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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Assim agiam os bandeirantes

À testa de uma bandeira, Fernão Dias fez enforcar um filho acusado de conspirar contra sua liderança


A tropa, que saíra tão animada, sertão afora, andava já descontente com o chefe. Experiente e poderoso - até havia recebido cartas do rei -, ele não tivera dificuldade em reunir um bando considerável para procurar ouro e pedras preciosas. Mas o tempo passava e a esperança de riqueza para todos ia minguando. Famintos, às vezes beirando a inanição, e com as roupas já pouco melhores que trapos, os homens lutavam contra o desespero. E nada de o teimoso líder resolver-se a voltar para casa. Adiante, adiante, sempre adiante. Para onde, afinal?
Em silêncio, olhares insatisfeitos achavam cúmplices. A conspiração tomava forma.
Não é por acaso que se diz que paredes têm ouvidos e mato tem olhos. Ora, mato é que não faltava naquelas paragens. Do fundo de sua obsessão por esmeraldas, o chefe farejou a revolta em andamento, e uma investigação mostrou quem estava à testa dos rebeldes. Um enforcamento silenciou aquele que ousara contestar o obstinado comandante. Era ninguém menos que um filho que havia gerado fora dos limites do casamento (¹).
Não, leitores, isto não é uma página de ficção histórica. Está na Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, ao tratar da bandeira de Fernão Dias Paes (²), famoso pela procura de esmeraldas:
"Enquanto [...] penetravam os sertões [...] se introduziu uma diabólica sugestão contra a vida do governador Fernão Dias [...]. Foi autor deste sacrílego e bárbaro atentado o mameluco José Paes, filho bastardo dos delírios da mocidade [sic!] do governador Fernão Dias, que por muitas vezes pôs em desconfianças de que o seu amor excedia para com este bastardo aos grandes merecimentos de seu legítimo filho e primogênito Garcia Rodrigues Paes, que com os brios do sangue que lhe animava as veias sabia constante sofrer as calamidades e misérias do sertão para acompanhar nele [...] a seu pai. [...]"
Tenham paciência com a linguagem do Século XVIII, leitores, e passemos adiante. Depois de explicar que uma delação levara Fernão Dias ao conhecimento da conspirata, prossegue Pedro Taques:
"[Fernão Dias] prontamente se armou, e sem mais companhia veio examinar as vozes dos agressores, que ainda existiam no seu ajuntamento; retirou-se para logo, e com as cautelas e silêncio que pedia o caso, passou o restante da noite. Amanheceu o dia, e comunicando a gravidade da matéria a seu filho legítimo e mais oficiais parentes e amigos, procedeu na prisão dos culpados, que fazendo-os separar uns dos outros, se averiguou a verdade da capital culpa, que toda recaiu no filho mameluco; porém como o caso pedia um exemplar castigo para evitar outra futura ruína, negou-se ao amor e piedade de pai, e todo cheio de reta justiça, fez levantar o réu ao alto, e depois de confessado (³) e desenganado de que não escapava, o fez enforcar à vista de todo o arraial, com horror e temor dos mais companheiros."
Duas pequenas observações, e com elas vamos concluir:
  • Pedro Taques parece falar do "mameluco José Paes" em um tom pouco favorável (⁴), o que não deixa de ser curioso, já que a maior parte da população de São Paulo nesse tempo era mestiça - havia na terra poucas mulheres de origem portuguesa e, sendo assim, era com índias cristãs que muitos colonizadores se casavam (⁵);
  • Mesmo que o cabeça da rebelião fosse Garcia Rodrigues Paes, o primogênito legítimo de Fernão Dias, e não o filho mameluco, é provável que, sem qualquer demonstração de misericórdia, também fosse enforcado. Era assim que agiam os bandeirantes, era assim que se fazia justiça nas bandeiras que iam ao sertão.

(1) Filho natural era chamado aquele que nascera fora dos limites do casamento devidamente reconhecido pela Igreja. Na época, a distinção entre "filhos legítimos" (provenientes de um casamento formal) e "filhos naturais" era frequente em documentos, devido a uma série de implicações legais.
(2) 1608 - 1681.
(3) Admitindo que os fatos tenham sido exatamente como descritos por Pedro Taques, fica evidente que a bandeira de Fernão Dias contava com pelo menos um capelão.
(4) Quem lê a Nobiliarchia logo vê que Pedro Taques tinha a intenção de enfatizar a nobreza e "limpeza de sangue" da gente de São Paulo, com suas implicações civis e eclesiásticas, ainda que para isso fosse preciso fechar os olhos para o processo de mestiçagem em curso.
(5) A influência ameríndia era tão acentuada que, por séculos, a língua indígena é que foi falada em São Paulo no âmbito doméstico.


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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Bandeiras de apresamento

Bandeiras de apresamento eram grupos de pessoas armadas (geralmente paulistas), que iam ao interior da América do Sul capturar indígenas para escravização. A princípio os ataques eram dirigidos contra aldeias cujos habitantes, sem consciência do perigo que corriam, ainda viviam segundo o estilo de vida tradicional entre populações ameríndias. Mais tarde, porém, bandos armados passaram a atacar também as missões, nas quais indígenas catequizados viviam em companhia de missionários, quase todos jesuítas
Haveria razões para essa mudança de estratégia?
Sim. Aqui estão, leitores, algumas delas:
  • As missões, reunindo catecúmenos provenientes de vários lugares, tinham, como regra, uma população consideravelmente maior que as aldeias indígenas comuns;
  • Tendo abandonado seu modo de vida tradicional, os indígenas das missões não costumavam andar armados (¹);
  • Indígenas das missões aprendiam, com os padres, técnicas agrícolas, além de vários ofícios (pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.), e eram, portanto, considerados mais valiosos, quando escravizados.
O ataque maciço às missões do Guayrá começou em 1628, segundo depoimento do padre Antonio Ruiz de Montoya, célebre na defesa dos indígenas, tendo ido mesmo à Espanha protestar contra a injustiça que lhes era feita. Em suas palavras, foi assim que tudo aconteceu:
"Entrou esta gente [...] por nossas reduções, cativando, matando e despojando altares. Nós, três padres, fomos às suas cabanas e alojamentos, onde tinham já muita gente cativa, e lhes pedimos que nos dessem os que haviam aprisionado e que estavam, muitos deles, acorrentados. Gritaram como loucos frenéticos, dizendo: Prendam-nos, prendam-nos, que esses são traidores!, e juntamente dispararam alguns tiros de arcabuz, com que feriram oito ou nove índios que nos acompanhavam. Um deles caiu morto ali mesmo, de um tiro que lhe deram na coxa, e o padre Cristóbal de Mendoza saiu ferido de uma flechada. Prenderam o padre José Domenech, dizendo-nos [...] que não éramos sacerdotes, mas demônios, hereges, inimigos de Deus, e que pregávamos mentiras aos índios. Um deles apontou uma escopeta em direção ao meu peito, e eu abri a roupa para que, sem nenhuma resistência, o tiro entrasse." (²)
Não seria ainda dessa vez, no entanto, que um jesuíta iria tombar pela mão de um bandeirante. 
Montoya tem contra si o fato de que, ao passar metade de seu livro Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus contando suas aventuras e façanhas como missionário, narrou muita coisa que qualquer pessoa séria, com muito boa vontade, pode apenas reconhecer como vinda de um espírito crédulo, quando não ingênuo. Por outro lado, mesmo assumindo que houvesse algum exagero da parte do religioso, é inegável que integrantes de bandeiras de apresamento, depois das estripulias entre indígenas que viviam livres nas florestas, julgaram mais fácil e mais conveniente atacar as reduções - se não fosse assim, como explicar a existência de numerosa escravatura de origem indígena, que paulistas orgulhosos - como o genealogista Pedro Taques, por exemplo, autor da Nobiliarchia Paulistana - faziam questão de referir? Amador Bueno (o "Aclamado") tinha centenas de índios escravizados, convertidos à força:
"Teve grande tratamento e opulência por dominar debaixo de sua administração muitos centos de índios, que de gentio bárbaro do sertão se tinham convertido à nossa santa fé [sic], pela indústria, valor e força das armas, com que os conquistou Amador Bueno em seus reinos e alojamentos." (³)
Pedro Taques mencionou, ainda, que Manuel Preto chegou a ter novecentos e noventa e nove (!!!) índios escravizados; esse número, ainda que exagerado em mais de um sentido, não devia ser incomum, já que, também na Nobiliarchia Paulistana, o mesmo autor, falando de paulistas do Século XVII (⁴), afirmou que "muitos havia que possuíam debaixo de sua administração quinhentos, seiscentos e setecentos índios, que se ocupavam no trabalho da agricultura em copiosas searas de trigo, plantas de milho, feijão, legumes e nos algodoais".
Para além de tudo isso, vale ressaltar que em São Paulo ninguém escondia o fato de que paulistas invadiam missões para aprisionar índios, fazendo não poucos estragos em tais ocasiões. Pedro Taques registrou, entre vários outros, o caso do bandeirante Manuel Bicudo de Campos, que teria atacado missões não menos que vinte e quatro vezes, sem poupar nem mesmo os jesuítas. Certo dia, notando que os indígenas estavam prontos a lutar pela liberdade, sem mais delongas cortou o fio da existência ao missionário que os liderava: "[...] Fez pé atrás e tomando a sua arma de fogo fez tiro ao tal mestre de campo jesuíta (⁵), que ainda estava montado; e quando o corpo caiu do cavalo em terra, já a alma o tinha deixado." (⁶) 
Foi assim, uns através da catequese, outros à procura de ouro ou de gente para escravizar, que se explorou o território ainda desconhecido da América do Sul. Conforme reconheceu Pedro Taques, "sem o interesse do serviço dos índios não teriam feito os paulistas tão dilatadas e pasmosas jornadas pelo sertão, que ocasionaram os descobrimentos que hoje estão povoados" (⁷).

