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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Mantilhas pretas e vermelhas

O uso de mantilhas foi generalizado entre as mulheres que viviam no Brasil Colonial. Cobriam-se com ela quando iam à rua e, em casos extremos, maridos ciumentos impunham seu uso até dentro de casa. Pode-se bem imaginar o que isso significava em tardes quentes de verão.
Aos poucos, comportamentos mais civilizados se introduziram na Colônia e, depois, no Império, e, à exceção do que ocorria em localidades interioranas, as mantilhas caíram em desuso. Não combinavam, mesmo, com as modas francesas que invadiram o Rio de Janeiro, capital do Império.
Apesar disso, por relato de Joaquim Ferreira Moutinho, um português que durante dezoito anos viveu em Cuiabá no Século XIX, vê-se que as mulheres daquela cidade, as pobres e as ricas, persistiam no uso da mantilha (ou talvez persistissem por elas os homens das respectivas famílias). Havia, contudo, uma diferença:
"É original ali [em Cuiabá], nas mulheres pobres e nas escravas, o uso de saírem à rua embuçadas em uma baeta vermelha. As pessoas mais favorecidas da fortuna usam de um manto de pano preto lemiste. no qual se envolvem, deixando apenas descoberta uma parte do rosto." (¹) 
Perversamente, Ferreira Moutinho concluiu: "Este costume - prejudicial às bonitas - é o salvatério das feias." (²) 

(1) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato GrossoSão Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, pp. 14 e 15.
(2) Ibid., p. 15.


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terça-feira, 4 de maio de 2021

Tiros de canhão para combater uma epidemia de varíola

Foi no ano de 1867. Estava em curso a chamada Guerra do Paraguai (¹). Tropas brasileiras que retornavam de Corumbá para Cuiabá, a capital da Província de Mato Grosso, trouxeram consigo a terrível varíola. No dizer de João Severiano da Fonseca, médico veterano da Guerra do Paraguai, "a varíola foi desconhecida ou pelo menos nunca se propagou na Província [de Mato Grosso] até o ano de1867 [...]; mas, naquele ano, desenvolvendo-se essa enfermidade em Corumbá, de pronto estendeu-se a Cuiabá e aos outros povoados, exceção feita, dizem, de S. Luís de Cáceres, onde se estabelecera um rigoroso cordão sanitário" (²).
De acordo com Joaquim Ferreira Moutinho, português que residiu por dezoito anos em Cuiabá e foi testemunha ocular desses acontecimentos, em 1º de julho foi hospitalizado um soldado que, em seguida, morreu, e "todas as pessoas que se comunicaram com os recém-chegados caíram logo com a mesma moléstia, e o número foi gradualmente crescendo [...]" (³). A doença espalhou-se rapidamente entre os moradores de Cuiabá, que, em sua maioria, não eram vacinados. Por que não, se a vacinação era praticada há muito tempo no Brasil? Pode-se facilmente imaginar o argumento: "Bem, nunca tivemos varíola por aqui; por que deveríamos estar preocupados com vacinação?" 
A consequência dessa "lógica" foi absolutamente desastrosa. "A cidade tomou um aspecto indescritível", conforme expressão de Ferreira Moutinho, e "de todas as casas via-se saírem cadáveres, que eram conduzidos em redes para os campos, e de muitas fecharam-se as portas, porque os seus habitantes haviam perecido, desde o chefe da família até o último escravo!" (⁴). Nas palavras do mesmo autor, "[...] de uma população de doze mil almas, mais da metade sucumbiu, e parte levantou-se disforme" (⁵).
Os poucos vacinados que lá estavam mal podiam prestar algum socorro para conforto dos doentes. Não havia recursos médicos realmente efetivos contra a enfermidade. No entanto, parece que o comandante das armas de Cuiabá teve uma ideia brilhante. Vejam, leitores, o que contou Joaquim Ferreira Moutinho, mas leiam com atenção, porque é notável:
"O comandante das armas, nos dias mais lutuosos, mandou colocar peças de artilharia em diversas ruas da cidade, e dar fogo de manhã e à tarde.
Ignoramos também o fim dessa medida.
Pretenderia afugentar a epidemia com tiros de canhão? Esse pretendido recurso higiênico foi a causa de tornar-se mais grave o estado de muitos enfermos, pois ao primeiro estampido levantavam-se em delírio e procuravam fugir, julgando que eram os paraguaios que se achavam na cidade." (⁶) 
Moutinho não soube explicar para que serviam os tiros de canhão. Também desconheço seu propósito terapêutico. Alguém saberia dizer?

(1) 1864 - 1870.
(2) FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil 1875 - 1878 Volume 1. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro e C., 1880, p. 186.
(3) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato Grosso. São Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, p. 100.
(4) Ibid., p. 102.
(5) Ibid., p. 104.
(6) Ibid., pp. 105 e 106.


