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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mosquitos

Durante muito tempo, ninguém associou mosquitos à transmissão de doenças


Mosquitos são detestáveis. Alguém discorda? São incômodos. Mas não é só. Podem transmitir uma quantidade enorme de doenças e, várias delas, letais. Povos antigos sofriam com a presença deles - Heródoto relatou que os antigos egípcios usavam redes para combater as hordas invasoras de mosquitos, que teimavam em adentrar casas e templos. Nós, do Século XXI, estamos longe de domar esses monstrinhos minúsculos.
Os colonizadores que, no Século XVI, ousaram encarar o desafio de descobrir o que havia para além do litoral brasileiro, logo toparam com nuvens de mosquitos, embora eles não estivessem ausentes nas regiões costeiras. É interessante que, não muito depois, pessoas adoeciam, tinham febres terríveis, não poucas morriam, mas essa gente era incapaz de fazer alguma associação entre picadas de mosquitos e doenças. A ignorância persistiu por muito tempo, e vou provar que isso é verdade. 
Em uma carta escrita por Anchieta em maio de 1560, quando esse missionário jesuíta estava em São Vicente, encontramos:
"Há pelo mato uma grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem [sic] cruelmente [...], quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e sutilíssimas (¹); furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça, com a qual se dispersam." (²)
Se a descrição de Anchieta é suficiente para provocar calafrios, mais será a que vem agora: o caso de um jesuíta do Século XVII que usava as picadas de mosquitos para autoflagelação. É isso mesmo! Contou Manoel da Fonseca, em Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes:
"Despia-se, e posto na margem do Tamanduateí, para aquela parte onde têm os religiosos de Nossa Senhora do Carmo o seu convento, se expunha à fúria dos mosquitos, os quais, ainda que pequenos animalejos, parece que malsatisfeitos com as águas do rio, em que viviam, pretendiam saciar-se com o seu sangue. [...] Neste estado se conservava largo tempo, e se algum dos que se lavavam, vendo-o maltratado das molestas picaduras daqueles animalejos, lhos queria afugentar, o impedia, dizendo que os deixasse, porque buscavam sua vida. Assim disfarçava a sua mortificação [...]." (³)
Melhor ir adiante, e bem depressa. Passemos ao Século XIX, um pouco depois da Independência. O Brigadeiro Cunha Matos, percorrendo a Província de Goiás, constatou que, em certos lugares, as "febres" eram frequentes entre a população. Queria saber a causa, e fez algumas conjecturas:
"As febres intermitentes atacam a maior parte das pessoas que transitam pelas terras ao norte de Goiás; [...] As chuvas copiosas e o conservar a roupa molhada durante e depois das marchas, são provavelmente as causas das sezões que padecem os viandantes." (⁴)
Já veem os leitores que Cunha Matos não atinava com o fato de que as ferinhas de asas, habitando profusamente as áreas alagadas na estação das chuvas, tinham um papel preponderante em propagar doenças. Mas continuava ele suas inspeções, construindo hipóteses a partir do que ouvia o povo dizer, em relação a um lugar considerado como "dos mais doentios do universo":
"O nome do rio Bezerra amedronta a todas as pessoas, e eu fui obrigado a ordenar que os soldados dessem um grande rodeio para não passarem no porto desta estrada de Arraias, a fim de obstar ao ataque de febres intermitentes que, segundo dizem, procedem dos eflúvios de uma lagoa existente na margem esquerda do rio [...]." (⁵)
"Procedem dos eflúvios de uma lagoa" - parece que Cunha Matos fazia suas pesquisas no sistema daquela brincadeira infantil do tipo "está quente" ou "está frio"... 
Digamos que estava morno. Em outro lugar (ainda na Província de Goiás), emitiu juízo semelhante, culpando os "miasmas pútridos":
"O rio de Manoel Alves passa distante do arraial duas léguas, e como o terreno é baixo, e no começo das chuvas fica coberto de águas, que durante a estação seca se corrompem, resultam febres inflamatórias que atacam a muitas pessoas que se acham ao alcance dos miasmas pútridos espalhados na atmosfera." (⁶)
Foi somente em fins do Século XIX que pesquisadores conseguiram efetivamente associar os mosquitos ao ciclo de transmissão de vários tipos de febres intermitentes. Deveríamos esperar, portanto, que, combatendo mosquitos e eliminando locais onde se reproduzem, as doenças que transmitem viessem a desaparecer. Estranhamente, tem acontecido o inverso, uma vez que áreas supostamente livres de febre amarela, malária, etc. têm apresentado ocorrências, em paralelo ao aparecimento de doenças até aqui desconhecidas e/ou com uma capacidade de causar dano muito maior do que se supunha. Há mesmo quem diga que o ciclo reprodutivo das várias espécies de mosquitos está mais curto, em decorrência da elevação da temperatura média na Terra. Será que teremos que fugir para os polos?