(1) Autoridades coloniais, quando precisavam de homens para lutar, podiam requisitar indígenas das missões; estes combatiam, porém, usando apenas as armas habituais entre ameríndios, e não com armas de fogo. Havia, inclusive, uma proibição quanto ao fornecimento de armas de fogo para indígenas, contra a qual lutavam os missionários, tendo em vista a necessidade de defesa contra os bandeirantes de São Paulo.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O texto citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.
(4) Contemporâneos, por conseguinte, do padre Antonio Ruiz de Montoya.
(5) A fala de Pedro Taques sugere que ele próprio não tinha grande estima pelos jesuítas.
(6) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Op. cit.
(7) Ibid.


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quem foi João Ramalho

Se existe uma personagem do primeiro século da colonização sobre quem pairam dúvidas, essa é, certamente, João Ramalho. Já foi descrito como condenado a degredo, como náufrago, até como fugitivo. É fato, porém, que, em 1532, quando Martim Afonso de Sousa fundou São Vicente, já esse homem vivia há tempos no Brasil e, perfeitamente adaptado ao modo de vida dos indígenas, entre eles constituíra família numerosa. 
Frei Gaspar da Madre de Deus faz um relato pitoresco do encontro de João Ramalho com a gente de Martim Afonso: Índios que andavam à pesca veem chegar a esquadra portuguesa, correm à procura de um esconderijo e observam, pasmados, o ritual de fundação de São Vicente. A toda pressa percorrem o brutal Caminho do Mar, indo dar a notícia a Tibiriçá, seu chefe, que, de imediato, convoca as tribos aliadas para fazer guerra e expulsar os invasores. É aí que entra em cena João Ramalho:
"Perto de Tibiriçá morava João Ramalho, aquele português que aqui chegara muitos anos antes; ele fazia vida marital com uma filha do régulo [o cacique Tibiriçá], e este lhe participou sem demora a notícia que acabava de receber. Ouviu-a Ramalho com alvoroço grande, porque logo assentou que a esquadra era de portugueses [...]. Firme nesta opinião, e desejoso de evitar a guerra que se dispunha contra os brancos, solicitou o socorro, onde os bárbaros [sic] buscavam o aumento das suas forças. Depois de persuadir o sogro de que os forasteiros eram seus nacionais [...], propôs-lhe grandes conveniências que poderiam resultar de receber benigno aos hóspedes desconhecidos [...]." (¹)
O mesmo autor assevera que, ao terceiro dia, a contar do desembarque de Martim Afonso, é que João Ramalho e Tibiriçá, à frente de quinhentos índios flecheiros, chegaram ao lugar em que estavam os portugueses:
"Apresentou-se Ramalho ao capitão-mor, narrou-lhe os sucessos passados da sua vida e assegurou-lhe que, a instâncias suas, vinha o senhor da terra [Tibiriçá] a defendê-los com os índios que ali via." (²)
Percebam, leitores, que, para frei Gaspar da Madre de Deus, beneditino, nascido em São Vicente no começo do Século XVIII, o encontro de João Ramalho e Martim Afonso foi amigável e oportuno, porque teria impedido que os povos indígenas da região se pusessem em armas contra os recém-chegados lusitanos. Seu registro deve refletir, até certo ponto, as lembranças do acontecimento que sobreviveram por muitos anos. 
A Nobiliarchia Paulistana (também de um autor do Século XVIII, Pedro Taques de Almeida Paes Leme), faz referência a João Ramalho, embora incorra em um erro evidente, conforme já veremos:
"[...] João Ramalho, o progenitor de muitas famílias de São Paulo, que foi o fundador da povoação de Santo André da Borda do Campo, que se aclamou vila em 8 de abril de 1553, sendo então o dito Ramalho guarda-mor e alcaide-mor do campo, e tinha o foro de cavaleiro [...]. Este João Ramalho veio de Portugal (era natural de Barcelos, comarca de Viseu), na companhia de Martim Afonso de Sousa, no fim do ano de 1530 [...]."
Ora, não é possível que João Ramalho viesse com Martim Afonso e, ao mesmo tempo, fosse recebê-lo em companhia de algumas centenas de índios! Ao que se sabe, porém, João Ramalho foi mesmo o fundador de Santo André da Borda do Campo, uma povoação que, por enfrentar dificuldades para a defesa contra ataques dos tamoios, acabou desaparecendo. Seus moradores receberam ordem para ir viver em São Paulo de Piratininga. 
Então, problemas à vista!...
O ponto mais controvertido a respeito do português que vivia como índio está relacionado às suas divergências com os jesuítas, mandados a São Vicente para catequizar indígenas. Para perfeita clareza, é preciso dizer que os missionários detestavam João Ramalho (sendo o inverso, ao que parece, igualmente verdade), a quem consideravam um inimigo da doutrinação dos povos indígenas e um perfeito mau exemplo. Basta ver o que disse Anchieta, em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga no ano de 1554:
"[...] Uns certos cristãos, nascidos de pai português e de mãe brasílica, que estão distantes de nós nove milhas, em uma povoação de portugueses, não cessam, juntamente com seu pai, de empregar contínuos esforços para derrubar a obra que, ajudando-nos a graça de Deus, trabalhamos por edificar, persuadindo aos próprios catecúmenos com assíduos e nefandos conselhos para que se apartem de nós [...], e não deem o menor crédito a nós, que para aqui fomos mandados por causa da nossa perversidade. Com estas e outras semelhantes, fazem que uns não acreditem na pregação da palavra de Deus, e outros, que já víamos entrarem para o aprisco de Cristo, voltem aos antigos costumes, e fujam de nós para que possam mais livremente viver." (³)
"Para que possam mais livremente viver" - interessante essa observação, não é mesmo, meus leitores? Vejam que nenhum nome é mencionado, mas a situação, bem conhecida, indica que a família causadora de problemas era mesmo a de João Ramalho. Um fator importante, nesse caso, é que Anchieta foi um contemporâneo de João Ramalho e, pelo visto, conhecia muito bem o sujeito. Se, no entanto, restar alguma dúvida quanto à identidade do "pai português", temos o recurso aos registros do padre Simão de Vasconcelos, que, valendo-se da documentação escrita de que sua Ordem dispunha, bem como de testemunhos orais, escreveu, no Século XVII, a Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, na qual encontramos:
"Havia em São Vicente um João Ramalho, homem por graves crimes infame, e atualmente excomungado. Mandou-lhe o padre Leonardo [Nunes] pedir com cortesia, fosse servido sair da igreja, porque pudesse ele celebrar sacrifício, pois não podia em sua presença; fê-lo assim, e celebrou o padre. Porém dois filhos seus, mamelucos, dados por afrontados, determinaram castigar no servo do Senhor a injúria que tinham por feita ao pai [...]." (⁴)
Mas não é só. Descrevendo, em outro trecho, a chegada de Manuel da Nóbrega a São Vicente em 1553, acrescentou:
"Aquele famoso João Ramalho, homem rico na terra, mas infame nos vícios, amancebado público por quase quarenta anos, e de ordinário por essa causa excomungado [...], lembrado agora de seus antigos ódios, e tendo ainda vivo no peito o agravo que cuidou lhe fizera o padre quando o mandou avisar se saísse da igreja, porque ele não podia exercer o sacrifício do altar, por estar censurado; entre as alegrias e parabéns com que o povo recebia por hóspede o padre Nóbrega, andava ele com a caterva de seus filhos, muitos em número, e todos de má casta, mamelucos ilegítimos e desalmados, com arcos, flechas e gritarias, espalhando de alguns deles [os padres da Companhia] crimes péssimos e indignos de seculares, quanto mais de pessoas religiosas [...]." (⁵)
O que se pode notar, de pronto, é que, vivendo em um tempo no qual todas as personagens dessa história já haviam morrido, Simão de Vasconcelos deu eco às informações que denunciavam João Ramalho e sua vasta descendência como uma horda de facínoras, cujo objetivo era emperrar o trabalho dos jesuítas. Não é impossível que, da parte do português, houvesse algum receio de perder a influência considerável que adquirira entre os ameríndios, com os quais se aparentara; por outro lado, levando em conta os costumes que então vigoravam entre europeus, não surpreende que, para os jesuítas, fosse um escândalo a existência de um cristão que, vivendo entre os indígenas, chegara, por assim dizer, a ser um deles. Algum tempo no Brasil, porém, acabaria mostrando aos missionários que, se queriam sobreviver e catequizar, precisariam, até certo ponto, adotar alguns costumes da terra. Não como João Ramalho, porém.