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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

As ruas desalinhadas de cidades coloniais

Muitas cidades nascidas nos tempos coloniais tinham ruas em completo desalinho. Isso se explica porque o povoamento aconteceu ao sabor da necessidade, sem que alguém tivesse a ideia de fazer um planejamento. Mesmo que tal coisa existisse, seria pouco provável que fosse seguida, se levarmos em conta que muitos colonizadores estavam desesperados por fazer dinheiro tão rápido quanto possível, para voltar ao Reino em uma posição econômica superior à que tinham na ocasião da saída (¹). 
Em certos casos, cidades assim estabelecidas passaram, séculos mais tarde, por algum tipo de reforma, envolvendo a demolição de prédios antigos e a criação de um novo arruamento, para oferecer ao lugar um aspecto de modernidade, banindo da cena os improvisos coloniais. Em outros casos, ficou existindo um "centro velho" ou "centro histórico", mais ou menos preservado, enquanto a urbanização condizente com os novos tempos fez brotar novas áreas de ocupação humana nos arredores. 
Parece, no entanto, que, em relação aos núcleos urbanos nascidos com a mineração, pode haver, além da falta de planejamento e da influência do relevo, mais uma explicação para as ruas tortuosas, segundo o que disse Joaquim Ferreira Moutinho, um português que residiu por dezoito anos em Cuiabá, isso no Século XIX, quando a fúria mineradora já havia acabado há muito tempo. As ruas que compunham o centro da cidade, eram, em suas palavras, "todas elas cortadas por becos na maior parte tortuosos, como os de todas as cidades antigas que devem sua origem a mineiros, que as construíam de modo que seus habitantes estivessem sempre juntos, e pudessem assim acudir ao primeiro grito de socorro para se defenderem das muitas hordas de índios [sic] que povoavam os sertões, e lhes ameaçavam a todo o instante as habitações [...]." (²)
O ouro era a principal preocupação dos mineradores; quase tudo o mais ficava para depois. Há que se notar, no entanto, que, apesar do desalinho das ruas, em algumas cidades coloniais que prosperaram por causa das descobertas auríferas, logo foram edificados templos magníficos (³), que até hoje impressionam pela riqueza neles investida. A religiosidade imperante nessa época de curiosas distorções (em mais de um sentido), pode muito bem explicar tal fenômeno.

(1) Para muitos, não passou de expectativa frustrada.
(2) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato Grosso. São Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, p. 38.
(3) Para exemplo, não será preciso mais que uma caminhada de quinze minutos por Ouro Preto - MG.


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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em busca do ouro: A técnica de extração aurífera usada no Brasil Colonial

Na postagem anterior mencionei o fato de que os métodos de extração aurífera empregados no Brasil Colonial, e mesmo mais tarde, eram extremamente primitivos. Essa observação não vale apenas para a região das Gerais, mas estende-se ao restante da Colônia, como se poderá facilmente notar por este interessante relato de Hércules Florence, feito um pouco depois da Independência, a propósito da mineração em Cuiabá:
"Cuiabá deve sua fundação à grande quantidade de ouro que deu o terreno em que assenta, cujas escavações e buracos atestam hoje quanto foi revolvido. [...]." (¹)
Passa então a descrever como se organizou a ocupação do território do novo eldorado cuiabano (se é que ao que ocorria na época podia dar-se o nome de organização) :
"Reuniram-se logo multidões de aventureiros que formaram novas expedições [...]. O número foi crescendo e com ele aparecendo dissensões e lutas causadas pela avidez em tirar ouro. Então cuidaram de constituir uma espécie de governo e para legalizá-lo mandaram pedir chefe em São Paulo. A colônia, debaixo do nome de Cuiabá, nome dos índios que aí habitavam, fez rápidos progressos, aumentando continuamente com a chegada de novas bandeiras, que, não se satisfazendo mais com o que encontravam, seguiram para diante e foram descobrir, a cem léguas para Oeste, Mato Grosso, donde provém a denominação de toda a província." (²)
Um garimpeiro à procura de ouro, conforme
retratado em um selo postal
dos Correios do Brasil
Vem, por fim, a descrição do método que se empregava na extração do ouro, e que é justamente a informação que desejamos:
"O modo de extrair ouro é o seguinte: fazem-se grandes escavações e transporta-se a terra, à medida que se a vai tirando, para uma área preparada à beira de um rio, córrego ou lagoa em paralelogramo de terra batida e conseguintemente dura, cujos lados são fechados por tábuas, exceto o que encosta à água. O plano é inclinado e o todo se chama uma canoa. Deposita-se a terra que se quer lavar na parte superior e sobre ela lança o trabalhador de contínuo água para que facilmente corra a porção que for mais destacada e leve. Em seguida, depois de repetida a operação, põe ele certa quantidade na beira de uma espécie de alguidar de pau chamado bateia e com um pouco de água imprime ao todo um movimento circular, de modo que de cada vez o monte de terra seja lambido pela água. Se houver ouro, as menores partículas depositam-se no fundo." (³)
Para concluir, quero lembrar a meus leitores que, ao contrário do que ocorria nas Gerais, em Mato Grosso nem sempre havia água abundante para lavagem do ouro, o que tornava o processo mais dificultoso, mas, em todo o caso, a técnica era, em sua base, exatamente a mesma. Não fica, pois, difícil, entender porque o desperdício era grande, já que o ouro explorado era, via de regra, apenas o superficial. É isso que explica o chamado "esgotamento" das minas, que somente viria a ser superado quando a introdução de uma nova tecnologia de prospecção e exploração trouxesse a possibilidade de um melhor aproveitamento das riquezas disponíveis nas jazidas.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 126.
(2) Ibid.
(3) Ibid., pp. 126 e 127.


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