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terça-feira, 1 de maio de 2018

O poeta José de Anchieta

Praia de Iperoig (Ubatuba - SP), onde se supõe
que Anchieta tenha escrito o Poema à Virgem

Anchieta é famoso pelo Poema à Virgem, do qual todo mundo ouve falar na escola, mas que quase ninguém lê - os versos foram escritos em latim e, segundo o próprio Anchieta relatou, registrados originalmente nas areias de Iperoig enquanto foi refém dos tamoios (¹). Sobre a habilidade de Anchieta em fazer versos, o padre Simão de Vasconcelos, jesuíta como ele, escreveu:
"Compôs [...] em várias partes do Brasil, com vivo e raro engenho, muitas obras poéticas, em toda a sorte de metro, em que era mui fácil, todas ao divino e a fim de evitar abusos e entretenimentos menos honestos." (²) 
Como professor, Anchieta era adepto de rimas, não apenas por questões estéticas, mas como recurso didático, a fim de doutrinar indígenas e colonizadores. Estes últimos, como se sabe, eram pouco ilustres pelos afetos religiosos. Os versos tornavam mais fácil e atraente a memorização, e, lendo as quadrinhas seguintes, até podemos imaginar o padre José, (como era habitualmente chamado por seus contemporâneos), ensinando os meninos que acorriam às suas aulas:

"Noé fez a grande arca 
em que o homem racional 
junto com o bruto animal 
escapassem, como em barca
do dilúvio universal."

"Davi com grande vigor
um leão mui carniceiro
e um urso roubador,
com o gigante espantador
matou, com ser ovelheiro." (³)

Não me parece justo discutir o mérito artístico destes singelos versinhos. Como já disse, o propósito de José de Anchieta era, com suas rimas, embutir assuntos religiosos na cachola da população colonial. Para uso nas festas religiosas, era comum que as palavras fossem vestidas com música, que, porém, com o tempo, se perdeu. Que pena!...

(1) Escrever na areia foi o método escolhido por Anchieta para reter os versos na memória.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 26.
(3) ANCHIETA, José de S.J. Carta da Companhia.


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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Escrever na areia

Escrever, hoje, é algo comum e mesmo indispensável, ao menos no mundo ocidental. Na Antiguidade, porém, a escrita não era para todos. Egípcios e mesopotâmios tinham especialistas em escrita - os escribas -, donde se vê que, nesse tempo, a capacidade de escrever era, por si mesma, uma profissão. No caso da Grécia e de Roma Antigas, o desenvolvimento cultural conduziu à ideia de que o estudo, a começar pela escrita, era importante para a formação da elite política. A capacidade de escrever, tanto quanto a de falar em público, passou a ser vista como algo essencial ao exercício da cidadania. 
Os papiros e pergaminhos, suportes frequentes para escrita daquilo que se pretendia durável, eram caros, de modo que nem todo mundo tinha acesso a eles. Nas escolas do mundo romano era usual que as crianças escrevessem com pequenos bastões sobre tabuinhas cobertas de cera, que tinham a vantagem da reutilização. Entre os antigos gregos não era nenhuma raridade que pequenas anotações fossem feitas em pedaços de cerâmica.
E quanto àqueles rabiscos comuns do dia a dia, aqueles que ninguém acreditava merecessem a honra de ficar para a posteridade? 
Temos uma pista do que acontecia através de um episódio referido por Aurelius Augustinus (ou Santo Agostinho, se preferirem) em suas Confissões. Afirmava ele ter-se dedicado, quando jovem, ao estudo das Categorias de Aristóteles, obtendo delas uma compreensão excelente. O mesmo não acontecia com seus companheiros que, a despeito de muito esforço, não conseguiam meter na cabeça o pensamento do filósofo estagirita. Augustinus, disposto a ajudar os amigos, tecia comentários, dava explicações e (eis aqui o que mais nos interessa), fazia esboços na areia. Essa era uma prática comum entre povos antigos (¹), embora hoje esteja restrita, em quase exclusividade, ao universo das brincadeiras infantis.
Mais de mil anos depois de Santo Agostinho, outro escritor traçaria palavras na areia, e olhem leitores, que também era em latim. O jovem missionário José de Anchieta, detido entre os tamoios, ocupou-se, no Século XVI, em escrever versos de seu poema dedicado à Virgem. Como naquele momento não dispunha de papel e queria memorizar o que ia compondo, traçava as palavras ao longo da praia de Iperoig (²). No tempo de Agostinho ou no de Anchieta, escrever na areia tinha um grave defeito: a transitoriedade. 

