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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O preço de um cavalo nas minas do Brasil Colonial

Cavalos eram imprescindíveis no Século XVIII, quer como meio de transporte nas cidades e vilas, quer como auxiliares no trabalho agrícola. E, se era assim na vida rotineira da época, não haveria razão para que coisa diferente acontecesse nas minas que, em consequência da procura insaciável por ouro, faziam nascer povoações muito populosas em um piscar de olhos.
Contudo, cavalos não são nativos da América, e, portanto, não era possível sair simplesmente a capturá-los em meio à mataria das Gerais. Era preciso trazê-los de longe - do Nordeste açucareiro, de São Paulo, do Rio de Janeiro, ou até de pontos ainda mais distantes - e os animais que resistiam aos meses de viagem, às doenças e à má alimentação eram vendidos por preços tão altos que fariam os Andes e o Himalaia parecerem insignificantes.
Na célebre obra de Antonil (¹), Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, publicada em 1711, encontra-se esta afirmação, relativa aos preços dos cavalos:
"Por um cavalo sendeiro, cem oitavas.
Por um cavalo andador, duas libras de ouro." (²)
Sim, os pagamentos se faziam em ouro, porque este havia em abundância, enquanto quase tudo o mais escasseava.
Vejamos, leitores, em que esses preços resultavam. Uma oitava corresponde a 3,58 gramas; portanto, um cavalo sendeiro sairia a 358 gramas. Uma libra corresponde a 0,453 gramas, o que nos leva à conclusão de que um cavalo andador custaria nada menos que 0,906 gramas de ouro. Uma simples verificação da cotação do ouro permitirá alguma referência quanto ao preço desses animais.
Os lucros mirabolantes obtidos pelos que faziam comércio nas Minas cooperou, de acordo com André João Antonil,  não só para a decadência das regiões açucareiras, como para a elevação geral dos preços no Brasil: "E estes preços tão altos, e tão correntes nas Minas", escreveu ele, "foram causa de subirem tanto os preços  de todas as coisas, como se experimenta nos portos das cidades e vilas do Brasil, e de ficarem desfavorecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias, e de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos, por se levarem quase todos, aonde vendidos hão de dar maior lucro" (³). Cabe apenas dizer que as "peças" a que Antonil fez referência eram os escravos, mão de obra nos engenhos coloniais e nas minas. Os preços deles, também, se elevaram, e muito.

(1) Entende-se que André João Antonil foi pseudônimo adotado pelo jesuíta italiano Giovanni Antonio Andreoni para a publicação de Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 142.
(3) Ibid., pp. 142 e 143.


terça-feira, 21 de agosto de 2018

À procura do ouro

Ainda está escuro, mas os três já vão longe do povoado que se espalha em desalinho pelos morros. Nada de levar escravos, algum deles poderia muito bem dar com a língua nos dentes. Horas depois, param, enxugam o suor, olham em volta.
- É aqui?
- Parece...
Nem se lembram do magro lanche que trouxeram. O som das picaretas batendo contra o solo rude atravessa a vastidão do cerrado. O marulho da água do córrego não ajuda muito a abafar o ruído. Uma nuvem de pó os envolve. Procuram ouro, todo mundo procura, poucos encontram, e menos ainda são os que informam seus achados à administração colonial. 
Suados, a respiração arfante, só interrompem a busca para refrescar a garganta, que se ressente da poeira. Enquanto dois trabalham no desmonte da terra, o terceiro vai fazendo as provas. 
- Nada, ainda?
- Nada que compense. 
Voltam ao trabalho. 
- Parece que tem coisa aqui!... É, aqui!
Não têm tempo para entusiasmo: à distância, ouve-se o ganido de um cão. Os olhares se cruzam, assim, desconfiados, como quem suspeita da própria sombra. Quem vem lá?
Os latidos se aproximam. Atrás, um grupo caminha sem pressa. Talvez estejam caçando. Ou...
Os três homens recolhem as ferramentas e se esgueiram rente ao capinzal, a respiração entrecortada de medo e cansaço. Colado ao chão, um deles corre os dedos nervosamente pelo cabo da faca presa à cintura.
Os passos estão cada vez mais próximos. O ziguezague do cãozinho que, à frente, fareja o ar com insistência, mostra que estão chegando. Junto ao córrego, param para beber. Quase sem conversa, retomam a marcha e vão sumindo, sumindo. Parecem não dar muita importância às pedras e terra revolvidas. Por toda parte, mineradores esgravatam o terreno. Não há nada a temer. Quem iria ter a ideia de policiar um lugar desses? Logo não podem mais ser vistos. Ficam só a mataria retorcida e o sol que sobe causticante. 
Lentamente, o trio se levanta e volta a revirar a terra. 
- Quilombolas?!
Com o arco das sobrancelhas, um deles diz que sim. 
Denunciá-los? Nem pensar. Seria entregar o ouro. Jamais a expressão fez tanto sentido.