(1) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 30.
(2) Ibid., p. 31.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 46.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 47.
(5) Ibid., p. 75.


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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Um homem do Século XVIII que não queria ser nomeado para cargo público

Os moradores das vilas e cidades coloniais eram ávidos por cargos públicos. Explica-se essa preferência, não por fervor cívico, mas pelo desejo de receber o pagamento em moeda corrente, um privilégio que pouca gente tinha, uma vez que quase não havia dinheiro amoedado circulando no Brasil. 
Diz-se, porém, que para toda regra há exceção, e houve, no caso do paulista João Martins Barros, um sujeito pra lá de sui generis. Queria ser padre, e até estudou para isso, mas mudou de ideia. Mesmo assim, no dizer de Pedro Taques de Almeida Paes Leme na Nobiliarchia Paulistana, "conservou-se sempre na resolução de não tomar estado conjugal". Sendo homem muito estimado, não faltou quem lembrasse de seu nome para um cargo público, mas João Martins Barros recusou a nomeação - não queria ver-se metido em encrencas políticas. Diz a Nobiliarchia:
"Para se livrar de entrar muitas vezes em roda de coices [sic], com disposições e governo do senado de sua pátria, pelo despotismo que praticam [...] muitos ministros corregedores da comarca de São Paulo, sacrificou-se a ser guarda-mor das terras e águas minerais, de que teve provisão pela Secretaria do Rio de Janeiro, para gozar da liberdade e quietação fora do ônus de republicano."
Tendo herdado dos pais uma fazenda, João Martins Barros estabeleceu um engenho de açúcar (se com roda d'água ou com bois, não sabemos, mas é certo que não era "roda de coices"...). Lá viveu em paz, ao que parece, mas não por muito tempo.
Paulistas cresciam ouvindo histórias dos sertanistas que, tendo explorado o interior do Brasil à procura de ouro ou capturando índios, voltavam para contar as aventuras para a gente boquiaberta que não arredara pé de sua povoação nativa. Compreende-se, pois, que o sonho acalentado por quase todo menino, assim que chegava à adolescência, era juntar-se a uma bandeira e ir, também, à caça das próprias histórias para contar. Mas já o Século XVIII passava da metade, e a época de ouro das bandeiras, em mais de um sentido, ia ficando para trás. 
Então... Continuava Martins Barros a fazer produtivo o seu engenho, quando um acontecimento inesperado mudou tudo. Estando o capitão-general de São Paulo à procura de um homem (¹) que comandasse uma expedição fluvial ordenada por El-Rei, houve quem indicasse o quase padre e que agora era senhor de engenho, "com o concurso", informa a Nobiliarchia, "de ser geralmente amado de seus nacionais e dos seus vizinhos moradores da vila de Sorocaba, cujos paulistas haviam de formar o corpo de trezentos soldados escolhidos para a dita expedição".
Não há como dizer o que é que foi decisivo para arrancar João Martins Barros da paz de sua fazenda, se a honra da nomeação para tão importante empreendimento, se algum senso de dever, se a vontade de provar a si mesmo que podia ser, também, um sertanista capaz, como os paulistas de antigamente, ou se tudo isso e mais alguma coisa. Fato é que, segundo a Nobiliarchia Paulistana, "não pôde João Martins isentar-se desta eleição, e ficou encarregado de todo o trabalho do comando desta expedição que formou um corpo de trezentos e vinte soldados, e no dia 28 de julho de 1767 voltou com as canoas do seu transporte pelo rio Anhamby, que em São Paulo se chama Tieté, e os castelhanos da Província do Paraguai nos seus mapas nomeiam Piquiri." (²)
Ora, meus leitores, o mais curioso disso tudo é que o homem que não queria cargo público pelas razões já declaradas precisou deixar a velha teimosia e foi, para efeitos de comandar a expedição, nomeado capitão-mor. Mas, como aqui se trata da vida real e não de ficção, não é possível terminar com um final feliz: ao que se sabe, João Martins Barros morreu no sertão, na longínqua localidade (³) que, com ordem real, estabelecera, e que, por parecer inviável pela distância, falta de comunicações e insalubridade foi, algum tempo depois, desmantelada.

(1) A Nobiliarchia Paulistana traz: "...um paulista com as prendas que o fizessem digno da importante expedição ao sertão [...].".
(2) A grafia antiga foi mantida em "Tieté" e "Anhamby", para que os leitores tenham uma ideia de como é complicada a questão de determinar quais eram, de fato, os topônimos adotados antigamente.
(3) A Nobiliarchia Paulistana refere-se à povoação como "Guatemim". Tratava-se do Presídio de Iguatemi, uma praça militar que o governo lusitano tencionava manter para assegurar as fronteiras com a América Espanhola, e que foi extinta porque as doenças entre a população, os constantes ataques indígenas e as pragas na lavoura consumiam tantas vidas e recursos que era impossível fazê-la prosperar.


