como professor, Anchieta era adepto de rimas, não apenas por questões estéticas, mas como recurso didático, a fim de doutrinar indígenas e colonizadores. Estes últimos, como se sabe, eram pouco ilustres pelos afetos religiosos. Os versos tornavam mais fácil e atraente a memorização, e, lendo as quadrinhas seguintes, até podemos imaginar o padre José, (como era habitualmente chamado por seus contemporâneos), ensinando os meninos que acorriam às suas aulas:

"Noé fez a grande arca 
em que o homem racional 
junto com o bruto animal 
escapassem, como em barca
do dilúvio universal."

"Davi com grande vigor
um leão mui carniceiro
e um urso roubador,
com o gigante espantador
matou, com ser ovelheiro." (³)

Não me parece justo discutir o mérito artístico destes singelos versinhos. Como já disse, o propósito de José de Anchieta era, com suas rimas, embutir assuntos religiosos na cachola da população colonial. Para uso nas festas religiosas, era comum que as palavras fossem vestidas com música, que, porém, com o tempo, se perdeu. Que pena!...

(1) Escrever na areia foi o método escolhido por Anchieta para reter os versos na memória.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 26.
(3) ANCHIETA, José de S.J. Carta da Companhia.


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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Devotos da pá virada

A religiosidade estranha de muitos colonizadores do Brasil


Colonizadores do Brasil eram gente devota - ao menos na aparência, e segundo seus próprios critérios. Tinham uma religiosidade curiosa, toda própria, de provocar calafrios nos teólogos europeus que eram seus contemporâneos. Mas, em território colonial, o controle da Igreja estava, frequentemente, muito distante, de modo que cada um vivia como julgava conveniente. Sim, houve visitações do Santo Ofício, mas elas somente alcançaram povoações maiores, e em poucas ocasiões. Bem sabem os leitores que, contra João Ramalho e sua mais que numerosa descendência, de nada valiam as ameaças de recurso à Inquisição que lhes faziam os missionários jesuítas. Quem iria, falando sério, imaginar que inquisidores empreenderiam, no Século XVI, qualquer tentativa de vencer o literalmente escabroso Caminho do Mar para fazer uma aparição em São Paulo?
Catequizando indígenas, os jesuítas mantinham um olho nos turbulentos colonos. Este caso, que é um exemplo acabado do tipo de religiosidade que predominava em terras portuguesas na América, vem de um documento atribuído a José de Anchieta, e faz referência a um sujeito rico, que vivia em Santos:
"Por morte deixou parte de sua fazenda para nossa igreja, que ali então se edificava; parte à Misericórdia e a outra parte aos pobres. Houve, nesse homem, enquanto se não deu a Deus, soltura no vício da luxúria; mas por respeito de Nossa Senhora nunca quis pecar com mulher que tivesse o nome de Maria." (¹)
Casos mais cabeludos seriam vistos entre os paulistas que, indo ao sertão para aprisionar indígenas que pretendiam escravizar, ainda assim se imaginavam sob a proteção de Deus. Eram essas figuras que ocasionavam no jesuíta Antonio Ruiz de Montoya a maior revolta, porque, antes da partida rumo ao sertão, faziam devotamente todo um cerimonial religioso, como se estivessem envolvidos no mais sagrado dos empreendimentos:
"Quando saem a cativar homens livres, assim declarados pelos pontífices (com excomunhão prevista aos que lhes tiram a liberdade), a matar muitos deles, a capturar suas filhas e mulheres para seus torpes usos, a desterrar o Evangelho e o Santíssimo Sacramento de seus templos, se confessam e comungam como se fossem em romaria a Compostela." (²)
Acham que era só, leitores? Certamente não: quando atacavam as missões, matando, pilhando e escravizando, os integrantes das bandeiras de apresamento cuidavam em ter, consigo, ao menos um rosário, levando Montoya, em seu relato, a uma interessante conclusão:
"Determinaram-se os inimigos a queimar a igreja: confesso que os ouvi dizer que são cristãos, e mesmo nesta ocasião traziam rosários muito visíveis. Têm, sem dúvida, a fé de Deus, mas as obras são do diabo." (³)

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 470.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639.
(3) Ibid. Os trechos citados da obra de Montoya foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Escrever na areia

Escrever, hoje, é algo comum e mesmo indispensável, ao menos no mundo ocidental. Na Antiguidade, porém, a escrita não era para todos. Egípcios e mesopotâmios tinham especialistas em escrita - os escribas -, donde se vê que, nesse tempo, a capacidade de escrever era, por si mesma, uma profissão. No caso da Grécia e de Roma Antigas, o desenvolvimento cultural conduziu à ideia de que o estudo, a começar pela escrita, era importante para a formação da elite política. A capacidade de escrever, tanto quanto a de falar em público, passou a ser vista como algo essencial ao exercício da cidadania. 
Os papiros e pergaminhos, suportes frequentes para escrita daquilo que se pretendia durável, eram caros, de modo que nem todo mundo tinha acesso a eles. Nas escolas do mundo romano era usual que as crianças escrevessem com pequenos bastões sobre tabuinhas cobertas de cera, que tinham a vantagem da reutilização. Entre os antigos gregos não era nenhuma raridade que pequenas anotações fossem feitas em pedaços de cerâmica.
E quanto àqueles rabiscos comuns do dia a dia, aqueles que ninguém acreditava merecessem a honra de ficar para a posteridade? 
Temos uma pista do que acontecia através de um episódio referido por Aurelius Augustinus (ou Santo Agostinho, se preferirem) em suas Confissões. Afirmava ele ter-se dedicado, quando jovem, ao estudo das Categorias de Aristóteles, obtendo delas uma compreensão excelente. O mesmo não acontecia com seus companheiros que, a despeito de muito esforço, não conseguiam meter na cabeça o pensamento do filósofo estagirita. Augustinus, disposto a ajudar os amigos, tecia comentários, dava explicações e (eis aqui o que mais nos interessa), fazia esboços na areia. Essa era uma prática comum entre povos antigos (¹), embora hoje esteja restrita, em quase exclusividade, ao universo das brincadeiras infantis.
Mais de mil anos depois de Santo Agostinho, outro escritor traçaria palavras na areia, e olhem leitores, que também era em latim. O jovem missionário José de Anchieta, detido entre os tamoios, ocupou-se, no Século XVI, em escrever versos de seu poema dedicado à Virgem. Como naquele momento não dispunha de papel e queria memorizar o que ia compondo, traçava as palavras ao longo da praia de Iperoig (²). No tempo de Agostinho ou no de Anchieta, escrever na areia tinha um grave defeito: a transitoriedade. 