(1) Já imaginaram, leitores, quanta coisa interessante deve ter-se perdido por causa desse costume?
(2) Muito provavelmente localizada no litoral norte do atual Estado de São Paulo.


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quinta-feira, 31 de março de 2011

O surgimento de povoações no Brasil - As vilas litorâneas

Já que as primeiras povoações estabelecidas por portugueses no Brasil localizavam-se no litoral, era importante que fossem edificadas junto a bons portos naturais, além de ter, topograficamente, condições favoráveis à defesa, uma vez que os ataques de corsários eram frequentes e, com o tempo, o confronto com os indígenas (por razões óbvias), fez-se também habitual. Assim, considera-se que, formalmente, a primeira dessas povoações foi São Vicente, estabelecida por Martim Afonso de Sousa. É o próprio irmão desse explorador e navegador quem relata:
"A todos nos pareceu tão bem esta terra que o capitão determinou de a povoar, e deu a todos os homens terras para fazerem fazendas, e fez uma vila na Ilha de São Vicente e outra nove léguas dentro pelo sertão, à borda de um rio, que se chama Piratininga, e repartiu a gente nessas duas vilas e fez nelas oficiais; e pôs tudo em boa obra de justiça, de que a gente toda tomou muita consolação, com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios e celebrar matrimônios e viverem em comunicação das artes, e ser cada um senhor do seu e vestir as injúrias particulares e ter todos os outros bens da vida segura e conversável." (¹)
Dessas povoações junto ao litoral é que partiram, gradualmente, grupos de exploradores que buscavam investigar o interior do Brasil. E, segundo Saint-Hilaire, foi o mesmo Martim Afonso quem liderou um passo significativo nesse sentido:
"A Martim Afonso, em última palavra, deve-se o primeiro estabelecimento regular dos portugueses em o Novo Mundo. Esse ilustre homem não se contentou, porém, como tantos outros capitães portugueses, em explorar a costa; quis conhecer e desbravar o interior das terras. Através de mil perigos, escalou a cadeia marítima denominada pelos indígenas Paranapiacaba; do cume das altas montanhas que a constitui pôde fazer uma ideia exata da magnífica região cuja posse acabava Martim Afonso de assegurar para a monarquia lusa; e assim penetrou até a planície de Piratininga (1532), domínio de seu fiel aliado - o cacique Tibiriçá." (²)
Antigo canhão em Ubatuba, SP
Em diversos casos, as povoações litorâneas foram estabelecidas em locais de antigos aldeamentos indígenas. Considera-se que Ubatuba, no litoral de São Paulo, por exemplo, foi fundada, no século XVII,  no lugar a que os tamoios reuniam-se e denominavam Iperoig. Esse é um caso interessante, já que o povoamento veio também pelo interesse na defesa da terra como conquista portuguesa, uma vez que a área em que Ubatuba está localizada era frequentemente visitada por corsários franceses, que efetuavam comércio de pau-brasil com a população indígena e que,  por diversas vezes, tentaram estabelecer-se permanentemente no território. Entretanto, quase isolada no litoral norte de São Paulo, Ubatuba demorou a crescer. No início do século XIX, escrevia sobre ela o Padre Ayres de Casal:
"Ubatuba, vila pequena com uma igreja matriz e uma capela de N. Sra. da Conceição, situada junto à foz de uma ribeira, no princípio de uma planície fértil, e regada de várias torrentes: seus habitantes são pescadores e cultivadores de mandioca, arroz e café. Fica pouco menos de oito léguas ao nordeste de São Sebastião, e perto da raia da Província." (³)

Placa em monumento comemorativo à
"Paz de Iperoig" 
em Ubatuba - SP

(1) Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa pela costa do Brasil até o Rio Uruguai (de 1530 a 1532). Rio de Janeiro: Tipografia de D. L dos Santos, 1867, p. 66.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 142.
(3) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica.


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