segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Do Medo da Varíola à Revolta da Vacina

Na pequena São Paulo do Período Colonial a doença mais temida era, provavelmente, a varíola. Matava, e quando não o fazia, deixava o(a) sobrevivente com a fisionomia deformada.
São frequentíssimas as mortes que, na Nobiliarchia Paulistana, Pedro Taques de Almeida Paes Leme atribui a "bexigas":
"D. Maria de Araújo da Ascensão (...) faleceu de bexigas com avançada idade..."; "Desde 1727 em que principiou a perceber o real erário o dízimo dos quintos do ouro das ditas minas de Goiases até o 1º de janeiro de 1738, em que acabou a vida de enfermidade de bexigas em São Paulo o capitão Bartolomeu Paes de Abreu..."; "Ângelo de Góes Cardoso, que faleceu de bexigas indo para Coimbra..."; "Catarina da Silva d'Horta, que faleceu de bexigas em 1769..."; "Dona Maria, que tendo bexigas em tenros anos, perdeu os olhos a efeitos do veneno desta maligna enfermidade...".
Creio, leitores, que, para nosso propósito, já é mais do que suficiente.
A vacinação antivariólica foi introduzida no Brasil em fins do Século XVIII, ao que parece pelo Barão de Langsdorff (¹), e a pedido do então príncipe-regente D. João, mais tarde D. João VI. Desde então, era possível imunizar a população, e muitos o faziam, tendo o cuidado de vacinar inclusive os escravos - se não por caridade cristã, ao menos para "preservar o patrimônio".
Outro ponto significativo é que já se falou e/ou escreveu bastante contra a postura do governo brasileiro, particularmente do então diretor de Saúde Pública, Oswaldo Cruz, durante a chamada Revolta da Vacina, em novembro de 1904. Nesse sentido, alegam alguns que a vacina era uma novidade e, portanto, desconhecida da população, que não sendo devidamente informada pelo governo, manifestou-se contrária a tamanho autoritarismo.
Ora, sendo a vacinação contra a varíola conhecida e usada no Brasil desde os últimos anos do Século XVIII, a defesa dessa ideia não parece ter muito fundamento. Que a população tinha medo da vacina é fato, assim como havia quem não quisesse, por excesso de recato, que as senhoras da família fossem vacinadas. Também é verdade que havia um número muito grande de imigrantes, recém-chegados ao Brasil, que talvez não tivessem grande intimidade com procedimentos médicos. Aliás, é justamente entre a população imigrante, levando em conta suas origens, que podem ser procuradas algumas das causas autênticas para a revolta de 1904.
Motivos para revolta? Havia, por certo (²). Não estava, entre eles, porém, o ser a vacina uma novidade no Brasil.

A vacinação era, em 1904, assunto corrente nas revistas humorísticas (³)
(1) O mesmo que liderou a Expedição que recebeu seu nome.
(2) Pode-se supor, racionalmente, que ninguém sairia quebrando a iluminação pública, virando bondes ou construindo barricadas à custa do calçamento das ruas sem alguma justificativa plausível. Entre a população de imigrantes que não queria ser vacinada podia ser vista uma ou outra bandeira anarquista, remetendo, portanto, a questões políticas e trabalhistas que haviam atravessado o Atlântico em companhia dos trabalhadores que procuravam um novo país para viver. Outras linhas ideológicas também estavam presentes.
(3) O ESFOLADO, Ano 1, nº 1, 16 de setembro de 1905.
 O original pertence à BNDigital; a  imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

2 comentários:

  1. Que estranho, uma vacina estar entre os motivos de uma revolta.... Desconhecia este episódio da história do vosso país.
    Beijinho, uma doce semana
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Hmmm, e foi uma revolta das mais cabeludas. No início do Século XX as cidades brasileiras viviam enfrentando surtos de febre amarela, dengue, varíola e outras doenças. O presidente da época, Rodrigues Alves, nomeou, para tratar do problema, o mais competente médico-sanitarista do País, Oswaldo Cruz. O problema é que não era fácil convencer a população, muito ignorante, de que doenças podiam ser transmitidas, por exemplo, por picadas de mosquitos, e que, portanto, era preciso eliminar os locais em que mosquitos podiam procriar. Isso significava ter de vistoriar as casas, e as pessoas não gostavam da ideia. Além disso, era indispensável a vacinação contra a varíola que, na época, era usualmente aplicada no alto da coxa (já conversei com muitos idosos que confirmaram essa informação).
      Ora, imagine só, um enfermeiro chegando a uma casa para vacinar a família, e aquelas senhoras tendo de remover, diante dele, saias que usavam uns treze metros de tecido para confecção... Muita gente achava que era um absurdo, um desrespeito, e por aí vai.
      Revoltosos tomaram o controle de vários bairros da capital (Rio de Janeiro, naquele tempo), fizeram barricadas, quebraram lojas, arruinaram bondes, postes de iluminação pública, usavam bandeiras anarquistas, cantavam a "Internacional" e a "Marselhesa"... Ufa, que confusão!
      Sim, só por causa da vacina, mas talvez, também, como uma expressão da revolta popular contra problemas que afetavam o quotidiano da população mais pobre, embora muita gente importante tenha se envolvido em tentativas de impedir a vacinação, como o fizeram, por exemplo, vários deputados, e até alunos de escolas militares.

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