(1) Já imaginaram, leitores, quanta coisa interessante deve ter-se perdido por causa desse costume?
(2) Muito provavelmente localizada no litoral norte do atual Estado de São Paulo.


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terça-feira, 18 de abril de 2017

Anhumas

Uma ave, muitas superstições


Anhuma (Anhima cornuta)

As anhumas (Anhima cornuta) impressionaram os colonizadores. Tudo culpa do espinho córneo que têm na cabeça, que, para os supersticiosos de antigamente, lembrava um chifre e, por isso mesmo, sugeria vínculos sinistros. Bobagem, é claro, mas isso é o que pensamos nós, que vivemos no Século XXI. 
Diz-se que, no passado, o rio Tietê era chamado Iguatemi, cujo significado seria "o rio das aves anhumas". Ora, leitores, isso foi há séculos. Embora eu não diga que seja impossível achar anhumas nas proximidades do Tietê, devo atestar que jamais vi qualquer delas por lá. Alguém dos leitores já viu?
O Padre Anchieta fez referência às anhumas, em carta escrita em São Vicente no ano de 1560. Descrevendo uma delas, observou: "[...] Quando grita parece o zurrar de um asno. [...] Quando acossada pelos cães, não foge, ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar; antes os afugenta, ferindo-os gravemente [...]." (¹) Quanta coragem!
Já no Século XIX, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, registrou em seu diário de viagem, no dia 1º de agosto de 1826:
"De manhã matou-se junto a uma lagoa uma anhuma (²), pássaro raro e notável [...] pela excrescência córnea fina, e de três e meia polegadas de comprido, que lhe nasce na cabeça. Tem também no encontro das asas dois esporões que, como armas defensivas, podem causar ferimentos graves. A plumagem é branca e preta, sarapintada na cabeça. preta e parda ao redor dos olhos, escura no resto do corpo, com exceção da barriga, que é branca. O íris é alaranjado. [...]." (³)
Com essas características, não causa surpresa que as anhumas, entre o povo pouco instruído, fossem alvo de um sem-número de superstições. Foi o que constatou José Vieira Couto de Magalhães, ao percorrer, em 1863, parte da Província de Goiás. O caso é que, tendo abatido uma dessas aves, notou que a tripulação do barco com o qual percorria o rio Araguaia entrou em viva discussão. Motivo? Cada um queria um pedaço da anhuma, e não era para comer, já que os ossos eram o principal assunto da disputa:
"[...] Este requeria uma espécie de unicórnio que elas [as anhumas] trazem sobre a cabeça; aquele queria um esporão; um outro o osso da coxa esquerda, e, como eram muitos, cada um alegava seu direto, sem que nenhum tivesse razão." (⁴)
Disposto a averiguar a causa da porfia, Couto de Magalhães descobriu que a mais crassa superstição motivara o interesse por esquartejar a ave: 
"[...] Segundo eles, eram preservativos contra maus ares, maus olhos, mordedura de animais venenosos, e outras que tais coisas.
Um dos companheiros de viagem contou-me então que em Goiás, e sobretudo no norte da Província (⁵) esta crença é geralmente espalhada. Extraem ossos do animal, fazem-lhes furos, e atam-nos ao pescoço das crianças, como um talismã que lhes preserva de quase todos os males." (⁶)
Hoje achamos graça nessas crendices, e tendemos a interpretá-las como uma espécie de folclore. Mas, há menos de duzentos anos, havia, como se vê, quem de fato acreditasse nelas. No interior do Brasil a instrução pública era quase inexistente, valendo o mesmo quanto aos cuidados médicos, de modo que a população, carente de esclarecimento e desconhecendo tanto práticas de higiene quanto as verdadeiras causas de doenças, buscava, em um conjunto de superstições, a proteção para o mundo que a amedrontava e não conseguia explicar.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 125.
(2) Era comum que animais fossem mortos e empalhados, porque só assim é que poderiam ser expostos em museus pelo mundo afora.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 43.
(4) MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Viagem ao Rio Araguaia. Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 169.
(5) Atualmente, Estado de Tocantins.
(6) MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Op. cit., p. 169.


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terça-feira, 11 de abril de 2017