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terça-feira, 13 de junho de 2017

A descoberta de jazidas auríferas não enriqueceu os bandeirantes paulistas

Casa do ciclo bandeirante em Santana de Parnaíba (SP), localidade em que nasceu
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera

Pode parecer absurdo, mas é fato: bandeirantes paulistas, como regra geral, não enriqueceram com a descoberta de jazidas auríferas, e tampouco deixaram herança considerável para seus descendentes. Escrevendo em fins do Século XVIII (portanto, mais ou menos cem anos após os primeiros achados significativos), o astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida observou que os bandeirantes, “entranhando-se por aqueles imensos sertões sem outra bagagem mais que a pólvora e a bala, sem outro rumo mais que o do acaso, [descobriram] neles todas as minas de ouro e pedrarias que possuímos, e que tanto têm enriquecido aos seus posteriores, ficando eles e seus descendentes pobres". (¹)
Os paulistas descobridores de minas não recebiam qualquer ajuda da Coroa para seus empreendimentos; ao contrário, muitos deles consumiam o patrimônio em tentativas de atender às solicitações reais, cuja Real Fazenda se achava sempre em má situação. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, assinalou que "Fernão Dias Paes não teve um só real de ajuda de custo, como do mesmo modo não tiveram os mais paulistas descobridores das Minas Gerais, do Cuiabá e dos Goiases [...]." Esse fato, aliado às magras recompensas que recebiam pelos serviços prestados (²), explica, em parte, a razão pela qual os descobridores de ouro e pedras preciosas não se tornaram economicamente poderosos. Alguns chegaram a ter prejuízo considerável.
É possível, leitores, que o maior ícone bandeirante na procura do ouro seja Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, descobridor das minas de Goiás na primeira metade do Século XVIII. Pois bem, o brigadeiro Cunha Matos, que esteve em Goiás pouco depois da Independência (³), teve ocasião de encontrar descendentes do famoso explorador - um rapaz de quatorze anos e duas moças, uma com dezenove e outra com vinte e cinco anos - vivendo, os três, em uma modesta casinha nas proximidades do rio Corumbá. Sobre as moças, observou:
"Apareceram-me pobre mas decentemente vestidas, e ainda que mui acanhadas, inculcam nobreza de alma, sobretudo na resignação com que suportam a quase indigência em que se acham. Assim vivem os descendentes do ramo principal dos Anhangueras! [...] Assim vivem, faltas de todas as comodidades, as bisnetas do célebre Bartolomeu Bueno, conquistador e povoador de Goiás, que regurgitando em ouro, morreu em miséria, e cuja consorte foi obrigada a vender todas as suas joias e escravos para pagar vinte mil cruzados, que se lhe adiantaram pelo Cofre da Fazenda Real! Sic transit gloria mundi!" (⁴)
E quanto ao menino:
"O irmão é um galante moço sem educação: na sua quase miséria comporta-se como um plebeu honesto, sem, todavia, se esquecer de que é fidalgo, e príncipe dos fidalgos de Goiás." (⁵)
A riqueza do ouro fora passageira, tanto para indivíduos como para as localidades nascidas com a mineração. Aos leitores que se condoeram diante da pobreza da família Bueno, informo que, para remediar a situação, o presidente da Província de Goiás tornou-os administradores da passagem do rio Corumbá; por iniciativa do Brigadeiro Cunha Matos, o jovem Bueno foi admitido como tenente de Caçadores, posto que lhe assegurou um soldo.

