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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Mulheres do Brasil Colonial que viviam trancadas em casa

Houve alguma mulher que dirigisse capitania hereditária no Brasil? Sim, ao menos na menoridade do herdeiro, mas isto era exceção. Houve senhoras de engenho? Sim, mas eram exceção. Houve mulheres que comandavam fazenda e escravos na ausência do marido bandeirante em São Paulo? Certamente, embora, neste caso, até fossem numerosas. A maioria das mulheres do Brasil Colonial não tinha oportunidade de frequentar escola e, por isso, muitas não eram capazes sequer de assinar o próprio nome. Exceções? Algumas, como foi, por exemplo, uma religiosa mencionada por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão em Novo Orbe Seráfico Brasílico (¹):
"[...] Nunca teve o tempo ocioso porque ainda algum, que lhe restava dos seus espirituais exercícios e outras ocupações, o gastava em ensinar a umas a língua latina, que sabia muito bem, e a outras a doutrina cristã." (²)
Contudo, muitas mulheres que viveram no Brasil Colonial tinham uma existência de prisioneiras na casa em que moravam, isso quando não eram obrigadas, pelos homens da família, a ingressar em um convento ou em um "recolhimento".
Por que esse costume bárbaro?
A justificativa da época é que assim se fazia para preservar a moralidade e honra da família. Citando mais uma vez frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, veja-se esta referência à casa de certo homem chamado Bartolomeu Nabo Correa:
"[...] vulgarmente se comparava a casa do capitão Bartolomeu Nabo Correa com a clausura do mais religioso convento de freiras capuchas, porque nunca lhe viram porta ou janela aberta, grande documento para os pais de famílias, tendo por certo que tanto perigo correm as mulheres vendo, como sendo vistas, pois pelas janelas dos sentidos entram as distrações dos cuidados." (³) 
Jaboatão contou esse caso horroroso na intenção de servir como bom exemplo, mas não se pode supor que toda família vivesse em tal exagero. Mas as mantilhas que quase todas as mulheres vestiam ao sair de casa e as gelosias que vedavam as janelas e varandas são testemunho poderoso das condições e limites impostos às mulheres dos tempos coloniais. 

(1) Obra datada de 1757.
(2) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Seráfico Brasílico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil, Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 774. 
(3) Ibid., p. 686. 


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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Mantilhas pretas e vermelhas

O uso de mantilhas foi generalizado entre as mulheres que viviam no Brasil Colonial. Cobriam-se com ela quando iam à rua e, em casos extremos, maridos ciumentos impunham seu uso até dentro de casa. Pode-se bem imaginar o que isso significava em tardes quentes de verão.
Aos poucos, comportamentos mais civilizados se introduziram na Colônia e, depois, no Império, e, à exceção do que ocorria em localidades interioranas, as mantilhas caíram em desuso. Não combinavam, mesmo, com as modas francesas que invadiram o Rio de Janeiro, capital do Império.
Apesar disso, por relato de Joaquim Ferreira Moutinho, um português que durante dezoito anos viveu em Cuiabá no Século XIX, vê-se que as mulheres daquela cidade, as pobres e as ricas, persistiam no uso da mantilha (ou talvez persistissem por elas os homens das respectivas famílias). Havia, contudo, uma diferença:
"É original ali [em Cuiabá], nas mulheres pobres e nas escravas, o uso de saírem à rua embuçadas em uma baeta vermelha. As pessoas mais favorecidas da fortuna usam de um manto de pano preto lemiste. no qual se envolvem, deixando apenas descoberta uma parte do rosto." (¹) 
Perversamente, Ferreira Moutinho concluiu: "Este costume - prejudicial às bonitas - é o salvatério das feias." (²) 

(1) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato GrossoSão Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, pp. 14 e 15.
(2) Ibid., p. 15.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Restrições à liberdade das mulheres no Brasil Colonial