O Colégio de São Paulo e o início da catequese de indígenas no Brasil

De acordo com José de Anchieta, o primeiro colégio dos jesuítas em São Paulo, aquele de 1554, era muito pequeno:
"Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de janeiro do ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa." (¹)
Este relato aparece em uma carta escrita na própria Casa de São Paulo, provavelmente no final de setembro de 1554. Nesse mesmo documento, Anchieta forneceu outras informações sobre o lugar em que viviam:
"De janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a despensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações de que gozam em outras partes os nossos irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre manjedoura, entre dois brutos animais, e morrer em altíssima cruz por nós." (²)
Por que a primitiva construção ocupada por jesuítas em São Paulo era tão pequena? Southey, em sua História do Brasil, argumentou, com acerto, que não era por falta de espaço para construir, mas errou ao supor que os missionários viviam assim como forma de proteção contra o frio. Ora, leitores, o Colégio de São Paulo foi fundado em janeiro de 1554 - portanto, em pleno verão - não havendo o menor sentido em acreditar que a mísera construção em que foi celebrada a primeira missa era para garantir que nenhum jesuíta ou indígena morresse congelado. Basta continuar a leitura da carta de Anchieta para compreender o que acontecia:
"Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios." (³)
Então, tudo se explica: o local da primeira missa, oficiada pelo padre Manuel de Paiva, foi erguido às pressas, para dar início ao trabalho de catequese na aldeiazinha de Piratininga; assim que as circunstâncias permitiram, fez-se nova construção. 
A partir de um documento datado de 1584, cuja redação também é atribuída a Anchieta, entende-se que, a princípio, a ideia era estabelecer um colégio para catecúmenos em São Vicente. Todavia, Manuel da Nóbrega julgou apropriado mudar a localização porque em Piratininga havia maior fartura de alimentos. 
Assim nasceram a cidade e o colégio de São Paulo, um por causa do outro. Como casa de jesuítas, não foi a primeira fundada em terras portuguesas na América, já que, nesse aspecto, a Cidade da Bahia (Salvador), como sede do Governo-Geral, teve a prioridade; mas, conforme o citado documento de 1584, foi em São Paulo de Piratininga que "se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio (⁴)." (⁵) 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 38.
(2) Ibid., p. 43.
(3) Ibid.
(4) O termo "gentio" era usado como sinônimo de indígena não catequizado.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Op. cit., p. 321.


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal no verão

A imagem clássica do Natal, retratada em cartões de boas-festas, é a de casas, igrejas e pinheiros cobertos de neve. Bonecos e crianças esquiando também são frequentes. Tudo isso no Brasil, onde o Natal acontece em pleno verão. 
Tendo a colonização começado no Século XVI, não demorou para que navegadores e colonos que vinham ao Brasil percebessem que, "passando a linha", as estações do ano eram invertidas em relação ao Hemisfério Norte. Neve no Brasil, portanto, só em poucas ocasiões a cada ano, nos meses mais frios, ou seja, entre junho e setembro. Fora disso, é uma raridade. Anchieta, missionário jesuíta, escreveu, em maio de 1560, em uma carta destinada ao Geral da Companhia de Jesus: "A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende [...]." (¹) E, em outro documento, datado de 1585 e também atribuído a Anchieta (²), pode-se ler: "O inverno começa cá em março e acaba em agosto; o verão começa em setembro e acaba no fim de fevereiro, e por isso o Advento e o Natal são em sumo estio." (³) Vê-se, pois, que, ao menos quanto a ser o Natal no verão, Anchieta estava certíssimo.
Por conta disso, mesmo sob temperaturas elevadas, em torno de 30º C, toda a propaganda voltada para as vendas de Natal é feita como se o Brasil estivesse quase no Polo Norte. Há até shopping centers que anunciam quedas de neve artificial em horários pré-definidos, tudo para atrair clientes e, com tamanha inspiração, ensejar um volume maior de vendas.
Alguns amigos meus chegam a queixar-se de que é uma injustiça que não haja neve no Brasil em dezembro. Até já vi gente dando rédea solta à fantasia e imaginando como seria se, de repente, viesse uma frente fria pesada e tudo ficasse branquinho...
Sim, sim, o clima deste planeta está maluco, mas (ainda) não a esse ponto (⁴). Portanto, quem quiser um verdadeiro white christmas, vai ter que viajar para bem longe do Brasil.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 106.
(2) Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre. Nessa ocasião Anchieta era o Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. 
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J.  Op. cit. pp. 424 e 425.
(4) Talvez alguns leitores ainda se recordem de que, no último dia dos Jogos Olímpicos de 2016, quando era realizada a prova masculina da maratona, a temperatura no Rio de Janeiro era de 22º C; enquanto isso, nevava no Estado de Santa Catarina. De qualquer modo, era inverno - oficialmente - em um e outro lugar. 


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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Como morreu o primeiro bispo do Brasil

Intrigas administrativas, antropofagia e escravização de indígenas no palco da colonização no Século XVI