(1) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 87.
(2) Quando chegava a haver alguma recompensa.
(3) Cerca de um século após os descobrimentos do Anhanguera.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás, Tomo I. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 114.
(5) Ibid., p. 115.


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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A tragédia de um minerador paulista que foi procurar ouro em Cuiabá

Nos tempos coloniais, a procura de ouro no interior do Brasil era muito arriscada


Monumento ao minerador desconhecido em
Cristalina - GO (fotografia infravermelha)
Os leitores bem sabem o que é que movia muitos paulistas à ida aos sertões desconhecidos nos tempos coloniais: era a fome desesperada por enriquecimento (rápido, de preferência), quer através do apresamento de indígenas para escravização, quer mediante a descoberta de jazidas auríferas. No primeiro caso, os escravizados eram usados, alguns, em terras dos próprios apresadores, enquanto outros eram vendidos para quem queria cativos para o trabalho. Ter muitos escravos significava aumentar as áreas de cultivo, produzir mais e, por conseguinte, ampliar as possibilidades de ganho.
Nada disso, porém, se comparava à riqueza com que a sorte na procura do ouro favorecia alguns felizardos. Fazia-se fortuna em brevíssimo tempo. Poucos, porém, é que alcançavam a sonhada prosperidade. A maioria tinha rendimentos modestos, até porque, nas minas, o custo de vida era absurdo. Literalmente, tudo se comprava a peso de ouro. 
Não foram poucas as pessoas que, mesmo desfrutando em São Paulo de uma posição econômica satisfatória, resolveram arriscar o patrimônio na procura de metais preciosos. Queriam ter mais, muito mais, e acabavam perdendo quase tudo o que tinham. Um desses casos, registrado na Nobiliarchia Paulistana, é o do sargento-mor João Carvalho da Silva, Devia ser um sujeito respeitado em São Paulo, já que, sobre ele, Pedro Taques refere: "ocupou os cargos da sua República (¹), foi sargento-mor do terço de auxiliares, teve as estimações que soube conseguir a sua docilidade e a graduação do seu distinto nascimento. Possuiu os bens da fortuna, sem inveja aos opulentos do seu tempo [...]."
Ao ouvir dizer que em Cuiabá havia muito ouro, deu-lhe na cabeça investir tudo o que tinha para ficar ainda mais rico. Meteu-se em uma das monções e lá se foi, Tietê afora, e outros rios mais, com todos os escravos de que dispunha, supondo que tudo lhe sairia muito bem. 
Mas não foi assim.
A desdita começou ainda antes da chegada às minas, quando canoas com suprimentos foram perdidas nas terríveis cachoeiras que havia na viagem. Conta Pedro Taques:
"[...] Nesta jornada, a mais arriscada pelo precipício das grandes cachoeiras que há nos rios desta navegação, voltou-se a roda a que chamamos da fortuna, e emborcando-se-lhe algumas canoas da sua conduta, lamentou antes de chegar às minas, castigada a resolução que tomara de deixar o estabelecimento da pátria [sic] para passar às minas ainda não estabelecidas no ano de 1721. O golpe foi grande por ser muito avultado o prejuízo."
Não cessaram aí as desgraças. João Carvalho da Silva e os escravos chegaram a Cuiabá em ocasião na qual grassavam as doenças, e não demorou para que muitos dos seus cativos acabassem morrendo. Segue a Nobiliarchia Paulistana:
"[...] Perdeu quase todos os escravos e se impossibilitou para, com o serviço deles, lucrosos tesouros que o conduziram àqueles sertões à custa de tão excessiva despesa, riscos de vida e tolerância das incomodidades, além da contingência dos assaltos dos bárbaros gentios de diversas nações, a cujas forças têm perecido tantas vidas [...]."
Era essa, leitores, a dura realidade das monções cuiabanas, para a maioria dos que nelas se aventuravam. A Pedro Taques ainda ocorreu mencionar que o triste herói dessa história era já viúvo quando se pôs a procurar ouro e que não tinha filhos que pudessem lamentar a herança malbaratada. Acertou, ainda na Antiguidade, o sábio rei dos hebreus, ao considerar que proveito havia na vida daquele que, não tendo descendência, gastava tempo e energia em fadigas para acumular bens: "vanitas est et adflictio pessima..." (²)

(1) Era assim que Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, nomeava a administração pública da cidade de São Paulo.
(2) Ecclesiastes 4, 7-8.


