domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre a Aclamação de Amador Bueno e a Interpretação de Documentos Históricos

Introdução

Os leitores que frequentam as publicações relacionadas ao passado da humanidade sabem, é certo, que já houve tempo em que se supunha que escrever a História era muito semelhante a redigir biografias mais ou menos encomiásticas, quase sempre sob encomenda, quer de governos, quer mesmo dos próprios biografados ou seus parentes. A oscilação do pêndulo da moda levou, entretanto, a historiografia para extremo oposto: nada era fruto da ação individual, o que valia era a iniciativa das massas...
Ora, sejamos razoáveis, cabe muito bem neste caso a expressão "nem tanto ao mar, nem tanto à terra". Se é verdade que, na maioria das ocasiões, ninguém pode fazer quase nada grande e importante sozinho, também é fato inegável que há lideranças que habilidosamente são capazes de conduzir multidões, e isso por razões profundas, que têm muito a ver com nossas origens e formação enquanto seres humanos. Vale a regra tanto para bons quanto para maus propósitos, e nem é preciso ir longe no tempo para encontrar exemplos - o século XX está repleto deles.
Além disso, apreende-se facilmente, mediante simples observação, que a média dos seres humanos não é apenas constituída de defeitos, muito menos um repositório imaculado de virtudes. Se, vez por outra, alguém é descrito segundo um ou outro extremo, o defeito está mais em quem descreve do que na personagem em si.
 
Análise Documental

Amador Bueno é lembrado, pelos estudantes brasileiros, como o homem que recusou a "aclamação" como rei, que seus contemporâneos intentaram, ao chegar a São Paulo a notícia do fim da chamada União Ibérica (1580 - 1640). Há, sobre o episódio, a notícia dada por Pedro Taques de Almeida Paes Leme (*) que, no século XVIII, escreveu a Nobiliarchia Paulistana, na qual se lê:
"Foi Amador Bueno vassalo de tanta honra e fidelidade, que, achando-se na sua maior opulência de cabedais, respeito e estimação, com dois genros castelhanos (**), ambos irmãos e fidalgos ambos, que tinham poderoso séquito dos espanhóis, casados e estabelecidos em São Paulo, com aliança das famílias mais principais da capitania; não podendo estes castelhanos suportar a gloriosa e feliz aclamação do Senhor rei Dom João IV de Portugal, e segundo do nome entre os sereníssimos duques de Bragança, formaram um corpo tumultuoso, e a vozes aclamaram por seu rei a Amador Bueno, intentando vencer com este bárbaro e sacrílego atentado a constância do honrado vassalo Amador Bueno, para deste modo evitarem a obediência e o reconhecimento que se devia dar ao legítimo rei e natural senhor, ficando São Paulo com a voz de Castela (...). Tinha o corpo da rebelião adquirido forças nos autores dela, os castelhanos, que por si e suas famílias avultavam em grande número. (...) Porém Amador Bueno, sem temer o perigo nem deixar prender-se da indiscreta lisonja, com que lhe ofereciam o título de rei para o governo dos povos da capitania de São Paulo, sua pátria, soube desprezar, e ao mesmo tempo repreender a insolente aclamação, desembainhando a espada e gritando a vozes: Real, real, por D. João IV, rei de Portugal.
Salvou a vida do perigo em que se viu pelo corpo desta horrorosa sedição, recolhendo-se ao sagrado do mosteiro de São Bento, acompanhado dos leais portugueses europeus e paulistas, até ficar em sossego o inquieto ânimo dos castelhanos que tinham fomentado o tumulto."
Já se vê, de início, que a finalidade do trecho acima citado é exaltar a figura de Amador Bueno; expressões como "vassalo de tanta honra e fidelidade", "opulência de cabedais, respeito e estimação" ou "sem temer o perigo nem deixar prender-se da indiscreta lisonja" dão conta disso. Nesse retrato do herói, tido como modelo de virtudes cívicas, mais se diz pelo que não está escrito (mas subentende-se), do que pelo que se explicita.
Pois bem, é fato que São Paulo, em meados do século XVII, tinha, entre seus habitantes, um número considerável de espanhóis e/ou seus descendentes, que ficaram algo insatisfeitos quando informados da restauração da monarquia portuguesa; é também verdade que as péssimas comunicações, na época, faziam pairar dúvidas quanto à veracidade de fatos ocorridos a enormes distâncias; não se discute que a então pequena vila vivia sofrendo agitações e revoltas, algumas por motivos até bem fúteis; é, além do mais, muito claro que, face a tais incertezas, era sábio manter uma prudente neutralidade, até que os rumos dos acontecimentos não permitissem equívocos.
Portanto, se Amador Bueno manifestou, por um lado, lealdade à Coroa Portuguesa, por outro livrou-se de grave encrenca, coisa inevitável caso houvesse aceitado a tal "aclamação". Pedro Taques diz que correu ele perigo por não aceitá-la, por isso refugiou-se no mosteiro de São Bento, mas é certo que muito maior perigo teria corrido sua preciosa cabeça se tivesse ousado meter-se a rei, ainda que em caráter temporário, até que as coisas ficassem mais claras. E há, ainda, a questão de que, mesmo estando a cidade em rebuliço, é pouco provável que sofresse, seriamente, ameaça à vida, em uma revoltazinha liderada por seus próprios genros (**), visto que, na época, era usual um severo respeito para com pais e sogros, como mais velhos e, no patriarcalismo, como detentores de autoridade, formal ou informal. Atentar contra o sogro era considerado parricídio. Percebe-se, assim, que é bastante provável que tenha se refugiado entre o beneditinos para evitar a coroação, não para escapar à fúria dos rebeldes.

Conclusão

Quem lê um documento histórico precisa estar sempre de olhos muito abertos para o fato de que o escritor original tinha seus motivos para escrever do modo pelo qual o fez, motivos esses que podiam bem significar uma visão muito particular dos acontecimentos, que cabe a quem interpreta, decifrar.
 
 
(*) Nascido em 1714. Há alguma divergência quanto à data e circunstâncias do falecimento.
(**) Os genros de Amador Bueno citados eram Dom João Matheus Rendon e Dom Francisco Matheus Rendon de Quevedo, casados, respectivamente, com Dona Maria Bueno de Ribeira e Dona Ana de Ribeira, filhas nascidas do casamento de Amador Bueno com Dona Bernarda Luiz.


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