Uma carta escrita pelo jesuíta Manuel da Nóbrega em 1549, cujo destinatário era o padre-mestre Simão Rodrigues, trazia a seguinte observação, com respeito àquele que viesse a ser indicado para o cargo de primeiro bispo do Brasil: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (¹) Alguns anos depois, o mesmo Nóbrega, em carta ao cardeal infante Dom Henrique, ainda diria: "Certifico a Vossa Alteza que nesta terra, mais que em nenhuma outra, não poderá um governador e um bispo, e outras pessoas públicas, contentar a Deus Nosso Senhor e aos homens, e o mais certo sinal de não contentar a Nosso Senhor é contentar a todos, por estar o mal mui introduzido na terra por costume." (²)
D. Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi o escolhido para primeiro bispo do Brasil. Autores de seu tempo descreveram-no como homem virtuoso e atento às questões pertinentes à Igreja no território colonial, o que não impediu (ou até favoreceu) que entrasse em atrito com o governador-geral Duarte da Costa, cujo filho era tido pelo bispo como um péssimo exemplo para os habitantes da Bahia. O resultado da contenda foi que D. Pedro Fernandes Sardinha deixou a função que ocupava e se preparou para voltar ao Reino, a fim de prestar contas dos entreveros com o governador. O que aconteceu em seguida contribuiu para tornar este bispo tristemente famoso. Gabriel Soares, autor do Século XVI, escreveu:
"Aqui se perdeu o bispo do Brasil Dom Pedro Fernandes Sardinha com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor, que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste rio de São Francisco até o da Paraíba. Depois que estes caetés roubaram este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição." (³)
Mais conciso e mais virulento, o jesuíta Simão de Vasconcelos assim registrou o caso um século mais tarde, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Em uma enseada, junto a este rio [São Francisco], alguns anos depois sucedeu o triste desastre do naufrágio do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, primeiro do Brasil, que dando nela à costa, foi cativo dos índios caetés, cruéis e desumanos, que conforme o rito de sua gentilidade, sacrificaram à gula e fizeram pasto de seus ventres, não somente aquele santo varão, mas também a cento e tantas pessoas, gente de conta, a mais dela nobre, que lhe faziam companhia voltando ao Reino de Portugal." (⁴)
É verdade, leitores. Dom Pedro Fernandes Sardinha e seu ilustre séquito foram vítimas de antropofagia em julho de 1556. É difícil saber o quanto andavam más as relações entre colonizadores e caetés anteriormente ao naufrágio, já que os registros da época, à exceção dos feitos por missionários, tendem a generalizar as características dos povos indígenas, atribuindo a eles toda a responsabilidade quando se declarava uma situação de confronto. Sabemos, porém, que, alguns anos mais tarde, sendo Mem de Sá o governador-geral, determinou-se que todos os "gentios do Caeté" deviam, como castigo, ser escravizados, independente de quem estivesse ou não envolvido na morte do bispo e de seus companheiros de viagem. Uma informação atribuída a José de Anchieta mostra que, afinal, a ordem do governador foi vista como uma licença para matar e escravizar todos os indígenas que fossem encontrados, de tal maneira que um massacre (o de Dom Pedro Fernandes Sardinha) foi seguido de outro ainda maior:
"Neste [...] ano de 1562, estando todos os índios com muita paz e quietação em suas igrejas, e fazendo-se muito fruto nas almas, quis o governador Mem de Sá castigar os índios do Caeté [...], por terem morto o bispo Dom Pedro Fernandes, e outra muita gente que desta Bahia partiu para o Reino em uma nau [...], pronunciou o dito governador sentença contra o dito gentio do Caeté, que fossem escravos onde quer que fossem achados sem fazer exceção nenhuma, nem advertir no mal que podia vir à terra.
[...] Nas igrejas dos padres (⁵) havia muito gentio que procedia daquele, mas criados e nascidos nesta parte da Bahia, que não viram e nem foram em tais mortes, mas como o demônio sabia que era esta a melhor invenção que podia haver para destruir o que estava feito e impedir que não fosse por diante a conversão do gentio, ajudou-se do desejo que os portugueses tinham de haver escravos, tanto que em breves dias se despovoou toda a terra [...]." (⁶)
Abreviando a história: quando os indígenas compreenderam o que estava acontecendo, trataram de fugir com suas famílias para o sertão. Quem esperaria outra coisa?
O governador ainda tentou consertar o erro, mas sem muito resultado: 
"Vendo o governador quão mal isto saíra, e quantos males e pecados daqui resultaram, que pagavam os inocentes pelos culpados, e que a terra se destruíra em tão pouco espaço de tempo, revogou a sentença dos caetés, mas a tempo que já não havia remédio, porque como os homens andavam já tão metidos no saltear dos índios, como ainda agora hoje em dia se vê [...], usavam outra manha não menos perigosa, onde os índios se iam esconder para fugir deles, e faziam com eles que se vendessem uns aos outros, dizendo que eram caetés [...]." (⁷)
Vejam, leitores, que a morte do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha ocorreu em 1556, e foi somente uns seis anos mais tarde que o novo governador-geral resolveu punir os responsáveis. Não se trata, aqui, de defender a antropofagia - isto está fora de questão - mas, como duvidar de que, tanto tempo depois, o suposto castigo aos caetés não passasse de um reles subterfúgio, de uma tentativa de aplicar um verniz de legalidade para o apresamento e escravização de indígenas? 

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 296.
(2) Ibid., p. 313.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 37 e 38.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 52 e 53.
(5) Referência aos missionários da Companhia de Jesus.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 355.
(7) Ibid., p. 356.


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

A atuação dos missionários jesuítas durante uma epidemia de varíola no Século XVI

A varíola foi um dos maiores terrores dos tempos coloniais. Matava, muitas vezes, mas a sobrevivência a ela era igualmente temida - não raro, desfigurava e/ou resultava em cegueira. Sendo desconhecida na América antes da chegada de europeus em fins do Século XV, mostrou-se particularmente letal entre a população indígena, havendo mesmo quem tenha acusado os conquistadores espanhóis de tê-la deliberadamente "apresentado" à população asteca. A vacinação foi introduzida no Brasil em fins do Século XVIII, mas, até lá, muita gente, de todas as idades, perderia a vida por causa da terrível doença. 
Se levarmos em conta o terror que a varíola inspirava, torna-se ainda mais surpreendente o comportamento dos missionários jesuítas quando uma epidemia de varíola irrompeu no Brasil, fazendo mortes numerosas entre indígenas. No primeiro século da colonização, a assistência médica aos colonizadores era praticamente nula - que se poderia supor, então, que ocorresse relativamente à população nativa? Vejamos o que diz um documento atribuído a Anchieta (¹):
"Em tempo das bexigas [varíola] [...], os padres andavam com alguns moços pelas casas dos índios, lavando-os e limpando-os; era tal a doença das bexigas que, curando-os desta maneira, muitas vezes lhes ficava a pele e a carne dos doentes pegada nas mãos, e o cheiro era tal que se não podia sofrer; os padres lhes acudiam com lenha e água, e andavam com os índios sãos buscando e repartindo isto, e em casa dos que tinham mandavam fazer de comer para os mais necessitados, e em alguma parte se fazia de comer cada dia para sessenta a setenta pessoas, e se os padres lhes faltavam com isto, faltava-lhes o remédio." (²)
Por suposto, ao lidar com os enfermos, os missionários tinham em vista a catequese. Prossegue o mesmo documento:
"De noite e de dia andavam os padres ministrando-lhes os sacramentos da confissão e unção sem descansar, nem terem tempo para rezar suas horas, enterrando cada dia dez e doze, ajudando-lhes a fazer as covas e trazê-los à igreja para os encomendar e enterrá-los [...]." (³)
Ao que se supõe, os padres não tinham qualquer ideia quanto ao modo como a doença se propagava, ou, se tinham, parece que enfrentavam corajosamente a possibilidade de contágio. No entanto, devido às condições de higiene em que atuavam, é razoável perguntar se, no empenho por atender às necessidades básicas dos enfermos, não acabavam, eles mesmos, quando iam de casa em casa, contribuindo para que mais gente adoecesse. Vários dentre os jesuítas estiveram doentes, embora não fique claro, pela maneira como se expressa o autor do documento (quem quer que seja ele), se tiveram varíola ou outra moléstia qualquer:
"[...] Dos grandes trabalhos que nestas doenças os padres tiveram com eles, vieram a adoecer, de que estiveram muito mal [...]." (⁴)

(1) Embora haja alguma dúvida quanto ao verdadeiro autor, esse documento é autenticamente do Século XVI. É provável que a epidemia de varíola referida seja a de 1563.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 380.
(3) Ibid.
(4) Ibid., pp. 380 e 381.