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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Casas de fundição

A descoberta de ouro no Brasil, em fins do Século XVII, levou a administração portuguesa a adotar uma série de medidas para garantir que os Reais Quintos (um imposto de 20%) fossem, de fato, pagos à Coroa lusitana, como determinava a lei. Ora, a obrigação de pagar ao rei o quinto do ouro era bem conhecida, e os mineradores não podiam, de modo algum, supor que não lhes seria exigida.
O Livro Segundo, Título XXXIV, § 4 das Ordenações do Reino determinava: 
"E de todos os metais que se tirarem, depois de fundidos e apurados, nos pagarão o quinto, em salvo de todos os custos." (¹)
Porém, a ordem para o estabelecimento de casas de fundição provocou insatisfação geral, inclusive com a rebelião de 1720 em Vila Rica, conhecida como Revolta de Filipe dos Santos (²).
Ora, que vinha a ser uma "casa de fundição"? 
Era um estabelecimento público onde todos os mineradores deveriam levar todo o ouro encontrado; lá o ouro era obrigatoriamente transformado em barras e "quintado", ou seja, descontavam-se os 20% que eram encaminhados ao Reino. Depois disso, o ouro que sobrava, em barras que levavam o selo real, era devolvido ao dono. Fica entendido que era formalmente proibido na Colônia o transporte e comércio de ouro em pó, mas entre uma coisa proibida e aquilo que de fato acontece vai, às vezes, uma distância muito grande.
Excetuando-se o fato de que a criação de casas de fundição era irritante porque muitos mineradores pretendiam simplesmente sonegar os Reais Quintos, havia, porém, uma queixa justificada contra elas, de que o ouro que era devolvido em barras nunca correspondia aos 80% devidos. Recebia-se sempre menos, e os senhores leitores não terão dificuldade em imaginar o motivo. Funcionários das casas de fundição encontravam meios fáceis de subtrair ouro para si mesmos. Não é estranho, portanto, que a ordem para o estabelecimento de casas de fundição fosse vista com tanta antipatia, de modo que levou tempo para que finalmente fossem criadas e postas em pleno funcionamento. A despeito delas, ou quem sabe por causa delas, o contrabando de ouro era brutal. Autores da época afirmavam que muito mais era o ouro dos "descaminhos" que aquele que era transformado em barras e quintado.

*****

A ideia de fundir o ouro para entesourá-lo é muito antiga. De acordo com Heródoto, os monarcas da Pérsia já adotavam a prática:
"O monarca persa, para guardar as riquezas no tesouro, costuma colocar ouro e prata derretidos em formas de barro, até que estejam completamente preenchidas e, quando o metal endurece, as formas são retiradas. Assim, sempre que precisa de dinheiro, as peças de ouro e prata vão sendo cortadas." (³)
Os leitores percebem que, na ocasião em que o método descrito por Heródoto era empregado, o uso de um padrão monetário que poderia ser chamado de moeda ainda não estava em uso entre os persas, ao menos para as grandes quantidades de metais preciosos de que o monarca costumava dispor.

(1) De acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
(2) Filipe dos Santos, minerador português que liderou a revolta de 1720, foi preso e executado, com requintes de crueldade - tudo plenamente de acordo com a legislação da época.
(3) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Quem ia procurar ouro nas Minas?