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sexta-feira, 27 de maio de 2016

As minas de Afonso Sardinha


Um dos lugares, no interior de São Paulo, em que Afonso Sardinha
conduziu a busca por jazidas (³)

É pouco provável que Afonso Sardinha seja nomeado em aulas de História nas escolas de nível fundamental e médio. A maior parte dos leitores, acredito, sequer terá ouvido falar nesse sujeito, mas foi ele, em  fins do Século XVI, que começou a dar forma ao sonho de achar ouro em terras do Brasil. Era, ao que parece, um explorador incansável, e para efetuar descobrimentos teve que percorrer uma parte significativa do território do atual Estado de São Paulo. Embora procurasse metais preciosos, reconhecia a importância, e mesmo a necessidade, de trabalhar ferro para objetos de que os colonos precisavam desesperadamente, porque as magras remessas que anualmente vinham do Reino eram caras e insuficientes, e nesse sentido, seria o primeiro a fazer experiências em uma região na qual muitas outras, em grande parte malogradas, viriam a acontecer em séculos posteriores.
Pedro Taques, na Nobiliarchia Paulistana, dá mais detalhes desse indivíduo notável mas pouco lembrado, descrevendo-o como "o afamado paulista Afonso Sardinha, primeiro descobridor das minas de ouro em todo o Estado do Brasil em São Paulo nas serras de Iaguamimbaba, que agora se chama Mantaguyra, na de Jaraguá, termo de São Paulo, na de Vuturuna, termo da vila de Paranhiba e na de Hybiraçoyaba (¹), termo de Sorocaba." É possível que na pequena São Paulo do Século XVIII Afonso Sardinha fosse ainda lembrado, em vista da menção dele feita por Taques como "afamado paulista". O tempo, porém, lançou o homem em quase absoluto esquecimento.
Engana-se, todavia, quem imagina que suas descobertas de minas foram feitas com alguma ajuda de custo por parte da Coroa, que era, certamente, grande interessada no assunto. Nem Afonso Sardinha e nem os paulistas que vieram depois dele recebiam qualquer adiantamento para a ida ao sertão à procura de jazidas auríferas. As primeiras minas encontradas não eram, de fato, muito promissoras, ainda que apresentassem algum rendimento. 
Sardinha, explorador e minerador, foi também um caçador de índios, o que se infere por testamentos da época, nos quais se mencionavam pessoas que tinham índios "administrados", trazidos a São Paulo em uma expedição feita por ele. Por algum tempo exerceu cargo público, segundo aparece também na Nobiliarchia:
"Afonso Sardinha [...] fez muitos serviços à sua custa à real coroa, não só com os descobrimentos de minas de ouro já no ano de 1590, mas também quando foi capitão da gente de São Paulo para a reger e governar, de que teve patente datada em 20 de abril de 1592 por Jorge Corrêa, moço da câmara, capitão-mor governador e ouvidor da Capitania de São Vicente e São Paulo em qual se vê os muitos e grandes serviços que havia feito a Sua Majestade [...]. Este Afonso Sardinha fez fabricar dois engenhos de ferro, em que se fundia excelente ferro e com muita abundância, dos quais ainda no presente tempo existe no serro de Hybiraçoiaba uma muito grande bigorna, que a todos acusa e recorda a certeza daquela fábrica [...]."

Muro de pedra que talvez servisse para bloquear a passagem da água em uma
área explorada por Afonso Sardinha (³)

Pedro Taques recorda, então, que Afonso Sardinha, descobridor de minas, jamais foi devidamente recompensado por El-Rei:
"Afonso Sardinha contentou-se só com a glória do real serviço, fazendo os descobrimentos dos três metais, ouro prata e ferro, tudo à sua custa. Até os engenhos para se fundir ferro entregou a Sua Majestade."
Consta que, em testamento, Afonso Sardinha deixou à sua mulher todos os bens que tinha, com o desejo expresso de que, após a morte dela, fossem passados para as mãos dos jesuítas (²). Para os padrões da Capitania de São Vicente de seu tempo, ele não era um homem pobre, mas não se pode dizer que sua vida de trabalhos tenha sido largamente recompensada. Pode ter sido o primeiro, mas não foi o único descobridor de minas que jamais recebeu premiação à altura de suas realizações - pouco depois da Independência, o Brigadeiro Cunha Matos, em suas andanças nas proximidades de Corumbá de Goiás, encontrou descendentes de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, vivendo na maior pobreza.

Local provavelmente explorado por Afonso Sardinha em fins do Século XVI (³)

(1) Os leitores não devem estranhar a grafia dos topônimos, em especial se forem de origem indígena. Um mesmo autor escrevia, ora de um jeito, ora de outro (até Pedro Taques fazia isso), porque não havia uma norma estrita a esse respeito.
(2) Legar bens a uma Ordem religiosa era, nesse tempo, uma fato comum: esperava-se que os religiosos beneficiados retribuíssem com missas que, segundo suas crenças, ajudariam a libertar a alma do generoso doador das penas do purgatório.
(3) Considera-se que esse lugar foi um dos muitos explorados por Afonso Sardinha em fins do Século XVI, quando procurava metais preciosos e ferro. Está localizado dentro da área da Floresta Nacional de Ipanema, em Iperó - SP. Em relação às experiências para fundir ferro, é difícil determinar o quanto eram bem-sucedidas. Pedro Taques era, às vezes, um pouco exagerado ao relatar as virtudes e sucessos dos paulistas.


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segunda-feira, 14 de março de 2016