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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Férias escolares no Século XVI

Nos próximos dias, quase todos os estudantes brasileiros estarão deixando os estabelecimentos de ensino para as férias de verão. Dificilmente haverá tempo mais aguardado no ano, é não é de hoje que é assim. Em um documento datado de 31 de dezembro de 1585 e que é atribuído ao padre José de Anchieta, ficamos sabendo que nos colégios que os jesuítas tinham no Brasil, as férias escolares aconteciam nos meses de dezembro e janeiro:
"Das férias gozam os estudantes em dezembro e janeiro. Os estudos começam em 4 de fevereiro." (¹)
Entre as razões para as férias nessa época estavam os festejos associados ao Natal e ao Ano-Novo e as altas temperaturas de dezembro e janeiro, consideradas desfavoráveis aos estudos (²).
Há mais de quatrocentos anos, portanto, as férias escolares acontecem na mesma época, e é pouco provável que alguém esteja seriamente interessado em introduzir alguma mudança. Quem foi que disse que coisas antigas sempre devem dar lugar a inovações? 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 425.
(2) Alguém discorda?


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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Com que se parece uma preguiça?

A preguiça é, como se sabe, um animal muito lento. Seria injustiça dizê-la preguiçosa - não é defeito de caráter, mas culpa da taxa de metabolismo.
Vem do padre Anchieta (¹) a mais perniciosa descrição das preguiças que conheço:
"Há outro animal que os índios chamam aig e nós "preguiça", por causa da sua excessiva lentidão em mover-se; na verdade preguiçoso, pois é mais vagaroso que um caracol; tem o corpo grande, cor de cinza, a sua cara parece assemelhar-se alguma coisa do rosto de uma mulher [...]." (²)
Parecida com o "rosto de uma mulher"? Ora, bem se vê que Anchieta não entendia mesmo do assunto...
Era voz corrente no Século XVI que indígenas comiam qualquer coisa que encontravam, exceto aranhas (³). Tolice! Segundo Gabriel Soares, senhor de engenho e contemporâneo de Anchieta, indígenas do Brasil não comiam a carne das preguiças:
"[...] Acontece muitas vezes tomarem os índios um destes animais [as preguiças], e levarem-no para casa, onde o têm quinze e vinte dias, sem comer coisa alguma, até que de piedade o tornam a largar; cuja carne não comem por terem nojo dela." (⁴)
A explicação mais provável é esta: vários povos indígenas achavam que comer a carne de outro ser vivo (depois de morto, naturalmente) permitia adquirir algumas de suas características (⁵). Uma prova acabada desse fato é o modo como aqueles que praticavam a antropofagia repartiam a carne do prisioneiro que sacrificavam. Pois bem, no caso da preguiça, a razão para não incluí-la na dieta torna-se evidente - não queriam adquirir a lennnnnnnnnnntidão do animal.

Representação bastante razoável de uma preguiça (⁶)
Que tal esta outra, leitores? É do Século XVII... (⁷)

(1) Em carta escrita em São Vicente no ano de 1560, tendo por destinatário o Geral dos jesuítas, que era, na época, Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 106.
(3) Essa e muitas outras tolices semelhantes eram resultado de um conhecimento ainda escasso sobre a diversidade cultural dos povos indígenas.
(4) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 258.
(5) Como a força, por exemplo, mas não sua aparência.
(6) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 52.
(7) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 221.


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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Marmeladas de São Paulo

São Paulo tinha uma produção agropecuária bastante variada em fins do Século XVI


No primeiro século da colonização, São Paulo era mais famosa pelas constantes revoltas e arruaças do que por aquilo que nela se produzia. Paulistas já andavam perscrutando o interior, mas o achado de jazidas auríferas ainda estava distante. As expedições eram, portanto, como regra, organizadas para "descimento do gentio", um eufemismo para aprisionamento de indígenas que seriam escravizados.
Apesar disso (ou, talvez, por causa disso), para padrões coloniais a agricultura tinha razoável desenvolvimento nas terras da Capitania de São Vicente, que hoje integram o Estado de São Paulo. O padre Anchieta escreveu (¹), sobre a região:
"É terra de grandes campos, fertilíssima de muitos pastos e gados, de bois, porcos, cavalos, etc., e abastada de muitos mantimentos. Nela se dão uvas e fazem vinho, marmelo em grande quantidade e se fazem muitas marmeladas, romãs e outras árvores de fruto da terra de Portugal. [...] Se dão rosas, cravinas, lírios brancos." (²)
Anchieta devia saber do que falava, porque não somente viveu em São Paulo de Piratininga, como esteve presente à sua fundação. Ele não foi, porém, o único a falar da produção agrícola e pastoril que havia na Capitania, citando, com entusiasmo, as famosas marmeladas. Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587 (³), observou: 
"São os ares frios e temperados [...], cuja terra é mui sadia e de frescas e delgadas águas, em as quais se dá o açúcar muito bem, e se dá trigo e cevada [...]. Criam-se aqui tantos porcos e tamanhos que os esfolam para fazerem botas [...]. Dão-se nesta terra todas as frutas de espinho (⁴) que em Espanha [...]; dão-se [...] uvas, figos, romãs, maçãs e marmelos em muita quantidade, e os moradores da vila de São Paulo têm já muitas vinhas [...]; e também há já nesta terra algumas oliveiras que dão fruto, e muitas rosas, e os marmelos são tantos que os fazem de conservas, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras capitanias." (⁵)
É evidente a concordância entre os testemunhos de Anchieta e de Gabriel Soares. Sabendo que Anchieta viveu durante vários anos em São Paulo, e que, mais tarde,  como provincial jesuíta entre 1577 e 1587 residiu em Salvador, é lícito pensar que possa ter sido uma das fontes de informação a que Gabriel Soares recorreu para compor o seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Não parece restar dúvida, porém, de que ambos eram apreciadores das marmeladas de fabricação paulista, ou não seriam tão enfáticos em fazer menção a elas.