A população que vivia nas regiões mineradoras do Brasil Colonial


A notícia de que se achara ouro no Brasil - não no litoral, ou perto dele, mas no interior - espalhou-se rapidamente. O Século XVII ia chegando ao fim e a situação da tesouraria real em Lisboa não era das melhores (grande novidade...). O próprio rei assumia esse fato, em carta a seus leais vassalos no Brasil, nas quais mandava procurar ouro, por estar "exausta a sua fazenda". Acenava com honrarias, já que outra coisa não poderia ser.
As leis sobre o direito de exploração das minas eram parte das Ordenações do Reino, mas diante da avalanche humana que correu ao interior do Brasil no rumo da miragem do ouro pouco podia uma lei distante que ninguém estava muito interessado em respeitar. Não espanta, pois que, quando finalmente Portugal resolveu tomar as rédeas da mineração, mandando governantes, estabelecendo jurisdições e impondo a criação de casas de fundição que assegurassem a quintagem do metal precioso, pipocassem rebeliões contra a autoridade lusa, como a Revolta de Filipe dos Santos, por exemplo, em 1720.
Vale observar que a Revolta de 1720 não foi, como já se tentou fazer crer, um movimento nativista que precedeu a luta pela Independência. Ao que tudo indica, Filipe dos Santos era português, e chegou a Vila Rica como tantos outros que sonhavam com riqueza. A rebelião aconteceu porque o representante luso, Conde de Assumar, simplesmente procurou impor a disciplina das leis, aliás bastante duras, mas que não eram muito diferentes no resto do mundo daquela época.
O que nos interessa, agora, é saber quem eram as pessoas que acorriam, em multidões, às minas. Temos uma boa descrição em Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, de André João Antonil:
"Cada ano vem nas frotas quantidade de portugueses e estrangeiros para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa." (*)
É fácil perceber que, na ânsia febril de enriquecer, havia gente de toda e qualquer situação arriscando tudo para tentar a sorte nas minas. Até mesmo os religiosos, que se supunha dedicados a propósitos menos ligados à materialidade, estavam dispostos à aventura do ouro, ainda que isso significasse o sacrifício dos votos que haviam feito.
Essa era a gente das minas. Dessa gente se fez a primeira sociedade verdadeiramente urbana do Brasil, ainda que um tanto mutante: no dizer de Antonil, "como os filhos de Israel no deserto". Povoações surgiam, desordenadamente, quase de um dia para outro, aonde se anunciava um terreno promissor; declinavam igualmente rápido os povoados, sempre que as esperanças eram frustradas. Desnecessário é dizer o quão difícil era manter a ordem em tais lugares, nos quais os crimes mais absurdos viravam coisa corriqueira. Ao mesmo tempo, a riqueza arrancada da terra inspirava em gente devota o desejo de expressar, na construção de igrejas, o sentimento de gratidão.
Alguns desses ajuntamentos acabaram persistindo, tornaram-se cidades e vilas importantes, desenvolveram a cultura e a arte, bem como um estilo de vida próprio. Permanecem até hoje, como um testemunho do que a humanidade pode ter de melhor e de pior.

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 136 e 137.


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domingo, 28 de abril de 2013

Consequências ruins da mineração no Brasil Colonial

É notável o fato de que, desde que começaram a colonizar o Brasil, tudo o que portugueses mais desejavam era encontrar jazidas de metais preciosos, de modo a dar alívio à empobrecida Coroa lusitana. O ouro, porém, demorou a aparecer (ou melhor, a ser encontrado). As "minas" trabalhadas desde fins do século XVI até meados do XVII proporcionavam magros resultados. No entanto, quando finalmente jazidas de real importância foram encontradas, as consequências que se apresentaram não foram, em sua totalidade, favoráveis aos colonos.
Uma dessas consequências foi, sem dúvida, uma elevação geral nos preços das mercadorias na Colônia, e não apenas nas regiões mineradoras. Antonil, por exemplo, refere em sua notável obra Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas:
"Mas o ter crescido tanto nestes anos o preço do cobre, ferro e pano e do mais de que necessitam os engenhos, e particularmente o valor dos escravos, que os não querem largar por menos de cem mil réis, valendo antes quarenta, e cinquenta mil réis os melhores, é a principal causa de haver subido tanto  o açúcar [...], depois de descobertas as minas de ouro, que serviram para enriquecer a poucos e para destruir a muitos [...]." (¹)
São Paulo, povoação ainda pequena, na época, sofreu muito com isso: de economia agrícola, tocada à base da mão de obra de indígenas escravizados, viu-se em penúria face à alta nos preços dos gêneros mais indispensáveis. Afinal, tudo o que se produzia destinava-se a abastecer as Minas, nas quais alimentos, vestuário, escravos, eram comprados e vendidos, literalmente, a peso de ouro. Quem iria querer comerciar a preços módicos em qualquer outra localidade? (²)
As migrações em massa constituíram-se em outra pesada consequência: esfomeados por ouro arriscavam tudo, das posses à vida, na esperança de ficarem ricos. Vinha gente do Reino, vinham estrangeiros (ainda que fosse proibido), vinha gente de outros lugares do Brasil. Consequentemente, despovoavam-se as vilas, escasseavam os braços para a lavoura, diminuía a produção agrícola. Mais um elemento, portanto, para elevar os preços dos gêneros de subsistência.
"E para que não fique este Estado do Brasil sem algum exemplo dos muitos em que a soberba e as riquezas têm feito estragos, reparai e notai com atenção. Ide a Pernambuco, passai ao Rio de Janeiro, subi a São Paulo, entrai nesta Cidade (³), correi estas vilas e seus recôncavos: vereis a quantos tem a soberba e os interesses feito notáveis destroços. A uns, arrimar bastões, a outros, largar ginetes, a muitos, encostar bengalas, a alguns, deixar alabardas, e fugirem muitos soldados, despejar engenhos, desamparar fazendas. E se perguntardes a essas ruínas quem lhes causou tão lastimosos estragos, vos responderão em ecos essas arruinadas paredes e medonhas fornalhas dos engenhos que tudo lhes procedeu da soberba e demasiada ambição." (⁴)
Medidas adotadas com o fito de deter os deslocamentos populacionais fracassaram completamente. Como mais tarde escreveria Varnhagen: "Não há diques que valham contra estas ondas de gente, que vão com passaportes ou sem eles, onde o seu melhor-estar os chama." (⁵)
 