Casamentos no Brasil Colonial

Muitos dentre os primeiros colonizadores que se estabeleceram no Brasil acabaram casados com mulheres indígenas - uns poucos, "na lei da graça", como dizia a Igreja, mas a maioria sem maiores formalidades que a decisão de viver sob o mesmo teto. Não tardou, porém, que sacerdotes (jesuítas, principalmente), protestassem contra aquilo que entendiam ser um desregramento dos colonos. Não só prescindiam da chancela da Igreja para suas uniões, mas havia quem se atrevesse a ter não apenas uma, mas várias mulheres... Ninguém se esqueça de que a poligamia era um enorme escândalo, e severamente proibida pelas leis portuguesas. A questão é que, nas terras da América, dificilmente haveria quem se desse ao trabalho de, em nome do Rei, fiscalizar tamanha desobediência.
Por conta disso tudo, não era incomum que os padres solicitassem que do Reino fossem trazidas órfãs portuguesas, para futuras esposas dos colonos. Fosse, porém, porque não havia tantas órfãs para tantos colonos, fosse por outras razões que nem vale a pena mencionar (a imaginação dos leitores suprirá esta aparente lacuna), o caso é que os padres nunca conseguiam domar a má conduta dos reinóis, não faltando, dentre os jesuítas, quem afirmasse que era justamente o péssimo exemplo dos colonizadores a maior dificuldade que havia à catequese dos indígenas.
O desenvolvimento das povoações coloniais com base em atividades econômicas ligadas à agricultura e, mais tarde, à mineração, possibilitou o aparecimento de uma elite para a qual o casamento dos filhos vinha a ser um importante negócio, um assunto que envolvia o reforço de vínculos de interesse político e econômico. Nesse contexto, eram os chefes das famílias que entabulavam as negociações, combinavam o valor do dote a ser pago pela família da moça e acertavam os mais detalhes que fossem porventura convenientes. Esperava-se, como regra, que a negociação fosse tacitamente aceita pelo noivo e pela noiva. A negativa, por parte de uma menina, era, com frequência, punida com a condenação à vida de religiosa, com vocação ou sem ela, em algum convento ou "recolhimento", quer no Brasil, quer no Reino.
Não era nada extraordinário que meninas de quatorze ou quinze anos fossem negociadas em casamento com homens de muito mais idade, já várias vezes viúvos. Afinal, esses eram tempos em que a morte de mulheres durante um parto não era nenhuma raridade. Igualmente comum é que noivo e noiva só se conhecessem às vésperas da cerimônia religiosa de casamento, quando não ocorria se verem, pela primeira vez, à porta da igreja. Casamentos por procuração eram parte do mesmo cardápio, e havia até casos em que o noivo ou a noiva precisava empreender uma longa viagem, eventualmente transoceânica, para que o casamento se realizasse.
Acontece que, apesar de tantas negociações, às vezes as coisas davam errado. A Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, registra vários casos, dos quais selecionei três, para recreação dos leitores.
Primeiro caso: 
"D. Maria Teresa Isabel Paes foi contratada para casar com o capitão-mor Fernando Dias Paes, filho primogênito do capitão-mor e guarda-mor-geral das minas de ouro Garcia Rodrigues Paes [...]; e não teve efeito a consumação do matrimônio porque mandando a sua procuração contraente, por ela foi recebido, e vindo em marcha para São Paulo faleceu antes de ver sua esposa."
Outro caso, semelhante ao primeiro, mas de consequência um tanto inusitada:
"D. Inês Pedroso de Barros faleceu solteira a tempo que seus pais a tinham contratado para casar com Estanislau de Campos, excelente estudante de gramática latina, o qual vendo morta sua futura esposa, tomou a roupeta da Companhia, onde foi o maior barrete da Província."
Uma breve explicação, talvez necessária, é que Pedro Taques, ao dizer que o noivo-viúvo "tomou a roupeta da Companhia", em lugar de buscar novo casamento, estava informando que o estudante de gramática latina decidiu ser jesuíta.
O terceiro caso foi um pouco diferente, senão algo curioso. Lê-se na Nobiliarchia:
"Dona Ana de Castro e Quevedo foi casada com Salvador Bicudo de Mendonça, natural de São Paulo, onde faleceu a 15 de junho de 1697, e foi sepultado na igreja dos reverendos e religiosos carmelitas no jazigo de seus avós, não consumou o matrimônio por achaques que tinha, como declarou no seu testamento."


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A tragédia de um minerador paulista que foi procurar ouro em Cuiabá

Nos tempos coloniais, a procura de ouro no interior do Brasil era muito arriscada


Monumento ao minerador desconhecido em
Cristalina - GO (fotografia infravermelha)
Os leitores bem sabem o que é que movia muitos paulistas à ida aos sertões desconhecidos nos tempos coloniais: era a fome desesperada por enriquecimento (rápido, de preferência), quer através do apresamento de indígenas para escravização, quer mediante a descoberta de jazidas auríferas. No primeiro caso, os escravizados eram usados, alguns, em terras dos próprios apresadores, enquanto outros eram vendidos para quem queria cativos para o trabalho. Ter muitos escravos significava aumentar as áreas de cultivo, produzir mais e, por conseguinte, ampliar as possibilidades de ganho.
Nada disso, porém, se comparava à riqueza com que a sorte na procura do ouro favorecia alguns felizardos. Fazia-se fortuna em brevíssimo tempo. Poucos, porém, é que alcançavam a sonhada prosperidade. A maioria tinha rendimentos modestos, até porque, nas minas, o custo de vida era absurdo. Literalmente, tudo se comprava a peso de ouro. 
Não foram poucas as pessoas que, mesmo desfrutando em São Paulo de uma posição econômica satisfatória, resolveram arriscar o patrimônio na procura de metais preciosos. Queriam ter mais, muito mais, e acabavam perdendo quase tudo o que tinham. Um desses casos, registrado na Nobiliarchia Paulistana, é o do sargento-mor João Carvalho da Silva, Devia ser um sujeito respeitado em São Paulo, já que, sobre ele, Pedro Taques refere: "ocupou os cargos da sua República (¹), foi sargento-mor do terço de auxiliares, teve as estimações que soube conseguir a sua docilidade e a graduação do seu distinto nascimento. Possuiu os bens da fortuna, sem inveja aos opulentos do seu tempo [...]."
Ao ouvir dizer que em Cuiabá havia muito ouro, deu-lhe na cabeça investir tudo o que tinha para ficar ainda mais rico. Meteu-se em uma das monções e lá se foi, Tietê afora, e outros rios mais, com todos os escravos de que dispunha, supondo que tudo lhe sairia muito bem. 
Mas não foi assim.
A desdita começou ainda antes da chegada às minas, quando canoas com suprimentos foram perdidas nas terríveis cachoeiras que havia na viagem. Conta Pedro Taques:
"[...] Nesta jornada, a mais arriscada pelo precipício das grandes cachoeiras que há nos rios desta navegação, voltou-se a roda a que chamamos da fortuna, e emborcando-se-lhe algumas canoas da sua conduta, lamentou antes de chegar às minas, castigada a resolução que tomara de deixar o estabelecimento da pátria [sic] para passar às minas ainda não estabelecidas no ano de 1721. O golpe foi grande por ser muito avultado o prejuízo."
Não cessaram aí as desgraças. João Carvalho da Silva e os escravos chegaram a Cuiabá em ocasião na qual grassavam as doenças, e não demorou para que muitos dos seus cativos acabassem morrendo. Segue a Nobiliarchia Paulistana:
"[...] Perdeu quase todos os escravos e se impossibilitou para, com o serviço deles, lucrosos tesouros que o conduziram àqueles sertões à custa de tão excessiva despesa, riscos de vida e tolerância das incomodidades, além da contingência dos assaltos dos bárbaros gentios de diversas nações, a cujas forças têm perecido tantas vidas [...]."
Era essa, leitores, a dura realidade das monções cuiabanas, para a maioria dos que nelas se aventuravam. A Pedro Taques ainda ocorreu mencionar que o triste herói dessa história era já viúvo quando se pôs a procurar ouro e que não tinha filhos que pudessem lamentar a herança malbaratada. Acertou, ainda na Antiguidade, o sábio rei dos hebreus, ao considerar que proveito havia na vida daquele que, não tendo descendência, gastava tempo e energia em fadigas para acumular bens: "vanitas est et adflictio pessima..." (²)

(1) Era assim que Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, nomeava a administração pública da cidade de São Paulo.
(2) Ecclesiastes 4, 7-8.


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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Pedro Vaz de Barros e a fartura de sua mesa