(1) Não se deve esperar que Anchieta tivesse conhecimentos de entomologista. Suas descrições usam a linguagem corrente na época, sem pretensões a rigor científico. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 123.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 14 e 15. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 196.
(5) Ibid., p. 218.
(6) Ibid., p. 255.


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segunda-feira, 18 de abril de 2016

Os sapatos de couro usados pelos colonizadores do Brasil

Sapatos, armas defensivas e móveis eram feitos com o couro de animais de caça e de criação


Os primeiros colonizadores que vieram ao Brasil precisaram ativar o senso de criatividade. Por quê? Ora, simplesmente por uma razão de sobrevivência. Era necessário encontrar nas terras da América diversos materiais que pudessem substituir coisas a cujo uso estavam acostumados. É verdade que, tanto quanto possível, traziam do Reino objetos que acreditavam imprescindíveis. Além disso, sempre que tinham bom relacionamento com indígenas, aprendiam com eles algumas técnicas que se provavam utilíssimas. Mas, em muitos casos, só a experiência, obtida no contato diário com a nova terra em que tinham de viver, é que permitiu descobrir modos de uso para aquilo que estava à mão. Afinal, para quem tivera a coragem de atravessar o Atlântico, fosse pela perspectiva de enriquecimento, pela sede de aventura ou por idealismo missionário (¹), não fazia o menor sentido ficar choramingando pela falta de confortos que haviam ficado para trás.
Assim foi, por exemplo, em relação aos sapatos. Quando os calçados trazidos do Reino se gastavam, era difícil conseguir outros semelhantes. Ao menos no princípio da colonização os navios procedentes de Portugal a cada ano eram poucos, e, mesmo mais tarde, quando o comércio de açúcar se intensificou, os calçados "do Reino" eram caros, já que não vinham em grandes quantidades - todo mundo sabe o que é que acontece quando há demanda maior que a oferta de uma dada mercadoria. A solução era, por tentativa e erro, experimentar o que havia na terra e que podia garantir a obtenção de couros apropriados para o trabalho dos sapateiros (²). Ainda no Século XVI, Gabriel Soares explicou que couros de veado eram excelentes para botas:
"Criam-se nos matos desta Bahia muitos veados, a que os índios chamam suaçu, que são ruivos e tamanhos como cabras, os quais não têm cornos nem sebo, como os de Espanha. Correm muito, as fêmeas parem só uma criança. Tomam-nos em armadilhas e com cães; cuja carne é sobre o duro, mas saborosa; as peles são muito boas para botas, as quais se curtem com casca de mangues, e fazem-se mais brandas que as dos veados de Espanha." (³) 
Mesmo citando o fato para ilustrar o pouco caso que o jesuíta Belchior de Pontes (1644 - 1719) fazia dos luxos geralmente apreciados em seu tempo, o também jesuíta Manuel da Fonseca escreveu, em relação aos sapatos usados por seu biografado:
"Os seus pés, ou nunca, ou raras vezes calçavam sapatos de cordovão, contentando-se com uns de veado tão mal alinhados, que os conservava com a mesma cor, com que tinham saído do curtume." (⁴)
De couro de anta os colonizadores aprenderam, com os indígenas, que era possível fazer armas defensivas, segundo explicou José de Anchieta, em carta escrita em São Vicente e datada de 31 de maio de 1560, cujo destinatário era o padre geral dos jesuítas, Diego Laynez:
"Do seu couro [de anta], endurecido apenas pelo sol, os índios fabricam broquéis completamente impenetráveis às flechas." (⁵)
O elemento perverso nessa ideia de usar couro de anta é que, não demorou muito, e os paulistas, que iam ao sertão com o objetivo de capturar índios para escravização, estavam fazendo uso dos ditos objetos contra as flechas que, numa tentativa desesperada de escape, os nativos na América atiravam contra eles. 
Finalmente, para não ficarmos restritos à questão do uso de couros de animais nativos da América, basta citar que Rocha Pita, em sua famosa (ainda que muito questionada), História da América Portuguesa, cuja primeira edição data de 1730, informou que na Capitania de São Vicente se criavam porcos, cujo couro era utilizado tanto para calçados como para mobiliário:
"[...] Se criam nela [na Capitania de São Vicente] porcos tão grandes, que se lhes esfolam as peles para botas e couros de cadeiras, em que provam melhor que o das vacas." (⁶)
Os leitores não terão dificuldade em perceber que, se no início, era preciso que um colono se acomodasse ao que havia na terra, aos poucos foi possível adaptar ao Brasil os usos e costumes do Reino, o que incluía, por suposto, tanto os cultivos agrícolas como a criação de animais, possibilitando, assim, um estilo de vida mais semelhante àquele que era usual na Europa (com as devidas adaptações), tendo em conta as condições climáticas vigentes na América.