(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 95.
(3) Refere-se a Salvador, então chamada Cidade da Bahia.
(4) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 18.
(5) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 894.


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O cavalo que achou um tesouro

Na postagem anterior foi mostrada a dificuldade que havia para se fazer transportar um cavalo até as minas de Cuiabá, no século XVIII, já que o animal devia passar meses viajando em uma canoa, pelo Tietê e outros rios, além de trechos que eram feitos por terra. A arca de Noé devia ser mais confortável aos equinos!
Apesar disso, relata Pedro Taques de Almeida Paes Leme na sua Nobiliarchia Paulistana que Antônio de Almeida Lara tinha, nas minas, excelentes cavalos, o que indicava ser ele um rico minerador.
Sim, era. E, além disso, perdulário, com um estilo de vida muito extravagante. Lembrem-se, senhores leitores, tudo nas minas custava muito caro...
As despesas foram tantas que o tal homem, por tanto gastar, de riquíssimo que era, acabou terrivelmente endividado. Diante disso, foi, a cavalo (fato de muita relevância), tentar a sorte em outra área, conforme conta Pedro Taques:
"Montado em um formoso bruto muito valente, indo de jornada para o novo descobrimento de Mato Grosso, de repente tropeçou o cavalo, e se foi abaixo. Estranhou a novidade o cavaleiro, por ter experiência das forças daquele animal e, sacando-se da sela e examinando em terra a causa da violenta queda, achou um escondido tesouro de ouro bruto; porque o cavalo havia posto o casco de uma mão em cima de uma aguda folheta, que já estava na superfície da terra. Naquele mesmo lugar estava toda a grandeza de folhetas não pequenas, de sorte que ali logo chegaram os escravos, que vinham na marcha, e dentro da tarde daquele dia se extraíram algumas arrobas de ouro, de cujo Batatal (assim se ficou chamando, por serem as suas folhetas semelhantes a este legume (¹)) veio em breve tempo a extrair acima de onze arrobas, todas de folhetas."
E que é que fez Antônio de Almeida Lara, ao ver-se dono de tamanha riqueza?
Continua a narração da Nobiliarchia:
"Recolhido para o Cuiabá e fazenda da Chapada, mandou afixar cartazes em que avisava a todos a quem fosse devedor que viessem ou mandassem receber as quantias de que eram credores."
Talvez alguns dos que leem esta postagem estejam achando nisto tudo um grande exagero. É possível, porque as histórias "boas demais para serem verdadeiras" espalham-se depressa, ganham anexos e logo se transformam em autênticas lendas. Há, no entanto, a favor da veracidade, ao menos do cerne deste caso, alguns argumentos.
Pedro Taques não é o único que menciona o acontecimento. Outros autores também o fazem, e muito provavelmente não tiveram acesso ao manuscrito da Nobiliarchia Paulistana. Além disso, deve-se recordar que, sobre todo o ouro encontrado no Brasil, incidia um imposto de 20% (os "Reais Quintos"). Se alguém fizesse espalhar a lorota de que numa única tarde fora capaz de extrair nada menos que onze arrobas de ouro, o Fisco, absolutamente esfomeado por remeter a Portugal tudo o que fosse possível, cairia sobre tal indivíduo, a exigir-lhe a parte devida, e seria bastante difícil demonstrar que o suposto tesouro simplesmente não existia. Por isso, exageros à parte, o homem deve ter mesmo encontrado uma boa quantidade de metal precioso, até porque acabou a vida honradamente, exercendo cargo importante - foi brigadeiro e juiz na vila de Cuiabá - ainda que nunca tenha se casado, sempre conforme o relato de Pedro Taques:
"Nunca casou, porque estando justo para casar com sua prima D. Leonor, filha de Timóteo Corrêa de Góes, terceiro provedor e contador proprietário da fazenda real, se desvaneceu este intento pela demora que teve no Cuiabá, aonde faleceu."
Neste caso, talvez coubessem bem palavras semelhantes às do "Defunto-Autor" ou "Autor-Defunto", personagem machadiana, ao encerrar as suas célebres Memórias. (²)