(1) O documento atribuído a José de Anchieta tem a data de 1585 e recebeu o título de "Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre".
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 423 e 424.
(3) Vejam, portanto, leitores, que Gabriel Soares escreveu pouco tempo depois de Anchieta haver composto a sua "Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre".
(4) Referência às frutas cítricas.
(5) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 98 e 99.


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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Na falta de médicos, jesuítas prestavam assistência aos doentes no Brasil Colonial

Os jesuítas que vieram ao Brasil desde meados do Século XVI tinham, como objetivo primário, empreender a catequese dos povos indígenas. Logo que chegaram, ficou evidente que, em grande parte, deles dependeria a assistência religiosa aos portugueses colonizadores. O trabalho junto aos indígenas tornou possível, também, que missionários da Companhia de Jesus andassem pelo interior do Brasil como verdadeiros exploradores do território ainda desconhecido para europeus. Logo, porém, os "padres da Companhia" perceberam que teriam ainda outra tarefa, diante das condições precárias em que vivia a maior parte da população colonial - deixemos que José de Anchieta explique por si mesmo:
"Neste tempo que estive em Piratininga servi de médico e barbeiro, curando e sangrando a muitos daqueles índios, dos quais viveram alguns de quem se não esperava vida [...]." (¹) 
Estas palavras foram escritas em uma carta datada de 1554. De saída, é necessário lembrar que, quando Anchieta diz que serviu como barbeiro, não queria isso significar que andava a cortar os cabelos ou fazer a barba de quem quer que fosse. É que nesse tempo, quando alguém tinha febre, costumava chamar um barbeiro que fazia sangria. Que é isso? Simples, acreditava-se, com base em ideias desenvolvidas ainda na Antiguidade greco-romana, que a febre era indício de um excesso "força vital". Portanto, para resolver o problema, retirava-se um pouco de sangue da pessoa febril, para que sarasse. Ora, com tal tratamento, às vezes a febre baixava mesmo. De uma vez para sempre. Sangrias, porém, não eram aplicadas apenas quando o paciente tinha febre. Eram recomendadas para quase tudo. E ninguém imagine que esse "tratamento" era praticado apenas em comunidades isoladas na América. Era o que se fazia em quase todo o mundo dito "civilizado", e assim continuaria a ser, ainda por centênios.
É verdade que, aos missionários, era vedado "derramar sangue", mas, depois de uma consulta ao Geral e Fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola, foi-lhes dada uma permissão para que socorressem os doentes, face à situação de penúria na Colônia, pela absoluta falta de profissionais habilitados na área da saúde. Por isso é que Anchieta escreveu a seus irmãos de Ordem que viviam em Portugal sobre o trabalho que andava a fazer, de "médico e barbeiro". A assistência a indígenas e portugueses não estava restrita à pequenina São Paulo de Piratininga, fundada em 1554. Era praticada, havendo doentes, onde quer que estivessem os padres.
Não há dúvida de que, ao cuidar de enfermos entre os índios, os padres procuravam, com habilidade, obter a confiança também em seus ensinos de caráter religioso. Em outra carta, escrita dois anos mais tarde, Anchieta seria explícito nessa questão:
"[Os indígenas] não podem deixar de admirar e reconhecer o nosso amor para com eles, principalmente porque veem que empregamos toda a diligência no tratamento de suas enfermidades, sem nenhuma esperança de lucro." (²)
Faziam isso como estratégia de evangelização:
"Fazemos isto, na intenção de preparar para o recebimento do batismo, caso haja necessidade, os seus espíritos, em tais circunstâncias mais redutíveis e mais brandos [...]." (³)
Independente da opinião que se tenha sobre os métodos de catequese que estavam em uso no Século XVI, não podemos deixar de admirar a caridade manifestada por Anchieta, segundo um relato feito por ele mesmo ao padre Diego Laynez (Geral dos jesuítas entre 1558 e 1565), relativo ao período em que esteve com Nóbrega negociando a paz entre tamoios e colonizadores. Um índio que tencionava matá-los adoeceu gravemente, e recebeu os cuidados dos padres:
"[...] Se inchou uma mão em tanta maneira que toda se corrompeu, a qual eu lha abri em duas partes com uma lanceta [...], e junto com isto se lhe empolou o braço até os ombros de umas inflamações tão feias, que os outros não se ousavam de chegar a ele, mas mirando-o de longe, me diziam que o curasse e fizesse não se estendesse aquele mal pelos outros, e todos o desampararam sem se doer dele, nem dar-lhe de comer, nem houve entre todos seus parentes quem me buscasse um pouco de mel pelos bosques com que o curasse, e ainda que eu lho pagava; eu rompi uma camisa que tinha e curei-o com azeite, buscando-lhe de comer e dando-lho por minha mão, porque ele não podia [...]." (⁴)
Os padres da Companhia eram procurados inclusive para prestar assistência às mulheres em trabalho de parto, conforme explicou Anchieta em outra carta, desta vez escrita em São Vicente no ano de 1560:
"Muitas vezes nos levantamos do sono, ora para os enfermos e os que morrem, ora para as mulheres de parto, sobre as quais pomos as relíquias dos santos, e parem, e o que elas não ignoram, começando a sentir as dores, logo as mandam pedir, havendo-se primeiro confessado." (⁵)
Sim, leitores, entendo que estejam horrorizados. Explico, apenas, que a prática absurda de colocar relíquias de santos sobre parturientes eram coisa comum no Século XVI, e mesmo mais tarde. Parece absurdo para nós, mas as pessoas daquele tempo realmente criam que isso funcionava, tanto para a mãe quanto para o bebê que ia nascer. 
Anchieta, em seus escritos, sempre procurava deixar claro que os jesuítas eram chamados para socorrer não apenas indígenas, mas também colonizadores que viviam nas proximidades dos colégios da Companhia de Jesus. "Acudimos a todo gênero de pessoa, português e brasil, servo e livre, assim em as coisas espirituais como em as corporais, curando-os e sangrando-os, porque não há outro que o faça [...]" (⁶), observou ele, em uma carta datada de 1562. O ponto essencial, aqui, destacado pelo próprio missionário, é que não havia ninguém que cuidasse da saúde da comunidade colonial em Piratininga, de modo que, nesse aspecto, os jesuítas faziam o que podiam ou achavam que dava algum resultado. Esse fato é extremamente revelador sobre as condições sanitárias que vigoravam nos primeiros tempos coloniais. A procura pelo atendimento dos padres era tão frequente, que, tanto no caso de indígenas como de portugueses, se traduzia em uma verdadeira dependência, sobre a qual Anchieta ainda diria:
"É gente miserável [os indígenas], que em [...] enfermidades nem sabem nem têm com que se curem, e assim todos confugem a nós outros demandando ajuda, e é necessário socorrê-los não só com as medicinas, mas ainda muitas vezes com lhes mandar a levar de comer e dar-lho por nossas mãos, e não é muito isto em os índios, que são paupérrimos, os mesmos portugueses parece que não sabem viver sem nós outros, assim em suas enfermidades próprias, como de seus escravos: em nós outros têm médicos, boticários e enfermeiros, nossa casa é botica de todos, poucos momentos está quieta a campainha da portaria, uns idos, outros vindos a pedir diversas coisas [...]." (⁷)
O que concluímos disso tudo? Ora, se parece certo que os missionários jesuítas não procuraram para si a atribuição de prestar os primeiros socorros nas incipientes comunidades coloniais, fica também evidente que o rumo dos acontecimentos foi interpretado como uma oportunidade para a catequese e para o crescimento da influência que a Companhia de Jesus podia exercer entre portugueses que viviam no Brasil, face à vulnerabilidade ocasionada por situações de risco para a vida.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 61.
(2) Ibid., p. 88.
(3) Ibid. 
(4) Ibid., pp. 227 e 228.
(5) Ibid., p. 149.
(6) Ibid., p. 179.
(7) Ibid., p. 240.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mosquitos