(1) Com exceção, naturalmente, dos que vinham ao Brasil para cumprir uma sentença de degredo; esses, como regra, não o faziam de livre e espontânea vontade.
(2) Os experimentos foram um sucesso: nos relatórios de exportações do Século XVII, com destino à Europa, era frequente que os principais itens fossem açúcar, tabaco e couros. A criação de gado bovino para corte obteve sucesso no Nordeste, mas havia também a exportação de couros de animais nativos do Continente Americano.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 246.
(4) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 38. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 119.
(6) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 65.


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Economia de papel

No Brasil Colonial papel era caro e devia ser economizado


Papel é um artigo muito barato, e pouca gente faz dele alguma economia, embora seja razoável pensar nisso, não pelo preço, mas por razões ecológicas. É pouco provável que hoje em dia alguém diga que não pode aprender a ler e escrever porque não tem papel para as lições. Mais comum, mesmo, é o desperdício, e nem passa pela cabeça dos esbanjadores que já houve tempos em que papel era muito caro, um verdadeiro artigo de luxo, para falar a verdade.
Sucede que os métodos antigos empregados na fabricação do papel encareciam bastante o produto final, e não foram poucas as tentativas para baratear o processo (lembram-se de Ilusões Perdidas, de Balzac?), até que, finalmente, a obtenção de celulose a partir de algumas espécies vegetais desse os melhores resultados - para desespero das árvores, claro. O fato é que pouco pensamos no quanto o acesso a papel de baixo custo revolucionou este planeta: a invenção da imprensa com tipos móveis foi fundamental para a difusão da cultura, mas, mesmo com ela, os livros ainda eram caros, embora não tanto quanto os que eram feitos por copistas. Foi somente com o barateamento do papel que os livros chegaram a ser acessíveis à maioria das pessoas. Se alguém duvida disso, basta comparar, em termos de quantidade, o acervo médio das grandes bibliotecas medievais àquilo que encontramos hoje em qualquer modesta biblioteca pública dos municípios do interior do Brasil.
No Brasil Colonial não era raro que faltasse papel, daí porque quem precisava escrever devia economizá-lo. Não era apenas uma questão de preço. O papel tinha de vir do Reino, e, como para algumas regiões, como a Capitania de São Vicente, por exemplo, apenas um navio fazia a rota Lisboa - Santos a cada ano, se o papel acabasse, não seria possível arranjar mais até que o próximo navio chegasse. Sabemos, pelo que escreveu o jesuíta Manoel da Fonseca, que o Padre Belchior de Pontes, para economizar papel, não ia além de meia folha quando escrevia alguma de suas cartas:
"[...] Até nas cartas mostrava o amor que tinha a esta virtude (¹), porque guardando o louvável costume, que havia nesta Província, de não gastar mais de meia folha de papel, de tal sorte se acomodava na escrita, que não excedia tão santa lei." (²)
Hoje, quando queremos escrever, já não precisamos de papel, e a velha máxima popular que dizia que "papel aceita tudo" começa a perder o sentido. Quanto ao papel, é certo, porque outras mídias são, agora, ainda mais receptivas. Mas isso tem lá suas vantagens, porque permite um acesso democrático não apenas à informação, como também à livre expressão das ideias, para um número cada vez maior de pessoas. A conclusão disso é que, naturalmente, precisa ser cada vez maior a capacidade de filtrar aquilo que é útil, em meio a um dilúvio de ideias nem sempre muito recomendáveis. Um conselho muito antigo, com quase dois mil anos, tem, por isso, até mais importância hoje do que tinha quando originalmente foi escrito: "Omnia autem probate quod bonum est tenete..." (³) Ou seja: Provem tudo e fiquem com o que é bom.