Em muitas famílias de certa importância, residentes na Capitania de São Vicente, as mulheres viviam reclusas. Para elas, até mesmo dentro de casa havia restrições, quando visitas estavam presentes. Duas breves referências na biografia do padre Belchior de Pontes, escrita no Século XVIII pelo também padre Manoel da Fonseca serão, creio, mais do que suficientes para comprovar esse fato. Na primeira, explica-se que, indo o padre Pontes doutrinar escravos (índios "administrados") que viviam nas terras de Amador Bueno (¹), a mulher do fazendeiro assistia à doutrina "da parte de dentro da casa" (²); o mesmo fazia outra paulista, Águeda Pedrosa: "...na verdade Águeda Pedrosa já estava no lugar costumado, e com o mesmo cuidado e recato com que sempre acudia a ouvi-lo, se tinha ocultado." (³)

Mulheres usando mantilha (⁴)
Atribui-se a reclusão de mulheres aos chamados "costumes mouriscos" que vigoravam entre as muitas famílias de origem espanhola que viviam em São Paulo - as gelosias em construções coloniais ainda existentes seriam uma prova disso, assim como o hábito, que então era generalizado, de que "mulheres honestas" apenas aparecessem em público quando cobertas por mantilhas ou biocos, confeccionados, de preferência, em tecidos pesados, sem nenhuma transparência e de cor preta. A explicação, no entanto, não soa muito convincente porque também entre famílias de proprietários de engenhos no Nordeste as mulheres viviam trancafiadas, até mais do que em São Paulo, e lá  não se poderia argumentar com o pretexto de que as famílias senhoriais eram, em grande parte, originárias da Espanha. Dizia Antonil, no começo do Século XVIII, ao tratar da recepção aos hóspedes nos engenhos:
"Ter casa separada para os hóspedes é grande acerto, porque melhor se recebem e com menor estorvo da família, e sem prejuízo do recolhimento que hão de guardar as mulheres, e as filhas, e as moças de serviço interior, ocupadas no aparelho do jantar e da ceia." (⁵)
Havia até quem aconselhasse que, para as casadas, era preferível evitar mesmo a proximidade com religiosos e parentes do sexo masculino:
"Fujam de todo o trato e conversações de homens, e de lhes aparecer, ainda que sejam parentes [...].
Fujam, quanto puderem, de ter trato ou familiaridade com pessoas eclesiásticas, porque suposto sejam comparadas com os anjos, tem sucedido muitas vezes pelo caminho da virtude entrarem na estrada da maldade. [...] Vejam que o demônio é como o ladrão: este furta nas estradas, aquele na ocasião." (⁶)
Ora, apesar de tantas restrições à liberdade das mulheres, há documentos relativos ao Período Colonial que comprovam a existência de senhoras que mandavam e desmandavam em suas propriedades, tomavam decisões pelos filhos, faziam testamento e, ainda que usando a famosa mantilha ou bioco, não hesitavam em aparecer em público sempre que necessário, fosse para ir à igreja, ou fosse porque tinham negócios a tratar junto à administração da localidade em que residiam. 
Que mulheres eram essas? Não trato aqui das condenadas a degredo que, contra a vontade, vinham ao Brasil, nem daquelas que, com família ou sem ela, viviam entre a população de baixo estrato social nas povoações ou em áreas rurais.  Falo, sim, das paulistas casadas com os bandeirantes, homens que tinham ido ao sertão para capturar índios ou procurar ouro, e ninguém sabia por onde andavam, e se é que andavam. Na ausência dos maridos, elas acabavam tendo que assumir o comando do trabalho nas fazendas e a administração dos negócios familiares, a não ser que tivessem parentes adultos do sexo masculino que resolvessem incumbir-se desses encargos. Elas iam às igrejas rezar pelos maridos ausentes, e isso mesmo faziam em casa, todos os dias, diante dos oratórios que certamente não faltavam. Não são poucos os supostos milagres, atribuídos a religiosos com fama de santidade, que teriam, a pedido de alguma mulher, previsto a volta deste ou daquele sertanista do qual há muito não havia notícia. Por tudo isso, ou apesar disso, para que os leitores reflitam, proponho a seguinte questão: Não seriam as andanças dos bandeirantes pelo interior do Brasil uma verdadeira libertação para suas mulheres? 