(1) Obviamente, Pedro Taques não se prende aqui ao sentido técnico da palavra "legume".
(2) "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)


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quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Caminho Velho das Minas

O "Caminho das Minas", era a rota que conduzia às Gerais os exploradores de ouro que vinham do Rio de Janeiro e, como é óbvio, era por ele, em sentido inverso, que o ouro dos "Reais quintos" saía das minas e seguia para o porto do Rio de Janeiro, de onde se despedia do Brasil, para nunca mais voltar.
O chamado "Caminho Velho" tinha, sob o aspecto da segurança, o grave inconveniente de que o ouro, chegando a Parati, precisava seguir por mar até o Rio de Janeiro, e era justamente neste trecho que a ameaça de um ataque de piratas ou corsários se fazia maior.

Os canhões de Parati (RJ) são uma lembrança dos tempos em que era preciso defender
o ouro das Gerais, que vinha pelo "Caminho Velho", dos eventuais ataques de piratas e corsários.

Podia-se, segundo Antonil, fazer a viagem em uns trinta dias, desde que "marchando de sol a sol", como ele mesmo expressou, coisa que quase ninguém conseguia, ou porque os pés não suportavam, ou porque era necessário dar descanso aos animais de carga. O caminho, propriamente, era o seguinte, segundo alguém que fez a viagem em companhia do Governador Artur de Sá e que depois o relatou ao Padre Antonil:
"Partindo aos 23 de agosto da cidade do Rio de Janeiro foram a Parati. De Parati a Taubaté. De Taubaté a Pindamonhangaba. De Pindamonhangaba a Guaratinguetá. De Guaratinguetá às roças de Garcia Rodrigues. Destas roças ao Ribeirão. E do Ribeirão com oito dias mais de sol a sol chegaram ao Rio das Velhas aos 29 de novembro, havendo parado no caminho oito dias em Parati, dezoito em Taubaté, dois em Guaratinguetá, dois nas roças de Garcia Rodrigues e vinte e seis no Ribeirão, que por todos são cinquenta e seis dias. E tirando estes de noventa e nove, que se contam desde 23 de agosto até 29 de novembro, vieram a gastar neste caminho não mais que quarenta e três dias." (*)
Parece-lhe estranho que se dessem tantas voltas, ao invés de seguirem diretamente às Gerais? Há pelo menos duas razões para isso, que são:
a) Não se conhecia o interior do Brasil tão bem a ponto de permitir uma rota menos complicada, de modo que, partindo de Parati, buscava-se encontrar a rota dos paulistas, essa já mais amplamente percorrida;
b) Evitavam-se áreas de relevo demasiadamente acidentado, pois os meios de transporte disponíveis na época não suportariam tal incômodo. 

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 163.


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