(1) Referia-se à obediência que todo jesuíta professava, além de, no contexto do trecho citado, tratar também da pobreza.
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo, p. 40.
(3) Epistula ad Thessalonicenses I 5, 21. 


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Fila no confessionário

A seguinte anedota apareceu no nº 1, volume 5, da Bibliotheca Familiar e Recreativa, publicada em Lisboa no ano de 1836:
"Um certo cura disse um domingo aos seus fregueses: 
- Irmãos, daqui em diante, para evitar confusões, eu confessarei pela ordem seguinte: segunda-feira, os mentirosos; terça, os avarentos; quarta, os maldizentes; quinta, os ladrões; sexta, os libertinos; sábado, as mulheres de vida escandalosa.
Será talvez escusado acrescentar que o cura nunca mais teve o trabalho de confessar pessoa alguma, que é o que ele queria." (¹)
Ora, meus leitores, se o padre Belchior de Pontes, jesuíta que viveu no Brasil do Século XVII e começo do XVIII, tivesse, em seu tempo, conhecimento desse expediente, talvez até lhe fosse muito útil. Querem saber por quê?
O também jesuíta Manoel da Fonseca, que ainda no Século XVIII publicou uma biografia do padre Pontes, escreveu:
"E se alguma vez, ouvindo confissões na nossa igreja [...], via contenderem entre si, como costumam as mulheres [sic], para terem a fortuna de serem as primeiras que chegassem a confessar-se, procurava sossegá-las, prometendo que a todas havia de ouvir, e para que a brevidade do tempo não fizesse menos verdadeira a promessa, e nos deixasse este grande exemplo de sua obediência, acrescentava, que se não obstasse a obediência, deixaria de ir ao refeitório para ter mais tempo de ouvi-las." (²)
Não venha algum leitor perguntar por que é que as tais senhoras tinham tamanha obsessão por ir ao confessionário. Nenhuma delas sobreviveu até hoje para dar explicações. Ninguém pergunte, tampouco, como tinha o padre tanta paciência. Supondo, porém, verídico o relato, não se pode negar que o padre Belchior de Pontes cuidava de seus deveres com muita seriedade.

(1) _________ Bibliotheca Familiar e Recreativa nº 1, vol. 5. Lisboa: Imprensa Nevesiana, 1836, p. 228.
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 48. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Restrições à liberdade das mulheres no Brasil Colonial

Em muitas famílias de certa importância, residentes na Capitania de São Vicente, as mulheres viviam reclusas. Para elas, até mesmo dentro de casa havia restrições, quando visitas estavam presentes. Duas breves referências na biografia do padre Belchior de Pontes, escrita no Século XVIII pelo também padre Manoel da Fonseca serão, creio, mais do que suficientes para comprovar esse fato. Na primeira, explica-se que, indo o padre Pontes doutrinar escravos (índios "administrados") que viviam nas terras de Amador Bueno (¹), a mulher do fazendeiro assistia à doutrina "da parte de dentro da casa" (²); o mesmo fazia outra paulista, Águeda Pedrosa: "...na verdade Águeda Pedrosa já estava no lugar costumado, e com o mesmo cuidado e recato com que sempre acudia a ouvi-lo, se tinha ocultado." (³)