Durante muito tempo, ninguém associou mosquitos à transmissão de doenças


Mosquitos são detestáveis. Alguém discorda? São incômodos. Mas não é só. Podem transmitir uma quantidade enorme de doenças e, várias delas, letais. Povos antigos sofriam com a presença deles - Heródoto relatou que os antigos egípcios usavam redes para combater as hordas invasoras de mosquitos, que teimavam em adentrar casas e templos. Nós, do Século XXI, estamos longe de domar esses monstrinhos minúsculos.
Os colonizadores que, no Século XVI, ousaram encarar o desafio de descobrir o que havia para além do litoral brasileiro, logo toparam com nuvens de mosquitos, embora eles não estivessem ausentes nas regiões costeiras. É interessante que, não muito depois, pessoas adoeciam, tinham febres terríveis, não poucas morriam, mas essa gente era incapaz de fazer alguma associação entre picadas de mosquitos e doenças. A ignorância persistiu por muito tempo, e vou provar que isso é verdade. 
Em uma carta escrita por Anchieta em maio de 1560, quando esse missionário jesuíta estava em São Vicente, encontramos:
"Há pelo mato uma grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem [sic] cruelmente [...], quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e sutilíssimas (¹); furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça, com a qual se dispersam." (²)
Se a descrição de Anchieta é suficiente para provocar calafrios, mais será a que vem agora: o caso de um jesuíta do Século XVII que usava as picadas de mosquitos para autoflagelação. É isso mesmo! Contou Manoel da Fonseca, em Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes:
"Despia-se, e posto na margem do Tamanduateí, para aquela parte onde têm os religiosos de Nossa Senhora do Carmo o seu convento, se expunha à fúria dos mosquitos, os quais, ainda que pequenos animalejos, parece que malsatisfeitos com as águas do rio, em que viviam, pretendiam saciar-se com o seu sangue. [...] Neste estado se conservava largo tempo, e se algum dos que se lavavam, vendo-o maltratado das molestas picaduras daqueles animalejos, lhos queria afugentar, o impedia, dizendo que os deixasse, porque buscavam sua vida. Assim disfarçava a sua mortificação [...]." (³)
Melhor ir adiante, e bem depressa. Passemos ao Século XIX, um pouco depois da Independência. O Brigadeiro Cunha Matos, percorrendo a Província de Goiás, constatou que, em certos lugares, as "febres" eram frequentes entre a população. Queria saber a causa, e fez algumas conjecturas:
"As febres intermitentes atacam a maior parte das pessoas que transitam pelas terras ao norte de Goiás; [...] As chuvas copiosas e o conservar a roupa molhada durante e depois das marchas, são provavelmente as causas das sezões que padecem os viandantes." (⁴)
Já veem os leitores que Cunha Matos não atinava com o fato de que as ferinhas de asas, habitando profusamente as áreas alagadas na estação das chuvas, tinham um papel preponderante em propagar doenças. Mas continuava ele suas inspeções, construindo hipóteses a partir do que ouvia o povo dizer, em relação a um lugar considerado como "dos mais doentios do universo":
"O nome do rio Bezerra amedronta a todas as pessoas, e eu fui obrigado a ordenar que os soldados dessem um grande rodeio para não passarem no porto desta estrada de Arraias, a fim de obstar ao ataque de febres intermitentes que, segundo dizem, procedem dos eflúvios de uma lagoa existente na margem esquerda do rio [...]." (⁵)
"Procedem dos eflúvios de uma lagoa" - parece que Cunha Matos fazia suas pesquisas no sistema daquela brincadeira infantil do tipo "está quente" ou "está frio"... 
Digamos que estava morno. Em outro lugar (ainda na Província de Goiás), emitiu juízo semelhante, culpando os "miasmas pútridos":
"O rio de Manoel Alves passa distante do arraial duas léguas, e como o terreno é baixo, e no começo das chuvas fica coberto de águas, que durante a estação seca se corrompem, resultam febres inflamatórias que atacam a muitas pessoas que se acham ao alcance dos miasmas pútridos espalhados na atmosfera." (⁶)
Foi somente em fins do Século XIX que pesquisadores conseguiram efetivamente associar os mosquitos ao ciclo de transmissão de vários tipos de febres intermitentes. Deveríamos esperar, portanto, que, combatendo mosquitos e eliminando locais onde se reproduzem, as doenças que transmitem viessem a desaparecer. Estranhamente, tem acontecido o inverso, uma vez que áreas supostamente livres de febre amarela, malária, etc. têm apresentado ocorrências, em paralelo ao aparecimento de doenças até aqui desconhecidas e/ou com uma capacidade de causar dano muito maior do que se supunha. Há mesmo quem diga que o ciclo reprodutivo das várias espécies de mosquitos está mais curto, em decorrência da elevação da temperatura média na Terra. Será que teremos que fugir para os polos?