Hospedagem principesca nos tempos coloniais


Pedro Vaz de Barros, fundador da capela de São Roque, que deu origem à cidade de mesmo nome no Estado de São Paulo,  foi um dos homens mais ricos de seu tempo (segunda metade do Século XVII) - pelo menos é o que assegura a Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de A. Paes Leme. 
De acordo com o mesmo autor, a casa de Pedro Vaz de Barros vivia cheia de visitas. Como verão os leitores, não era para menos. A fim de manter satisfeitos os hóspedes que iam e vinham, era preciso uma cozinha eficiente, e que eficiência era essa! Conta a Nobiliarchia:
"Todos eram agasalhados com grandeza daquela mesa, na qual com muita profusão havia pão e vinho da própria lavoura, e as iguarias eram vitelas, carneiros e porcos, além das caças terrestres e voláteis, das quais os seus caçadores [...] conduziam com fartura, e por isso de tudo havia com abundância, e com tanta prevenção que, a qualquer hora da tarde que chegavam novos hóspedes, estava a mesa pronta, como se para estes fora conservada."
Pedro Taques escreveu a Nobiliarchia quando Pedro Vaz de Barros e seus contemporâneos já eram há muito falecidos, de modo que uma dose de exagero não pode ser descartada nessa história (*), mas os senhores leitores sabem muito bem que, naqueles tempos, não havia hotéis em terras do Brasil, e, por essa razão, era esperado que as pessoas que dispunham de recursos recebessem em casa os viajantes. Não ficava tal prática restrita à Capitania de São Vicente. Podia ser encontrada, por exemplo, nos engenhos de cana do Nordeste. Mas a fartura oferecida à mesa de Pedro Vaz de Barros devia ser pouco usual, ou Pedro Taques não iria falar dela com tanta admiração.
Menciona-se ainda, a respeito de Pedro Vaz de Barros, um detalhe curioso, que remete aos tempos em que, de portas adentro, era a língua indígena que predominava em São Paulo:
"Foi cognominado Grande, chamando-se-lhe assim pelo idioma brasílico: Pedro Vaz Guaçu, que quer dizer grande."
Ah, um outro detalhe, também da Nobiliarchia. Pedro Vaz de Barros, ou Vaz Guaçu, como queiram os leitores, ao contrário da regra geral de seu tempo, nunca se casou. Porém... Porém "teve vários filhos bastardos, havidos em diversas mulheres, que por todos foram nove". Para sua época, até que não foram muitos.

(*) Dizem que "quem conta um conto, acrescenta um ponto"...


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segunda-feira, 9 de março de 2015

Estudar História trazia alívio à surdez de um padre

Acreditem, senhores leitores: no Brasil Colonial, em que a luta pela sobrevivência era prioridade, havia gente que arranjava tempo e disposição para envolver-se com o estudo da História, que, como veremos, podia ter um uso prático no mínimo curioso. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, menciona, por exemplo, um certo Manuel Leite da Silva, que "foi completo na língua latina, e excelente poeta com grande instrução da História", além, é claro, de Frei Gaspar da Madre de Deus, que não apenas se interessava pelo estudo da História, mas que se dedicou a escrevê-la, razão pela qual é bem conhecido até hoje. E havia, também, o próprio Pedro Taques, assim como vários outros autores, que ele não menciona, ou porque não conhecia, ou porque não eram da sua amada Capitania de São Vicente - era, como se sabe, ele próprio um crítico mordaz da obra de Rocha Pita.
Nada se compara, porém, ao caso do Padre José Ferraz, ituano que, pelas circunstâncias da vida, afeiçoou-se ao estudo da História (¹). Conta Pedro Taques:
"José Ferraz foi jesuíta na província da Bahia, onde tomou a roupeta (²). Este homem foi de marca maior na sutileza com que penetrou a sagrada teologia. As suas letras o elevaram tanto, que caiu no desacordo de se constituir soberbo e ingrato ao doce leite com que se criara na Companhia, porque faltando-se-lhe com a cadeira de teologia na Bahia, para logo entrou a abandonar aquela retidão de justiça distributiva com que esta religião costuma praticar os seus preceitos com os súditos, publicando que com ele se tinha alterado esta virtude, porque as cadeiras se devem conferir aos mais beneméritos em letras, e não em antiguidade de estudos."
O fato é que o Padre Ferraz, furioso por ver-se preterido, estava já disposto a deixar a Ordem na qual professara, quando, segundo Taques, uma carta do próprio Geral, vinda Roma, ordenou que lhe dessem o posto que almejava. O teimoso homem, porém, nem por isso mudou de ideia:
"Não bastou esta ternura e obséquio sem exemplo para abrandar o gênio áspero ou desconfiado do padre José Ferraz, que, preocupado da sua teima e alucinação, largou a roupeta e, como já era presbítero, veio para São Paulo em hábito de clérigo de São Pedro. Não tardou muito o castigo, porque de repente ensurdeceu, de sorte que, ainda que aos ouvidos lhe disparassem uma peça de artilharia, não ouviria este grande eco [sic]."
Não estranhem os leitores o pensamento de Pedro Taques quanto a ser a surdez do Padre José Ferraz um castigo por sua arrogância. Aqueles eram tempos de profunda religiosidade e era muito comum que qualquer infortúnio fosse interpretado como uma punição vinda do Céu. Taques ainda diria, nessa mesma linha de interpretação dos fatos relacionados à vida do Padre Ferraz:
"Viveu pobre, e acabou na miséria, porque até por fim da carreira da triste vida caiu no vício de se embriagar com aguardente. Jaz sepultado na vila de Itu, sem mais campa que a saudade do seu nome, não pelo que foi, mas pelo que deixou de ser."
Mas continuemos, porque é exatamente agora que vem a parte mais interessante: 
"Foi bem instruído na História sacra e profana, a que se aplicou por alívio da sua surdez. Nas humanidades foi eminente, e na poesia latina transcendeu a todos os do seu tempo, e ainda até hoje sem igual."
Ah, senhores leitores, ocorre aqui algo realmente inusitado: um novo tratamento para a surdez!!! 
Sim, sim, sim, a intenção provável  de Taques era sugerir que o estudo da História trazia algum conforto mental ao pobre surdo, mas não deixa de haver uma certa graça na ideia, não é mesmo?

(1) Era, de acordo com Pedro Taques, nascido em Itu, filho de Isabel de Campos (nascida em Santana de Parnaíba a 11 de dezembro de 1661) e de Manuel Ferraz de Araújo, português nascido no Porto.
(2) A expressão "tomar a roupeta" significava tornar-se jesuíta.


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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Escravos que usavam sapatos

Escravos podiam, no Brasil, ter um profissão específica - já tratei desse assunto aqui no blog. O que vou mostrar, hoje, é que esse costume era muito antigo, não se restringindo apenas aos dias do Império, quando a escravidão, afinal de contas, já declinava.
Pedro Taques de Almeida Paes Leme escreveu a sua Nobiliarchia Paulistana no Século XVIII. Tratando de um sujeito por nome João Pires das Neves, falecido em São Paulo no ano de 1720, informou:
"João Pires das Neves foi nobre cidadão de São Paulo, muito abastado e com grande tratamento. A sua fazenda era um como arraial, pelas casas que tinha, com numerosa escravatura de pretos e mulatos, e estes oficiais de artes fabris e mecânicas, os quais trajavam calçados."
Se tivermos paciência para dissecar esse trechinho, poderemos chegar a algumas constatações interessantes.
Em fins do Século XVII e início do XVIII a escravidão era usual na Capitania de São Vicente, imperando a escravidão de índios, não de negros e mulatos. Temos, portanto, um caso que fugia à regra, uma vez que os escravos de João Pires das Neves, de acordo com Pedro Taques, eram "pretos e mulatos". Para isso era preciso que fosse muito rico, já que a carência de moeda corrente em São Paulo é que, ao menos em parte, levava os colonizadores à escravização de índios, na impossibilidade de comprar africanos.
Acrescenta a Nobiliarchia que os escravos de João Pires eram "oficiais de artes fabris e mecânicas". Para manter cativos especializados em dedicação exclusiva a certas tarefas, devia haver muito trabalho para eles o tempo todo, o que nos leva a conjecturar se não atenderiam a serviços de terceiros, sendo a renda em proveito do ilustre fazendeiro. É certo que não se pode afirmar tal coisa, mas também seria imprudência descartar completamente a possibilidade, uma vez que há registros, ainda que não muito numerosos, de gente que mantinha oficinas nas quais escravos eram os "funcionários".
Finalmente, há o detalhe de que os escravos "trajavam calçados". Pedro Taques não mencionaria este pormenor não fora o fato de que era absolutamente incomum. No Brasil, o costume era que escravos andassem descalços, a fim de evidenciar diante da sociedade a sua condição servil. É bom recordar: o costume não foi inventado na Colônia. Vinha dos antigos romanos, que assim o faziam porque, de outro modo, poderia ser difícil, à primeira vista, distinguir um homem livre de um escravo. Afinal, em Roma não havia a possibilidade, com raríssimas exceções, de estigmatizar escravos com base na cor da pele. Além disso, muitos escravos tinham origem social elevada (gregos, por exemplo, derrotados em combate) e eram ocupados na educação de jovens patrícios romanos. A ausência de calçados era, então, a marca da perda da liberdade.
Por tudo isso, pode-se dizer, em conclusão, que, de fato, João Pires das Neves e seus escravos deviam ser, senão um espanto, ao menos um componente algo incomum na pequena São Paulo de seus dias.