Mulheres usando mantilha (⁴)
Atribui-se a reclusão de mulheres aos chamados "costumes mouriscos" que vigoravam entre as muitas famílias de origem espanhola que viviam em São Paulo - as gelosias em construções coloniais ainda existentes seriam uma prova disso, assim como o hábito, que então era generalizado, de que "mulheres honestas" apenas aparecessem em público quando cobertas por mantilhas ou biocos, confeccionados, de preferência, em tecidos pesados, sem nenhuma transparência e de cor preta. A explicação, no entanto, não soa muito convincente porque também entre famílias de proprietários de engenhos no Nordeste as mulheres viviam trancafiadas, até mais do que em São Paulo, e lá  não se poderia argumentar com o pretexto de que as famílias senhoriais eram, em grande parte, originárias da Espanha. Dizia Antonil, no começo do Século XVIII, ao tratar da recepção aos hóspedes nos engenhos:
"Ter casa separada para os hóspedes é grande acerto, porque melhor se recebem e com menor estorvo da família, e sem prejuízo do recolhimento que hão de guardar as mulheres, e as filhas, e as moças de serviço interior, ocupadas no aparelho do jantar e da ceia." (⁵)
Havia até quem aconselhasse que, para as casadas, era preferível evitar mesmo a proximidade com religiosos e parentes do sexo masculino:
"Fujam de todo o trato e conversações de homens, e de lhes aparecer, ainda que sejam parentes [...].
Fujam, quanto puderem, de ter trato ou familiaridade com pessoas eclesiásticas, porque suposto sejam comparadas com os anjos, tem sucedido muitas vezes pelo caminho da virtude entrarem na estrada da maldade. [...] Vejam que o demônio é como o ladrão: este furta nas estradas, aquele na ocasião." (⁶)
Ora, apesar de tantas restrições à liberdade das mulheres, há documentos relativos ao Período Colonial que comprovam a existência de senhoras que mandavam e desmandavam em suas propriedades, tomavam decisões pelos filhos, faziam testamento e, ainda que usando a famosa mantilha ou bioco, não hesitavam em aparecer em público sempre que necessário, fosse para ir à igreja, ou fosse porque tinham negócios a tratar junto à administração da localidade em que residiam. 
Que mulheres eram essas? Não trato aqui das condenadas a degredo que, contra a vontade, vinham ao Brasil, nem daquelas que, com família ou sem ela, viviam entre a população de baixo estrato social nas povoações ou em áreas rurais.  Falo, sim, das paulistas casadas com os bandeirantes, homens que tinham ido ao sertão para capturar índios ou procurar ouro, e ninguém sabia por onde andavam, e se é que andavam. Na ausência dos maridos, elas acabavam tendo que assumir o comando do trabalho nas fazendas e a administração dos negócios familiares, a não ser que tivessem parentes adultos do sexo masculino que resolvessem incumbir-se desses encargos. Elas iam às igrejas rezar pelos maridos ausentes, e isso mesmo faziam em casa, todos os dias, diante dos oratórios que certamente não faltavam. Não são poucos os supostos milagres, atribuídos a religiosos com fama de santidade, que teriam, a pedido de alguma mulher, previsto a volta deste ou daquele sertanista do qual há muito não havia notícia. Por tudo isso, ou apesar disso, para que os leitores reflitam, proponho a seguinte questão: Não seriam as andanças dos bandeirantes pelo interior do Brasil uma verdadeira libertação para suas mulheres? 

(1) Sim, é o da "Aclamação".
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 111. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(3) Ibid., p. 163.
(4) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 31.
(6) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 327.