(1) Não se deve esperar que Anchieta tivesse conhecimentos de entomologista. Suas descrições usam a linguagem corrente na época, sem pretensões a rigor científico. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 123.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 14 e 15. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 196.
(5) Ibid., p. 218.
(6) Ibid., p. 255.


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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Missionários jesuítas como pesquisadores do território brasileiro no Século XVI

Quem vem primeiro à sua mente, leitor, quando se fala em exploradores e descobridores de riquezas no Brasil Colonial? 
Navegadores? Condenados a degredo? Náufragos? Bandeirantes?
Inclua em sua lista os missionários jesuítas, porque também eles andaram a investigar territórios nos quais, segundo se presume, jamais europeus haviam pisado, como foi o caso do interior da Capitania de São Vicente. Tinham suas expedições facilitadas porque contavam com o auxílio de indígenas, detentores de certo conhecimento da região. Como quase não havia caminhos terrestres, era frequentemente através de rios que viajavam e, nesse sentido, a existência do Tietê, um rio que corre rumo ao interior e não para o oceano, foi de grande valia.
Suas viagens eram empreendidas, primariamente, com o objetivo de fazer contato com grupos indígenas isolados que pretendiam catequizar. Na explicação de Anchieta, em carta escrita em São Vicente a 12 de junho de 1561, e tendo por destinatário o Geral dos jesuítas Diego Lainez, os missionários viajavam e visitavam os índios "por suas aldeias, parte pelos rios, parte por terra, com não pequeno trabalho [...]". (¹)
É certo que havia perigo nessas viagens. Na mesma carta dizia Anchieta que os caminhos para quem ia de São Vicente a Piratininga (²) eram "mui ásperos e despovoados, onde não há conversação senão dos tigres (³), cujas pisadas achamos muitas vezes frescas, por onde passamos" (⁴)
Mas não era só. Sendo a neblina, às vezes, tão intensa, era possível que alguém se perdesse em meio ao arvoredo. Seguimos ainda com a carta de Anchieta:
"Uma vez, depois de termos corrido todas as igrejas, partimos delas por terra mui de manhã, por poder vir à missa, que era domingo, e um irmão saiu adiante, o qual assim por saber mal o caminho, como pela grande escuridade das nuvens, que muito tempo do ano duram quase até dez horas e são frigidíssimas, pensando caminhar para casa, tomou o caminho em contrário e perdeu-se, sem achar caminho até quase meio-dia, que se desfez de todo a névoa [...]." (⁵)
Eventualmente jesuítas, na condição de capelães, acompanhavam expedições que iam ao interior. O padre Aspilcueta Navarro, segundo menção do também padre Simão de Vasconcelos, integrou, no Século XVI, uma entrada ao sertão, cuja meta era descobrir jazidas de metais preciosos. O próprio missionário é que pediu ao superior que entrasse em ação para que a ele, Aspilcueta Navarro, fosse dado lugar entre os expedicionários: 
"[...] Pede ao padre Nóbrega se aproveite da ocasião e o mande a ele com título de capelão daquela gente em busca de almas (pois outra semelhante não se acharia facilmente) e a explorar aqueles sertões e denunciar por eles a fé de Cristo, e que por esta via se faziam dois serviços, juntamente a Deus e ao rei, que não tinha capelão que mandar." (⁶) 
Procurariam ouro também os jesuítas? Muita especulação já se construiu a respeito, majoritariamente após a expulsão da Companhia de Jesus de Portugal e de seus domínios em 1759, quando se pretendia justificar a medida com base em um suposto interesse dos missionários em construir um império na América. Entretanto, em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga em 1554, Anchieta dizia:
"[...] Agora finalmente se descobriu uma grande cópia de ouro, prata, ferro e outros metais, até aqui inteiramente desconhecida (como afirmam todos), a qual julgamos ótima e facílima razão, de que já por experiência estamos instruídos." (⁷)
Quem descobriu? Onde? Anchieta não diz, e há quem afirme que as tais minas teriam sido encontradas pela expedição chefiada por certo Francisco Bruza de Espiñosa. Se for esse o caso, as descobertas não valiam grande coisa, mas nessa expedição é que esteve o padre Aspilcueta Navarro como capelão. Já se vê, portanto, que, de um ou outro modo, os jesuítas podem ser contados entre os que exploraram o território brasileiro, ainda que, quase sempre, tivessem por objetivo principal a catequese, ao contrário de outros expedicionários, que assumiam declaradamente o propósito de descobrir riquezas minerais em razão do lucro que trariam.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 166.
(2) Caminho do Mar.
(3) Onças.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 165.
(5) Ibid., p. 167.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 72.
(7) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 49.


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