*****

Debret também retratou uma dessas exceções, em que, aos escravos, permitia-se o uso de sapatos. É o que se vê nesta cena de casamento de escravos de uma família rica (*) no Século XIX. Nela, as personagens não só usam roupas apropriadas para uma ocasião especial como exibem, nos pés, os calçados que sua condição servil habitualmente proibia.


(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, vol. 3, Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tragédia no carnaval

Um crime duplo que abalou São Paulo no Século XVII


Podem estar certos os leitores que o episódio de hoje não foi extraído de nenhum jornal sensacionalista da atualidade - mas bem poderia figurar em algum, não fora o fato de ter ocorrido no Século XVII. Como verão, é história das mais escabrosas, contada por Pedro Taques de Almeida Paes Leme em sua Nobiliarchia Paulistana.
Alberto Pires, casado com Leonor de Camargo, foi-se a celebrar o "entrudo", o carnaval daqueles tempos. Diz Pedro Taques:
"Foi Alberto Pires extremosamente amante de sua mulher, em um dos dias de carnes tolendas, como chamam em Castela, e de entrudo no Brasil, quando Alberto Pires, em brinquedos dos que o inveterado costume destes dias introduziu, sem desculpa na maior parte dos reinos da Europa, sucedeu receber Leonor de Camargo Cabral, do próprio marido, uma limitada pancada [sic!!!] na fonte da parte esquerda, e caiu no mesmo instante morta. Esta casualidade não teve testemunhas de vista, que acreditassem a inocência do sucesso, para ficar o marido livre da suspeita de homicida." 
Bem avisei ao leitores que a história era cabeluda. Do modo como narrou Taques, dá-se a entender que a desdita ocorreu por acidente. Mas não para por aí...
O próprio Pedro Taques reconhecia não ter melhores testemunhos sobre o caso senão os depoimentos de idosos que se lembravam do acontecido. Diz, no entanto, que era corrente em  São Paulo que, desesperado com a morte da mulher, Alberto Pires teve a ideia sinistra de "armar uma cena" para inocentar-se do crime. Convidou parentes para celebrar o entrudo em sua casa e, estando um seu cunhado já perto, matou-o e colocou o corpo ao lado do de D. Leonor de Camargo. Em seguida, reuniu a família e alegou ter surpreendido a esposa e o cunhado em flagrante adultério. Em "defesa da honra", teria matado a ambos. 
Qual foi a reação dos circunstantes a tamanha lorota? Conta Pedro Taques:
"Mandou logo chamar aos seus parentes a toda pressa e aceleração, e acudindo muitos, a estes publicou que, em desagravo da sua honra, matara os adúlteros que lhe ofendiam a pureza do tálamo sacramental, cujos corpos estavam no mesmo lugar onde tinham cometido a torpeza. Sem proceder o mais mínimo acordo de reflexão se arrebataram os ânimos enfurecidos dos parentes do agressor Alberto Pires, que lhe aplaudiram a insolência como ação briosa, com que lavara a mancha da sua desonra no próprio sangue daqueles adúlteros."
Não se escandalizem os leitores com os costumes que vigoravam naqueles tempos; nós seguimos adiante, já que o caso está longe de terminar. Havia também o outro lado, o partido dos que haviam morrido... Continua Pedro Taques:
"Então os irmãos dos mortos, em numeroso corpo de armas (cada partido solicitava o despique pela dor que lhe ocupava) procuraram também lavar a ofensa de sua mágoa no mesmo sangue do autor dela, tirando-se-lhe a vida a ferro frio."
É possível imaginar o ambiente na pequena São Paulo de fins do Século XVII diante desses acontecimentos? Alberto Pires, que assassinara a mulher e o cunhado, fugiu e ocultou-se em casa de sua mãe, Dona Inês Monteiro, uma fazendeira rica e influente. Ainda assim os que lhe desejavam a morte foram à fazenda pelas horas da noite, ameaçando incendiar a casa e demais instalações se o criminoso não lhes fosse entregue. Por respeito às palavras veementes de Dona Inês, acabaram desistindo (momentaneamente) de que a justiça se fizesse ali mesmo. Alberto Pires foi preso e depois levado a Santos, de onde, por mar, devia seguir para o Rio de Janeiro, e dali para a Bahia, diante de cujo tribunal responderia por seus atos.
A poderosa mãe-fazendeira seguiu por terra, imaginando manobrar pela libertação do filho, conforme registrou Pedro Taques:
"D. Inês Monteiro, logo que de São Paulo descera para a vila de Santos o desgraçado filho, se pôs em marcha por terra a demandar a vila de Paraty, e passar-se à cidade do Rio de Janeiro (onde por parte de seu pai tinha parentes da família de Alvarengas de avultado merecimento), com firmes esperanças de libertar seu filho à custa de toda despesa de dinheiro."
Apenas uma rápida observação - estão notando os leitores as práticas da época para obstar a ação da Justiça? Então, respirem fundo, que já nos avizinhamos ao desfecho.
Os tremendos esforços de Dona Inês Monteiro foram completamente frustrados. A pequena embarcação que levava Alberto Pires enfrentou contratempos no mar e, em lugar de ir diretamente ao Rio de Janeiro, aportou na Ilha Grande. Logo a notícia da chegada de Dona Inês Monteiro ao Rio foi dada aos vingadores (e vingativos) parentes ofendidos, que não perderam a ocasião que se lhes ofereceu no momento em que o réu saía da Ilha Grande com destino ao Rio de Janeiro, já que, alcançando-o, "lhe puseram ao pescoço uma grande pedra e o lançaram vivo ao mar, em cujas águas teve o seu sepulcro, e para logo fizeram com que a embarcação tomasse o rumo para a vila de Santos, o que executou o mestre da sumaca, ou porque o temor o venceu, ou o dinheiro o obrigou." 
Pedro Taques, conquanto admitisse ter dúvidas quanto a detalhes do sucedido, tinha a virtude de não economizar palavras quando se tratava de contar as velhacarias que sabia terem ocorrido em sua amada São Paulo, até porque acontecimentos da mesma estirpe não eram raros no Brasil de séculos atrás.
É isso, por hoje, senhores leitores. Têm aqui o ponto final.