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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como os jesuítas ensinavam aos indígenas a doutrina da Trindade

O Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com Tomé de Sousa em 1549, era, apesar de jovem, já experiente em doutrinar, no Reino, a gente que não dava muita importância aos assuntos religiosos. Na Colônia, porém, enfrentaria dificuldades bem diferentes daquelas às quais estava habituado.
Como poderiam comunicar-se os jesuítas com os indígenas que pretendiam catequizar, se não lhes conheciam o idioma? Logo veriam, também, que não estariam lidando com uma única e homogênea cultura indígena - os povos indígenas eram diferentes e numerosos, como eram também diversos o idioma e a cultura. Assim, tratou-se de aprender a língua predominantemente falada no litoral, buscando meios de tornar inteligíveis os ensinos que julgavam ser seu dever transmitir.
Em uma carta dirigida a seus irmãos jesuítas em Portugal, o Padre Manuel da Nóbrega escreveu, a propósito dos indígenas que tentava doutrinar:
"Têm mui poucos vocábulos para lhes poder bem declarar nossa fé. Mas contudo damos-lha a entender o melhor que podemos, e algumas coisas lhes declaramos por rodeios. Estão mui apegados com as coisas sensuais. Muitas vezes me perguntam se Deus tem cabeça e corpo, e mulher; e se come, e de que se veste, e outras coisas semelhantes." (¹)
Ora, meus leitores, já podemos aqui traçar ao menos duas reflexões: ou os padres não tinham suficiente compreensão da língua e cultura dos povos indígenas para explicar o que pretendiam, ou a cultura indígena era muito diferente da dos portugueses e outros europeus no que tange a questões religiosas, daí a dificuldade de encontrar um meio de expressão conveniente para conceitos, por vezes, bastante abstratos.
Creio, senhores leitores, que as duas coisas, de fato, aconteciam.
O jesuíta Belchior de Pontes usava uma
vela 
para ensinar aos índios a
doutrina da Trindade
Como exemplo, tomemos o caso das tentativas que se faziam para explicar aos índios a Doutrina da Trindade. A noção da existência de um Deus-Pai e de um Deus-Filho não era assim tão difícil; entretanto, parecia aos padres quase impossível aclarar o conceito da existência do Espírito Santo. Anchieta, outro missionário jesuíta, relatou em uma carta ao Geral Diego Laynez, datada de 16 de abril de 1563, ao falar da catequese de um índio muito idoso:
"Dando-lhe pois a primeira lição de ser um só Deus Todo-Poderoso, que criou todas as coisas, etc., logo se lhe imprimiu na memória, dizendo que lhe rogava muitas vezes que criasse os mantimentos para a sustentação de todos, mas que pensava que os trovões eram este Deus; porém agora que sabia haver outro Deus verdadeiro sobre todas as coisas, que a ele rogaria chamando-o Deus Pai e Deus Filho; porque dos nomes da Santa Trindade este dois somente pôde tomar, pela razão de que se podem dizer em sua língua; mas o Espírito Santo, para o qual nunca achamos vocábulo próprio, nem circunlóquio bastante, ainda que o não sabia nomear, sabia-o contudo crer como nós lhe dizíamos." (²)
No entanto, um padre, também jesuíta, mas nascido no Brasil no Século XVII, acabaria encontrando uma curiosa e didática solução para o problema. Conta Manuel da Fonseca, outro jesuíta, tratando do modo pelo qual o padre Belchior de Pontes procedia à catequese dos índios na povoação de São Paulo de Piratininga:
"Ajuntava-os em uma praça junto à Igreja da Misericórdia, e postos em fileiras se metia entre eles. Tomava nas mãos uma vela acesa, e com ela lhes declarava o altíssimo Mistério da Santíssima Trindade, explicando como era Deus Trino em Pessoas, e um na essência, porque assim como se notam na vela três coisas, as quais, ainda que são entre si tão distintas, que uma não é outra, constituem um só composto, assim também se notam naquele incompreensível mistério, e que tanto supera a capacidade humana, três Pessoas distintas, e um só Deus." (³)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 304.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 190.
(3) FONSECA, Manoel da S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 113 e 114 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo).


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