(1) Sim, é o da "Aclamação".
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 111. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(3) Ibid., p. 163.
(4) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 31.
(6) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 327.


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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uso de mantilha no Vale do Paraíba na segunda metade do Século XIX

Nos tempos coloniais era costume, em muitos lugares do Brasil, que as mulheres consideradas "honestas" apenas saíssem em público se estivessem quase completamente cobertas por mantilhas ou biocos. A tradição, provavelmente vinda de Espanha e com origem mourisca, perdurou, e, já no começo do Século XIX, Saint-Hilaire, naturalista francês, observou com horror que, em vários lugares, era ainda assim que as mulheres se apresentavam, principalmente quando iam às igrejas.
Velhos costumes têm, no entanto, dificuldade em sair de cena.
No início da década de sessenta do Século XIX o tal costume ainda tinha lugar em áreas do Vale do Paraíba, que era, na época, região econômica importante por sua produção de café. Augusto-Emílio Zaluar observou-o em Lorena e Taubaté, na Província de São Paulo.
Sobre a conduta para com as visitas, notou em Lorena que "...as senhoras raramente aparecem na sala, onde os homens somente recebem as visitas e conversam para entreter o tempo. Esses costumes ir-se-ão perdendo pouco a pouco (¹), como já vão desaparecendo as mantilhas (²), que apenas figuram hoje para ocultar as rugas de alguma matrona sexagenária, ou são usadas pela gente das classes menos abastadas." (³)
Escreveu depois sobre Taubaté:
"Em Taubaté ainda se usa muito de mantilhas, não só na classe baixa como entre algumas senhoras mais distintas.
Este gênero de trajo e o aspecto sombrio da cidade concorrem para dar à povoação um certo cunho de vetustez, que faz lembrar algumas cidades espanholas e os costumes severos dos séculos anteriores." (⁴)
No caso de Taubaté, ao contrário do que observara em Lorena, o uso de mantilha não se restringia às idosas e às mulheres de baixo estrato social.
Não é preciso dizer que mantilhas e biocos perderam sua utilidade há muito tempo. Apenas fica a questão: As razões que impunham seu uso desapareceram ou ainda passeiam por aí, sob outros disfarces?

(1) Nisso, estava certíssimo.
(2) Desapareceram, mas muito tarde.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 109.
(4) Ibid., p. 158.


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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mantilha, vestimenta feminina no Período Colonial, embora houvesse exceções

"Ambrosina, vestida de negro e embiocada em mantilha, entrou na estalagem pelo braço do poeta."
                                                                                                Aluísio Azevedo, A Condessa Vesper

No Brasil colonial, a população de origem europeia era usualmente muito conservadora em questões de vestuário, em particular quanto ao que era tido como apropriado para homens e mulheres. Apesar disso, situações extremas podiam ensejar exceções às rígidas normas sociais vigentes, como veremos ter ocorrido em dois curiosos episódios do século XVI.

Episódio 1, ocorrido no Rio de Janeiro, ano de 1582:

"Daí a poucos dias chegaram três naus francesas ao Rio de Janeiro, e surgiram junto ao baluarte que está no porto da cidade, dizendo que iam com uma carta de Dom Antônio para o Capitão Salvador Corrêa de Sá, o qual nesta ocasião era ido ao sertão fazer guerra ao gentio; mas o administrador Bartolomeu Simões Pereira, que havia ficado governando em seu lugar, e estava informado da verdade pela carta do Governador Geral, lhes respondeu que fossem embora, porque já sabia quem era seu rei; e porque a cidade estava sem gente, e não havia mais nela que os moços estudantes e alguns velhos, que não puderam ir à guerra do sertão, destes fez uma companhia, e Dona Inês de Sousa, mulher de Salvador Corrêa de Sá, fez outra de mulheres com seus chapéus nas cabeças, arcos e flechas nas mãos, com o que, e com o mandarem tocar muitas caixas, e fazer muitos fogos de noite pela praia, fizeram imaginar aos franceses que era gente para defender a cidade, e assim ao cabo de dez ou doze dias levantaram as âncoras e se foram." (Frei Vicente do Salvador, História do Brasil)
Uma mulher usando mantilha, segundo
Joaquim Lopes de Barros (*)
Em breve narração somos informados quanto a algumas coisas importantes: a população masculina de algumas regiões coloniais vivia a correr mato com a intenção de apresar índios para a escravidão, sendo a guerra "justa" frequentemente apenas um pretexto; as cidades litorâneas eram precariamente defendidas contra eventuais tentativas de invasão; as comunicações eram igualmente precárias, fato evidenciado pela questão de quem seria o rei de Portugal naquele momento, lembrando que o contexto aqui é o do início da chamada "União Ibérica", que durou de 1580 a 1640. Mas o que realmente nos interessa é que, diante da ameaça de ocupação francesa do Rio de Janeiro, as mulheres que habitavam a cidade e que viviam, por assim dizer, semirreclusas e, conforme os severos costumes da época, apenas apareciam em público usando mantilhas que cobriam os cabelos, parte do rosto, ombros, etc., etc., etc., não tiveram dúvidas em disfarçar-se de modo a parecerem homens que defendiam a cidade (e homens indígenas, já que portavam arcos e flechas) e, ao que parece, o estratagema deu bons resultados.

Episódio 2, c. 1587, cidade do Salvador, Bahia:

"Pouco tempo depois de começarem a governar o Bispo e Cristóvão de Barros, entraram subitamente nesta Bahia duas naus e uma zavra de ingleses com um patacho tomado, que havia dela saído para o Rio da Prata, em que ia um mercador espanhol chamado Lopo Vaz; tanto que chegaram, tomaram também os navios que estavam no porto, entre os quais estava uma urca de Duarte Osquer, mercador flamengo que aqui residia, com marinheiros flamengos, que voluntariamente lha entregaram e se passaram aos ingleses, e logo todos começaram as bombardadas à cidade tão fortemente que, desanimados e cheios de medo, os moradores fugiram dela para os matos, e posto que o bispo pôs guardas e capitães nas saídas, que eram muitas, porque não estava murada, para que detivessem os homens e deixassem sair as mulheres, muitos saíram entre elas de noite, e algum com manto mulheril, e esses poucos que ficaram pediram ao bispo que fizesse o mesmo, ao que acudiu um venerável e rico cidadão chamado Francisco de Araújo, requerendo-lhe da parte de Deus e de el-Rei não deixasse a terra, pois não só era bispo mas governador dela, e que se a gente era fugida, ele com a sua se atrevia a defendê-la." (Frei Vicente do Salvador, História do Brasil)
Este segundo caso é, em essência, semelhante ao primeiro, já que, mais ou menos contemporâneo, tem como pano de fundo outra tentativa de ocupação, desta vez por ingleses, novamente ficando clara a precariedade das possibilidades defensivas das povoações litorâneas. Ocorre, porém, que, ao contrário do que ocorreu em 1582 no Rio de Janeiro, aqui a população também se utilizou de indumentária do sexo oposto - entrando em cena as famosas mantilhas - não para a defesa da cidade, mas para fugir, um expediente que viria a ter muito uso no futuro, quando recrutamentos forçados se instituíssem, como ocorreu, por exemplo, no século XIX, ao tempo da Guerra do Paraguai.

(*) Costumes do Brasil - o original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.