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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

"Clérigos revoltosos e travessos"

"...Se nos lugares de sua Comarca houver alguns clérigos revoltosos e travessos, diziam as Ordenações do Reino (*), o fará notificar aos prelados, para que os castiguem; e não o querendo eles fazer, no-lo fará saber, para nisso provermos como nos bem e justiça parecer."
Pois bem, meus leitores, houve no Século XVIII um religioso franciscano de nome Francisco Tavares Cabral que, segundo a Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme, cansou-se da vida na clausura, de modo que, fugindo do Rio de Janeiro, foi aventurar-se em Vila Boa de Goiás, onde, de antemão, já se encontravam suas irmãs. Deve ter imaginado que, tão longe, sertão adentro, ninguém iria trazer-lhe incômodos.
Sucede, porém, que o infeliz teve de defrontar-se com o sargento-mor Antônio Ribeiro Leal, um sujeito que, levando as Ordenações muito a sério, prendeu o frade fujão e o remeteu, acorrentado, ao Superior de sua Ordem no Rio de Janeiro. Lá foi simplesmente trancafiado na prisão da qual, para isso, dispunham os franciscanos. Sigo com a narrativa de Pedro Taques:
"Com o decurso dos anos se consumou a pena do castigo, e foi posto em liberdade fora dos cárceres em que se tinha conservado, quando já o culpado réu a não pôde gozar com sossego de espírito, porque refletindo nos erros da vida passada caiu na infelicidade de ficar leso do discurso, e vive como pateta possuído de um temor pânico, que lhe tem introduzido a maior humildade que se pode considerar; contudo segue os atos de religião, sem liberdade para sair à rua acompanhando a qualquer outro religioso. Altos são os juízos de Deus!"
Calma, nada de condenar Pedro Taques a apedrejamento. Era ele apenas um homem de seu tempo e, portanto, considerava o ingresso em uma ordem religiosa como uma obrigação vitalícia, uma vez assumida. Nessa lógica, agia dentro da legislação o Superior que, aprisionando o fugitivo, seria, pelos padrões de nossos dias, o responsável, em maior ou menor grau, por conduzi-lo à insanidade.
Tempos infelizes, aqueles. Muitos jovens acabavam por ingressar na vida religiosa sem que para isso tivessem a menor vocação. Faziam-no por imposição dos pais, ou, talvez, pelo desejo de prosseguir os estudos que, como simples leigos, não poderiam obter. Pior ainda era a situação de muitas moças que, contra a própria vontade, eram condenadas a uma existência desgraçada, longe de familiares ou amigos, dentro de conventos ou "recolhimentos", submetidas a uma infindável rotina de jejuns e penitências, sob o medo contínuo das penas do inferno. Para elas, sequer havia a justificativa dos estudos que, como regra geral, nunca eram estendidos às mulheres.
Depois disto, venham os leitores mais jovens deste blog queixar-se de que lhes falta, hoje, liberdade!

(*) Ordenações do Reino, Livro Primeiro, Título LVIII, § 18, de acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.


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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Terríveis paulistas (como quase todos os demais colonizadores)


Acampamento de bandeirantes (¹)

Entre autores dos séculos XVII e XVIII não são raras referências nada elogiosas à conduta dos paulistas; já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou:
"Os paulistas de hoje passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (²)
Perguntará alguém dentre os leitores: Até que ponto essa observação era procedente? Para dar resposta à questão, vejamos, primeiro uma pequena lista, na qual todos os itens são provenientes da Nobiliarchia Paulistana, obra de genealogias escrita no Século XVIII, com evidente finalidade de exaltar os feitos dos paulistas:

1. Era comum que os patriarcas de Piratininga e adjacências tivessem muitos índios escravizados, centenas deles, a despeito dos protestos dos jesuítas envolvidos na catequese da população ameríndia; quando um sujeito tinha muitos desses índios escravizados, afirmava-se que era um "potentado em arcos"... O mais curioso é que os pobres escravizados eram, eufemística e legalmente, chamados "administrados", nunca "escravos", como de fato acontecia. Pior ainda, dizia-se que os índios eram "extraídos do sertão para o grêmio da Igreja".

2. Na busca por indígenas para a escravização, paulistas logo descobriram que era "bom negócio" atacar as missões e/ou reduções, já que nelas, aos cuidados dos padres, os índios viviam desarmados e, além disso, aprendiam ofícios mecânicos, fato que contribuía para torná-los mais valiosos para a venda.

3. Dinheiro amoedado era raro na Capitania de São Vicente, por sua distância da Europa e pequeno comércio direto com a Metrópole lusitana, de modo que o fenômeno da falsificação de moedas não era, em absoluto, desconhecido, a despeito das severíssimas leis previstas nas Ordenações do Reino para esse crime. Em carta à Câmara Municipal de São Paulo, datada de 1709, dizia El-Rei:
"E porque o mesmo Pedro Taques me representou a grande perturbação que causou nesse povo as moedas falsas que se acharam nessa capitania, vos ordeno que neste particular procedais com aquela diligência e cuidado que pede matéria tão importante." (³)

4. Não era incomum em São Paulo que houvesse homem obrigado a casar-se, usando a linguagem da época, "à força das armas" - os senhores leitores devem imaginar a causa. Outro eufemismo corrente era "casou por força de consciência".

5. Levantes e rebeliões também não eram incomuns. Enquadra-se aqui, por exemplo, a chamada "Aclamação de Amador Bueno", ocasião em que parentes desse rico fazendeiro pretenderam fazê-lo, nem mais e nem menos, que o rei de São Paulo! A coisa só não prosseguiu porque Amador Bueno teve juízo suficiente para rejeitar o posto que lhe queriam conferir.

6. A querela entre as famílias Pires e Camargo provocou arruaças e assassinatos por anos a fio nas ruas de São Paulo.

7. Os testamentos de paulistas estavam repletos de referências a filhos "bastardos mamelucos" e/ou "filhos naturais" (essa expressão é ótima - como seriam filhos artificiais?!!!), ou seja, nascidos fora do casamento reconhecido pela Igreja.

8. O rapto de mulheres também não era desconhecido na povoação; a poligamia seguia pelo mesmo caminho.

9. Há relatos de envenenamentos, bem como de apropriação indébita de herança que pertencia a parente(s).

10. Finalmente (como a lista já está muito longa), vale recordar que, tão afeiçoados eram os paulistas em escravizar índios que, a despeito de se considerarem bons católicos, não tiveram escrúpulos em promover a expulsão dos jesuítas em 1640, de tal forma que aos padres somente foi permitido o retorno após longa negociação.

Que dizer de tudo isso?
Antes de mais nada, é bom lembrar que feitos igualmente meritórios podem ser encontrados em quase todas as povoações de alguma importância existentes no Brasil daqueles dias. No caso dos paulistas, o isolamento em que viviam talvez explique, ao menos em parte, muitas das infrações. Ilhados no interior da Colônia, estavam livres para aprontar, como bem entendessem, com quase nenhuma restrição. O governo estabelecido por Portugal estava longe e, nessas condições, obedecer era mais uma opção do que uma obrigação.
Ora, vez por outra, o próprio governo precisava deles e, assim tinha que negociar. Amostra disso foi o que ocorreu quando se necessitou, desesperadamente, de gente disposta a lutar contra os holandeses no Nordeste. Solução? Proclamou-se anistia completa aos paulistas que houvessem cometido quaisquer atrocidades em suas andanças pelo sertão no apresamento de índios, desde que se alistassem para combater "o holandês". Preocupada em desmantelar Palmares, a administração lusa não hesitou em contratar os serviços de experientes bandeirantes que seguiam Domingos Jorge Velho. Estando "tão exausta" a Real Fazenda, foi aos sertanistas de São Paulo que recorreu o monarca português, incitando-os à procura de ouro, enquanto acenava com honrarias, em caso de sucesso.
Sedentos de glória e riqueza, paulistas arriscaram os bens e a vida à cata de metal precioso. Uns poucos lucraram bastante com a aventura. A maioria, anonimamente, saiu-se muito mal. Enquanto isso, graças aos avanços desses tipos descalços, famintos e maltrapilhos pelo interior da América do Sul, a Linha de Tordesilhas ia para o espaço e o mapa do Brasil tomava contornos algo parecidos aos que tem atualmente.
Não vale a pena generalizar. Devia haver gente excelente em São Paulo, mesmo nos difíceis dias da povoação de Piratininga. A maioria, no entanto, como ocorria com os mais colonos Brasil afora, era mesmo do arco da velha.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.


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