domingo, 30 de setembro de 2012

Gente de Má Fama

"Os paulistas de hoje", escreveu o Padre Ayres de Casal no início do século XIX, "passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (¹) O que é que fazia o padre escritor ter deles opinião tão desfavorável?
A resposta vem com facilidade: era guiada pelo estigma de que paulistas eram a mesma coisa que bandeirantes, e estes, tidos como pouco melhores que demônios, principalmente por parte dos religiosos, que muito tempo depois ainda não esqueciam o desaforo de terem os jesuítas sido expulsos de São Paulo em 1640, quando o confronto entre padres e colonizadores, a respeito da escravização de índios, chegou ao auge.
Já o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire parecia ver as coisas de outro modo, com seu olhar de estrangeiro, (ao menos para esse propósito)  algo mais imparcial, ainda que contemporâneo de Ayres de Casal:
Monumento que, em Santana de Parnaíba, homenageia os
bandeirantes que expandiram os limites do território brasileiro (³)
"Sem nenhuma razão têm sido considerados como um vil ajuntamento de bandidos os primeiros habitantes da referida colônia, quando é certo que entre os companheiros de Martim Afonso contavam-se fidalgos de Portugal e da ilha da Madeira; todos, entretanto, deveriam, naturalmente, participar assim de vícios como das brilhantes qualidades dos homens de sua época; eram o que foram pelos meados do século XVI os outros portugueses. A uma fé ardente, mas pouco esclarecida, a uma generosidade levada à imprevidência, juntavam um espírito empreendedor e aventureiro, uma grande intrepidez, muito orgulho, o amor da glória, o desejo de adquirir riquezas para dispensá-las e brilhar, e sobretudo, uma rudeza de costumes contra a qual lutava, em vão, a inefável doçura do Cristianismo. Nenhum povo europeu era, na mesma época, isento dessa rudeza, e, se os paulistas a conservaram por tempo mais dilatado, foi devido à circunstância de se entreterem, continuadamente, com gigantescas incursões pelos sertões e com as constantes caçadas que organizavam contra os selvagens durante muitíssimos anos." (²)
Lembremo-nos, porém, que nem Ayres de Casal e nem Saint-Hilaire viveram no tempo dos bandeirantes. Suas opiniões eram fruto de analisar o que tinham ouvido ou lido a respeito. Talvez suas ideias fossem influenciadas pelos paulistas com que tinham alguma convivência, o que poderia ser matéria para outras considerações, além dos limites desta postagem.
Contrastes desconcertantes norteavam, no entanto, a vida desses paulistas-bandeirantes: iam ao sertão para apresar índios, levando como companheiros de "caçada" e mestres nas trilhas e nas manhas das selvas outros índios que já haviam escravizado; enfrentavam sem nenhum respeito os religiosos que tentavam, frequentemente em vão, defender os nativos que, nas reduções, eram catecúmenos, mas não raro levavam consigo, mato adentro, religiosos como capelães, e eram particularmente zelosos em fazer disposições quanto a serem sepultados no interior de igrejas, provendo ainda os recursos que assegurariam a contínua celebração de missas em favor de suas almas. Odiados como bandos de verdadeiras feras selvagens em forma humana, acabaram transformados em heróis que fizeram do território brasileiro o gigante de hoje, muito além da linha de Tordesilhas, independente de onde se considerasse que ela devia passar. Em suma, eram humanos, e quanto a serem vilões ou heróis, é uma questão que depende da perspectiva.
 
(1) CASAL, Manuel Ayres de Corografia Brasílica, vol. 1
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 140
(3) A escultura em bronze é obra de Murilo Sá Toledo.


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